A tentação do autoritarismo

Foi no sábado passado, e só agora lembrei de postar algo sobre o primeiro dia do seminário sobre a Operação Condor, que acontece no Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Importante lembrar, porque nada garante que tudo aquilo não voltará a acontecer.

Na fala de abertura, o professor Cézar Guazzelli (UFRGS) citou a crise no Estado, lembrando que nessas horas muita gente defende a ditadura*, dizendo que “não havia corrupção”. E também chamou a atenção para o motivo pelo qual o fascismo é perigoso: ele tem “soluções simples” para tudo – e que, em geral, são fatais para muitos.

E certos setores de nossa sociedade, que são mais fortes por serem dotados de maior capital – tanto econômico quanto simbólico -, parecem ter muitas simpatias pelo fascismo. Quando se fala no termo, o rejeitam devido à sua carga negativa, mas em geral defendem ações típicas dele. Bom exemplo é a adoração ao Capitão Nascimento de Tropa de Elite e os freqüentes comentários de que o Brasil todo tinha de ter uma polícia que nem o BOPE carioca.

E aqui no Rio Grande do Sul, temos um governo que cada vez mais abusa do autoritarismo, como se viu na violenta repressão da Brigada Militar a uma manifestação contra a alta do preço dos alimentos e também contra a corrupção no governo do Estado. Vale lembrar que a BM é comandada por um coronel defensor da pena de morte e que considera movimentos sociais como “bando de baderneiros desocupados”.

E a mídia?

Ah, a mídia… O programa “Conversas Cruzadas” da TVCOM promoveu pesquisa interativa sobre a atuação da BM, na qual depois de certa hora não se conseguia ligar para o número da opção “exagerada”. Aí deu 84% a favor da repressão, e só 16% contra. Não que eu achasse que em “condições normais” a maioria manifestasse contrariedade (em menos de cinco anos o Rio Grande do Sul deixou de ser a terra do Fórum Social Mundial para transformar-se num reduto de reacionários mau-humorados), mas certamente não se dariam tais percentuais se o que a TVCOM promovesse fosse realmente uma pesquisa.

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* Em julho de 2005, no auge do escândalo do mensalão, ouvi de uma amiga da minha mãe uma das maiores provas de que a estupidez não tem limites. Ela disse que os tempos da ditadura eram melhores porque não tinha corrupção. Lembrei que aquilo era uma ilusão, pois a censura impedia que se noticiasse qualquer indício de corrupção. Então ela replicou: “era melhor não saber da corrupção” (sic). Me segurei para não socar-lhe a cara ou despejar-lhe palavrões, pois se eu o fizesse, daria um ótimo argumento a favor dos fascistóides. Mas é impossível não ficar indignado diante de algo assim.

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3 respostas em “A tentação do autoritarismo

  1. Todo facista é anti-democracata, todo facista é covarde e recalcado. Veja o caso das gangues facistas, descarregam nos outros a frustração pela impotência em se situar em determinado status. Assim, os facistas classe-mérdia (e não apenas desta classe) revelam sua face mais medonha, quando acuados pela sua incoêrencia e intolerância, pela sua impotência e, evidentemente, incapacidade em mediar conflitos (lógico, atributos esclusivos aos democratas).

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