Há 15 anos eu entrava na História

Tanto tenho criticado o Facebook, e eis que ele me ajudou a reparar em uma importante efeméride. Na seção “neste dia” apareceu que cinco anos atrás lembrei o décimo aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ou seja, hoje faz 15 anos daquele 16 de janeiro de 2004, uma das sextas-feiras com mais cara de sexta-feira que já tive.

Fiz uma captura de tela que postei no Instagram, um dos meus ex-colegas relembrou os tempos em que ler pilhas e pilhas de textos e bater um papo regado a (muito) café nos intervalos era parte do nosso dia-a-dia. Então reparei que no final de 2019 fará 10 anos que concluí o curso de História.

Saudades? Não posso dizer que não sinto nenhuma. Foram seis anos de muito aprendizado na faculdade, ainda que profissionalmente eu não tenha seguido na minha área de formação e no momento nem cogite isso – por enquanto, não acho que valha a pena.

Mas algo que aprendi na História é justamente que ela “não volta”, ao contrário de muitas pessoas que acreditam em um “eterno retorno” de líderes, reis e messias. Já ouvi amigos dizerem que gostariam de ter 16 anos com a mesma cabeça que têm aos 36, o problema é que isso é impossível: o que somos e pensamos hoje foi moldado ao longo de nossa existência, fruto da experiência obtida com acertos e – principalmente – erros cometidos durante a caminhada.

Como diz o ditado popular, “o que passou, passou”. Mesmo que o mundo de forma geral fosse melhor em 2009 do que é agora em 2019, não há como voltar atrás: é melhor procurar entender os motivos pelos quais ele piorou nestes últimos 10 anos. Aliás, é justamente por isso que a História é tão importante e não pode ser negligenciada como os donos do poder querem que aconteça.

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Quando sai o listão

Uma bobagem na qual muitas pessoas acreditam é aquela história de que existe “idade certa” para tudo. São vidas que, caso sigam tal “roteiro”, tornam-se tão previsíveis a ponto de serem um verdadeiro tédio.

Ainda assim, mesmo não dando bola para as “idades certas”, somos influenciados por elas. Pois muitos amigos acabam seguindo o “roteiro”, mesmo que algumas vezes por “linhas tortas”.

Um bom exemplo é o vestibular. Em geral, fazemos a prova logo após terminar o Ensino Médio, o que, caso “corra tudo bem”, acontece por volta dos 18 anos de idade – ou seja, justamente quando se atinge a maioridade, reforçando o caráter de “rito de passagem”. Mas passar é outra história, visto que não há lugar para todos. “De primeira”, então, não é a regra – embora haja a exigência.

Porém, passando ou não “de primeira”, a lista de aprovados no vestibular é aguardada por mais anos além daqueles que participamos. Pois também queremos saber se nossos amigos passaram – e nem todos conseguem o ingresso no mesmo ano. Às vezes vem antes do nosso, às vezes depois.

Então percebe-se um fato interessante: em certas fases de nossas vidas, o listão é cercado de expectativa, tenhamos ou não prestado o vestibular. Comigo, especificamente, foi de 2000 a 2006, muito embora alguns amigos e parentes tenham feito vestibular antes. No primeiro ano da série, além de meu próprio nome na lista da UFRGS (quando ingressei no curso de Física), estava o de vários amigos, em especial do colégio. Mas nem todos passaram “de primeira”, e assim em janeiro de 2001 voltou a expectativa; o mesmo aconteceu em 2002.

Em 2003, boa parte dos meus amigos já estava na faculdade, e assim “restavam poucos” na luta para passar no vestibular da UFRGS. Porém, após largar a Física concorri a uma vaga no curso de Direito, apenas para “treinar” com vistas a 2004. E por isso o “treino” não resultou em aprovação, o que teria acontecido caso a opção fosse História; mas não achei ruim, pois assim não ingressei sem convicção de que era a escolha certa: tenho certeza de que caso a vaga viesse em 2003, na primeira dificuldade largaria o curso. (Ainda mais que os primeiros semestres são os mais difíceis.)

Um ano depois, veio a segunda (e última) aprovação no vestibular da UFRGS. No dia 16 de janeiro de 2004, lá estava meu nome no listão. A essa altura, alguns amigos já se formavam em seus cursos, mas como bem disse, não existe idade certa para as coisas: mais valia recomeçar do que persistir em uma escolha que considerava errada.

Em 2005 e 2006, foram as vezes do meu irmão prestar vestibular: no primeiro ele tentou Jornalismo, no segundo passou para Geografia. Mas, dali em diante, passaram a se suceder formaturas, não expectativas por listões.

A “ficha caiu”, porém, recentemente. E em “dois tempos”. O primeiro foi quando me perguntaram se não sabia de alguém que estivesse no Ensino Médio e que estivesse procurando estágio. Então reparei: não conhecia ninguém. Afinal, a maior parte dos meus amigos concluiu o Ensino Médio há mais de 10 anos.

E hoje, foi a vez do listão da UFRGS de 2014. Bateu uma nostalgia, visto que meu último vestibular foi há 10 anos. E então reparei: a última vez que o vestibular me causou alguma expectativa foi em 2006, quando meu irmão passou. Oito anos atrás, portanto. E ele se formou no final de 2010…

Ou seja, seguindo ou não a norma não-escrita da “idade certa” no âmbito pessoal, ainda assim somos influenciados por ela: a fase de olhar o listão para procurar o nome dos amigos já é passado. E mesmo a fase das formaturas também já podemos dizer que passou. Quer mais claro sinal de estar ficando velho que não saber de ninguém que esteja na expectativa (seja amigos ou filhos de amigos) pelo vestibular?

A redação da UFRGS

Este janeiro de 2014 marca o 10º aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ver aquele monte de estudantes na frente de colégios me faz sentir um misto de alívio e saudosismo: o primeiro por ter superado tal etapa (por mais que muitas vezes durante a faculdade pensemos que no vestibular “éramos felizes e não sabíamos”, trata-se de um autêntico “rito de passagem”, com suas incertezas e angústias), e o segundo por conta da vontade de recomeçar, ingressar em uma nova fase, assim como aconteceu 10 anos atrás.

Dentre os fatores que geram ansiedade no vestibulando, um deles é, sem dúvidas, a redação. Pois, quando estudamos, nos preparamos para responder às provas objetivas por meio de exercícios que não nos dizem exatamente o que cairá no vestibular, mas já “dão uma pista”. Já com a redação, acontece algo diferente: escrevemos várias, sobre diversos temas, com o objetivo de estarmos preparados; e isso de fato nos ajuda a aumentar nossa capacidade argumentativa – o que é realmente avaliado em uma dissertação. Porém, só sabemos sobre o que teremos de escrever na hora que abrimos a prova.

Claro que podemos ter algumas “pistas”, em alguns casos. Meu primeiro vestibular foi o da PUCRS: no dia 4 de janeiro de 2000, enfrentei um longo congestionamento (mas cheguei a tempo!) para fazer a prova de língua portuguesa; ao final, lá estava a “questão de redação” (como era chamada). A universidade propunha três temas, todos ligados a assuntos que tinham sido noticiados na imprensa; um deles dizia respeito às celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, que seriam completados meses mais tarde. Não tenho o esboço do texto (não recordo se a folha de rascunho precisava ser entregue com a prova ou se perdi), e por isso não lembro qual tema escolhi, mas uma certeza tenho: achei mais difícil escrever a redação da PUCRS que a da UFRGS, cujo vestibular começaria dentro de alguns dias.

A principal diferença consistia no tipo de tema. Enquanto a PUCRS costumava propôr assuntos noticiados na imprensa, a UFRGS optava por temas mais “subjetivos”, como ética, amor, esperança etc. Algo que, aliás, ainda acontece: o tema de 2014 foi o livro considerado “clássico” pelo candidato. Assim, por um lado ela é mais “imprevisível” (afinal, não é possível dar “palpites” quanto ao tema com base em “assuntos do momento”), mas por outro, escrever sobre coisas “subjetivas” aos 17 anos de idade me parece mais fácil do que, por exemplo, dissertar sobre o povo brasileiro. E como no vestibular da UFRGS o rascunho da redação é escrito no caderno de prova (que o candidato leva para casa no dia seguinte), é possível reler, anos depois, o que escrevemos naquele dia.

Quantas vezes não lemos textos escritos por nós mesmos há muitos anos e praticamente “não nos reconhecemos” neles? Pois bem: foi exatamente isso, estranhamento, que senti ao reler os rascunhos das redações escritas em três vestibulares prestados na UFRGS (2000, 2003 e 2004). Por motivos óbvios, elas não são os melhor textos de nossas vidas; mas, ainda assim, são verdadeiros “documentos históricos” acerca do que pensamos na época em que escrevemos. Por meio dela, podemos ter noção de nossa mentalidade de 10, 15 anos atrás.

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Cotas, sim!

Na última quinta-feira, o STF tomou uma histórica decisão, ao definir que as cotas “raciais” em universidades não são inconstitucionais. Pois embora todos os humanos formem apenas uma raça (daí o uso de aspas em “raciais”), muita gente ainda acredita que a humanidade se divida em diferentes raças. E pior ainda: tem o costume de achar que as pessoas de pele branca são superiores.

Já fui crítico à adoção de cotas com base na cor da pele dos candidatos à vaga nas universidades. Achava que o critério mais justo seria o de renda, pois isso também beneficiaria a população negra – que em sua maioria é pobre, uma herança da escravidão. Também me baseava em uma exceção – negros de classe média, que tinham condições de pagar por uma escola particular, além dos caríssimos cursinhos pré-vestibular – para defender que os brancos pobres seriam prejudicados.

Minha visão não podia ser mais errada. Primeiro, porque a comprovação de renda poderia ser facilmente fraudada. E em segundo lugar, as políticas de ação afirmativa, pelo menos como foram adotadas na UFRGS, não prejudicam os brancos pobres. Afinal, as cotas não são simplesmente para negros e indígenas, mas sim, em primeiro lugar, para estudantes vindos de escolas públicas, que tradicionalmente têm desvantagem em comparação com os alunos de colégios particulares. Das vagas reservadas a quem cursou o Ensino Médio numa escola pública, metade é destinada a candidatos negros – ou seja, eles perdem o direito a concorrer pelas cotas caso tenham estudado em colégio particular.

Aí o leitor pode vir com um argumento muito válido, mas que não considero adequado: “mas o governo tinha é de melhorar o ensino público ao invés de ficar dando cota”. Concordo que as escolas públicas estão de chorar, só que isso não se resolve de uma hora para outra. Obviamente as cotas não acabam com o problema (aliás, quem dera fosse fácil solucioná-lo). Mas são uma maneira de enfrentar o preconceito.

Afinal, a má qualidade do ensino nas escolas públicas faz com que a universidade não reflita a diversidade da sociedade brasileira – ou seja, não há convivência entre os diferentes, tão necessária para que eles se conheçam e assim haja menos preconceito. Nas escolas particulares, com raros alunos negros, é que isso não acontece; já nas públicas sim, o problema era que os alunos de escolas públicas dificilmente conseguiam chegar à universidade.

Com as cotas, eles conseguem – mesmo que ainda sejam poucas as vagas reservadas. E numa prova de que desempenho no vestibular não quer dizer nada, os alunos cotistas não só têm se saído melhor em muitos cursos, como também desistem menos. Ou seja, valorizam mais a oportunidade que têm.

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Já prevejo a alta probabilidade de aparecer alguém para dizer que já estou formado, não preciso mais me preocupar que minha vaga na faculdade seja “roubada”, dentre outras idiotices. Pois respondo antes mesmo de vir um comentário tosco desses: graças às cotas, muitas famílias não precisam pagar caro para pôr seus filhos – sejam eles brancos ou negros – em colégios particulares.

Houve uma vez uma noite de Ano Novo…

Há 10 anos, o mundo estava em um quase êxtase. Era a chegada do ano 2000. Nada simbolizava tanto o “futuro” quanto este número tão “redondo”.

Mesmo nos anos 80, a ideia que eu tinha do mundo do ano 2000 era de um lugar onde os carros voavam e as pessoas usavam roupas esquisitas, tipo nos desenhos dos Jetsons.

Inclusive lembro de um diálogo com o meu pai no dia do aniversário dele em 1999 (ou seja, 31 de dezembro!). Falávamos sobre o ano 2000, que finalmente chegava, e eu lembrava a visão inspirada nos filmes que eu tinha da data: “Pois é, e os carros não estão voando” (apesar de alguns motoristas doidos tentarem isso até a morte – literalmente).

No dia 31 de dezembro de 1999, a televisão passou o dia mostrando imagens da entrada do ano 2000 em diversas partes do mundo. E, claro, não terminava nunca aquela discussão sobre o final do século XX (e do milênio).

E o “bug do milênio”? Havia todo aquele temor quanto às falhas nos computadores na virada do ano, que levariam o mundo ao caos. Inclusive dizia-se que os sistemas de controle das armas nucleares russas seriam muito defasados, e que a partir da meia-noite de 1º de janeiro de 2000 as ogivas nucleares simplesmente se disparariam, acabando com o mundo. Claro que nada disso aconteceu, pois estamos todos aqui…

Esperei a entrada na Usina do Gasômetro. Chovia em Porto Alegre, senti frio por estar molhado e precisei comprar uma capa de chuva. E não chegava nunca meia-noite: não era culpa da expectativa, e sim, dos “excelentes” shows musicais daquela noite… À meia-noite, aconteceu algo comum na vida de um gremista: um foguetório comemorativo. Era o “futuro” chegando.

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O “ano do futuro” não foi tão maravilhoso como se esperava. Nem no âmbito pessoal. Já em janeiro, passei no vestibular para Física na UFRGS: eu largaria o curso dois anos depois, mas fiquei feliz, é claro. Só que o primeiro ano foi desastroso: nas poucas cadeiras nas quais fui aprovado, o conceito foi “C”, ou seja, “suficiente para passar”. Mesmo assim, em nenhum momento de 2000 eu pensei em abandonar o curso (em 2001 eu pensaria nisso pela primeira vez, embora brevemente).

Mas o mais incrível de tudo é perceber que o “futuro” já se encontra 10 anos atrás. Quando estivermos entrando em 2020, o que falaremos dos dias de hoje (e também dos de 10 anos atrás, que lá serão “20 anos atrás”)? E, se o assunto é “futuro”, estará o mundo de daqui a 10 anos semelhante ao do filme Soylent Green, que se passa em 2022?

Não basta “torcer para que não esteja”, e sim, é preciso que também façamos a nossa parte, procurando evitar desperdício de comida, água e energia, consumindo somente o realmente necessário, caminhando mais e andando menos de carro (gastar gasolina para andar duas quadras sozinho é o cúmulo – e o motorista engorda e não sabe por quê…). Quem não age assim, que tal começar em 2010?

Afinal, o “futuro perfeito” que eu acreditava ser o ano 2000, além de já ser passado, também é irreal. O futuro – seja bom ou ruim – será consequência de nossos atos hoje.

E se muito do que desejamos parece impossível, a ponto de nos desmotivar… Passo a palavra a Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

A todos os leitores do Cão Uivador, um grande abraço e FELIZ 2010!

O gabinete me conquistou

Assisti na tarde da quinta-feira à formatura em gabinete de alunos do IFCH da UFRGS, dentre eles meu amigo Renan, que concluiu sua graduação em Filosofia. E, definitivamente, tal formato me conquistou.

As únicas coisas que fazem lembrar uma formatura tradicional são o fato de haver juramento e a entrega de um canudo – que não é o diploma, diga-se de passagem. (O que significa que cerimônia de formatura não serve para nada!)

Foi uma formatura extremamente rápida: o primeiro a ser chamado em cada ênfase de cada curso do IFCH (Filosofia, História e Ciências Sociais) fazia o juramento, pegava o canudo e passava a vez para o seguinte, que pegava o canudo e passava a vez para o próximo… Não há um monte de discursos, agradecimentos, como acontece no palco (onde há formandos que chegam ao cúmulo de agradecer ao cachorro). E o melhor de tudo: sem toga! Considerando que devo me formar durante o verão, é um baita diferencial não ter de usar aquela roupa preta.

Desde que terminei o Ensino Médio, em 1999, acho formatura um evento chatíssimo. E o pior de tudo é que já fui a muitas: ainda bem que a maioria dos meus amigos já se formou. E como tenho o hábito de ser coerente, não pretendo, no verão de 2010, submeter nenhum deles àquela tortura.

Sem contar que, hoje em dia, as formaturas em palco são “feitas para a televisão”. Não são transmitidas ao vivo, mas é tudo montado para sair bem no vídeo (que será revisto no máximo uma vez). Tanto que o que sai mais caro em formaturas é o pagamento de uma produtora, para eternizar “o momento inesquecível” da melhor maneira possível. Mesmo na formatura de Ensino Médio se tem despesa com produtora: até não gastei muito com a minha, mas três anos depois estava muito mais caro e por isso o meu irmão se recusou a participar do troço.

Até porque, sejamos sinceros, as formaturas não são feitas para os formandos, e sim para o exibicionismo dos pais (claro que nem todos são iguais, não generalizemos!).

Enfim, já tomei minha decisão: entre gastar muito para passar calor, ter de falar qualquer merda no púlpito e ter um DVD (que nunca assistirei) da minha formatura; e me formar de graça, sem passar calor e sem discursos… Sem dúvida alguma, escolho a segunda opção.

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Também são alvos de meu “mau humor” aquelas estúpidas faixas de parabéns por aprovações em vestibulares: se a homenagem fosse realmente para o “bixo”, a faixa deveria ficar voltada para o lado de dentro da casa, não para a rua. Quando passei no primeiro vestibular, em 2000 (Física na UFRGS), minha mãe mandou fazer um banner que toda hora eu tirava da janela. Até parecia premonição: dois anos depois eu largaria o curso, para em 2004 ingressar na faculdade de História, novamente na UFRGS. Desta vez, sem banner.

A minha "touca"

Eu não entendi a piada do Kayser. Ele disse que quem entender, ganha uma xícara de plasmídeos. Também não me perguntem o que é isso!

Biologia é para mim o que o Figueirense é para o Grêmio (e o Juventude para o Inter): uma “touca” desgraçada. Nos três vestibulares que fiz na UFRGS, foi minha pior prova.