A democracia não é uma tradição russa

Na sexta-feira, a justiça russa condenou as três integrantes da banda punk Pussy Riot a dois anos de prisão por “vandalismo motivado por ódio religioso”. Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich foram ao tribunal por terem protestado contra o então primeiro-ministro (e agora presidente) Vladimir Putin no altar da catedral Cristo Salvador, maior igreja ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, em fevereiro. Mais do que um protesto contra Putin, foi também contra o patriarca da igreja, que usava sua posição para pedir votos ao atual presidente na última eleição (marcada por denúncias de fraude, recorrentes nos processos eleitorais russos).

Foi um julgamento que esteve bem longe de ser justo. Enquanto todas as testemunhas de acusação foram interrogadas, o mesmo foi feito com apenas três das treze de defesa. O advogado Nicolay Polozov, que defendeu as integrantes da Pussy Riot, foi taxativo: “Mesmo nos tempos soviéticos, nos tempos de Stalin, os julgamentos eram mais honestos do que esse”. Uma das integrantes do grupo, Yekaterina Samutsevich, disse mais: “Estou considerando isso como o início de uma campanha autoritária e repressiva do governo que procura dificultar a atividade política e criar um sentimento de medo entre os ativistas políticos”.

Surpresa diante disso? Sinceramente, só é possível caso não se conheça nada da história russa. Pois trata-se de um país onde “democracia” é apenas uma palavra no dicionário. E não me refiro simplesmente à época da autocracia czarista, nem aos 74 anos de regime soviético (onde podemos destacar em matéria de crueldade a longa ditadura de Josef Stalin). Pois mesmo na era pós-soviética, que diziam ser a da “democratização” da Rússia, não faltaram lembranças da forma como sempre funcionou a política russa: baseada no autoritarismo. Inclusive foi desta forma que se implantou o neoliberalismo por lá, sob o comando do presidente Boris Yeltsin.

Após o fim da União Soviética em dezembro de 1991, o nível de vida dos russos, que já vinha despencado nos últimos anos da URSS, caiu ainda mais drasticamente, aumentando a insatisfação popular. E além disso, Yeltsin tinha no parlamento um forte adversário à consolidação de seu poder: eleito ainda sob o regime soviético e dominado pelos comunistas, o legislativo russo impedia o prosseguimento do programa de reformas neoliberais (com direito à venda das antigas estatais soviéticas “a preço de banana”). A saída de Yeltsin foi violar a Constituição vigente com a dissolução do parlamento em 21 de setembro de 1993, de modo a acabar com a oposição.

A revolta que se seguiu ao golpe produziu os piores conflitos de rua em Moscou desde a Revolução de 1917 e resultou em mais de cem mortos. O exército tomou o partido do presidente e em 4 de outubro bombardeou o prédio do parlamento, defronte ao qual o próprio Boris Yeltsin liderara a resistência ao fracassado golpe da “linha dura” comunista contra Mikhail Gorbachev em agosto de 1991.

Detalhe importante: o mesmo Ocidente que hoje em dia denuncia (embora não sem razão) o crescente autoritarismo na Rússia de Putin, não fez o mesmo em 1993. Muito antes pelo contrário: o golpe de Yeltsin foi apoiado pelos principais líderes ocidentais, que chegaram a dizer que o presidente russo agia pela democracia. Aí reparo no fato de que Yeltsin, ao contrário de Putin, era um aliado do Ocidente, e percebo não ser mera coincidência a semelhança de discursos “democratas” entre os golpistas (incluídos os apoiadores estrangeiros) de 1993 na Rússia e de 1964 no Brasil.

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O hino nacional mais bonito

No final da tarde da segunda-feira, antes da aula, o papo com os colegas tomou a direção dos hinos nacionais.

Era meio que “indiscutível” a admiração pelo hino nacional da França – a famosa Marselhesa. Também acho que o hino brasileiro é bonito, assim como o do Rio Grande do Sul.

Mas na minha opinião, nenhum ganha do hino nacional da Rússia. Talvez a minha adoração pelo frio influencie, mas procuro esquecer o gelo do inverno russo e continuo achando que eles têm o hino nacional¹ mais bonito de todos.

E a história da adoção do atual hino – que tem a mesma melodia do antigo hino da União Soviética, mas a letra modificada² – é no mínimo curiosa. Tem a ver com… Futebol!

Após o colapso da URSS, em 1991, a então recém-nascida Federação Russa adotou como hino uma música sem letra. Os jogadores da seleção de futebol pediram ao governo que o hino tivesse uma letra para ser cantada: eles afirmavam que o fato de apenas ouvirem o hino da Rússia enquanto os adversários cantavam músicas que exaltavam o patriotismo fazia com que o time russo já entrasse em campo perdendo. Chegou a ser feito um concurso para a adoção de uma letra, mas em 2000 o presidente Vladimir Putin decidiu restaurar o antigo hino soviético, apenas modificando a letra.

Não sei como postar uma música aqui, então recomendo esta página, que tem inúmeras versões dos hinos russos, da era tzarista à atualidade. Baixando o hino atual e o adotado entre 1991 e 2000, percebe-se que Putin tomou uma excelente decisão.

Só é uma pena que a seleção russa continue perdendo. Pelo visto, o problema deles não é hino…

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¹ Se eu falasse simplesmente em “hinos”, obviamente que ganharia o do Grêmio…

² O antigo hino soviético tem trechos de sua letra que falam sobre “a vitória comunista”, o que não combina com a atualidade russa.