A falta que faz o horário de verão

Falar que o verão está sendo muito quente em Porto Alegre é quase uma redundância. Digo “quase” pois de vez em quando acontece deles serem um pouco mais “civilizados”. Como aconteceu ano retrasado, quando não houve longos períodos de calor insuportável e na maioria dos dias tinha um vento por demais agradável nos finais de tarde.

Já no ano passado a coisa foi bem ruim. E agora está sendo ainda pior. Mesmo que eu tenha a impressão de que as madrugadas estão sendo menos quentes – provavelmente o abafamento noturno de 2019 se devesse ao El Niño que, felizmente, acabou no meio do ano. Complicado mesmo está sendo sair para trabalhar: as manhãs estão muito mais sufocantes que o habitual. Para entender o motivo, vamos voltar um pouco no tempo.

Em 14 de janeiro de 2019, o sol nasceu às 6h37min em Porto Alegre. Hoje, exatamente um ano depois, na mesma cidade, ele raiou às 5h37min. Por conta disso, em janeiro de 2019 saíamos para trabalhar com menos calor pois fazia menos tempo que o sol tinha nascido. Já agora ele está no céu há mais tempo: quando o relógio marca 8h, temos o mesmo tempo de luz solar no dia que o registrado às 9h no ano passado. E essa diferença não se deve a mudanças nos períodos de rotação e translação da Terra: isso tudo continua igual, o que mudou foi a hora marcada pelo relógio, que no final das contas é o que rege nossas atividades em uma sociedade urbanizada. Pois um ano atrás tínhamos horário de verão, e agora não o temos por (mais uma) decisão estúpida do cidadão que (des)governa o Brasil.

Pior que a decisão, só os “argumentos” que a sustentam. Tem aquele já bem batido do “relógio biológico”: engraçado que já vi os mesmos reclamões viajarem para a Europa e não reclamarem da diferença de fuso horário… Outro diz respeito às pessoas que “saem cedo, ainda no escuro, para pegar ônibus”: neste caso, é bom lembrar que (pelo menos no caso de Porto Alegre e outras cidades do Rio Grande do Sul) no inverno o sol nasce bem mais tarde que com horário de verão (depois das 7h em junho e julho); e estações do ano não podem ser canceladas por decreto.

O mais razoável tem relação com a economia de energia elétrica proporcionada pelo horário de verão, que vinha caindo ano após ano: se antigamente fazia a diferença as pessoas chegarem em casa bem antes do pôr-do-sol e por isso não precisarem acender as luzes, mais recentemente a disseminação dos aparelhos de ar condicionado (e seu uso madrugadas adentro para proporcionar um sono com maior conforto térmico) fez com que a mexida nos relógios causasse menos impacto no consumo de eletricidade. Apesar disso, ainda faria sentido a implantação da medida.

E faz não só por conta da ainda existente economia de energia. O horário de verão significava mais tempo de luz natural para ser desfrutado, considerando que o relógio rege as nossas vidas. Em Porto Alegre, no verão do ano passado ainda tinha sol às 20h; no atual já é praticamente noite. Isso proporcionava não apenas mais qualidade de vida a todos nós, como também colaborava para movimentar a economia: as pessoas ficavam mais tempo na rua e, consequentemente, consumiam mais, especialmente em bares – já que o tempo quente torna ainda mais desejável uma cerveja gelada. E a noite que começava “mais tarde” também terminava “mais tarde” no dia seguinte, fazendo com que o calor nos castigasse menos pela manhã.

Ou seja, no geral só perdemos com essa decisão estúpida de acabar com o horário de verão. Mas, faz muito sentido se considerarmos o caráter do (des)governo atual, que faz de tudo para acabar com o que resta de felicidade no Brasil.

Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

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Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.

Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

O filme mostra uma Nova Iorque caótica em 2022, com 40 milhões de habitantes e altas taxas de desemprego e pobreza. Por efeito da superpopulação e do aquecimento global, apenas a elite tem acesso a “luxos” como carnes e verduras frescas; a maioria das pessoas se alimenta de duas variedades de tabletes produzidos pela companhia Soylent: um amarelo e outro vermelho. O grande lançamento de 2022 é o tablete verde (o “Solylent Green”), que segundo a publicidade da empresa é feito de plâncton processado e assim faz grande sucesso entre a população.

Quando um dos principais acionistas da Soylent é assassinado, o policial Robert Thorn (interpretado por Charlton Heston) começa a investigar o crime com a ajuda de seu amigo “Sol” Roth (Edward G. Robinson), um ancião que vive com ele e não esconde seu saudosismo do tempo em que a Terra era mais habitável. Tendo acesso a livros da companhia que o acionista tinha em casa, “Sol” descobre uma terrível verdade: os mares estão morrendo e não há mais plâncton comestível, o que quer dizer que a “matéria-prima” do “Soylent Green” não é aquela anunciada pela propaganda.

Na sequência, “Sol” decide dar cabo da própria vida em um local especializado para tal, chamado “Casa”. Thorn vai até lá e assiste à despedida do amigo: os últimos momentos dele têm música e cenas de como era a Terra antes do colapso ecológico. Antes de morrer, “Sol” pede a Thorn que continue sua investigação para provar e revelar ao mundo a verdade. Após a cerimônia, o policial “segue” o cadáver de “Sol”, que é transportado em um caminhão de lixo até uma instalação industrial onde se junta a muitos outros para ser processado e transformado em tabletes verdes: o “Soylent Green” era feito de pessoas mortas.

Abaixo, algumas cenas do filme.

O final do filme não é otimista nem oferece alguma solução, mas já podia ser interpretado na época como um alerta para que as pessoas desde já começassem a agir para que 50 anos depois seu destino não fosse como o que se imaginava. Da mesma forma que se alguns efeitos do aquecimento global já são sentidos, ainda podemos evitar os piores cenários projetados para 2050 e mesmo para 2100, quando a maioria de nós não estará mais aqui mas muitos filhos e netos poderão estar e sofrer as terríveis consequências.

Mas isso não pode mais ser deixado para depois. E principalmente, temos de parar de dar ouvidos a mentecaptos de rede social e prestar mais atenção no que a ciência já vem nos dizendo há um bom tempo.

Uma escolha muito fácil

A cada vez que vejo uma crítica ao (des)governo instalado em Brasília vinda de gente que anulou seu voto para presidente ano passado, lembro de um já célebre editorial do jornal Estado de São Paulo, publicado na época do segundo turno. Afirmava o jornal que era muito difícil escolher entre Bolsonaro e Haddad.

Algo como estar em um grupo de excursionistas que antes de entrar no ônibus para uma viagem de quatro horas vai a um restaurante para não pegar a estrada com fome. Por já ser tarde e o estabelecimento já estar fechando, sobram apenas duas opções de comida: macarrão “requentado” por já estar na geladeira, ou pastéis com um aspecto péssimo e que atraem muitas moscas.

Óbvio que num cenário desses, eu não tenho dúvidas: vou de massa requentada. Outras pessoas sensatas também. Mas vejo gente dizendo que não quer comer nada por não gostar de nenhuma das duas opções. E também quem opta pelos pastéis: seja por preferi-los ao macarrão, ou por achar que estão ruins mas simplesmente não gostam de massa e por isso “não resta escolha”. Há também um senhor de sotaque engraçado sentado em uma das mesas, que não faz parte do grupo: ele não come nada, mas diz que bom mesmo é o pastel, e que colocaram esperma de porco no molho da massa.

A maioria escolhe pastel, mesmo com todos os alertas.

Logo depois o ônibus sai, e não demora muito para começar o mal-estar generalizado dentro do veículo. Começa, obviamente, com quem optou pela comida obviamente estragada. Mas o ambiente empesteado faz vomitar também quem não comeu nada, assim como quem comeu massa: quando chega a minha vez, nem faço questão de não tentar emporcalhar quem ignorou meus avisos…

Haja paciência…

flamengo

Torci pelo Flamengo na final da Taça Libertadores contra o River Plate. Não pela rivalidade (inventada) entre Brasil e Argentina, mas sim, principalmente, pelo legado positivo ao nosso futebol: o técnico Jorge Jesus não poupou o time no Campeonato Brasileiro e o conquistou praticamente ao mesmo tempo que a Libertadores (a confirmação matemática veio um dia depois da decisão contra o River). Lembrando que o Grêmio de Renato Portaluppi poderia ter disputado o título nacional com o Flamengo em 2019 caso não tivesse deixado o campeonato de lado para priorizar os “mata-matas” (Copa do Brasil e Libertadores), sendo que não ganhou nenhum deles – igual ao que aconteceu em 2018. Também pesou para minha torcida ter ficado com bastante raiva do River após tudo o que aconteceu na Libertadores de 2018.

Claro que não fui celebrar na rua – isso é tarefa para os flamenguistas. Já fiz minha festa em 2017. Mas, algo em comum entre as duas ocasiões – além de diversas outras – foi a aporrinhação de muita gente nas redes sociais: aquele velho papo de chamar o futebol de “ópio do povo” ou “pão e circo”.

Já escrevi “um pouco” sobre isso em junho de 2018, por ocasião da Copa do Mundo – quando essas reclamações subiram a níveis estratosféricos. Fui além do futebol, lembrando que não é nada diferente do que falam sobre o Carnaval, por exemplo.

Sabem o que todas essas “críticas” têm em comum? Elas são fundamentadas unicamente na antipatia que temos por determinados eventos que muitas pessoas gostam e nós não. Só isso.

É exatamente isso. Se não gostamos de futebol, é fácil criticar a felicidade das pessoas por conta do esporte – aí, dê-lhe falar em “pão e circo” e outras chateações. No Carnaval, idem. Uma lógica tosca, segundo a qual quem se mobiliza por isso não se preocupa com política. Como se fossem coisas excludentes.

Eu gosto de futebol e também me interesso bastante por política. Não curto Carnaval, mas conheço uma galera que adora e não é nada despolitizada. Também sei de gente que gosta de política mas não de futebol e Carnaval, e mesmo assim não fica enchendo o saco de quem curte pois sabe que todos precisamos ter distrações temporárias para manter a sanidade mental: pode ser férias na praia, memes na internet, vídeos de gatinhos etc.

Conheço também quem só fica censurando a alegria das pessoas. E que logo depois critica fundamentalistas religiosos, que não são lá muito diferentes: ambos vivem “cagando regras” que se seguidas à risca tornam a vida um fardo, onde tudo é “alienação” ou “imoral”. Que gente chata da porra!

Em busca de um novo sofá

sofá

Por que buscar, do nada, um novo sofá? Ainda mais que o meu atual ainda está ótimo?

Simples: pois li que será pedida a abertura de um processo de cassação contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) por ele ter defendido a instauração de um novo AI-5 (eufemismo para “nova ditadura aos moldes de 1964”) caso o Brasil registre protestos como os que estão acontecendo atualmente no Chile. Líderes de diversos partidos – até do próprio PSL, rachado justamente por conta dos Bolsonaros – manifestaram repúdio.

Quando leio que o “03” poderá ser submetido ao Conselho de Ética da Câmara e ter seu mandato cassado, lembro que seu pai, Jair Bolsonaro, passou vinte e oito anos dizendo barbaridades semelhantes ou piores e… Bom, o fato dele ter ficado lá por tanto tempo já diz tudo. Não apenas nada aconteceu, como também o então deputado acabou virando presidente.

Espero muito estar errado desta vez. Mas, como diz minha própria “voz da experiência”, acho bom adquirir um bom sofá-cama para esperar devidamente sentado e, caso necessário, deitado.

Não foi por falta de aviso

Até o início de 2018, o Partido Social Liberal era politicamente um ilustre desconhecido para a imensa maioria da população brasileira. Minhas lembranças eram poucas: em 2006 lançou Luciano Bivar como candidato à presidência do Brasil (e ele até conseguiu ser presidente, mas não do país e sim do Sport Recife); em 2016, Fábio Ostermann concorreu à prefeitura de Porto Alegre pelo PSL.

Eis que vieram Jair Bolsonaro, sua família e seus apoiadores mais fiéis. Que, como qualquer pessoa com o mínimo de memória sabe, nunca tiveram nada de liberal nem de preocupação com questões sociais. E então o PSL perdeu vários filiados (dentre eles Fábio Ostermann), vinculados a um movimento de caráter liberal (o Livres) que via na filiação de Bolsonaro uma total deturpação das ideias que defendiam; mas ganhou muita força para as eleições gerais de 2018.

E assim o partido que desde seu nascimento era “nanico” tornou-se “grande”, elegendo a segunda maior bancada da Câmara de Deputados graças à associação com Bolsonaro e suas frases de efeito que eram o que grande parte da população queria (não o que precisava) ouvir. E acabou ganhando também a presidência do Brasil.

“Ah, mas agora que o povo decidiu não vamos ficar torcendo contra, pois se o governo der errado é ruim para o Brasil”. Pois então: é um governo que faz tudo errado. O tal de “torcer contra” na verdade significa querer que sejam feitas as coisas certas. Pois a depender das vontades dos que nos governam, a vergonha para o país está apenas no começo. Saudades de quando vexame era perder de 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa… (Pois tal partida aconteceu quando o Brasil deixava de integrar o “mapa da fome” da ONU, do qual infelizmente voltou a fazer parte.)

E o capítulo mais recente da tragicomédia é a guerra entre o governo (leia-se “Bolsonaro, família e apoiadores mais fiéis”) e o partido pelo qual ele foi eleito. Uma baixaria na qual os dois lados se xingam das piores coisas – e na qual ambos têm razão. Sério, estou rindo muito, ainda que apenas para não chorar por conta do que virou o Brasil.

O pior é que não foi por falta de aviso. Pois eu avisei. Muitos avisaram. Qualquer pessoa com o mínimo de sensatez avisou. Mas ainda assim, uma galera preferiu usar o fígado no lugar do cérebro apenas para “tirar o PT”.

Agora não adianta vir com esse papo de culpar o PT por “não dar outra opção que não Bolsonaro” (que por pouco ele ganhou no primeiro turno). Pois eu lembro bem (e não esquecerei) de todas as merdas que vocês fizeram ainda antes de outubro de 2018.

Imoral é existir bilionários

Há mais de dez anos tenho por hábito não liberar comentários estúpidos no blog. Penso que gente de pensamento tosco tem todo o direito de se manifestar, mas no seu espaço, não no meu.

Mas tem alguns que, mesmo não sendo publicados (pois o autor quer, antes de tudo, aparecer), merecem uma reflexão. Como um que chegou semanas atrás, sobre um texto de 2009:

Nao sabia que eu era classe merdia e fiquei muito feliz. Entendi que a classe media sao os comunistas que odeiam os bilhonarios.

Sim, é um pensamento muito tosco. Mas não por dizer que “comunistas odeiam bilionários” (corrigindo o português do cara que, definitivamente, é “mérdio”), mas sim pois há uma imensa possibilidade de que o autor do comentário acima seja um trabalhador (igual a mim e à maioria de quem lê estas linhas) que não vê nada de errado na existência de bilionários.

Não vou me estender muito falando sobre a brutal (e agora novamente crescente) desigualdade social em nosso país. Existem inúmeras reportagens falando sobre isso. Sei que não é a minha especialidade (como dizem, “sou de humanas”), mas vou falar de Matemática: não são cálculos complexos, apesar de envolverem números enormes. (E não precisam confiar em mim: usarei calculadora e copiarei o resultado aqui, vocês encontrarão exatamente os mesmos números se fizerem as mesmas contas.)

bilionários

Tradução: “Se você trabalhasse todos os dias, ganhando 5 mil por dia, desde a época a qual Colombo chegou à América, até o momento o qual você está lendo esse tuíte, você ainda não seria um bilionário, e você ainda ganharia menos dinheiro que o Jeff Bezos ganha em uma semana. Ninguém trabalha por um bilhão de dólares.”

Cristóvão Colombo chegou à América em 12 de outubro de 1492, ou seja, há exatos 527 anos. Poderíamos calcular quantos dias se passaram desde então, mas é uma conta complexa e então vamos para uma mais simples: ganhando 5 mil por dia, quanto tempo seria necessário para chegar a um bilhão?

Um ano tem 365 dias, mais seis horas que a cada quadriênio completam um dia (o 29 de fevereiro que aparece nos anos bissextos como será 2020), ou seja, podemos dizer que são 365,25 dias. E assim calculamos a renda média de quem ganha 5 mil por dia:

5.000 x 365,25 = 1.826.250

Nada mal, né? Afinal, a maioria das pessoas trabalhará a vida inteira e não ganhará nem perto de um milhão (de dólares ou reais).

Só que estamos falando de algo maior: um bilhão. Mil vezes um milhão: só isso já basta para ver que é uma quantia absurda. Ganhando 5 mil por dia, não se fica bilionário rapidamente. Vamos, então, ao cálculo de quantos anos seriam necessários, dividindo o bilhão pela renda média anual do bem remunerado trabalhador:

1.000.000.000 ÷ 1.826.250 = 547,570157...

Isso mesmo: mais de 547 anos. O que quer dizer que este trabalhador contratado em 12 de outubro de 1492 por 5 mil (dólares ou reais) diários só alcançaria um bilhão em ganhos em meados de 2040.

“Ah, mas não faltaria muito”, dirá o leitor de direita que acredita na “meritocracia” (que até seria um sistema justo se fossem dadas a todos condições equânimes, algo que é uma ficção em nossa sociedade). Afinal, o que são mais 20 anos e meio para quem já trabalhou 527? Só tem um pequeno problema: o recorde de longevidade comprovado com documentos (e ainda assim há controvérsias) pertence à francesa Jeanne Calment (1875-1997). Se não há provas de que alguém viveu mais do que ela (122 anos e 164 dias), o que dizer de 547 anos e meio?


Agora, já pensou se ganhássemos um dólar ou real a cada segundo? Seria mais rápido para chegar ao tão desejado bilhão, né?

Realmente seria. Inclusive, algo alcançável dentro de nossa expectativa de vida. Mas, ainda assim, não seria tão rápido como esperamos.

Um minuto tem 60 segundos. Uma hora tem 60 minutos, logo:

60 x 60 = 3.600

Uma hora tem 3.600 segundos e um dia tem 24 horas, portanto:

3600 x 24 = 86.400

Um dia tem 86.400 segundos e um ano tem, em média, 365,25 dias, ou seja:

86.400 x 365,25 = 31.557.600

Sabendo quantos segundos tem um ano, calculamos quanto tempo seria preciso para chegar a um bilhão:

1.000.000.000 ÷ 31.557.600 = 31,68808...

Sim, mais de 31 anos. Se começássemos a juntar essa grana hoje no ritmo de um dólar ou real por segundo, só chegaríamos a um bilhão em meados de 2051.


Mesmo depois dos dois exemplos citados acima, o leitor de direita obviamente começaria a citar casos de bilionários que “trabalharam duro” e “construíram” suas fortunas, o que provaria que “basta se esforçar para chegar lá”. O grande problema é que, primeiramente, qualquer bilionário que tenha “começado lá de baixo” (será que foi assim mesmo ou tinha algum amigo importante que “abriu portas”?) é uma exceção e tanto (que, como diz o ditado, serve para confirmar a regra). E, principalmente, que mesmo aqueles que começaram “de baixo” não chegaram ao primeiro bilhão como resultado de seu trabalho: a partir de um determinado momento eles passaram a extrair mais-valia do trabalho alheio, assim como também ganharam dinheiro no mercado financeiro (o que, vamos combinar, não pode ser chamado de “trabalho”).

Mas, mesmo que algum deles realmente só tivesse acumulado seu(s) bilhões única e exclusivamente por seu trabalho, seguiria válido o questionamento: alguém precisa ter tanto dinheiro para viver? Me parece um tanto óbvio que não. E, ao mesmo tempo, uma imensa quantidade de seres humanos ao redor do planeta (que não, não é plano!) não tem sequer o suficiente para se alimentar direito…

Neste ponto é capaz do leitor de direita até dizer que os bilionários (que, aliás, não são muitos) poderiam ajudar a reduzir a desigualdade, doando dinheiro aos mais pobres. Mas a verdade é que, para haver justiça social, não deveriam existir bilionários. Em tempos nos quais tanta gente prega “moral de cuecas” por aí, é preciso apontar o dedo para a verdadeira e maior imoralidade de nosso mundo.

Outubro, de novo

Quando o número que designa em qual mês estamos passa a ter dois dígitos (pois o zero à esquerda não conta), me “cai a ficha”: não falta muito para o ano acabar. Tanto o “meu” como o do calendário. Tanto que costumo dizer que após o dia 15 de outubro em “um piscar de olhos” já estaremos nas festas de final de ano.

Para mim o mês de outubro sempre tem um significado especial, por ser o mês do meu aniversário (comemorado no já citado dia 15). É um momento em que costumo refletir sobre minha vida, algo habitual quando ocorre a passagem de um ciclo a outro: é verdade que também se faz isso em dezembro, mas outubro me proporciona uma análise mais “pessoal” sobre o que aconteceu nos últimos 365 (ou 366) dias.

Só que, depois de 2018, chegar ao décimo mês do ano nunca mais será a mesma coisa, tanto para mim como para incontáveis pessoas, independentemente de quando elas fazem aniversário. Ainda mais em tempos de redes sociais: o Facebook nos recorda que um ano atrás estávamos angustiados com a campanha eleitoral mais suja que já se viu no Brasil.

Uma eleição fraudada, digo com total convicção. Mas não foi uma fraude do tipo “urnas eletrônicas não confiáveis”: os votos por elas computados eram realmente o que o eleitorado decidia – como, aliás, sempre foram. O problema é que muitas pessoas escolheram seu candidato a presidente com base em mentiras deslavadas. Desde o tal “comunismo” do PT (algo tão real quanto unicórnios ao meu lado enquanto escrevo este texto) até absurdos como a tal “mamadeira de piroca”. Falar a verdade, infelizmente, não rende mais votos.

Outubro, no qual se celebra o meu aniversário, foi em 2018 o pior mês da minha vida. Já começou bem ruim e terminou péssimo. Ainda mais com o agravante da tristemente inesquecível noite do dia 30: dois dias após a catástrofe eleitoral fui ao jogo do Grêmio contra o River Plate pela semifinal da Libertadores e, como se não bastasse a derrota gremista no final, ainda fui roubado e caiu um temporal na hora da saída.

Espero que em 2019 não se repita a desgraça do ano passado. Tem jogo do Grêmio logo “de início” (de novo uma semifinal de Libertadores, agora contra o Flamengo), mas desta vez vou tomar mais cuidado com meus bolsos. E felizmente não tem eleição: aquele cara lá ganhou um ano atrás e, conforme minha previsão, está nos fazendo passar muita vergonha mundo afora; é ruim para o Brasil, mas torço para que ao menos seja didático.

Que tal detestar a coisa certa?

Está acabando o inverno e isso não me deixa feliz. Mesmo que eu não desgoste da primavera (estação na qual vim ao mundo há quase 38 anos), lembrar que mais um verão está a caminho me leva a já contar os dias para o outono, que é minha estação do ano preferida. Mas entre inverno e verão eu prefiro o primeiro, ainda que para os mais pobres o frio cause muito sofrimento: comigo acontece o contrário pois acho mais fácil lidar com as baixas temperaturas que com as altas, já que para mim basta vestir mais roupas enquanto no calor só o ar condicionado resolve – o que resulta em alto gasto de energia elétrica e, consequentemente, em uma conta mais cara.

Claro que é fácil preferir o inverno quando se está debaixo de um teto e se tem roupas para vestir. Ao mesmo tempo que gostar de verão podendo passar a maior parte dele na praia ou no ar condicionado é “barbada”. Difícil é curtir o frio tendo poucos recursos para se proteger dele, ou calor precisando trabalhar debaixo do sol a pino do meio-dia.

Acredito que os dois parágrafos anteriores deixaram bem claro qual é o maior problema. Não é nada de ordem climática: é a pobreza e a desigualdade social. Não importa a época do ano, para rico não existe adversidade: no verão ele pode curtir uma piscina pois tem condições de manter uma, ir para a praia ou simplesmente pegar um avião e ir para algum país frio sem se preocupar com os custos da viagem; no inverno pode desfrutar de um café colonial em Gramado ou esquiar em Bariloche sem sentir aquela “dor no bolso”, ou embarcar em um voo (igualmente “barato”) para algum lugar quente (vão pra Cuba!); na primavera é possível escapar de eventuais alergias pelo florescimento viajando sem preocupação para onde é outono – a propósito, alguém consegue ter alguma coisa a reclamar do outono?

Ruim mesmo não é inverno ou verão. A falta de grana para se sofrer menos com o clima é que é uma bosta: mesmo detestando calor eu tenho ar condicionado e posso usá-lo com frequência mesmo isso que pese no bolso depois. Para os mais pobres, isso significa menos comida na mesa – e a fome independe da estação do ano.

Logo, que tal passar a atacar e detestar o que realmente importa? Pois não adianta “sentir pena” dos pobres no inverno só para “fazer média” nas redes sociais e a cada duas primaveras votar na direita…