Curiosidades e uma temerária coincidência

A partida do Grêmio contra o Juventude, válida pelo Campeonato Gaúcho, foi para mim uma experiência inédita: primeira vez que fui ao estádio em um 29 de fevereiro. Não é comum se jogar nessa data pois só ocorre a cada quatro anos: é o “dia extra” que tem os anos bissextos para equilibrar o calendário com o Sol.

Por mais que eu ache que campeonatos estaduais precisem pelo menos sofrer uma total reformulação, não posso me furtar a uma curiosa escrita acerca do certame do Rio Grande do Sul. Com a derrota do Grêmio na final do primeiro turno diante do Caxias, foi mantida uma escrita que completará, no mínimo, 32 anos: a última vez que tivemos Gre-Nal na decisão do Gauchão em anos bissextos foi em 1992. Dali em diante, o interior sempre se fez presente pelo menos a cada quatro anos, inclusive com direito a título. Só relembrar as decisões seguintes (o campeão é o time da esquerda):

  • 1996: Grêmio x Juventude
  • 2000: Caxias x Grêmio
  • 2004: Inter x Ulbra
  • 2008: Inter x Juventude
  • 2012: Inter x Caxias
  • 2016: Inter x Juventude

Outra curiosidade: o 29 de fevereiro de 1992 também caiu num sábado – o que não foi suficiente para impedir o triunfo do Caxias sobre o Grêmio semana passada.


Já uma coincidência, bem menos feliz, diz respeito a outro ano bissexto em que o 29 de fevereiro foi um sábado. Foi em 1964. Ano do golpe civil-militar que mergulhou o Brasil em uma ditadura de 21 anos.

1964-2020

Tudo bem: não se pode dizer que é exatamente igual pois as festas móveis (Carnaval, Páscoa etc.) em 1964 aconteceram em dias diferentes. Mesmo o quadro político é diferente: 56 anos atrás tínhamos um presidente de centro-esquerda sendo derrubado militarmente, enquanto agora temos um extremista de direita no cargo.

Mas há quem diga que Bolsonaro pode fazer algo como Alberto Fujimori, o presidente do Peru que, enfrentando dificuldades por não ter maioria parlamentar, dissolveu o Congresso com apoio das Forças Armadas em abril de 1992. Ano bissexto em que o dia 29 de fevereiro caiu num… Sábado. Que na ocasião era o de Carnaval, mas isso não me deixa mais tranquilo.

Qual é a surpresa?

Causou justíssima indignação o insulto do cidadão que ocupa a presidência do Brasil contra a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo. Deveria haver alguma resposta das instituições democráticas contra isso, mas sei que infelizmente nada acontecerá.

Simplesmente porque não é nenhuma novidade: na política há mais de 30 anos, ele já falou inúmeras barbaridades e nunca sofreu qualquer punição. Não vou citar todas elas pois não pretendo me alongar muito neste texto, lembrarei apenas três: defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, que na ocasião da declaração (1999) era nada menos que o Presidente da República; em 2016 dedicou seu voto favorável ao impeachment de Dilma a um reconhecido torturador; e durante sua campanha presidencial em 2018 falou em “fuzilar a petralhada” (sendo que para a direita delirante “petralha” é qualquer pessoa de esquerda, petista ou não).

Não, ele não está atacando a imprensa por se sentir “acuado” ou porque a economia vai mal. Ele está apenas sendo o que sempre foi.

kayser

Charge: Kayser

Lembram do quanto avisamos que votar nele era roubada? E de como respondiam que era “exagero” da nossa parte? Acreditando que quando assumisse a presidência ele iria mudar como num passe de mágica…

E todo mundo que “subiu no muro” e deixou a tragédia acontecer, achando que tanto ele quanto seu adversário no segundo turno de 2018 eram “iguais”? Incluindo aí a imprensa tradicional, que agora se apavora com ele mas também tem “culpa no cartório”: lembram daquele editorial do Estadão? Será que a lição foi aprendida?

estadão

Nunca foi tão fácil escolher certo, mas a maioria foi para o lado errado ou “deu de ombros”.

Agora a imprensa tradicional parece ter acordado, as instituições irão enquadrar o presidente… Não vão. Pois nunca o fizeram contra um mero deputado do “baixo clero”, e assim deixaram ele crescer. Agora que está “grandão” vão querer segurar? Lamento informar: tarde demais.

Mas, com toda a sinceridade, quero muito estar errado.

A democracia “cancelada”

Na noite de domingo, li um “fio” no Twitter que compartilhei devido à gravidade do assunto abordado. (A mensagem abaixo é apenas o começo dele, vai lá para ler tudo.)

Como a autora do tweet bem alertou, isso não tem a repercussão que deveria ter: universidades federais não terão recursos para pagar os salários de seus servidores até o final do ano. Deveria ser o assunto mais falado da segunda-feira, principalmente por parte da esquerda.

Mas não. Pois domingo tinha bloco de Carnaval, Alessandra Negrini participou ao lado de lideranças indígenas e caracterizada como elas, e boa parte da esquerda começou a “debater” se a atriz poderia ou não se fantasiar de índia…

Não que eu ache despropositado tal debate. O problema é o momento.

Afinal, o que é mais pertinente discutir agora? Fantasia de Carnaval ou a destruição das universidades públicas?

Provavelmente essa galera “problematizadora” já se formou. Com o diploma garantido, não se preocupa com o que realmente é importante. Então, dê-lhe falar de “apropriação cultural” e “cancelar” quem discorda.

Sabe qual será o resultado disso tudo? A esquerda tomará mais “vareios” nas urnas como já vimos nas recentes eleições, com direito a uma possível (e cada vez mais provável) reeleição do atual (des)governo em 2022. E no fim das contas a nossa já gravemente ferida democracia é que será “cancelada”.

A nossa insignificância

Em 5 de setembro de 1977 a sonda espacial Voyager 1 foi lançada do Cabo Canaveral (Flórida, Estados Unidos) com o objetivo de explorar o Sistema Solar – curiosamente, semanas após sua “gêmea” Voyager 2. Em novembro de 1980 a missão principal foi concluída e a sonda seguiu viagem pelo Espaço; posteriormente, para economizar energia foi decidido que o sistema de câmeras seria desligado de modo que a nave pudesse enviar dados para a Terra pelo maior tempo possível, visto que não haveria mais nada que fosse cientificamente interessante para ser fotografado na sequência. Foi quando o astrônomo Carl Sagan (1934-1996) teve a ideia de que, antes do desligamento, as câmeras fizessem um último registro da Terra e de planetas próximos.

No dia 14 de fevereiro de 1990, quando a Voyager 1 se encontrava a uma distância de 6 bilhões de quilômetros da Terra, o conjunto de quadros fotográficos chamado “Retrato de Família” foi obtido pelas câmeras – seriam as últimas imagens registradas pela sonda, que segue ativa até hoje e com previsão de perder contato com a Terra por volta de 2025.

Uma foto da Terra tirada de tão longe certamente não teria grande valor científico, e Sagan já sabia disso. Mas ajudaria a dar uma perspectiva de nossa localização no Universo. E mais que isso: do quão insignificantes somos.

pálido ponto azul

A Terra é aquele pontinho em meio a um raio solar, com um círculo azul em volta para facilitar a localização.

A fotografia acabou sendo chamada de “Pálido Ponto Azul”, por ser como nosso planeta aparece nela. Nome que batizou o livro lançado por Sagan em 1994, inspirado por tal imagem que acaba de completar 30 anos. Na obra, o astrônomo propôs uma bela reflexão sobre a foto que segue muito válida, ainda mais em tempos de uma crise climática que põe em xeque o futuro da humanidade.

Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali – em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje.

A sexta-feira que mais aguardo

Minha estação do ano preferida é o outono. Gosto tanto dessa época que conto os dias para sua chegada em praticamente todos os verões – e obviamente não está sendo diferente no atual.

Em 2020 o outono terá um “plus”. O início oficial será no habitual 20 de março, que este ano cairá em uma sexta-feira.

Outono e sexta-feira: seria possível uma combinação melhor?

E a melhor notícia é que, contando o tempo que falta para 20 de março “para trás”, o resultado é já depois do Natal. Significa que mais da metade do verão já foi. Que o restante passe ainda mais rápido!

A falta que faz o horário de verão

Falar que o verão está sendo muito quente em Porto Alegre é quase uma redundância. Digo “quase” pois de vez em quando acontece deles serem um pouco mais “civilizados”. Como aconteceu ano retrasado, quando não houve longos períodos de calor insuportável e na maioria dos dias tinha um vento por demais agradável nos finais de tarde.

Já no ano passado a coisa foi bem ruim. E agora está sendo ainda pior. Mesmo que eu tenha a impressão de que as madrugadas estão sendo menos quentes – provavelmente o abafamento noturno de 2019 se devesse ao El Niño que, felizmente, acabou no meio do ano. Complicado mesmo está sendo sair para trabalhar: as manhãs estão muito mais sufocantes que o habitual. Para entender o motivo, vamos voltar um pouco no tempo.

Em 14 de janeiro de 2019, o sol nasceu às 6h37min em Porto Alegre. Hoje, exatamente um ano depois, na mesma cidade, ele raiou às 5h37min. Por conta disso, em janeiro de 2019 saíamos para trabalhar com menos calor pois fazia menos tempo que o sol tinha nascido. Já agora ele está no céu há mais tempo: quando o relógio marca 8h, temos o mesmo tempo de luz solar no dia que o registrado às 9h no ano passado. E essa diferença não se deve a mudanças nos períodos de rotação e translação da Terra: isso tudo continua igual, o que mudou foi a hora marcada pelo relógio, que no final das contas é o que rege nossas atividades em uma sociedade urbanizada. Pois um ano atrás tínhamos horário de verão, e agora não o temos por (mais uma) decisão estúpida do cidadão que (des)governa o Brasil.

Pior que a decisão, só os “argumentos” que a sustentam. Tem aquele já bem batido do “relógio biológico”: engraçado que já vi os mesmos reclamões viajarem para a Europa e não reclamarem da diferença de fuso horário… Outro diz respeito às pessoas que “saem cedo, ainda no escuro, para pegar ônibus”: neste caso, é bom lembrar que (pelo menos no caso de Porto Alegre e outras cidades do Rio Grande do Sul) no inverno o sol nasce bem mais tarde que com horário de verão (depois das 7h em junho e julho); e estações do ano não podem ser canceladas por decreto.

O mais razoável tem relação com a economia de energia elétrica proporcionada pelo horário de verão, que vinha caindo ano após ano: se antigamente fazia a diferença as pessoas chegarem em casa bem antes do pôr-do-sol e por isso não precisarem acender as luzes, mais recentemente a disseminação dos aparelhos de ar condicionado (e seu uso madrugadas adentro para proporcionar um sono com maior conforto térmico) fez com que a mexida nos relógios causasse menos impacto no consumo de eletricidade. Apesar disso, ainda faria sentido a implantação da medida.

E faz não só por conta da ainda existente economia de energia. O horário de verão significava mais tempo de luz natural para ser desfrutado, considerando que o relógio rege as nossas vidas. Em Porto Alegre, no verão do ano passado ainda tinha sol às 20h; no atual já é praticamente noite. Isso proporcionava não apenas mais qualidade de vida a todos nós, como também colaborava para movimentar a economia: as pessoas ficavam mais tempo na rua e, consequentemente, consumiam mais, especialmente em bares – já que o tempo quente torna ainda mais desejável uma cerveja gelada. E a noite que começava “mais tarde” também terminava “mais tarde” no dia seguinte, fazendo com que o calor nos castigasse menos pela manhã.

Ou seja, no geral só perdemos com essa decisão estúpida de acabar com o horário de verão. Mas, faz muito sentido se considerarmos o caráter do (des)governo atual, que faz de tudo para acabar com o que resta de felicidade no Brasil.

Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

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Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.

Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

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Uma escolha muito fácil

A cada vez que vejo uma crítica ao (des)governo instalado em Brasília vinda de gente que anulou seu voto para presidente ano passado, lembro de um já célebre editorial do jornal Estado de São Paulo, publicado na época do segundo turno. Afirmava o jornal que era muito difícil escolher entre Bolsonaro e Haddad.

Algo como estar em um grupo de excursionistas que antes de entrar no ônibus para uma viagem de quatro horas vai a um restaurante para não pegar a estrada com fome. Por já ser tarde e o estabelecimento estar fechando, sobram apenas duas opções de comida: macarrão “requentado” por já estar na geladeira, ou pastéis com um aspecto péssimo e que atraem muitas moscas.

Óbvio que num cenário desses, eu não tenho dúvidas: vou de massa requentada. Outras pessoas sensatas também. Mas vejo gente dizendo que não quer comer nada por não gostar de nenhuma das duas opções. E também quem opta pelos pastéis: seja por preferi-los ao macarrão, ou por achar que estão ruins mas simplesmente não gostam de massa e por isso “não resta escolha”. Há também um senhor de sotaque engraçado sentado em uma das mesas, que não faz parte do grupo: ele não come nada, mas diz que bom mesmo é o pastel, e que colocaram esperma de porco no molho da massa.

A maioria escolhe pastel, mesmo com todos os alertas.

Logo depois o ônibus sai, e não demora muito para começar o mal-estar generalizado dentro do veículo. Iniciando, obviamente, com quem optou pela comida obviamente estragada. Mas o ambiente empesteado faz vomitar também quem não comeu nada, assim como quem comeu massa: quando chega a minha vez, nem faço questão de não tentar emporcalhar quem ignorou meus avisos…

Haja paciência…

flamengo

Torci pelo Flamengo na final da Taça Libertadores contra o River Plate. Não pela rivalidade (inventada) entre Brasil e Argentina, mas sim, principalmente, pelo legado positivo ao nosso futebol: o técnico Jorge Jesus não poupou o time no Campeonato Brasileiro e o conquistou praticamente ao mesmo tempo que a Libertadores (a confirmação matemática veio um dia depois da decisão contra o River). Lembrando que o Grêmio de Renato Portaluppi poderia ter disputado o título nacional com o Flamengo em 2019 caso não tivesse deixado o campeonato de lado para priorizar os “mata-matas” (Copa do Brasil e Libertadores), sendo que não ganhou nenhum deles – igual ao que aconteceu em 2018. Também pesou para minha torcida ter ficado com bastante raiva do River após tudo o que aconteceu na Libertadores de 2018.

Claro que não fui celebrar na rua – isso é tarefa para os flamenguistas. Já fiz minha festa em 2017. Mas, algo em comum entre as duas ocasiões – além de diversas outras – foi a aporrinhação de muita gente nas redes sociais: aquele velho papo de chamar o futebol de “ópio do povo” ou “pão e circo”.

Já escrevi “um pouco” sobre isso em junho de 2018, por ocasião da Copa do Mundo – quando essas reclamações subiram a níveis estratosféricos. Fui além do futebol, lembrando que não é nada diferente do que falam sobre o Carnaval, por exemplo.

Sabem o que todas essas “críticas” têm em comum? Elas são fundamentadas unicamente na antipatia que temos por determinados eventos que muitas pessoas gostam e nós não. Só isso.

É exatamente isso. Se não gostamos de futebol, é fácil criticar a felicidade das pessoas por conta do esporte – aí, dê-lhe falar em “pão e circo” e outras chateações. No Carnaval, idem. Uma lógica tosca, segundo a qual quem se mobiliza por isso não se preocupa com política. Como se fossem coisas excludentes.

Eu gosto de futebol e também me interesso bastante por política. Não curto Carnaval, mas conheço uma galera que adora e não é nada despolitizada. Também sei de gente que gosta de política mas não de futebol e Carnaval, e mesmo assim não fica enchendo o saco de quem curte pois sabe que todos precisamos ter distrações temporárias para manter a sanidade mental: pode ser férias na praia, memes na internet, vídeos de gatinhos etc.

Conheço também quem só fica censurando a alegria das pessoas. E que logo depois critica fundamentalistas religiosos, que não são lá muito diferentes: ambos vivem “cagando regras” que se seguidas à risca tornam a vida um fardo, onde tudo é “alienação” ou “imoral”. Que gente chata da porra!