Temerário verão

Porto Alegre, fevereiro de 2014 (mas poderia ser dezembro de 2016 se esses relógios de rua ainda funcionassem)

Para mim é mais do que óbvio: todo esse calor infernal é uma jogada do (des)governo Temer para nos convencer que é bom trabalhar até os 80 anos de idade por 12 horas (ou mais) diárias, até mesmo no fim de semana.

Pois estou de folga hoje e lamentando por isso, já se trabalhasse estaria no ar condicionado do serviço (que está ligado para permitir a sobrevivência de quem bateu ponto hoje) e o meu aparelho estaria desligado, me fazendo economizar. O tempo que fico em casa nesse suplício que é o verão de Porto Alegre (que não ao acaso recebe o apelido de “Forno Alegre” nessa época) é diretamente proporcional ao tempo que o ar condicionado fica ligado aqui em casa. E consequentemente, a conta da luz vai às alturas. (Mas ainda assim sai mais barato do que ir para a praia, e clube com piscina além de caro não resolve o problema da temperatura elevada.)

Por isso, chega de baderna e “mimimi”: FICA Temer! Reforma trabalhista e da previdência JÁ!


E, por favor, que esfrie logo para passar de uma vez por todas essa alucinação… Até porque para quem trabalha na rua não tem economia: é mais sofrimento ainda com esse calor.

Minhas lagartixas de estimação

É difícil definir o que mais detesto no verão, estação que, por mim, podia muito bem ser extinta — ao menos em Porto Alegre. Para além do tradicional calor insuportável, ainda tem a conta de luz nas alturas (pois só com muito ventilador e ar condicionado para aguentar), o estímulo à alienação (“programa de verão” é sempre praia, “festa”, e nunca um passeio por livrarias ou centros culturais), excessivo culto ao corpo (que leva muita gente a se enfurnar em academias para “ficar em forma para o verão”)…

E tem eles: os insetos. Mosquitos (inclusive o temido Aedes aegypti), moscas, baratas, mariposas… Pragas que se multiplicam descontroladamente no verão — haja repelente!

Ainda que sejam as menos nocivas da lista citada no último parágrafo, as mariposas são das espécies que mais me irritam. Afinal, elas (e os demais “bichos de luz”) adentram nossos lares quando deixamos a janela aberta para aproveitar quando resolve soprar um vento que possibilita ficar um tempo sem ventilador ou ar condicionado ligado. É um bicho que considero tosco demais: fica o tempo todo rodeando uma lâmpada… Qual a utilidade disso?

Bom, as lagartixas vêem uma utilidade: trata-se de alimento para elas. Casa cheia de “bichos de luz” é um banquete para este simpáticos répteis que também adentram nossos lares — mas que ao contrário dos insetos, de minha parte recebem todas as boas vindas.

E foi o que aconteceu na noite passada. Na hora de dormir notei a presença de uma lagartixa, que imediatamente batizei de Maggie, em homenagem à também simpática filha caçula de Homer Simpson. (Na verdade chamo todas as lagartixas que aparecem em casa de Maggie, mas como já perdi as contas não coloco um III ou XIV ao lado do nome desta última.)

Antes de apagar a luz e me dirigir à minha cama, olhei para a lagartixa e ao invés de lhe desejar boa noite, apenas disse: “bom apetite, Maggie”.

Aquela saudade de reclamar do calor

Não, quem me conhece não leu errado.

Mas também: não, eu não sinto saudade do verão.

Parece uma enorme contradição, mas é a mais pura verdade. Eu sinto falta de reclamar, não do calor em si que mais cedo ou mais tarde vai nos assolar. E isso nada tem a ver com o fato de que este ano teve inverno (ao contrário de 2014 e 2015), mas sim com o que aconteceu no último dia de calor “de desmaiar Batista” ao qual lembro de ter sobrevivido.

O dia em questão foi 17 de abril, quando aconteceu aquele show de horrores na Câmara dos Deputados: nem Stephen King produziria algo tão aterrador quanto o que vimos naquele domingo. Comecei a assistir na sala, só que o calor era tanto que terminei no meu quarto, única peça do apartamento onde eu morava em Ijuí que tinha ar condicionado — mas que não tinha televisão, e assim tive de apelar para o celular.

É verdade que o calor ainda continuou por mais alguns dias (até que no final do mesmo mês de abril fomos direto do verão para o inverno, com um frio impressionante para tal época do ano), mas não lembro de ter reclamado das altas temperaturas após aquele domingo: no máximo celebrei discretamente o tempo frio que pouca trégua deu em 2016. Pois a partir de então o calor passou a ser absolutamente o menor dos males que nos afligem.

Passamos a ter uma sucessão de notícias ruins, de “maldades” pretendidas pelo (des)governo que se instalou com o golpeachment. Reforma trabalhista, do ensino médio, PEC 241… Toda vez que falo de “amenidades”, chego a me sentir “culpado” por “fugir da realidade” ainda que uma sensação como a de calor seja, para mim, real demais para ser ignorada, como provam os litros de suor que verto nos dias mais quentes.

O fato é que o verão está chegando e será diferente dos anteriores, pois provavelmente não me sentirei encorajado a reclamar do calorão, e justo agora que voltei a morar no “Forno Alegre”. Saudade dos nem tão distantes tempos em que o Brasil vivia sua “normalidade democrática”: havia muitos problemas, é verdade, mas era possível variar o assunto e dar aquela reclamadinha básica dos trinta e todos graus da canícula porto-alegrense sem pensar “o país desse jeito e eu só querendo que o inverno volte”.

O inverno me representa

Texto originalmente publicado em 23/07/2013, no Cão Uivador. Apenas “atualizei” trocando a foto de um termômetro de rua em Porto Alegre em julho de 2013 pelo printscreen do aplicativo do tempo no meu celular com a temperatura atual onde moro agora, Ijuí; também dei uma mexida no texto pois ele foi escrito antes do terrível verão de 2014 e por isso não fazia referência àqueles tempos desesperadores.

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Basta fazer uns dias frios, que começa a reclamação nas redes sociais. “Ah, não aguento mais esse inverno, que chegue logo o verão”, diz muita gente que chega a parecer que não tem um teto para se abrigar, nem roupas para vestir.

Sim, pois adoro frio, mas não sou idiota de não reconhecer que para os mais pobres o inverno é uma época muito complicada. E, aliás, me chama a atenção que certas pessoas que já vi e ouvi destilando ódio contra pobres resolvem nessa época declarar solidariedade com eles no discurso; parece mais uma desculpa para reclamar do frio mesmo tendo recursos para se proteger dele, mas não deixo de ter a esperança que tais pessoas se tornem mais solidárias. Porém, provavelmente a maioria prefira um “meio termo”, pois quero ver alguém conseguir dormir em uma noite abafada sem nada para refrescar (quem passou o Natal de 2012 ou o verão de 2014 em Forno Alegre sabe do que falo). Aliás, opções que invariavelmente resultam em gasto de energia: no inverno nunca ligo ar condicionado já que não acho necessário, mas para os mais friorentos certamente ele é uma necessidade hoje; só que tenho certeza de que o aparelho não será ligado no inverno o mesmo número de vezes que no verão (ainda mais que, como temos mania de imitar europeu e achamos “inadequado” trabalhar de bermuda, só com ar condicionado para suportar o calor).

Porém, minha preferência pelo inverno vai além do conforto térmico. É algo que, pela minha personalidade, é até natural.

O inverno faz com que o lar seja um lugar mais convidativo. Obviamente gosto de estar na rua (e acho muito melhor sair no frio do que no calor), mas não vejo problema algum de estar em casa num sábado à noite, enquanto muitos estão em “baladas” (aliás, repare que “badalação” e “verão” literalmente rimam). Não consigo ver sentido em não gostar de estar no lugar onde moro.

Ao fazer as pessoas ficarem mais em casa, o inverno também as convida à introspecção. No lar, mesmo que não se more só, nem sempre se está em contato com pessoas diferentes daquelas com as quais se convive rotineiramente, e assim não há a necessidade de falar o tempo todo, o que em geral se faz em encontros com os amigos – a conversa não acontece apenas para trocar ideias, mas também porque são pessoas com as quais se gosta de estar e que horas depois já não estarão próximas. Estar só (seja em casa ou apenas em uma peça) significa desfrutar de si mesmo como companhia; ou seja, vejo como uma excelente oportunidade de conversar comigo mesmo, de promover um “debate” entre os diversos “eus”, que divergem muito entre si, mas promovem uma discussão respeitosa e de alto nível, visto que o objetivo deles é a união em torno das concordâncias (principalmente para discutir com os reaças) e não a destruição mútua.

Sinceramente, adoro minha própria companhia. Porém, muitas pessoas parecem não gostar de estar consigo mesmas, ainda mais que vivem nos dizendo que devemos sempre “curtir a vida adoidado”, sem tempo para pensamento e autocrítica. O resultado é: querem sempre estar rodeadas de muita gente, pois de tanto ouvirem que o contrário significa o “fracasso social” elas não suportam a si mesmas.

Óbvio que também existem opções de “badalação” durante o inverno, o frio não acaba com a vida (se até na Sibéria as pessoas andam na rua com -51°C…). Mas no verão isso é muito mais estimulado. É praticamente uma “obrigação” estar na praia (mesmo que isso signifique passar horas em congestionamentos), ir para as “baladas” e “causar muito”. Acho o litoral uma região agradável já que além de ser menos quente, o mar é incontestavelmente belo; mas não faz o menor sentido ir para lá apenas porque “todo mundo vai”.

Resumindo: o verão representa o contrário do que sou. O inverno é o oposto do verão. E por isso, o inverno me representa.

O frio está a caminho

Porto Alegre dentro de algumas semanas

Porto Alegre dentro de algumas semanas

No colégio, aprendi que equinócios são os instantes em que o Sol cruza o equador celeste. Em tais ocasiões, que se dão apenas duas vezes a cada ano (20 de março e 22 de setembro), ambos os hemisférios da Terra recebem igual insolação.

Tais eventos também significam trocas de estação (variando conforme o hemisfério, norte ou sul). Em um lado da Terra o verão acaba e tem início o outono, enquanto no oposto é o inverno que dá lugar à primavera.

Hoje é dia de equinócio. E, pela lógica, está chegando o outono: afinal de contas, como pode começar a primavera sem que tenha havido inverno? Ou seja, preparemos os agasalhos pois agora sim vai começar a esfriar.


Quem dera fosse realmente o outono que estivesse chegando… Não que eu desgoste da primavera (térmica e visualmente falando, ela costuma ser agradável a maior parte do tempo): o problema é saber que um novo verão está há três meses de distância, ainda mais que em quase 33 anos de vida nunca sofri tanto com o calor como em 2014.

Já o “inverno” (se é que dá para chamar assim) que acaba às 23h29min de hoje, teve muitos gols da Alemanha e pouco frio.

2014, ano sem inverno?

Verões e invernos mais frios ou mais quentes que o normal são, ironicamente, normais, visto que um ano nunca é igual ao outro. Por aqui, o último verão teve calor muito acima do normal, e espero nunca mais passar por algo semelhante na minha vida. Em compensação, ano passado o verão foi ameno, apesar do início muito quente (aquela noite de Natal em 2012 foi algo traumatizante pelo calor).

O verão ameno de 2013 não foi sucedido por um inverno ameno, muito antes pelo contrário. Além de duas fortes nevadas nas regiões mais altas (uma em julho e outra em agosto), tivemos vários dias dignos de serem chamados “de inverno”: gélidos, cinzentos e com o vento minuano “uivando”. Ruim para quem detesta frio, ótimo para quem adora (meu caso).

Já em 2014, a impressão que se tem é de que o inverno ainda não deu as caras, quando já estamos às portas de agosto. Até tivemos alguns dias frios, mas nenhum como os do ano passado. Nem falo de nevadas (o que aconteceu em 2013 foi atípico), mas sim daquele “frio de renguear cusco”. E que, segundo a previsão do tempo para os próximos dias, ainda não está por chegar.

O ano de 1816 teve um verão tão frio no Hemisfério Norte que acabou conhecido como “ano sem verão”. Em contrapartida, parece que 2014 se encaminha para ser o nosso “ano sem inverno”. Alguns ipês já estão até florescendo, quando o normal seria que isso ocorresse em setembro para anunciar a primavera.

Sim, tirada hoje, 31 de julho, na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário)

Sim, tirada hoje, 31 de julho, na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário)

Se você odeia frio e está adorando esse inverno “ausente”, pense: que graça vai ter a primavera se quando ela chegar todas as árvores já tiverem florescido?

Sobreviventes

Por mais contraditório que possa parecer, gosto do horário de verão. Mesmo preferindo a noite ao dia, e o frio ao calor, acho bom poder ficar até um pouco mais tarde no parque da Redenção – visto que à noite ele não é recomendável. Ou seja: gosto é do horário, não da temperatura de verão.

Hoje é o último dia do atual horário de verão. Iniciado em 20 de outubro, ajudou a reduzir um pouco o consumo de energia elétrica: ouvi no rádio que no Rio Grande do Sul a economia foi de 4%, número que parece baixo mas pode ter sido o que nos salvou do apagão e da insônia proporcionada pelo calor desumano que fez por aqui nas últimas semanas.

O horário de verão termina num dia ventoso, com cara de primavera. Parece ter sido combinado (e espero que realmente tenha): agora, com o horário normal, voltam os dias de temperatura normal, que permitem a vida. Pois o calorão que andava fazendo era de tirar o ânimo. Foram mais de quinze dias consecutivos em que não vivia, apenas existia. E sei que não falo apenas em nome de minha pessoa.

Logo, nada mais perfeito que um sábado como este, ventoso e com duração de 25 horas, para celebrar: sobrevivemos.

As férias de Cortázar em Porto Alegre

Nunca morei em outra cidade que não Porto Alegre. Ao longo de toda uma vida aqui, me acostumei com as variações térmicas – embora sempre preferindo que as temperaturas não subam. Mas nunca passei tanto calor como neste verão.

6 de fevereiro de 2014, 17h42min

6 de fevereiro de 2014, 17h42min

22 de julho de 2013, 18h38min

22 de julho de 2013, 18h38min

Lembram dos rumores sobre a presença de Júlio Cortázar em Curitiba? Pois as últimas informações dão conta que ele decidiu passar uma férias em Porto Alegre… Pois além do calor absurdo, vemos pessoas que há anos não vão ao colégio andando de ônibus escolar. Consequência da greve dos rodoviários iniciada há quase duas semanas, e que não termina pois as empresas não dão o aumento pedido alegando prejuízo decorrente do não aumento da tarifa – mas mesmo assim, elas não querem largar esse negócio, por que será?

Não bastasse isso, menos de dois meses antes do golpe de 1964 completar 50 anos, a cidade que uma década atrás se orgulhava de ser uma referência de democracia pode ganhar um bairro que homenageia um ditador. Essa, Cortázar não imaginaria e, se imaginasse, não escreveria, dada sua oposição ao autoritarismo.

Um sonho de verão

Final da tarde de sábado em Porto Alegre. Olho para a rua: chuva fina com vento. No rádio, o locutor anuncia a temperatura: 10 graus. Tempo ideal para comer um fondue de queijo, penso, e ligo para os amigos para fazer a irrecusável proposta. Me visto, e vou ao supermercado comprar os ingredientes.

Além do próprio queijo para fondue, gosto de incrementar a receita com o sempre delicioso gorgonzola. Fico na dúvida entre comprar ou não provolone, e então lembro que ele é bem complicado de derreter. Melhor deixar de fora.

Confiro a lista, falta pegar o vinho branco para adicionar à mistura; já tenho em casa o dente de alho para passar na panela. Antes de passar no caixa, olho para a prateleira e vejo uma goiabada que pede para ser comprada: se queijo com goiabada é um par digno de receber o apelido “Romeu e Julieta”, mergulhar o doce no fondue me parece ser o casamento do século. Nem penso mais vezes, e a goiabada já está no meu cestinho.

Pago as compras, e vou para casa. No caminho, me sinto extremamente feliz pelo momento vivido. Ao contrário do que insistem em dizer, não é o calor, mas sim a ausência dele, que me traz a plenitude da vida.

Quando chego à porta do prédio, começo a escutar sons estranhos. Um zumbido persistente, acompanhado de um sinal intermitente. Entro no elevador, e à medida que ele sobe, a intensidade do barulho aumenta. Saio, e à porta do apartamento, o ruído é ensurdecedor, tapo os ouvidos para me proteger.

Então percebo que estou na minha cama. Toco na função “soneca” do despertador, para dormir mais alguns minutos, mas faço isso várias vezes. Depois de um tempo, finalmente levanto, e desligo o ar condicionado, silenciando seu zumbido. Ligo o rádio, o locutor anuncia a temperatura daquela manhã de segunda-feira: 26 graus. Em seguida, o homem do tempo diz que à tarde pode chegar aos 40.

No caminho para o trabalho, fico na dúvida entre tomar sorvete ou água gelada para encarar a caminhada. E me pergunto se existe inverno em Porto Alegre.