Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

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Um ano depois

Ontem, se completou um ano do atropelamento da Massa Crítica de Porto Alegre. O responsável pela barbárie daquele 25 de fevereiro de 2011 responde em liberdade por 17 tentativas de homicídio.

Depois de um ano e de muitas manifestações de solidariedade à Massa Crítica de Porto Alegre, nossa cidade sedia o primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, “para discutir o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural”, conforme informa a página oficial do evento. Ou seja, apesar dos pesares o atropelamento acabou tendo esta consequência positiva, de fomentar o debate sobre a bicicleta como meio de transporte, e não apenas como lazer.

Porém, nem tudo são flores. Enquanto Porto Alegre deveria se voltar para a discussão de um sistema de mobilidade urbana que deixe de privilegiar os automóveis particulares (modelo que se prova ultrapassado a cada final de tarde em que se locomover pela cidade requer paciência extrema), há um projeto do vereador Alceu Brasinha (PTB) na Câmara Municipal que aumenta o limite de velocidade para 70km/h na cidade – atualmente o máximo permitido é de 60km/h, sendo exceção a Avenida da Legalidade, via expressa na qual se pode transitar a 80km/h.

Alguém acredita que aumentar o limite de velocidade vai melhorar o trânsito? Até porque, com o limite de 60km/h, em horários de pico dificilmente se anda a mais de 20km/h. O que quer dizer que o problema não é a velocidade máxima permitida e sim, a quantidade de carros.

Sem contar o principal: 60km/h já é uma velocidade elevada. Um vento de 60km/h é suficiente para causar alguns transtornos como falta de luz, queda de galhos de árvores etc. Caminhar contra ele, então, requer alguma força.

Agora, imagine o choque de um carro a 60km/h. Melhor só imaginar, jamais querer experimentar.

Barbárie em Porto Alegre

Na tarde dessa sexta-feira (a última do mês, como é tradicional, e também acontece em São Paulo), aconteceu mais uma Massa Crítica em Porto Alegre, em que ciclistas se reúnem e pedalam por várias ruas, de modo a lembrar que eles também são o trânsito (ao contrário do que diz a mídia, que eles “atrapalham o trânsito”). E também serve para chamar a atenção para a situação que eles vivem: para pedalar com segurança, só assim, em grandes grupos.

Na verdade, nem assim. Na tarde dessa sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011, a Massa Crítica foi vítima de uma tentativa de assassinato na Cidade Baixa. Um motorista simplesmente avançou por cima de todo mundo com sua arma seu carro, resultando em vários feridos e em uma justíssima revolta por parte dos ciclistas e das testemunhas da barbárie.

Eu não estava lá, mas ninguém conseguirá me convencer de que os depoimentos do vídeo acima não são verdadeiros. Pois como percebi em outra ocasião, em que estava caminhando e vi a Massa Crítica passar, muitos motoristas de Porto Alegre são assassinos em potencial. Lembro de um que, indignado por ter de esperar as bicicletas passarem, desceu do carro e começou a fazer gestos obscenos. Afinal, o coitado estava perdendo cinco minutos da vida dele (como se já não tivesse perdido muito mais em congestionamentos).

O que motoristas como esse que citei não percebem é que o tempo perdido por eles é, na maioria das vezes, culpa deles mesmos. Pois com as raras exceções dos que realmente precisam do carro para trabalhar (como os taxistas), o trajeto que eles costumam seguir diariamente (da casa para o trabalho, e do trabalho para casa) poderia muito bem ser feito no transporte público, de bicicleta, ou até mesmo a pé.

“Ah, mas os ônibus são muito ruins”, dizem eles. Entenderam então por que os “baderneiros” reclamam que a passagem subiu???

Só que, como a boiada prefere comprar um carro em 99 prestações do que exigir um transporte público de qualidade ou mais segurança para se andar de bicicleta ou a pé

Estupidez em Porto Alegre

Na madrugada de sexta-feira, enquanto boa parte de nós dormia confortavelmente em boas camas, o morador de rua Vanderlei Pires fazia o mesmo na esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Lobo da Costa, em Porto Alegre. Ao acordar, estava pichado com tinta de cor prata, e ainda por cima alguém havia urinado em seus pés.

Assim como a Cris Rodrigues, não consigo imaginar que os autores de tamanha estupidez não tenham sido jovens bem vestidos, de classe média, querendo se mostrar.

Na verdade, o que aconteceu na madrugada de 2 de abril de 2010 em Porto Alegre é mais uma demonstração prática da mentalidade do que chamo classe mérdia (e mais uma vez ressalto que classe média não é igual a classe mérdia, antes que alguém em quem o chapéu serve muito bem venha escrever merda nos comentários). Eles se acham muito superiores – mesmo que sejam apenas baba-ovos das elites – e têm verdadeira ojeriza a pobres:  acreditam que “trabalhando muito, um dia chegam lá”, e que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar”.

Eles procuram mostrar “o quanto são superiores” humilhando, espancando e até matando quem eles consideram “inferiores”, como já se viu em outras oportunidades: foram jovens desse tipo que atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos enquanto ele dormia em uma parada de ônibus em Brasília, em 1997; e também foram jovens da mesma “categoria” que espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto em uma parada de ônibus no Rio de Janeiro, em 2007 (e ainda por cima roubaram dinheiro e celular dela). Não bastasse o que fizeram, os covardes ainda deram estúpidas justificativas: mataram Galdino por “terem pensado que era um mendigo”; já os que espancaram Sirlei disseram ter feito isso “por pensarem que era uma prostituta”.

E quando falei em humilhar, isto inclui outros atos além de pichar e urinar em um morador de rua. Pois já vi muita gente gritar “vai trabalhar, vagabundo!” a pedintes. Dá vontade de chegar em um destes babacas e falar: “Então dá um emprego para ele, já que achas tão simples arrumar trabalho” – um dia ainda farei isso.

Moradores de rua, pessoas pobres em geral, ao longo de suas vidas vão acumulando momentos de humilhação. De tanto serem mal-tratados, não é óbvio que uma hora muitos deles começarão a reagir? “Tô cansado de apanhar. Tá na hora de bater!”, diz a letra da música “Pátria que me pariu”, de Gabriel O Pensador.

Felizmente, Vanderlei Pires não pensa em vingança. “Espero que estas pessoas não façam nenhum outro mal para alguém como fizeram comigo”, disse ele.

Estupidez no Campus do Vale

Sairam quarta-feira no RS Urgente e hoje na Zero Hora notícias a respeito da matança de cães por envenenamento no Campus do Vale da UFRGS.

Desde que estudo lá, me chama a atenção o grande número de cães que circulam entre os prédios (e também no interior deles, já vi até mesmo cães “assistirem aulas” – e com mais atenção do que alguns alunos!). Logo descobri que eles recebem cuidados e são alimentados – alguns chegam lá por “suas próprias patas”, e outros são abandonados no Campus. Inclusive há uma associação responsável pelo tratamento aos cães, a ADAAC (Associação de Defesa Animal e Ambiental do Campus do Vale – UFRGS).

De modo a evitar que mais cães sejam vítimas da estupidez do bicho homem, a ADAAC pede que quem puder, adote um cão para evitar que mais deles sejam envenenados – os últimos ocorreram entre 3 e 5 de abril, um final de semana, quando o campus esvazia.

A tentação do autoritarismo

Foi no sábado passado, e só agora lembrei de postar algo sobre o primeiro dia do seminário sobre a Operação Condor, que acontece no Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Importante lembrar, porque nada garante que tudo aquilo não voltará a acontecer.

Na fala de abertura, o professor Cézar Guazzelli (UFRGS) citou a crise no Estado, lembrando que nessas horas muita gente defende a ditadura*, dizendo que “não havia corrupção”. E também chamou a atenção para o motivo pelo qual o fascismo é perigoso: ele tem “soluções simples” para tudo – e que, em geral, são fatais para muitos.

E certos setores de nossa sociedade, que são mais fortes por serem dotados de maior capital – tanto econômico quanto simbólico -, parecem ter muitas simpatias pelo fascismo. Quando se fala no termo, o rejeitam devido à sua carga negativa, mas em geral defendem ações típicas dele. Bom exemplo é a adoração ao Capitão Nascimento de Tropa de Elite e os freqüentes comentários de que o Brasil todo tinha de ter uma polícia que nem o BOPE carioca.

E aqui no Rio Grande do Sul, temos um governo que cada vez mais abusa do autoritarismo, como se viu na violenta repressão da Brigada Militar a uma manifestação contra a alta do preço dos alimentos e também contra a corrupção no governo do Estado. Vale lembrar que a BM é comandada por um coronel defensor da pena de morte e que considera movimentos sociais como “bando de baderneiros desocupados”.

E a mídia?

Ah, a mídia… O programa “Conversas Cruzadas” da TVCOM promoveu pesquisa interativa sobre a atuação da BM, na qual depois de certa hora não se conseguia ligar para o número da opção “exagerada”. Aí deu 84% a favor da repressão, e só 16% contra. Não que eu achasse que em “condições normais” a maioria manifestasse contrariedade (em menos de cinco anos o Rio Grande do Sul deixou de ser a terra do Fórum Social Mundial para transformar-se num reduto de reacionários mau-humorados), mas certamente não se dariam tais percentuais se o que a TVCOM promovesse fosse realmente uma pesquisa.

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* Em julho de 2005, no auge do escândalo do mensalão, ouvi de uma amiga da minha mãe uma das maiores provas de que a estupidez não tem limites. Ela disse que os tempos da ditadura eram melhores porque não tinha corrupção. Lembrei que aquilo era uma ilusão, pois a censura impedia que se noticiasse qualquer indício de corrupção. Então ela replicou: “era melhor não saber da corrupção” (sic). Me segurei para não socar-lhe a cara ou despejar-lhe palavrões, pois se eu o fizesse, daria um ótimo argumento a favor dos fascistóides. Mas é impossível não ficar indignado diante de algo assim.