O Itaquerão não me representa

E não é por ser o estádio do Corinthians (afinal, sou gremista).

O que não me representa são os xingamentos, com direito a palavrões, contra a presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo. O governo dela merece muitas críticas, mas as minhas não são as mesmas daqueles que pagaram caro por um ingresso para o jogo e fizeram o Brasil sentir vergonha. Talvez seja fruto das camisas “contra o Brasil atrasado” que eles andam comprando: resolveram demonstrar o tal “atraso” dando um espetáculo de incivilidade para as câmeras que transmitiam a partida para o mundo inteiro. Só que eles não me representam, da mesma maneira que não representam muitos milhões de brasileiros ditos “sem educação” (na verdade, que não têm dinheiro para pagar colégios caros e comprar roupas de marca) que certamente não fariam aquilo.

Dentre as críticas que tenho ao governo Dilma se encontra o que aconteceu com o futebol brasileiro em consequência da Copa do Mundo de 2014 – trazida ao Brasil por Lula, de cujo governo o atual representa a continuidade. Quando o país foi designado como sede, nenhum estádio brasileiro atendia ao chamado “padrão FIFA”, exigido para partidas do Mundial. Nos seis anos e meio que se seguiram, sete “arenas” foram construídas “do zero” e outros cinco estádios já existentes foram totalmente reformados para se adequarem às exigências da FIFA. São canchas modernas, confortáveis… Mas de ingressos caríssimos. E assim o estádio de futebol deixou de ser um ambiente onde havia convívio entre diversas classes sociais: não se vê mais povo na arquibancada.

Aqueles que odeiam a diversidade do Brasil agora não precisam mais conviver com o povo no estádio. Deveriam agradecer aos governantes. Mas não: reclamaram da “roubalheira da Copa”, para depois pagarem ingresso e ofender Dilma. Provaram que, além de mal-educados, são ingratos.


Um exemplo pessoal que sempre lembro em ocasiões como estas, em que uma horda dá um show de incivilidade. Quando eu tinha por volta de 12 anos, meu pai me levou ao Desfile Farroupilha. Na época o Rio Grande do Sul era governado por Alceu Collares, que era muito criticado – inclusive pelo meu pai.

Quando foi anunciada a chegada de Collares, meu pai se levantou e aplaudiu. Acostumado a vê-lo criticando o governo, estranhei, e ele me explicou: aquele evento era para homenagear o Rio Grande do Sul e não para vaiar o governador que, gostássemos ou não dele, tinha sido eleito democraticamente. Apupá-lo naquele momento seria desrespeitar o povo gaúcho.

Mas não é de estranhar que a elite apupe ou xingue governantes – em especial, que não foram eleitos com os votos dela – em ocasiões inadequadas. Afinal de contas, o que ela mais odeia é o povo.

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Não será o suficiente para uma cassação?

Ontem, novamente a reunião da ex-Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (o prefixo “ex” se justifica pela Comissão ser comandada por alguém contrário a seus objetivos) foi marcada por manifestações contra seu presidente, Marco Feliciano, que irritado com os protestos, abandonou a sessão. Também chamou a atenção o destempero verbal de Jair Bolsonaro (o que ele fazia lá se também é totalmente contra direitos humanos e minorias?), que xingou os manifestantes com palavras de baixo calão.

Me pergunto: será que, finalmente, não é chegada a hora de se cassar o mandato de Bolsonaro? Como deputado, ele deveria zelar pelo decoro parlamentar, ou seja, adotar conduta exemplar. Se os manifestantes o xingaram com palavras de baixo calão (segundo eles, após ouvirem ofensas por parte de Bolsonaro), o deputado é que deveria se portar de maneira a servir de modelo, como “representante” que é (sim, os absurdos que ele diz representam muita gente, tanto que só cassar seu mandato não resolve o problema).

“Isso é coisa de petista blá blá blá”, diz o “comentarista de portal”. Porém, é bom lembrar que foi o mesmo Jair Bolsonaro que, em 1999, defendeu o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Juro que não consigo entender como um deputado que pregou o magnicídio (assassinato do Presidente da República) não teve seu mandato cassado.

Mil cruzados

Ano passado, após aquele histórico Grêmio x Flamengo, Ronaldinho minimizou os xingamentos da torcida gremista contra ele, dizendo que “era nada perto do barulho feito pela torcida do Mengão“. Mas, ao gritar palavrões após a (merecida, diga-se de passagem) vitória do Atlético-MG por 1 a 0 no Olímpico, ele demonstrou que os apupos o incomodam muito.

Eu era a favor de não vaiarmos Ronaldinho com a mesma belicosidade do ano passado (e de fato, não URREI igual àquele 30 de outubro): ele era apenas mais um adversário no início da noite de domingo. Só que, como o torcedor costuma ser passional, os xingamentos aconteceram – com menor intensidade em relação ao ano passado, mas ainda assim houve muitas vaias e gritos de “pilantra”. E no fim a atitude da torcida gremista acabou sendo de grande utilidade: ao causar a reação do jogador, provou que eu estava errado e que ele merece, sim, ser rejeitado por nós.

Não me darei ao trabalho de secar o Atlético-MG por conta de Ronaldinho (aliás, nunca tive antipatia alguma pelo Galo, e não seria esse jogador que me faria mudar de ideia). Nem ficarei pregando perseguição ao ex-gremista, boicote a produtos que o utilizem como garoto-propaganda (se for coisa ruim, não precisa de um Ronaldinho para que eu não compre). Melhor me preocupar com o Grêmio.

Mas, o certo é que na próxima vez que ele vier a Porto Alegre enfrentar o Tricolor, levarei na carteira uma nota de mil cruzados.

Deixem Ronaldinho pra lá

Amanhã o Grêmio enfrenta o Atlético-MG no Estádio Olímpico, no estúpido horário das 18h30min (futebol aos domingos tem de ser às 16h – exceto no verão, claro – para depois do jogo o torcedor poder ficar um pouco no bar tomando uma cervejinha sem se preocupar com a segunda-feira cada vez mais próxima). Será também a segunda (e última) vez que Ronaldinho jogará no Olímpico como visitante: teria sido semana passada, não fosse sua saída do Flamengo e a posterior ida para o Galo.

Ao longo dessa semana já vi gente procurando fazer mobilização contra Ronaldinho. Muitos sugerindo que aquelas faixas onde se lia “PILANTRA” fossem novamente levadas ao Olímpico.

Minha opinião sobre Ronaldinho não mudou “nem um milímetro”. Mas acho que já é hora de deixá-lo em seu devido lugar: no passado. Nós o xingamos uma barbaridade naquele 30 de outubro, foi nosso “descarrego”. Um dia antes do jogo eu já defendia:

Mas o fundamental é que o 30 de outubro de 2011 represente exatamente isso: o fim definitivo da mágoa. Depois, é preciso virar a página. Ronaldinho não será esquecido, mas não pode continuar a ter tamanha importância para nós.

Confesso que exagerei ao dizer que deveria ser “o fim definitivo da mágoa”, pois é difícil esquecer os janeiros de 2001 e 2011. Como disse o Igor Natusch, uma traição machuca tanto que ninguém esquece, jamais perdoa plenamente; e muitos chegam a desacreditar do amor para sempre. Só que não dá para passar o resto da vida odiando tanto alguém: ficar remoendo a mágoa contra uma pessoa que já foi amada só nos deixa mais amargos, e impede que vivamos experiências bem melhores.

Sem contar que muitas vezes a vida nos prega peças. Certa vez uma moça me “sacaneou” a ponto de eu a “apelidar” de “Ronaldinha”, tamanha a raiva que senti dela. Hoje penso até mesmo em lhe mandar flores para agradecer por isso: ela, que se dizia de esquerda naquela época, “pulou a cerca” para o outro lado do espectro político e assim não teria como não entrar em conflito comigo.

Já Ronaldinho, ao optar pelo Flamengo, salvou o Grêmio de uma dívida enorme… Tanto que o Guga Türck já decidiu: amanhã, irá aplaudir o camisa 49 do Atlético-MG. Não chegarei a tal ponto, mas a nota de mil cruzados que levei ao Olímpico em outubro do ano passado, desta vez ficará em casa. Vaiarei Ronaldinho, mas apenas como costumo fazer com um adversário qualquer.

A melhor contratação recente do Grêmio

Por incrível que pareça, é um jogador que não vestiu a camisa tricolor, e sim a do Flamengo. Trata-se de Ronaldinho, que obteve via Justiça do Trabalho o direito de negociar com outro clube, embora o Fla ainda vá recorrer da decisão judicial. E como se não bastasse, ele ainda cobra R$ 40 milhões de seu agora ex-clube.

Embora nós gremistas tenhamos ficado revoltados no começo do ano passado, no fundo também havia uma certeza: a de que tínhamos nos livrado de uma “bomba-relógio” que “mandaria pelos ares” as finanças gremistas. Só lembrar o que escrevi no dia da entrevista coletiva que parecia indicar para onde Ronaldinho iria:

O anúncio era simplesmente que ainda não havia a definição sobre qual clube brasileiro seria o destino de Ronaldinho… Mas para mim algo ficou óbvio com essa palhaçada: se as possibilidades são apenas Flamengo, Grêmio ou Palmeiras (já falaram que o Corinthians também teria feito uma proposta pelo jogador), quer dizer que de três clubes, dois estão sendo enrolados; e quem contratar Ronaldinho, não gastará pouco.

Imaginava-se que a contratação de Ronaldinho “se pagaria” com a exploração comercial de sua imagem. Grêmio, Palmeiras e Flamengo estavam decididos a correr o risco; o Fla “ganhou” e levou.

Em 12 de janeiro de 2011, o jogador foi apresentado na Gávea, com uma grande festa. Diante da torcida que lotava o campo, Ronaldinho disse a frase que virou piada: “E agora eu sou Mengão”.

Neste quase um ano e meio vestindo a camisa rubro-negra, Ronaldinho teve alguns lampejos de craque, como naquele jogaço contra o Santos, em julho do ano passado – momento em que ele era o artilheiro do Campeonato Brasileiro e o Flamengo, candidato ao título e único invicto na competição. Mas no restante de 2011 as coisas desandaram: o Fla acabou o campeonato apenas na 4ª colocação, conseguindo assim uma vaga na Pré-Libertadores; já um dos “lances” mais comentados de Ronaldinho foi um “gol” que ele teria marcado “com a mão”… O jogador fechava seu primeiro ano no clube tendo conquistado apenas um título, o Campeonato Carioca. Além da não tão honrosa condição de ser um dos atletas mais xingados em uma partida de futebol, quando o Flamengo veio a Porto Alegre jogar contra o Grêmio no Olímpico, em outubro do ano passado. (Para “homenagear” Ronaldinho levei ao estádio uma nota de MIL CRUZADOS, sem valor desde 1990.)

Em 2012, o Flamengo continuou “uma zona”: foi eliminado da Libertadores na primeira fase e não chegou à decisão do Carioca. E Ronaldinho provou ser um péssimo negócio, já que o esperado “retorno financeiro” de sua contratação não veio – como seria de se esperar de um jogador que parece mais comprometido com a noite do que com o futebol. Não à toa, agora ele é xingado pela mesma torcida que há um ano e cinco meses ia ao delírio por sua chegada.

E agora, ele está liberado para negociar com outro clube. Uma pergunta é óbvia: dado o histórico recente de Ronaldinho, algum clube brasileiro cometeria a insanidade de tentar contratá-lo?