Como o futebol explica o Brasil

Antes que alguém me pergunte: sim, o título é descaradamente inspirado no excelente livro “Como o futebol explica o mundo”, do jornalista estadunidense Franklin Foer. Pois, de fato, o futebol nos ajuda a entender melhor o mundo, e claro, o Brasil.

O futebol brasileiro sintetiza muito bem o que é o Brasil enquanto sociedade: gritantemente injusto. Quem tem mais pode mais: seja passando por cima das leis, seja usando-as apenas em seu favor, e não em nome de verdadeira justiça.

E, do ponto de vista legal, a decisão tomada pelo STJD ontem à noite foi corretíssima. Portuguesa e Flamengo tiveram jogadores atuando de forma irregular na última rodada do Campeonato Brasileiro, e por conta disso perderam os pontos conquistados em suas partidas, mais três como punição. Com isso, a classificação final do campeonato foi alterada: o Flamengo, que acabara em 11º lugar com 49 pontos, ficou em 16º, com 45; já a Lusa, que terminara em 13º com 48, caiu para o 17º, com 44; e o Fluminense, que com seus 46 pontos ficara em 17º, “ultrapassou” Flamengo e Portuguesa, acabando em 15º na “nova” classificação final e mantendo-se na Série A – quem se ferrou (embora ainda haja possibilidade de recurso) foi a Lusa, rebaixada à Série B de 2014.

Porém, há um outro ponto de vista a ser analisado nesta questão: o da justiça.

Mais do que o talento de nossos jogadores (como se o Brasil fosse o único país do mundo onde se formam grandes craques), a verdadeira “marca registrada” do futebol brasileiro chama-se politicagem. Ela é praticamente uma instituição.

Até o início da década de 2000, rasgar os regulamentos das competições nacionais era algo tão corriqueiro que só faltava… Fazer parte dos regulamentos. Em especial, no tocante ao rebaixamento. Era pedra cantada: caso um grande clube caísse de divisão, seria beneficiado de alguma maneira, seja com “virada de mesa” pura e simples, seja com outras manobras.

Em 1991, o Grêmio acabou em 19º lugar no Campeonato Brasileiro (disputado por 20 clubes) e, com isso, foi rebaixado à Série B. Não houve “virada de mesa” propriamente dita, e o Tricolor disputou a “segundona” no ano seguinte. Porém, antes do torneio começar, a CBF resolveu nos facilitar as coisas: ao invés de classificar apenas o campeão e o vice para a Série A de 1993, a Série B de 1992 promoveria 12 equipes. Com isso, o Grêmio sequer se esforçou em ganhar o título e acabou em 9º lugar. Com o Tricolor de volta à primeira divisão, a CBF consertou a “gambiarra” rebaixando oito clubes à Série B de 1994, mas com um detalhe: dividiu os 32 participantes do (literalmente) Brasileirão de 1993 em quatro grupos formados por oito times cada, mas cairiam apenas os quatro piores dos grupos C e D; os integrantes do Clube dos 13 ficaram nos grupos A e B, que não rebaixariam ninguém… Com isso, o Atlético-MG acabou em 32º lugar (ou seja, na lanterna) e não caiu, enquanto seu rival América-MG ficou em 16º e foi rebaixado.

Mas nenhum clube foi tão beneficiado quanto o Fluminense. Começou em 1996, quando o regulamento do Campeonato Brasileiro era simples: os 24 participantes se enfrentavam em turno único na fase inicial, os oito primeiros iriam às finais e os dois últimos seriam rebaixados à Série B, sem proteção aos “grandes”, em tese. E o Flu acabou em 23º… Após o jogo, Renato Portaluppi (que na reta final foi improvisado como técnico) não teve vergonha alguma de falar em “virada de mesa” para o Fluminense não jogar a “segundona” no ano seguinte.

Mas, em maio de 1997 foi denunciado um esquema de corrupção envolvendo árbitros que teria beneficiado Corinthians e Atlético-PR na Copa do Brasil daquele ano. A CBF reagiu suspendendo o Furacão de todas as competições nacionais por dois anos, e rebaixando-o para a segunda divisão; mas nada foi feito com o Corinthians… Com isso, abriu-se uma vaga na Série A, e o bom senso indicava que ela deveria ficar com o Náutico, 3º colocado na Série B de 1996. Acontece que no Brasil o futebol é regido por outra lógica, que não anda junto com o bom senso: faltando cerca de duas semanas para o início do campeonato de 1997, a CBF voltou atrás na punição ao Atlético-PR, penalizando-o apenas com a perda de cinco pontos (e o Corinthians continuou “ileso”, é claro); aproveitou para reconduzir o Fluminense e o Bragantino (o outro rebaixado de 1996) à Série A, aumentando o número de participantes para 26.

Nas Laranjeiras, dirigentes do Fluminense estouraram champanhas, mas meses depois tiveram de amargar um novo rebaixamento, após o time ficar em 25º lugar e passar o campeonato inteiro ouvindo o coro “ão ão ão, segunda divisão”. Em 1998 não teve jeito, e o Flu disputou a Série B. Teria de tentar voltar jogando bola, sem canetaço. Não conseguiu, e fez pior: caiu para a Série C.

Novos rumores de “virada de mesa” semelhante à de 1997 surgiram, mas o Flu jogou a “terceirona” em 1999, sendo campeão e retornando à segunda divisão como tinha de ser: no campo. Parecia, felizmente, que a era das “viradas de mesa” estava sepultada.

Porém, a maior delas apenas estava por vir. Devido a uma pendenga judicial envolvendo o Gama e a CBF, esta foi impedida de organizar o Campeonato Brasileiro de 2000 sem incluir o clube de Brasília na Série A. O Clube dos 13 decidiu assumir a bronca, organizando a Copa João Havelange, torneio que excluiria o Gama – que obteve nova liminar, desta vez contra o próprio Clube dos 13. Para evitar a paralisação total do futebol nacional no segundo semestre de 2000 se chegou a um “acordão” e, como diz o ditado, “acabou tudo em pizza”: o Gama foi incluído naquele verdadeiro monstrengo que era a Copa João Havelange, que parecia ter três divisões mas na prática era apenas um campeonato de 116 participantes divididos em quatro módulos, com todos eles concorrendo ao título máximo do futebol brasileiro. O azul, com 25 equipes, era como se fosse a primeira divisão, por reunir a maior parte dos clubes que estavam na Série A de 1999. Mas nele também estavam times que deveriam jogar a Série B em 2000 caso não houvesse toda aquela confusão, dentre eles o Fluminense… Que assim voltou a primeira divisão, simplesmente “pulando” a segunda.

Desde então, o Flu não mais saiu da Série A, mesmo ainda “devendo” dois anos de “segundona” (além de 2000, tem aquela de 1997). Mas, também não houve mais “viradas de mesa” de 2001 em diante: todos os clubes rebaixados disputaram a Série B no ano seguinte, mesmo os “grandes” – que cumpriram seu papel, retornando à primeira divisão no campo.

Na letra fria da lei, os regulamentos nunca mais deixaram de ser cumpridos. Agora em 2013, por exemplo, a Portuguesa realmente cometeu uma infração, recebeu a punição prevista e, por conta disso, deverá jogar a Série B em 2014.

Porém, faltou levar algo em conta: a irrelevância desta infração para o resultado final do campeonato. Pois o atleta que gerou a punição só jogou por alguns minutos contra o Grêmio, na última rodada, quando mesmo uma derrota não teria rebaixado a Lusa devido à derrota de 5 a 1 do Vasco para o Atlético-PR naquela batalha campal, além de outros resultados paralelos; o Fluminense, por sua vez, não podia alcançar a Portuguesa. O Grêmio é que poderia alegar algum prejuízo, pois se perdesse não teria obtido classificação direta para a fase de grupos da Libertadores, devido à vitória do Furacão. Mas, a partida acabou em 0 a 0, e com isso os dois times ficaram satisfeitos: a Portuguesa (que continuou – ou teria continuado – na Série A) e o Grêmio (vice-campeão brasileiro e classificado direto para a fase de grupos da Libertadores). A propósito: se a Lusa perdeu o ponto conquistado pelo empate (além dos três extras), o Grêmio não deveria ter ganho mais dois pontos, como se tivesse vencido?

“Ah, mas isso é implicância com o Fluminense, pois o Flamengo também foi punido, não houve proteção aos grandes”. De novo, por um motivo irrelevante: o Fla já tinha classificação à Libertadores garantida como campeão da Copa do Brasil e não corria mais risco de cair; já o adversário era o Cruzeiro, campeão com quatro rodadas de antecedência. O resultado daquele jogo (que acabou empatado em 1 a 1) em nada mudaria o campeonato. E, de novo: se o Flamengo perdeu o ponto do empate (além dos três extras), o Cruzeiro não deveria ter ganho mais dois pontos, como se tivesse vencido?

Acontece que é difícil acreditar que o Flamengo teria perdido os pontos caso corresse risco de ser rebaixado com a punição, ou se não houvesse o caso da Portuguesa, esta sim podendo cair e com isso livrar o Fluminense. Como, aliás, costuma acontecer no Brasil: bem diz o ditado que “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. Ou, do menos forte: o “mensalão do PT” foi julgado e já temos presos em consequência disso, mas outro “mensalão”, aquele do PSDB, aconteceu antes e ainda não foi julgado… Alguma surpresa?

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Vencemos a corrupção… Será?

A direita, de forma geral, está em êxtase. Em pleno feriado da Proclamação da República, o Supremo Tribunal Federal determinou a prisão dos condenados na Ação Penal 470, o popular “julgamento do mensalão”.

Dentre os presos se encontra o ex-ministro José Dirceu: condenado judicialmente em 2012, na prática pode-se dizer que sua condenação se deu em 2005, pela imprensa. Pois alguém consegue imaginar a indignação que tomaria conta do país caso Dirceu fosse absolvido? A condenação e a posterior prisão do ex-ministro foram celebradas como uma vitória sobre a corrupção.

Porém, faltou algo fundamental: provas. José Dirceu foi condenado com base em uma teoria jurídica chamada “domínio do fato”, que teria sido formulada por um autor alemão, mas que sequer é aplicada na Alemanha. Com isso, subverteu-se o princípio fundamental de que a dúvida favorece ao réu. Ou seja, de que ninguém tem de ser obrigado a provar sua inocência; ao contrário, o ônus da prova cabe a quem acusa. Com isso, é verdade, corre-se o risco de que um “crime perfeito” (ou seja, aquele em que os autores conseguem apagar todos os vestígios) acabe impune, mas também se reduz a possibilidade de condenações injustas e que se dão em nome de outros interesses alheios à legalidade.

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“Esquerdopata”, “petralha”, “corruPTo”, “esquerdalha”, já deve estar querendo escrever o típico comentarista “anti-corrupção”. Só espero que o mesmo não esqueça de também dirigir suas raivosas manifestações a Ives Gandra Martins, conservador e notório adversário do PT, mas também jurista, e que como tal defende a aplicação da lei, não daquilo que é ditado pela tal de “opinião pública” (da qual a “mídia imparcial” se julga representante).

Ah, e que também não esqueça de se mobilizar para que outros escândalos de corrupção (como, por exemplo, o mensalão tucano) sejam julgados de forma semelhante.

Dibem, um cidadão enlutado

O sr. Dibem se orgulha de se matar trabalhando. Sente que é gente como ele que faz o Brasil andar.

Porém, reclama de não ser reconhecido. Se sente massacrado pelo governo, que tem inveja de seu trabalho duro e lhe cobra imposto de renda. “Sempre punem quem ganha mais, um absurdo!”

O sr. Dibem também sofre no trânsito. Além de passar boa parte do dia sozinho em seu carro, preso num congestionamento que só aumenta (“políticos de merda que não alargam as ruas!”), ainda é vítima da indústria da multa. “Afinal, por que raio de motivos é proibido andar a 100 por hora perto da escola???”

Após suportar muito tempo no congestionamento, o sr. Dibem chega em casa e decide assistir televisão. Liga a sua “gatonet” e fica bem informado.

Pelo noticiário, fica sabendo sobre os escândalos de corrupção. “Cambada de safados! Tem que prender tudo!”

Seu filho, o Dibenzinho, avisa que “o gigante acordou”, e que irá a uma manifestação. O sr. Dibem resolve ir junto: veste roupa branca, pega uma bandeira do Brasil e em uma folha escreve, bem grande: ABAIXO A CORRUPÇÃO. Pega o carro e se dirige ao local do protesto.

Chegando lá, não encontra lugar para estacionar nas ruas próximas. Não pensa duas vezes: deixa o carro em cima da calçada mesmo. Afinal, a rua está lotada e as calçadas não servem para nada, só tiram espaço dos veículos.

Na manifestação, perde a voz de tanto gritar “sem partido”. Sente-se orgulhoso de participar da mudança que jamais imaginava um dia ver.

Chega a hora de ir embora. O sr. Dibem chega ao carro e se depara com um papelzinho no para-brisa. Uma multa por ter estacionado na calçada. “Maldita fúria arrecadatória!”

De volta ao lar, liga a “gatonet” e fica sabendo da última: alguns corruptos serão julgados novamente. “Já era para estarem presos! Safados! Agora visto preto, de luto pelo Brasil!”

Um vizinho conta que leu uma notícia sobre a emissora que fala em impunidade ter sonegado muitos milhões em impostos. O sr. Dibem se irrita e diz que isso é coisa de comunista.

Leite adulterado: vale tudo pelo lucro

Charge que o Kayser fez em 2007 e que, infelizmente, continua atual...

Charge que o Kayser fez em 2007 e que, infelizmente, continua atual…

A revelação por parte do Ministério Público do Rio Grande do Sul de que empresas adicionavam formol ao leite que vendiam causou indignação, por razões óbvias: quem beberia, em sã consciência, algo que contém uma substância cancerígena?

Mas não pensem que trata-se de caso isolado: a própria charge lembra que em 2007 houve escândalo semelhante. E sabe-se lá quantos outros produtos estão também adulterados por substâncias e que acabamos comprando (e ingerindo) sem saber.

Isso nada mais é do que resultado da lógica capitalista, segundo a qual o alimento não existe para nutrir as pessoas, mas sim para ser vendido. Traduzindo: tem de dar lucro. Obviamente não podemos generalizar: há muitas pessoas que não colocam o dinheiro acima de tudo, e optam pela honestidade mesmo que com isso seu negócio dê prejuízo. Porém, em outros casos a ganância fala mais alto, e aí vale tudo para lucrar. (Entendeu por que existe corrupção?)

O pior de tudo é que quem se ferra com isso somos nós, que bebemos leite com formol e achocolatado com detergente, comemos alimento velho com prazo de validade adulterado para parecer novo…

CBF: não mudou nada

A saída de Ricardo Teixeira da presidência da CBF, cargo que ocupava desde 1989 (que estranho, a Globo nunca o chamou de ditador…), é obviamente um fato a ser saudado. Afinal, já vinham de bom tempo atrás as acusações de corrupção contra Teixeira: em 2000-2001, uma CPI já investigara as denúncias contra a CBF.

O sucessor de Ricardo Teixeira, José Maria Marin, já foi governador de São Paulo por dez meses no início dos anos 80, completando o mandato de Paulo Maluf, que renunciou para ser candidato a deputado federal pelo PDS nas eleições de 1982. Vamos combinar que ter sido vice de Maluf não é algo lá muito abonador… E Marin assume com um discurso de continuidade, o que é ainda menos animador.

Afinal, o que deve ser mantido após estes 23 anos de “era Teixeira”? Os títulos da seleção brasileira (masculina), como as Copas de 1994 e 2002? Ora, mas quem joga são os jogadores, e não os dirigentes… (E se o Brasil é tão forte no futebol, é graças aos jogadores, e apesar dos dirigentes.)

Ou seria mantido o ridículo apoio da CBF ao futebol feminino? Que, aliás, confirma a nossa força apesar dos dirigentes, pois mesmo sem estrutura alguma e, pasmem, sem um campeonato nacional, as nossas craques são sempre candidatas ao título nas Copas do Mundo e nos Jogos Olímpicos.

Se houve algum progresso nos 23 anos de Ricardo Teixeira à frente da CBF (como a implantação dos pontos corridos e o respeito aos regulamentos no Campeonato Brasileiro), isso não apaga as denúncias contra o dirigente e toda a politicagem que marcou o período. Verdade que ela já existia antes de Teixeira assumir a presidência da CBF, mas se ele a manteve, francamente, não podemos falar em “progresso” do futebol brasileiro como um todo.

Ainda mais que os clubes brasileiros hoje em dia têm imensa dificuldade para manter seus jogadores frente ao assédio dos clubes europeus, que levam embora nossos craques cada vez mais cedo. Enquanto isso, a entidade demonstra preocupar-se apenas com a seleção (masculina), apresentada ao mundo como o principal “produto” da “marca CBF”, sem nada fazer em real benefício dos clubes.

Portanto, o momento não é próprio para empolgação. Ver Ricardo Teixeira fora da CBF pode ser bom, mas sua saída pode muito bem ser a famosa “troca de seis por meia dúzia”.

Mídia conservadora desinforma sobre o #15O

Amanhã é o dia da grande mobilização mundial convocada pelos jovens indignados espanhóis. Em várias cidades – inclusive Porto Alegre – a juventude irá ocupar as praças para exigir a democracia real, não esta falsificada que temos aí.

As manifestações terão como alvo os poderes financeiro, político (que é subjugado pelo primeiro), militar e midiático. Este último é uma das explicações para a mentira descarada que foi publicada em jornais de Porto Alegre ontem. Segundo a mídia conservadora guasca, amanhã Porto Alegre terá uma “marcha contra a corrupção” convocada pela OAB, e não uma manifestação que é parte de uma mobilização mundial. Detalhe: seguindo exatamente o mesmo roteiro previsto para a marcha do #15O.

Obviamente a corrupção nos causa indignação. Só que o #15O e as “marchas contra a corrupção” são movimentos absolutamente distintos.

O #15O questiona o modelo político e econômico vigente, defende um mundo com mais solidariedade em lugar de tanto individualismo e consumismo. E obviamente, é crítico à corrupção: basta lembrar que quem se corrompe o faz objetivando vantagens ilícitas sobre os outros. Em um mundo mais solidário e menos individualista, as pessoas passarão a pensar mais nas outras e não só em si mesmas: não é óbvio que com isso, a tendência é de que a corrupção diminua (ou até mesmo acabe)?

Já as tais “marchas contra a corrupção” não questionam o status quo. São manifestações apenas moralistas e de caráter conservador, ainda mais quando se percebe quem está por trás: tem um tal de grupo “Acorda Brasil” (lembram daquelas malditas correntes?) apoiando, além da “juventude maçom”.

A companhia de gente desse “naipe”, eu não quero de jeito nenhum.

Ajudemos o Jornal JÁ

O melhor jornal de Porto Alegre corre sério risco de fechar. Uma reportagem publicada em maio de 2001 sobre uma fraude na CEEE (que vale por 15 mensalões, segundo Luiz Cláudio Cunha) que envolvia Lindomar Rigotto, irmão do ex-(des)governador Germano Rigotto, motivou processo por parte da matriarca da família contra o JÁ, e esta ganhou direito a indenização de R$ 54 mil. Tal reportagem ganhou vários prêmios, inclusive da ARI, que não se manifestou sobre o caso.

Fosse uma Zero Hora ou um Correio do Povo, pertencentes a grandes corporações midiáticas, tal indenização seria paga sem problemas. Porém, isso não acontece com o JÁ, que por conta de sua independência – foi o jornal que mais deu atenção e visão crítica à questão do Pontal do Estaleiro, por exemplo – consegue poucos anunciantes, tornando o pagamento de tal indenização extremamente danoso às finanças do jornal, que corre sério risco de fechar.

A única maneira de se tentar manter o JÁ circulando é comprando a última edição, que trata sobre os sucessivos escândalos de corrupção no Rio Grande do Sul. Pode-se encontrá-lo nos seguintes locais:

CENTRO

Banca do Julio – Mercado Público

Banca do Leandro – Largo Glênio Peres

Banca das Apostilas – Borges de Medeiros c/ Sete de Setembro

Banca do Clovão – Borges de Medeiros, 915, c/ Fernando Machado

Banca do Paulo – Andrade Neves c/ Borges de Medeiros

Banca da Alfândega – Praça da Alfândega, Andradas c/ Caldas Jr

Miscelânia Sáskia – Fernando Machado, 806 (ao lado de um Zaffari)

CIDADE BAIXA

Banda da República – Rua da República c/ Av. João Pessoa

BOM FIM / SANTANA

Palavraria – Vasco da Gama, 165 (tele-entrega pelo 3268-4260)

Tabacaria Braz – Venâncio Aires, 1137, em frente ao HPS

Banca Folhetim – Jacinto Gomes c/ Venâncio Aires

Locadora Mondo Vídeo – Jerônimo de Ornellas, 531, c/ Santa Therezinha

Mercado Zerbes – Jacinto Gomes, 463

INDEPENDÊNCIA

Av Independência, em frente a 375, perto do Colégio Rosário

MOINHOS DE VENTO

Revista & Chocolate – Padre Chagas, 330

Relembrando

Já citei o trecho abaixo em post no dia 11 de junho do ano passado, mas não custa nada relembrar, visto que por motivos óbvios a mídia corporativa o ignora. Está na página 56 da denúncia do Ministério Público Federal contra a quadrilha do DETRAN (os grifos são do Cão):

Ao lado disso, os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade.

Bom humor: melhor forma de resistência

A turma que está no governo – e a maioria da sociedade gaúcha, que elegeu esse pessoal – é extremamente mau-humorada. Afinal, é direitosa (direitista + raivosa).

Assim, a melhor maneira de resistir a tudo o que vem acontecendo – corrupção, mídia mentirosa, Coronel Mendes – é rir. Enquanto eles espumam de raiva, nós mantemos nosso bom humor: isso deixa eles ainda mais espumantes, e dá mais inspiração para debocharmos deles!

Bier:

Eugênio Neves:

Kayser:

A tentação do autoritarismo

Foi no sábado passado, e só agora lembrei de postar algo sobre o primeiro dia do seminário sobre a Operação Condor, que acontece no Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Importante lembrar, porque nada garante que tudo aquilo não voltará a acontecer.

Na fala de abertura, o professor Cézar Guazzelli (UFRGS) citou a crise no Estado, lembrando que nessas horas muita gente defende a ditadura*, dizendo que “não havia corrupção”. E também chamou a atenção para o motivo pelo qual o fascismo é perigoso: ele tem “soluções simples” para tudo – e que, em geral, são fatais para muitos.

E certos setores de nossa sociedade, que são mais fortes por serem dotados de maior capital – tanto econômico quanto simbólico -, parecem ter muitas simpatias pelo fascismo. Quando se fala no termo, o rejeitam devido à sua carga negativa, mas em geral defendem ações típicas dele. Bom exemplo é a adoração ao Capitão Nascimento de Tropa de Elite e os freqüentes comentários de que o Brasil todo tinha de ter uma polícia que nem o BOPE carioca.

E aqui no Rio Grande do Sul, temos um governo que cada vez mais abusa do autoritarismo, como se viu na violenta repressão da Brigada Militar a uma manifestação contra a alta do preço dos alimentos e também contra a corrupção no governo do Estado. Vale lembrar que a BM é comandada por um coronel defensor da pena de morte e que considera movimentos sociais como “bando de baderneiros desocupados”.

E a mídia?

Ah, a mídia… O programa “Conversas Cruzadas” da TVCOM promoveu pesquisa interativa sobre a atuação da BM, na qual depois de certa hora não se conseguia ligar para o número da opção “exagerada”. Aí deu 84% a favor da repressão, e só 16% contra. Não que eu achasse que em “condições normais” a maioria manifestasse contrariedade (em menos de cinco anos o Rio Grande do Sul deixou de ser a terra do Fórum Social Mundial para transformar-se num reduto de reacionários mau-humorados), mas certamente não se dariam tais percentuais se o que a TVCOM promovesse fosse realmente uma pesquisa.

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* Em julho de 2005, no auge do escândalo do mensalão, ouvi de uma amiga da minha mãe uma das maiores provas de que a estupidez não tem limites. Ela disse que os tempos da ditadura eram melhores porque não tinha corrupção. Lembrei que aquilo era uma ilusão, pois a censura impedia que se noticiasse qualquer indício de corrupção. Então ela replicou: “era melhor não saber da corrupção” (sic). Me segurei para não socar-lhe a cara ou despejar-lhe palavrões, pois se eu o fizesse, daria um ótimo argumento a favor dos fascistóides. Mas é impossível não ficar indignado diante de algo assim.