Promessas

Nunca me esqueço de uma crônica de Luis Fernando Verissimo acerca de resoluções de ano novo, na qual explicava por que não as fazia. O motivo principal: elas costumam acontecer “no calor do momento”, quando a soma de bebidas alcoólicas e empolgação por uma “novidade” – que nada mais é do que uma convenção – nos impele a falar coisas sem pensar.

Lembro disso e, automaticamente, de outras promessas que fiz – as quais, obviamente, não consigo cumprir.

Uma delas é bem recente: a de não mais beber cerveja. Foi na noite seguinte à derrota do Grêmio para o River Plate, que eliminou o Tricolor da Libertadores. Para mim o saldo foi bem mais negativo do que um resultado adverso no campo, visto que naquela noite fui furtado: quando percebi meus bolsos estavam vazios, precisei encarar burocracia em busca da segunda via dos meus documentos e terei a despesa não-planejada da compra de um novo celular (atualmente uso um provisório só para acessar o básico). É verdade que bebi demais, mas injustamente quis culpar a cerveja: o maior culpado, antes de qualquer outra pessoa (ou bebida), é, obviamente, o ladrão. Até havia algum fundamento na ideia de largar a cerveja: aquela noite, dois dias após o segundo turno eleitoral, foi apenas um “fecho de ouro” para o pior outubro da minha vida, no qual muito bebi para suportar o fardo que era – aliás, ainda é – morar no Brasil. Mas foi só (re)começar o calorão que me veio a vontade de tomar uma breja gelada: moderadamente, vale muito a pena.

Outra promessa que andei fazendo tempos atrás e não tenho como cumprir: não reclamar do calor. Pois a fiz lá em junho, lembrando que nunca convenci ninguém que prefere o inferno ao inverno a mudar de ideia, para dar uma indireta aos “chatonildos do pão e circo” que reclamavam da Copa do Mundo – que foi das raríssimas coisas boas de 2018, apesar do fracasso latino-americano nos gramados russos. Era o auge do inverno (aliás, outra coisa boa de 2018 é que teve inverno, mesmo que eu tenha caído de cama por um gripaço), já tinha quase me esquecido do desconforto que o verão me proporciona. Mas não completamente: em alguns momentos cheguei a desejar temperaturas amenas, jamais o abafamento e os banhos de suor típicos do nosso verão.

Mas o maior fracasso dentre minhas promessas, sem dúvida alguma, foi a de ignorar o noticiário político. Não tive como. Ainda mais numa eleição como foi a de 2018.

É por isso que continuarei bebendo, mesmo que moderadamente. E substituo a expressão “calor de desmaiar Batista” por “calor coiso”: acho que faz muito mais sentido, pois trinta e todos graus – assim como o candidato que venceu a eleição presidencial – me dão desespero e vontade de ir embora para o Canadá, enquanto o frio pode até causar algum desconforto, mas nos leva a pensar mais nas pessoas e dá vontade de abraçá-las. Inverno é amor.

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Camarada verão

O atual verão está sendo até agora o menos massacrante em muitos anos aqui em Porto Alegre. Dá para “contar nos dedos” os dias de “Forno Alegre”: uns na semana passada, outros em janeiro, e o dia da final do Mundial entre Grêmio e Real Madrid (16 de dezembro: no calendário ainda era primavera mas na prática já era verão). De resto, vários dias com calor à tarde – afinal, é verão – mas com um ventinho ao anoitecer para refrescar. Espero que siga assim até seu final: importante falar disso, pois ainda falta mais de um mês para o início do outono.

Claro que não está sendo um verão “frio”, apesar da manhã desta terça-feira ter se assemelhado mais à Páscoa (que por ser no outono muitas vezes registra mínimas amenas e mesmo frias) do que ao Carnaval que está em suas últimas horas. Pois “verão frio” é algo que ao menos em Porto Alegre inexiste: ainda que uma temperatura mínima de 15°C seja baixa para fevereiro, em junho e julho é algo “acima da média” (que oscila entre 9°C e 10°C). Assim como não recordo de alguma vez ter precisado usar jaqueta, blusão de lã e cachecol durante o verão por aqui.

Bem ao contrário de usar bermuda e camiseta no inverno, algo muito mais comum do que parece: apesar da imagem de “Sibéria” associada ao Rio Grande do Sul, nosso frio é “fichinha” em comparação com lugares de inverno realmente rigoroso. Até porque raramente temos longos períodos “de renguear cusco”, o mais comum é a alternância de dias frios com amenos e até mesmo quentes.

E em alguns anos o inverno sequer é digno do nome – algo que muito desagrada a quem, como eu, prefere o frio ao calor. Foi o que aconteceu em 2017.

Mas hoje me senti um pouco “vingado” – sim, eu tenho “espírito de porco”. No Facebook, vi gente que morou a vida toda no Rio Grande do Sul reclamando do “frio” da manhã, mesmo que fossem moderados 15°C. Sentiram (só) um pouco da insatisfação térmica que eu tive nas várias vezes em que no último inverno o termômetro “passou lotado” dos 30°C (média das máximas em janeiro e fevereiro).

Verão: o horário já foi

Curto bastante o horário de verão. Acho muito agradável andar na rua às 8 da “noite” com céu ainda claro, o relógio adiantado permite aproveitar mais a luz solar. Fora que nunca tive problemas para me adaptar ao horário, e não entendo quem fica todo esse tempo de “mimimi”: a média para se acostumar é algo em torno de uma semana (reconheço que sou um privilegiado pois em questão de dois ou três dias estou bem habituado), logo quem depois desse tempo ainda não se ajustou deveria é procurar orientação médica ao invés de ficar reclamando no Facebook.

Por outro lado, também adoro quando acaba o horário de verão, numa aparente contradição. Mas que se explica facilmente: me acostumo muito facilmente com a hora adiantada, enquanto ao verão faz 35 anos que não me adapto. E o fim do horário de verão, mesmo com todo esse calor, é um sinal de que já é possível vislumbrar o outono no horizonte.

Faltam 29 dias.

Não derreti com o calor

Até porque nem está tão quente assim, o problema é a umidade elevada. A previsão de “onda de calor” para os próximos dias chega a me fazer rir, pois não há prognóstico de três semanas com temperaturas beirando os 40°C como aconteceu em 2014 – naquela época eu já celebrava quando não passava dos 35°C.

Mas ainda assim, não vejo a hora que chegue o outono. Faltam “só” 30 dias para o início oficial – o início “de verdade”, que é quando a temperatura cai, leva mais um tempo.

Que venha logo.

Não consigo não detestar o verão

O sábado foi mais um dia daqueles de “desmaiar o Batista”. Mesmo que não tenha sido um dia tão quente quanto aquele 3 de fevereiro de 2010 do famoso desmaio e o atual verão, apesar dos pesares, esteja longe de ser dos piores, foi complicado andar na rua. Ainda mais de calça, visto que eu tinha um chá de fraldas para ir e não achei de bom tom ir de bermuda – apesar de que um dos meus amigos foi…

Na minha “lista de coisas que detesto” (na verdade nem tenho uma) o verão está no “top 10”, e não é por nada. Além do calor que me faz transpirar demais (e não me venham com a justificativa de que “é da natureza”, pois tremer de frio no inverno também é “natural” e ninguém acha legal), ainda tem a lembrança do verão de 2014, o pior de todos os que já (sobre)vivi. Sim, falo de temperatura, mas não só disso.

Nem vou entrar em maiores detalhes para não me estender muito, mas acontece que o período final de 2013 e o inicial de 2014 correspondem à fase que considero a pior de minha vida. Sabe aquelas épocas em que TUDO dá errado? Pois bem, eis o que eu vivia naqueles tempos. Aquele verão não precisaria ser quente para ser o pior de minha vida.

O problema é que não foi só quente: foi também o mais escaldante em décadas*, com muitos dias sufocantes. Como se não bastasse todo o meu desânimo com a vida naquele tempo, ainda tinha de enfrentar todo aquele calor: a sensação era de que eu estava em um “inferno” não apenas “astral” para pagar meus “pecados” – sim, aquela fase péssima era decorrente de erros cometidos anteriormente, mas acho que a “punição” foi por demais exagerada.

Coincidentemente (?), depois do verão as coisas começaram a melhorar. Afinal de contas, não era só por causa da temperatura – mas a queda dela ajudava a animar.


* Porto Alegre teve em 6 de fevereiro de 2014 temperatura máxima oficial de 40,6°C, a segunda mais alta desde o início dos registros em 1910, perdendo por pouco para o recorde de 40,7°C do dia 1º de janeiro de 1943. Mas outras estações espalhadas pela cidade registraram ainda mais calor – na Zona Norte, chegou a 42,6°C. E foi apenas um dia de uma canícula que durou semanas…

O inverno me representa

Texto originalmente publicado em 23/07/2013, no Cão Uivador. Apenas “atualizei” trocando a foto de um termômetro de rua em Porto Alegre em julho de 2013 pelo printscreen do aplicativo do tempo no meu celular com a temperatura atual onde moro agora, Ijuí; também dei uma mexida no texto pois ele foi escrito antes do terrível verão de 2014 e por isso não fazia referência àqueles tempos desesperadores.

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Basta fazer uns dias frios, que começa a reclamação nas redes sociais. “Ah, não aguento mais esse inverno, que chegue logo o verão”, diz muita gente que chega a parecer que não tem um teto para se abrigar, nem roupas para vestir.

Sim, pois adoro frio, mas não sou idiota de não reconhecer que para os mais pobres o inverno é uma época muito complicada. E, aliás, me chama a atenção que certas pessoas que já vi e ouvi destilando ódio contra pobres resolvem nessa época declarar solidariedade com eles no discurso; parece mais uma desculpa para reclamar do frio mesmo tendo recursos para se proteger dele, mas não deixo de ter a esperança que tais pessoas se tornem mais solidárias. Porém, provavelmente a maioria prefira um “meio termo”, pois quero ver alguém conseguir dormir em uma noite abafada sem nada para refrescar (quem passou o Natal de 2012 ou o verão de 2014 em Forno Alegre sabe do que falo). Aliás, opções que invariavelmente resultam em gasto de energia: no inverno nunca ligo ar condicionado já que não acho necessário, mas para os mais friorentos certamente ele é uma necessidade hoje; só que tenho certeza de que o aparelho não será ligado no inverno o mesmo número de vezes que no verão (ainda mais que, como temos mania de imitar europeu e achamos “inadequado” trabalhar de bermuda, só com ar condicionado para suportar o calor).

Porém, minha preferência pelo inverno vai além do conforto térmico. É algo que, pela minha personalidade, é até natural.

O inverno faz com que o lar seja um lugar mais convidativo. Obviamente gosto de estar na rua (e acho muito melhor sair no frio do que no calor), mas não vejo problema algum de estar em casa num sábado à noite, enquanto muitos estão em “baladas” (aliás, repare que “badalação” e “verão” literalmente rimam). Não consigo ver sentido em não gostar de estar no lugar onde moro.

Ao fazer as pessoas ficarem mais em casa, o inverno também as convida à introspecção. No lar, mesmo que não se more só, nem sempre se está em contato com pessoas diferentes daquelas com as quais se convive rotineiramente, e assim não há a necessidade de falar o tempo todo, o que em geral se faz em encontros com os amigos – a conversa não acontece apenas para trocar ideias, mas também porque são pessoas com as quais se gosta de estar e que horas depois já não estarão próximas. Estar só (seja em casa ou apenas em uma peça) significa desfrutar de si mesmo como companhia; ou seja, vejo como uma excelente oportunidade de conversar comigo mesmo, de promover um “debate” entre os diversos “eus”, que divergem muito entre si, mas promovem uma discussão respeitosa e de alto nível, visto que o objetivo deles é a união em torno das concordâncias (principalmente para discutir com os reaças) e não a destruição mútua.

Sinceramente, adoro minha própria companhia. Porém, muitas pessoas parecem não gostar de estar consigo mesmas, ainda mais que vivem nos dizendo que devemos sempre “curtir a vida adoidado”, sem tempo para pensamento e autocrítica. O resultado é: querem sempre estar rodeadas de muita gente, pois de tanto ouvirem que o contrário significa o “fracasso social” elas não suportam a si mesmas.

Óbvio que também existem opções de “badalação” durante o inverno, o frio não acaba com a vida (se até na Sibéria as pessoas andam na rua com -51°C…). Mas no verão isso é muito mais estimulado. É praticamente uma “obrigação” estar na praia (mesmo que isso signifique passar horas em congestionamentos), ir para as “baladas” e “causar muito”. Acho o litoral uma região agradável já que além de ser menos quente, o mar é incontestavelmente belo; mas não faz o menor sentido ir para lá apenas porque “todo mundo vai”.

Resumindo: o verão representa o contrário do que sou. O inverno é o oposto do verão. E por isso, o inverno me representa.

O frio está a caminho

Porto Alegre dentro de algumas semanas

Porto Alegre dentro de algumas semanas

No colégio, aprendi que equinócios são os instantes em que o Sol cruza o equador celeste. Em tais ocasiões, que se dão apenas duas vezes a cada ano (20 de março e 22 de setembro), ambos os hemisférios da Terra recebem igual insolação.

Tais eventos também significam trocas de estação (variando conforme o hemisfério, norte ou sul). Em um lado da Terra o verão acaba e tem início o outono, enquanto no oposto é o inverno que dá lugar à primavera.

Hoje é dia de equinócio. E, pela lógica, está chegando o outono: afinal de contas, como pode começar a primavera sem que tenha havido inverno? Ou seja, preparemos os agasalhos pois agora sim vai começar a esfriar.


Quem dera fosse realmente o outono que estivesse chegando… Não que eu desgoste da primavera (térmica e visualmente falando, ela costuma ser agradável a maior parte do tempo): o problema é saber que um novo verão está há três meses de distância, ainda mais que em quase 33 anos de vida nunca sofri tanto com o calor como em 2014.

Já o “inverno” (se é que dá para chamar assim) que acaba às 23h29min de hoje, teve muitos gols da Alemanha e pouco frio.

2014, ano sem inverno?

Verões e invernos mais frios ou mais quentes que o normal são, ironicamente, normais, visto que um ano nunca é igual ao outro. Por aqui, o último verão teve calor muito acima do normal, e espero nunca mais passar por algo semelhante na minha vida. Em compensação, ano passado o verão foi ameno, apesar do início muito quente (aquela noite de Natal em 2012 foi algo traumatizante pelo calor).

O verão ameno de 2013 não foi sucedido por um inverno ameno, muito antes pelo contrário. Além de duas fortes nevadas nas regiões mais altas (uma em julho e outra em agosto), tivemos vários dias dignos de serem chamados “de inverno”: gélidos, cinzentos e com o vento minuano “uivando”. Ruim para quem detesta frio, ótimo para quem adora (meu caso).

Já em 2014, a impressão que se tem é de que o inverno ainda não deu as caras, quando já estamos às portas de agosto. Até tivemos alguns dias frios, mas nenhum como os do ano passado. Nem falo de nevadas (o que aconteceu em 2013 foi atípico), mas sim daquele “frio de renguear cusco”. E que, segundo a previsão do tempo para os próximos dias, ainda não está por chegar.

O ano de 1816 teve um verão tão frio no Hemisfério Norte que acabou conhecido como “ano sem verão”. Em contrapartida, parece que 2014 se encaminha para ser o nosso “ano sem inverno”. Alguns ipês já estão até florescendo, quando o normal seria que isso ocorresse em setembro para anunciar a primavera.

Sim, tirada hoje, 31 de julho, na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário)

Sim, tirada hoje, 31 de julho, na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário)

Se você odeia frio e está adorando esse inverno “ausente”, pense: que graça vai ter a primavera se quando ela chegar todas as árvores já tiverem florescido?

Sobreviventes

Por mais contraditório que possa parecer, gosto do horário de verão. Mesmo preferindo a noite ao dia, e o frio ao calor, acho bom poder ficar até um pouco mais tarde no parque da Redenção – visto que à noite ele não é recomendável. Ou seja: gosto é do horário, não da temperatura de verão.

Hoje é o último dia do atual horário de verão. Iniciado em 20 de outubro, ajudou a reduzir um pouco o consumo de energia elétrica: ouvi no rádio que no Rio Grande do Sul a economia foi de 4%, número que parece baixo mas pode ter sido o que nos salvou do apagão e da insônia proporcionada pelo calor desumano que fez por aqui nas últimas semanas.

O horário de verão termina num dia ventoso, com cara de primavera. Parece ter sido combinado (e espero que realmente tenha): agora, com o horário normal, voltam os dias de temperatura normal, que permitem a vida. Pois o calorão que andava fazendo era de tirar o ânimo. Foram mais de quinze dias consecutivos em que não vivia, apenas existia. E sei que não falo apenas em nome de minha pessoa.

Logo, nada mais perfeito que um sábado como este, ventoso e com duração de 25 horas, para celebrar: sobrevivemos.

As férias de Cortázar em Porto Alegre

Nunca morei em outra cidade que não Porto Alegre. Ao longo de toda uma vida aqui, me acostumei com as variações térmicas – embora sempre preferindo que as temperaturas não subam. Mas nunca passei tanto calor como neste verão.

6 de fevereiro de 2014, 17h42min

6 de fevereiro de 2014, 17h42min

22 de julho de 2013, 18h38min

22 de julho de 2013, 18h38min

Lembram dos rumores sobre a presença de Júlio Cortázar em Curitiba? Pois as últimas informações dão conta que ele decidiu passar uma férias em Porto Alegre… Pois além do calor absurdo, vemos pessoas que há anos não vão ao colégio andando de ônibus escolar. Consequência da greve dos rodoviários iniciada há quase duas semanas, e que não termina pois as empresas não dão o aumento pedido alegando prejuízo decorrente do não aumento da tarifa – mas mesmo assim, elas não querem largar esse negócio, por que será?

Não bastasse isso, menos de dois meses antes do golpe de 1964 completar 50 anos, a cidade que uma década atrás se orgulhava de ser uma referência de democracia pode ganhar um bairro que homenageia um ditador. Essa, Cortázar não imaginaria e, se imaginasse, não escreveria, dada sua oposição ao autoritarismo.