É TETRA!

É TETRA

Foto: Mike Powell, Getty Images

17 de julho de 1994. Há um quarto de século, a Seleção Brasileira conquistava a Copa do Mundo nos Estados Unidos, e eu finalmente podia contar uma história do Brasil campeão assim como outras pessoas mais velhas. O triunfo contra a Itália foi sofridíssimo: 3 a 2 nos pênaltis, após empate sem gols no tempo normal e na prorrogação. (Um pouco de como isso se deu – e as superstições envolvidas – contei aqui, um mês atrás.)

O que poucos sabem é que antes dos pênaltis houve um solitário grito de gol na Rua Laurindo, bairro Santana, em Porto Alegre. Era o endereço onde a minha avó Luciana morava junto com a falecida irmã Sílvia, e onde assisti ao jogo junto delas, do meu pai Cesar e do meu irmão Vinícius.

A tia Sílvia tinha ido ao banheiro e justo nesta hora o Brasil foi ao ataque; começamos a gritar “chuta”, “bate pro gol” e coisas do gênero. Para ela, que não sabia o que estava acontecendo, tamanha gritaria só podia ter uma causa: gol do Brasil.

Logo depois, ela entrou na sala de braços abertos e gritando GOOOOOOOOOOL… Para a frustração dela, nossa cara era de espanto pelo insólito AVIÃOZINHO e não de alegria pelo gol que jamais saiu com a bola rolando naquele domingo.

Parece que foi agora há pouco, mas lá se vão 25 anos daquela tarde em que Galvão Bueno gritou enlouquecidamente que o Brasil voltava a ganhar uma Copa depois de 24 anos: sim, 1994 está temporalmente mais próximo de 1970 do que dos dias atuais.

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Há 25 anos, o alerta sobre o “17”

17 de junho, 1994: há 25 anos começava a maior Copa do Mundo de todos os tempos para mim. Tão marcante que não faz muito tempo eu SONHEI que saía do COLÉGIO e corria para casa pois tinha jogo para assistir na TV.

“Ah, mas a Seleção de 1982 era melhor”: pode ser, mas perdeu. Em 1994 o Brasil não teve um futebol tão vistoso, mas ganhou (e eu sempre preferi ganhar jogando feio a perder jogando bonito, ainda que seja melhor vencer dando espetáculo). Sem contar que aquela Copa para mim nunca se resumiu ao Brasil campeão (“vinte e quatro anos depois”, gritou enlouquecidamente Galvão Bueno há UM QUARTO DE SÉCULO) e a Romário infernizando as defesas adversárias. Também teve os timaços de Bulgária e Romênia (perder jogando bonito é bom quando não é o nosso time), a saída precoce de Maradona, as jornadas MAGISTRAIS do romeno Hagi e do búlgaro Stoichkov, além do grande Roberto Baggio, um dos maiores craques que vi jogar.

A Copa de 1994 também foi a primeira da Nigéria, então campeã africana que por muito pouco não eliminou a Itália nas oitavas-de-final – salva por Baggio, que conduziria a Azzurra, aos trancos e barrancos, até a final.

Sobre Baggio, uma grande curiosidade: naquela Copa, pelo estranho critério de numeração adotado pela Itália, ele deveria ter vestido a camisa 17. Apenas os goleiros usariam os números “tradicionais” (1, 12 e 22) e de acordo com a situação de titular/reserva imediato/terceiro, os demais seriam distribuídos por ordem alfabética (de acordo com os sobrenomes dos atletas) conforme a posição. Assim, os defensores (laterais e zagueiros) seriam de 2 a 9, meio-campistas vestiriam as camisas 10 a 16 (“pulando” o 12, reservado ao segundo goleiro) e os atacantes usariam os números de 17 a 21, fechando a lista o terceiro goleiro (22).

Quem abriria a lista dos atacantes seria justamente Roberto Baggio, que assim vestiria a 17. O problema é que tal número, que apenas recentemente virou MALDITO para quem tem bom senso no Brasil, na Itália é AGOURENTO faz tempo.

Em números romanos, 17 é XVII, conjunto de letras cuja ordem pode ser alterada para “VIXI”, que em latim significa “vivi” – ou seja, remete à morte. Por isso, os italianos têm uma aversão ao 17 como muita gente tem pelo 13 em outros países – incluindo o MEDO quando o dia 17 cai numa sexta-feira. (Aliás, o sujeito que elegeram para governar o Brasil em 2018 tem descendência italiana e isso, além do fato que o número dele remete ao 🇧🇷1⃣7⃣🇩🇪, já deveria ser um alerta de que votar no cara era fria.)

Ou seja, não era uma boa ideia que justamente o craque da Azzurra (escolhido pela FIFA como melhor do mundo em 1993) envergasse uma camisa AMALDIÇOADA. A solução foi abrir uma exceção: Baggio ficou com o número 10 – vamos combinar, digno do grande jogador que ele era. E no embalo foi aberta outra: Baresi deveria ter ficado com a 3 mas vestiu a 6. Os demais seguiram a ordem determinada, apenas sendo feita a redistribuição.

Um mês após o 17 de junho inaugural, chegamos à grande final da Copa, Brasil x Itália. Jogo emocionante só na hora por conta do nervosismo: assistindo novamente tempos depois tive de me segurar para não dormir. O empate sem gols se arrastou e a decisão foi aos pênaltis – que terminaram com vitória brasileira por 3 a 2, sem que Bebeto (último cobrador do Brasil) precisasse chutar. Já a Itália bateu os cinco, com os seguintes jogadores, na ordem: Baresi, Albertini, Evani, Massaro e Baggio.

Por uma ironia do destino, os dois italianos que converteram seus chutes tinham suas numerações diretamente ligadas à exceção aberta para Baggio: Albertini vestiria a 10, que precisou ceder ao craque e por isso ficou com a 11; já Evani (que bateu no meio do gol, enfurecendo Galvão Bueno pois Taffarel preferia tentar adivinhar o canto) seria o 16 mas acabou herdando o REJEITADO 17 que originalmente ficaria às costas de Baggio.

Dos três que não marcaram, só um chutou em gol: Massaro, que não teve seu número alterado por superstição alguma e foi o 19. As exceções no critério de numeração bateram para fora: Baresi (o 6 que deveria ser 3) e, SUPREMA IRONIA, Baggio… Que pensou ter escapado do 17, mas pelo visto o 17 não o deixou.

De Nelson Rodrigues a Umberto Eco

terraplanismo

Por uma enorme ironia foi via Facebook, na sua seção “lembranças”, que atentei para o fato de que no último dia 19 de fevereiro completaram-se três anos do falecimento de Umberto Eco (1932–2016). O escritor italiano era um grande crítico do papel da tecnologia na disseminação da informação. Uma de suas declarações mais famosas acerca do tema foi dada em 2015, durante evento em que recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim:

As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

Quando ele se foi, já era percebido o efeito negativo das mídias sociais em nossa vida. Na época o Brasil discutia se a presidenta Dilma Rousseff seria ou não deposta pelo Congresso, no impeachment promovido por Eduardo Cunha: um ano antes disso já se falava do assunto, em especial entre eleitores do candidato derrotado no segundo turno da eleição de 2014, Aécio Neves, que acreditavam piamente que se Dilma saísse quem assumiria seria ele e não o vice-presidente Michel Temer; no WhatsApp eram difundidas inúmeras mensagens convocatórias para manifestações pró-impeachment, e uma delas falava em “usar verde e amarelo” para derrubar Dilma “igual a como se fez com Collor em 1989”.

O problema do texto era que, além de mal-escrito, continha informações incorretas: o impeachment de Fernando Collor foi em 1992, e os manifestantes usaram preto em reação a uma declaração do presidente pedindo que o povo saísse às ruas vestindo verde e amarelo para demonstrar apoio ao seu governo. Vale lembrar também que quem assumiu a presidência foi o vice Itamar Franco e não Lula, candidato derrotado por Collor no segundo turno da eleição presidencial — foi isso que aconteceu em 1989.

Mas ainda soava como pessimismo exagerado pensar que Donald Trump venceria a eleição presidencial nos Estados Unidos em novembro daquele mesmo ano de 2016 — e muito menos que o Brasil elegeria Jair Bolsonaro em 2018. Eram dois caras de discursos tão repulsivos, tão toscos, que parecia óbvio que eles mesmos “se afundariam” e seriam derrotados.

Só que menosprezamos as mídias sociais (com seus algoritmos), que tiveram papel fundamental na difusão de incontáveis mentiras (as chamadas fake news) que favoreceram tais candidatos. E, principalmente, se demorou a perceber que a tosquice deles era muito representativa da “legião de imbecis” à qual Umberto Eco se referia. Ainda que Trump não tenha sido o candidato mais votado pelo povo nos Estados Unidos (venceu graças ao anacrônico sistema eleitoral por lá utilizado), na época já se falava das chamadas “maiorias silenciosas”: pessoas com ideias absurdas que não as expunham pelo temor de virarem motivo de chacota. Ou seria possível levar a sério alguém que dissesse que vacinas matam ou, pior ainda, que a Terra é plana?

Infelizmente não são tão poucas pessoas que acreditam em tais absurdos. Impossível não lembrar de outro escritor, este brasileiro, chamado Nelson Rodrigues (1912–1980), que certa feita disse que os idiotas dominariam o mundo não pela qualidade e sim pela quantidade. Em especial, de um parágrafo de sua crônica “O Homem Fatal”:

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

O texto de Nelson Rodrigues foi escrito muito antes de existirem Facebook, WhatsApp, YouTube e similares — quando o cronista faleceu, Mark Zuckerberg sequer havia nascido. Na época, certos idiotas já tinham “palanque” e audiência: eram “formadores de opinião” que seguiam praticamente todos a mesma linha de pensamento, falando (e sendo lidos, ouvidos e vistos) em jornais, rádios e televisões. Mas era preciso ter alguma formação, algum conhecimento, que justificasse sua posição de destaque. E o fundamental: o papel deles era apenas opinar sobre acontecimentos que, na maioria das vezes, eram reais e não inventados.

É verdade que já se espalhavam mentiras antes de existirem mídias sociais. Mas elas dificilmente causavam um grande prejuízo à sociedade como está sendo verificado atualmente. Hoje em dia, é fácil escrever um texto no Facebook ou gravar um vídeo no YouTube dizendo que tudo o que a ciência já comprovou não passa de uma “grande conspiração para esconder a verdade” — as “teorias conspiratórias” sempre são um prato cheio para incautos, que as repassam sem checar se aquilo é verdadeiro ou não.

E assim, se chegou à situação absurda de ouvir gente dizendo que a Terra é plana, que aquecimento global é “conspiração marxista”, e ainda corremos o risco do retorno de doenças que foram erradicadas por campanhas de vacinação… Vivemos uma época na qual os argumentos científicos, que por sua condição precisam de bastante embasamento, são chamados de “opinião”. Sem contar o discurso de ódio, que não passa mais por nenhum “filtro” — ainda que boa parte dele seja expressa em caixas de comentários de grandes portais de notícia sem que haja moderação alguma por parte dos editores.

Faço minhas as palavras da professora Elika Takimoto, do tuíte cuja captura abriu este texto: que tempos.

Uma satisfação: voltar a escrever

Sim, ainda é pouco em comparação com 2007-2014. Mas é fato que na quinta-feira voltei a ter um texto aprovado em publicação do Medium. Foi este aqui, que saiu na Revista Subjetiva.

Eu não publicava nada lá desde junho, quando recém começava a Copa do Mundo!

E à tarde tive ideias para novos textos em conversas com colegas de trabalho, as quais foram devidamente anotadas para que fossem desenvolvidas depois. Não cheguei a escrever pois recém saiu o último, e atualmente tenho privilegiado a qualidade à quantidade: algo que noto em relação aos textos que escrevia 10 anos atrás é que muitas vezes eles chegavam a ser toscos e saíam muito mais por eu me sentir obrigado a ter opinião sobre tudo, do que refletindo realmente o que eu pensava. O que, afinal, é a base da “desgraceira” que se tornaram as redes sociais.

Nunca tive tão poucas certezas na vida como nos tempos recentes, e tenho sinceramente achado isso positivo.

Um retrato do “novo Brasil”

Um deputado deixando o país por ameaças de morte. E o cidadão que, incrivelmente, foi eleito presidente deste mesmo país, comemora o fato ao invés de se indignar com ele e garantir a segurança do parlamentar.

Esse é o Brasil de 2019. O país que elegeu um completo despreparado para a presidência – que tem uma horda apoiadora, a qual não pensará sequer uma vez antes de apontar o dedo para a oposição a cada burrada cometida por seu “mito”. Dirão que é “tudo culpa dessa esquerdalha que fica torcendo contra”, como se política fosse futebol e como se não tivéssemos direito de criticar o governo quando ele erra.

Bom, mas é exatamente isso que essa turma fascista aí quer. Que fiquemos calados e não critiquemos nada. Que nos resignemos e andemos pela rua de cabeça baixa. O pior que pode acontecer é justamente fazermos o que eles querem.

Inclusive por isso não critico Jean Wyllys. Não acho que ele tenha sido “covarde” ao deixar o Brasil por ter medo de ser assassinado. Por mais importante que Jean fosse na Câmara de Deputados, é melhor tê-lo vivo no exterior, para denunciar os absurdos que, infelizmente, acontecerão com ainda mais frequência em nosso país. De mártir, já nos basta Marielle Franco – cujo assassinato completará um ano em menos de dois meses e duvido que um dia os autores (e os mandantes) sejam presos…

Há 15 anos eu entrava na História

Tanto tenho criticado o Facebook, e eis que ele me ajudou a reparar em uma importante efeméride. Na seção “neste dia” apareceu que cinco anos atrás lembrei o décimo aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ou seja, hoje faz 15 anos daquele 16 de janeiro de 2004, uma das sextas-feiras com mais cara de sexta-feira que já tive.

Fiz uma captura de tela que postei no Instagram, um dos meus ex-colegas relembrou os tempos em que ler pilhas e pilhas de textos e bater um papo regado a (muito) café nos intervalos era parte do nosso dia-a-dia. Então reparei que no final de 2019 fará 10 anos que concluí o curso de História.

Saudades? Não posso dizer que não sinto nenhuma. Foram seis anos de muito aprendizado na faculdade, ainda que profissionalmente eu não tenha seguido na minha área de formação e no momento nem cogite isso – por enquanto, não acho que valha a pena.

Mas algo que aprendi na História é justamente que ela “não volta”, ao contrário de muitas pessoas que acreditam em um “eterno retorno” de líderes, reis e messias. Já ouvi amigos dizerem que gostariam de ter 16 anos com a mesma cabeça que têm aos 36, o problema é que isso é impossível: o que somos e pensamos hoje foi moldado ao longo de nossa existência, fruto da experiência obtida com acertos e – principalmente – erros cometidos durante a caminhada.

Como diz o ditado popular, “o que passou, passou”. Mesmo que o mundo de forma geral fosse melhor em 2009 do que é agora em 2019, não há como voltar atrás: é melhor procurar entender os motivos pelos quais ele piorou nestes últimos 10 anos. Aliás, é justamente por isso que a História é tão importante e não pode ser negligenciada como os donos do poder querem que aconteça.

Conselhos: se fossem bons, seriam pagos

O ditado é um tanto “dinheirista”, mas concordo demais pois faz muito sentido.

Ontem postei uma foto cujo objetivo maior era o escárnio ao (des)governo instalado em Brasília na última terça-feira. Captura de tela do meu celular informando a temperatura de 37°C e dizendo que após o coisa ruim tomar posse, “estávamos no inferno”.

Pra quê… Recebi “conselhos” para “aproveitar melhor o verão”, como “me associar em clube com piscina”.

É o seguinte: isso não cabe no meu orçamento. Se coubesse, talvez já tivesse me associado… Talvez. Pois ser sócio de clube com piscina não me livraria desta noite de merda, com 30°C depois de uma hora da madrugada e ar condicionado não dando vencimento. E ainda tenho de torcer para não ter corte de luz – algo muito possível numa noite como essa. Sair de Porto Alegre me parece muito mais eficaz do que clube com piscina: pena que só tenha direito a 30 dias anuais de férias e o verão dure (pelo menos) 90… Sem contar que eu sequer teria dinheiro para passar um mês fora dessa fornalha.

“Ai mas no inverno os pobres sofrem, moradores de rua passam frio”: sim, mas eles não sentem calor também? O problema do inverno é meramente de ordem sócio-econômica: com um teto para se abrigar e roupas para vestir, dificilmente se sofrerá realmente com o frio por aqui.

Isso me dá muito nojo: gente que pode tranquilamente usar estufas e mesmo tirar férias durante o inverno para viajar a um lugar mais quente (ou simplesmente dormir até mais tarde já que, de fato, o frio dá preguiça de sair da cama), ao invés de fazer isso, prefere ficar de “mimimi” em rede social fingindo que se preocupa com os pobres, quando apenas quer uma desculpa “nobre” para sua preguiça de vestir algumas roupas a mais. E nem é no inverno inteiro: dá para “contar nos dedos” o número de dias de “renguear cusco” a cada ano – e em alguns deles não temos nenhum.

A pobreza não acaba quando a temperatura sobe, acho bom lembrarem disso. E eu mesmo reclamo de “barriga cheia” do calor: felizmente tenho ar condicionado (espero que haja energia para ele funcionar a noite inteira), os pobres que sofrem com o frio certamente estão com imensa dificuldade de dormir nesta noite de merda.

Larguem de ser populistas: vocês que reclamam de um inverno que é “fichinha” na comparação com Sibéria, Canadá, Escandinávia e mesmo a nossa vizinha Argentina, são de dar inveja a Trump e Bolsonaro.

E não me deem conselhos. Já tenho idade suficiente para saber o que quero. Se eu precisar de qualquer dica, pedirei. Caso eu simplesmente reclame de alguma coisa e não peça ajuda, reclame junto ou mantenha um respeitoso silêncio. E se quiser mandar contra, ao menos seja engraçado ao invés de passar conselhos que mais parecem “spam”.

Feliz ano velho

A última vez que estive realmente otimista quanto ao ano novo foi no apagar das luzes de 2012. Aquele foi para mim um ano bacana, que valeu a pena, mas que poderia ter sido melhor. E pensar em 2013 chegava a me empolgar. Via boas perspectivas.

Só que foi em 2013 que a “coisa virou”. O Brasil realmente não foi mais foi o mesmo após aquele junho, que começou à esquerda e terminou à direita. Nunca mais tive uma perspectiva otimista quanto ao futuro. Mesmo no final de 2014, quando estava na expectativa de ir morar em uma outra cidade (Ijuí): era algo estritamente pessoal, mas nunca consigo me dissociar do entorno, e eram claríssimos os sinais de que tempos muito difíceis estavam por vir.

Não à toa, nos últimos tempos deixei de me empolgar com a virada de ano. Passei a achá-la muito artificial e irrealista. E deixei de acreditar que as coisas mudariam como se fosse um passe de mágica apenas por conta de uma mera convenção: para vários povos, hoje não é o último dia do ano.

E agora estamos à véspera de algo que jamais deveria ocorrer: um extremista de direita assumindo a presidência do Brasil. Algo ruim em qualquer lugar, mas pior ainda num país tão desigual como o nosso: a direita clássica já “caga e anda” para políticas sociais, imagina a vertente extremista dela…

Mas será algo merecido para essa galera toda que votou no cara – pena que todo o país tenha de sofrer com isso. Quem acredita em qualquer lixo que chega pelo WhatsApp – inclusive em absurdos como a famosa “mamadeira de piroca” – tem de se ferrar bonito para aprender que não ser rico e votar na direita é uma tremenda burrice, e que não vai adiantar nada fazer “arminha” com as mãos quando der merda – e vai dar, isso é óbvio demais.

O país vai para o abismo, mas pelo menos não terá sido por culpa minha e de muitas pessoas queridas que conheço e quero ver bem. É com estas que estará o meu coração em 2019.

Por que o Natal me chateia

Já é 26 de dezembro, ou seja, mais um Natal fica no passado, o 37º da minha vida. E mais uma vez, fico feliz que isso aconteça. Não simplesmente por significar que mais um ano se passou.

Me irrito demais com a hipocrisia da data. Uma galera que passa o ano inteiro “puxando o tapete dos outros”, falando mal pelas costas, em dezembro finge ser boazinha e querer o bem de todo mundo. (E neste parágrafo revelo uma “semicontradição”: estou também “falando mal pelas costas”, mas também não cito nomes, pois deixo a carapuça à disposição de quem quiser vestir, prefiro criticar atitudes do que apontar o dedo.)

O pessoal que passa de janeiro a novembro gritando contra o Bolsa Família pois “é dar dinheiro para vagabundo não trabalhar” (como se a pobreza fosse causada por “falta de esforço”), chega dezembro e posa de caridoso, fazendo doação de alimentos e brinquedos.

Tem também gente de esquerda nessa. Compartilham “memes” no Facebook sobre “arruinar a festa de família”, mas chega 25 de dezembro e postam o quê? Foto da “família feliz”.


Por incrível que pareça, nunca quis arruinar festa nenhuma, embora tenha motivos para tal (o mesmo de muita gente que conheço: “parentes bolsominions”).

Ainda que não curta a data, participo da festa, e faço isso pela minha avó, que aos 96 anos dificilmente mudará de ideia – ainda mais se pensarmos de forma realista: cada Natal para ela, com a saúde fragilizada, tem muita chance de ser o último. Minha mãe, meu pai e meu irmão sabem que por mim passaria o 25 de dezembro como se fosse um dia qualquer, por não ser cristão: não preciso de datas em específico para reunir minha família e dizer que gosto dela. (E quando falo em família, me refiro justamente aos três citados, além de minha avó: o resto são “parentes”, uns mais próximos e outros mais distantes.)

Mas não entro na onda do fingimento e do enquadramento aos padrões. A hipocrisia de dezembro não conta com nenhuma contribuição minha.


E não estou com a mínima vontade de celebrar o Ano Novo. Não vejo motivo algum para comemoração, considerando que dia 1º de janeiro passaremos a ser governados por um fascista.

Não quero celebrar o Ano Novo

Faltando menos de 10 dias para a chegada de 2019, ainda não falei com ninguém para passar a virada do ano junto. Algo que, aliás, nem é tão incomum assim: sempre decidi essas coisas bem em cima da hora, sem contar que a cada ano que passa vejo menos sentido em toda essa celebração.

Nunca fui muito chegado a grandes celebrações. Lembro que quando estava para me terminar a faculdade e falei que optaria pela formatura em gabinete, um amigo me disse que eu me arrependeria pelo resto da vida de tal escolha. Já se passaram nove anos e nada de eu ter qualquer resquício de arrependimento… E o dia que para mim significou o “rito de passagem” foi 14 de dezembro de 2009: defesa da minha monografia. Nem lembro qual foi a data da formatura, sei que foi em algum dia no começo de 2010; sequer quis fazer festa, pois só de pensar em mandar convites para um monte de gente já me dá aquela preguiça.

A última vez que saí para celebrar o ano novo foi na virada de 2011 para 2012. Até achei divertido, mas por volta de uma da manhã já queria ir embora. Mas estava com um grupo de amigos e ninguém queria ir embora; além disso, dependia da carona de um deles pois para conseguir táxi em virada de ano era um suplício (aliás, acho que isso não mudou nem mesmo depois do surgimento dos aplicativos de transporte). Resultado: fiquei até por volta de três da manhã ouvindo (muita) música ruim.


É muito interessante notar uma “inversão” nas minhas preferências de final de ano. Desde o começo da década de 1990, quando descobri que Papai Noel é uma fantasia, sempre vinha preferindo o Ano Novo ao Natal. Só que mais recentemente, comecei a achar a celebração na virada do ano algo um tanto sem sentido: trata-se apenas de uma convenção.

anonovo (2)

Infelizmente, não sei a autoria

Ironicamente, o Natal começou a ter algum significado, mesmo que sem sequer lembrar a infância: em setembro de 2015, quando eu estava morando em Ijuí, minha avó foi internada no hospital em estado bastante delicado; estar com ela em dezembro, mesmo com a saúde debilitada, foi por si só algo digno de comemoração. E agora em 2018 senti algo parecido: no começo de dezembro ela teve uma pneumonia muito forte a ponto de eu achar que ela não chegaria ao final do ano, mas conseguiu se recuperar e passar este Natal conosco.

Já o Ano Novo, não considero totalmente vazio de significado. O fato da maioria esmagadora da humanidade utilizar o mesmo calendário torna “natural” que nesta época sejamos impelidos à reflexão sobre o que passou e a pensar no futuro. Ainda que as promessas dificilmente sejam realizadas – ainda mais quando feitas sob efeito de álcool na noite do dia 31 de dezembro.

O ruim é a “obrigação social” de celebrar, de fingir felicidade. E não estou nem um pouco feliz pela chegada de 2019: significará também o início do governo de Jair Bolsonaro, algo pior que meus piores pesadelos.

Mais de uma vez pensei em passar a virada do ano em casa como se nada de importante estivesse acontecendo, mas era mais pela curiosidade de fazer algo diferente. Desta vez, há uma razão para tal. Não consigo ver nada a celebrar nesta virada de ano.