O brasileiro classe média não curte autocrítica

A escritora Carol Bensimon publicou um artigo na Zero Hora da última segunda-feira, no qual fez uma sensacional crítica ao típico cidadão brasileiro de classe média. O texto sofreu muitas críticas, pelos mais variados motivos, mas o principal me parece ser aquele tradicional “serviu o chapéu”.

Lendo o artigo, tinha a impressão de que estava diante de meus olhos um “resumo” do genial blog satírico Classe Média Way of Life, escrito entre 2009 e 2010 como se fosse um manual de instruções, dando várias “dicas” de como se comportar como a classe média brasileira. Decidi ler os comentários (algo que não costumo fazer em sites de notícias) e também me deparei exatamente com o mesmo tipo de opiniões críticas que lia no Classe Média Way of Life, que podem ser resumidas na expressão “ofensa à classe média”.

Alguém obviamente fará aquele comentário que, de tão óbvio, irrita: “mas de que classe tu és?”. Pois bem: sou da mesma classe média, tão massacrada criticada. Porém, prefiro refletir sobre minhas atitudes ao invés de sair xingando e assim confirmar que “serviu o chapéu”. O que, aliás, apenas dá mais razão às críticas.

Os questionamentos quanto à classe social que pertencem os críticos apenas confirmam minha impressão lá do final de 2009: o brasileiro classe média odeia autocrítica. Acha que criticar o grupo ao qual pertence é atacar a si próprio. Se pertencemos a um grupo que é criticado (por alguém que pertença ou não a ele), o mínimo que devemos fazer é refletir sobre isso, ver se tais questionamentos são realmente aplicáveis a nós – e caso sejam, responder com argumentos ou mesmo repensar nossas atitudes.

Sem contar que quem se sente ofendido por uma crítica genérica, muito provavelmente é merecedor dela.

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“Mijam em nós e os jornais dizem: chove”

A frase acima é de Eduardo Galeano, e resume bem o que foi a cobertura da Zero Hora acerca da manifestação contra o aumento das passagens em Porto Alegre na última segunda-feira.

Primeiro, assistamos a belíssima reportagem do Coletivo Catarse sobre o protesto, que reuniu milhares de pessoas nas ruas da cidade. (Aliás, vale destacar o título do vídeo, simplesmente perfeito: “Quem não se mexe não percebe as correntes que o prendem”.)

Assistindo ao vídeo, fica claríssimo que a manifestação era pacífica. Sem contar a causa que é para lá de justa: duvido que algum leitor que costume usar ônibus em Porto Alegre não esteja de saco cheio por ter de pagar caro para andar, muitas vezes, feito sardinha em lata em trajetos cada vez mais demorados (pois além do preço da passagem, cresce muito o número de carros nas ruas, que também é fruto de tantos aumentos abusivos).

Pois bem, e qual foi a manchete da Zero Hora? Falou sobre a causa do protesto? O número de participantes? Que nada… Disse que a manifestação terminou “sem confrontos”, como que esperando (e mesmo torcendo) para que se repetisse o acontecido na semana passada, de modo a intensificar o tom reacionário de sua cobertura sobre os protestos.

O leitor não acredita, acha que é pegadinha atrasada pelo 1º de abril? Então clique aqui e leia na própria página da ZH.

Sejamos “malas” (de preferência, “sem alça”)

Hoje pela manhã, li o excelente artigo de Victor Necchi, “Eu tenho turma”, publicado no RS Urgente. A origem do texto é a coluna de David Coimbra na Zero Hora de sexta, de título “contrário” – ou seja, “Eu não tenho turma”. (No site do jornal a leitura só é permitida aos assinantes, achei o nauseabundo texto aqui.)

Não é de turma de amigos que David Coimbra fala. Ele dispara contra todos os grupos que lutam por alguma coisa, desde os de esquerda até mesmo aos reacionários. Para ele, “é tudo mala”. Na certa, o mundo ideal para o colunista do jornal é um no qual não haja discordâncias, debates: todos devem pensar igual.

Ora, eu discordo totalmente do que defendem os evangélicos ou os reaças “à Bolsonaro”, mas pior seria se, por conta disso, eles fossem proibidos de falar. Como eu disse no texto de segunda-feira, se ofendem alguém, é preciso que haja a possibilidade de punição por isso (afinal, eles são responsáveis pelo que dizem), mas sempre depois de falarem, nunca antes (o que configuraria a verdadeira censura). Se todos pensassem que nem eu, nunca haveria a possibilidade de eu mudar de ideia em relação a qualquer assunto. Convenhamos, um mundo sem os “chatos” que discordam seria muito… Chato.

David Coimbra diz que pode até mesmo ser um tremendo mala, mas que não tenta cooptar os outros para sua “malice”. Então, pergunto: por que raios de motivos ele escreve? Pois toda vez que nos comunicamos, queremos que as pessoas saibam o que temos a dizer. E geralmente o objetivo é convencer quem pensa diferente a mudar de ideia (leia-se “pensar de forma semelhante a nós”). Ela pode ser convencida – ou não. E o texto do colunista da ZH não me convenceu.

Ou melhor, realmente me convenceu. Mas de forma contrária ao que ele defende. Ele quer um mundo “bovino”, em que as pessoas ajam como se estivessem numa manada, só se preocupem em se enquadrar no sistema que ele defende. Eu não quero. Se isso é ser “mala”, então eu sou “mala sem alça”, com orgulho.

E somos “malas” todos os que criticamos o status quo, justamente por que não deixamos os conformistas em paz. Eles acham um saco que alguém os questione. Então, que continuemos assim, sendo “malas”. E de preferência, “sem alça”, para que incomodemos ainda mais.

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No texto, David Coimbra também diz não ter ideologia. Nada pode ser mais ideológico: com essa, ele optou pela defesa do que está aí.

Não existe discurso sem ideologia

Causou certa repercussão a decisão do empresário Anton Karl Biedermann de deixar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Governo do Estado, por considerá-lo “ideologicamente comprometido”.

Não deixa de ser estranho: se Biedermann não compartilha da mesma ideologia do governo Tarso, por que foi convidado para integrar o “ideologicamente comprometido” CDES sem ter de fornecer “atestado ideológico”?  Mais: já que ele discorda do documento enviado aos integrantes do CDES que apresenta Porto Alegre como referência da luta contra o neoliberalismo (afirmação da qual discordo: Porto Alegre foi referência, não é mais), não é melhor participar e apresentar sua opinião?

A Zero Hora, claro, não podia deixar passar… E disse em seu editorial de hoje que foi “oportuno” o alerta de Biedermann, ao mesmo tempo que afirmou esperar dos integrantes do CDES que tenham discernimento para dialogar com o governo e também questionar “propostas anacrônicas”, principalmente as que refletirem “o radicalismo e o atraso denunciados pelo empresário”. (Ficou claro de que lado está a ZH, ou querem que eu desenhe?)

Não existe nenhum discurso que não reflita a maneira como seu autor (pessoa ou instituição) vê o mundo. Até mesmo uma fala considerada neutra, como a da moça da previsão do tempo na televisão: ela costuma definir um dia ensolarado como “tempo bom”, então quer dizer que há também o “ruim”, que obviamente é a chuva. Mas vá dizer isso aos moradores de Bagé, que há meses sofrem racionamento de água devido à estiagem… Para eles, no momento, “tempo bom” é justamente essa chuva que atinge o Rio Grande do Sul, mesmo que insuficiente para recuperar o nível das barragens.

Alguém pode pensar que uma previsão do tempo não é ideológica. Afinal, a palavra “ideologia” é costumeiramente associada à política partidária* e, principalmente, à esquerda (a “ideologia comunista”). Convém então explicar que ideologias são conjuntos de valores que norteiam a visão de mundo das pessoas e também de coletividades (desde um pequeno grupo, até o conjunto da sociedade). Ou seja, têm relação com a política partidária*, mas não se restringem a ela.

Obviamente que elas podem – e devem – ser contestadas. Como o próprio exemplo que citei, da previsão do tempo: dizer que um dia de sol é “tempo bom” (ou seja, aplicar um juízo de valor) é, sim, uma afirmação ideológica, já que reflete uma visão de mundo que valoriza as atividades de lazer ao ar livre, que é diferente do ponto de vista de um agricultor, que precisa de certa quantidade de chuva para não ter prejuízo. O fato de ser “senso comum” definir um dia ensolarado pela expressão “tempo bom” não a torna neutra.

Mas, óbvio, essa é a minha maneira de ver o mundo.

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* Ressalto a expressão “política partidária”, pois a política não se resume apenas a eleições e partidos. Uma simples troca de ideias já é um ato político.

Sinal de que estou ficando velho

Não bastasse o claro viés de direita que a Zero Hora dá às notícias que publica, agora aquela seção “Há 30 anos em ZH” lembra fatos acontecidos no ano em que eu nasci.

Pois é, preciso ir me acostumando com a ideia de que, a partir de 15 de outubro, sempre que perguntarem a minha idade a resposta não começará mais com “vinte”…

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30 é a metade de 60, e um terço de 90. Bacana, né?

A velha história da “indústria da multa”

Paulo Sant’Ana se superou em sua coluna de hoje na Zero Hora. O texto, com o título “A multa espúria”, defende abertamente a impunidade no trânsito (embora não use tal palavra). Afinal, o colunista reclama da instalação de novos “pardais” em Porto Alegre, e pior ainda, de que motoristas teriam sido multados por fazerem conversões sem sinalizarem antes.

Ora, se realmente a EPTC multou os que não deram o “pisca-pisca” antes de fazerem conversões, isso deve ser comemorado, e não criticado. Pois quem anda a pé sabe o suplício que é atravessar a rua em esquinas, sem saber se aquele carro que se aproxima sem sinalizar irá ou não dobrar.

Sant’Ana diz que o motorista pode “esquecer de sinalizar”. Sim, realmente ele pode esquecer. Mas depois de ser multado por isso, certamente irá lembrar sempre do “pisca-pisca”… A lei é clara: antes de converter, é obrigatório sinalizar, para alertar tanto os pedestres como os outros motoristas.

E quanto aos “pardais”, para não ser multado por eles nem é preciso “memória”: basta prestar atenção nas placas que indicam o limite de velocidade da via, e se o camarada “esquece” delas (distraído no volante, perigo constante!) ou não as enxerga porque são “pequenas demais” (se for teu caso, procura um oculista com urgência), há aquela bem grandinha que diz FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA, sempre com a indicação da velocidade máxima permitida. Como pela lei é obrigatória a instalação das placas indicativas dos “pardais”, podemos dizer que ela é benéfica aos maus motoristas, e mesmo com isso alguns “gênios” conseguem a façanha de serem multados.

Mas, é claro, ainda assim os “cidadãos de bem” reclamam. É aquela velha história da “indústria da multa” (detonada aqui, e também pelo Vinicius Duarte), o absurdo que obriga o cidadão habilitado a dirigir carros a fazê-lo de forma correta, respeitando as leis de trânsito, sem pôr em risco a integridade física de pedestres e outros motoristas, além da dele mesmo.

E a “grande mídia” obviamente os defende (afinal, eles são seus consumidores). O que também agrada às montadoras de automóveis que anunciam em tais veículos midiáticos: quanto mais vantagens para os carros, melhor para elas. E o pedestre, claro, que se exploda.

O risco da “grande mídia”

Como já disse várias vezes aqui, voto em Plínio de Arruda Sampaio para presidente. O que não quer dizer que não preste atenção em como a “grande mídia” faz campanha contra a candidata petista, Dilma Rousseff. Pintam-na como se fosse “uma ameaça à democracia” – quando vejo justamente a “grande mídia” como o maior perigo às instituições democráticas. E não é paranoia minha: Bourdieu disse isso sobre a televisão (até acho que podemos estender à “grande mídia” em geral).

De fato, penso que a televisão, através dos diferentes mecanismos que me esforço por descrever de maneira rápida – uma análise aprofundada e sistemática teria exigido muito mais tempo -, expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito; creio mesmo que, ao contrário do que pensam e dizem, sem dúvida com toda a boa-fé, os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades, ela expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia. (BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 9-10.)

Na sequência, Bourdieu lembra um episódio acontecido em 1995-1996, quando Grécia e Turquia quase entraram em guerra por duas pequenas ilhas, com rádios e televisões privadas de ambos os países “pondo mais lenha na fogueira” com suas incitações nacionalistas.

No caso do Brasil, a “grande mídia”, embora se diga “imparcial” (e obviamente eu acredito, assim como em Papai Noel, Coelho da Páscoa etc.), tenta de tudo que é jeito dar uma levantada em seu candidato, José Serra (PSDB), que anda por baixo nas pesquisas. Claro que pesquisa não é igual ao voto na urna, mas é difícil imaginar que, com Lula explicitamente apoiando Dilma, a popularidade do presidente não resulte na vitória da petista – no Chile, a ex-presidente Michelle Bachelet praticamente não participou da campanha de Eduardo Frei, e assim o oposicionista Sebastián Piñera venceu.

Assim, agora vemos a “grande mídia” martelando o caso da violação de sigilo bancário da filha de Serra; aqui no Rio Grande do Sul aconteceu algo parecido, mas nem a Zero Hora fala muito – afinal, aqui a acusação recai sobre um tucano, e não sobre um petista. E também batendo em Dilma, nas entrelinhas ou abertamente.

Isso vai dar certo? Só as urnas dirão. Mas é certo que a “grande mídia” sofrerá uma das maiores humilhações de sua história se Dilma vencer no primeiro turno, como indicam as pesquisas.

Mais usinas nucleares?

Passando os olhos pela Zero Hora de ontem, notei a pequena matéria na página 22, que falava sobre a “necessidade” do Brasil construir quatro usinas nucleares até 2030, com potencial de mil megawatts cada. Inclusive, o Rio Grande do Sul é um dos Estados onde poderia ser construída uma das usinas.

É inacreditável. Ainda mais na mesma semana em que lemos notícias sobre a preocupação dos russos com os incêndios florestais que assolam seu país – o fogo atinge regiões que foram afetadas pelo desastre da usina nuclear de Chernobyl, em 1986, que contaminou o solo em partes da Ucrânia (onde se localiza a usina), da Bielorrúsia e da Rússia, que na época eram repúblicas da União Soviética. Há o temor que partículas radioativas sejam liberadas para o ar devido à queima do solo.

Todas as áreas afetadas pela radiação hoje são inabitáveis (embora algumas poucas pessoas idosas ainda lá morem por não desejarem morrer longe de onde sempre viveram), e continuarão assim por séculos, sendo necessária autorização para ingressar nelas. Pripyat, cidade mais próxima da usina, tornou-se uma “cidade-fantasma”, que até pode ser visitada, mas com muito cuidado, pois se há locais “seguros”, andando-se poucos metros a radiação pode atingir níveis perigosos.

É difícil compreender como que, depois do desastre de Chernobyl, ainda se pense em construir novas usinas nucleares, quando o ideal seria fechar as que já existem, já que são conhecidos os perigos da radiação (que tem inclusive um “exemplo” brasileiro: a contaminação de várias áreas em Goiânia por césio-137, em 1987). Por que não se investir nas “energias limpas”, como a eólica e a solar? Ainda mais no Brasil, que é um país privilegiado neste caso: o litoral brasileiro (mais de 7 mil quilômetros) tem bastante vento; e a maioria do território nacional encontra-se na zona tropical, que é a região do planeta onde a insolação é maior.

Mas, claro, certamente os nossos “progressistas” devem desejar muito a construção de uma usina nuclear no Rio Grande do Sul – e o mesmo vale para outros Estados. Afinal, será a chance de ser notícia no mundo todo, caso aquela coisa exploda como Chernobyl.

Pérola histórica

O editorial publicado pela Zero Hora ontem é daqueles dignos de serem guardados. Não por ser um texto de grande qualidade, e sim, pelo verdadeiro festival de bobagens. Mas de objetivo muito claro: atacar o debate democrático que é feito na internet – e que ajuda a diminuir a credibilidade da chamada “grande mídia”.

Há uma crítica às opiniões muito extremadas (até aí, tudo bem), mas o termo usado no título é o pra lá de conhecido “radicalismo”. Basta abrir o dicionário para saber que chamar alguém assim não é xingar, e sim elogiar: afinal, “radical” é quem ataca o problema pela raiz.

Mas no corpo do texto, o jornal viaja de vez. Chega a falar que a internet é um ambiente “tendencioso” e que por isso lá impera a falta de credibilidade. Bem diferente, claro, das páginas da Zero Hora.

O que é o medo do verdadeiro debate democrático…

Leia mais no Jornalismo B.

Palmadas

Duas ótimas charges do Kayser:

Para quem não entendeu a primeira charge: uns anos atrás, a RBS lançou uma campanha institucional contra maus tratos a crianças, cuja “frase de ordem” era justamente “maltratar as criancinhas é coisa que não se faz”.

Campanhas, aliás, que só têm um propósito: enganar, e vender mais jornal. Pois elas são papo furado para boi dormir.