Já é primavera em Porto Alegre

Rua Irmão José Otão, bairro Bom Fim, no último dia 24 de agosto (quando fez 35°C)

Rua Irmão José Otão, bairro Bom Fim, no último dia 24 de agosto (quando fez 35°C)

O inverno já estava fraquíssimo (é o mais ameno que me recordo nos últimos dez anos), com ipês-roxos florindo bem antes do tempo, só faltava o vento para ser primavera.

Não falta mais.

Anúncios

“¿Será peor que el 23 de agosto?”

Fevereiro de 2006. Andava pelas ruas ruas centrais de Montevidéu com meu pai e meu irmão, e o que não faltava era vendedores de guarda-chuva, apesar do tempo não estar com cara de chuva. Mas bastava nos aproximarmos de um deles que se ouvia o prognóstico, acompanhado de uma cara preocupada:

– Viene un ciclón, puede ser peor que el 23 de agosto.

Outro pedestre passava e perguntava, mais assustado:

– ¿¿¿Será peor que el 23 de agosto???

A preocupação dos montevideanos não se dava a toa. Em 23 de agosto de 2005, o Uruguai fora atingido por um violento e destrutivo ciclone (vídeo abaixo) com rajadas de vento acima de 150km/h, que deixou um saldo de sete mortes e uma população traumatizada, que não podia ouvir falar em ciclón sem sentir medo.

Sabendo do que acontecera naquele 23 de agosto, decidimos não arriscar: compramos um guarda-chuva para cada um, mesmo sabendo que ele não adianta de nada quando venta muito. A tempestade veio no dia seguinte, e esperamos o vento mais forte passar abrigados no saguão de entrada de um prédio na Praça Independência: não notamos nenhum estrago nas ruas após a ventania, que ficou muito aquém do ciclone de seis meses antes.

Não voltei a Montevidéu desde aquela visita. Mas só imagino que, na última quarta-feira, certamente o que não faltou foi gente lembrando do 23 de agosto de 2005 devido a mais um ciclone, que matou três pessoas e causou muitos danos. Na Praça Independência, o vento era tão forte que a única maneira de atravessar uma rua era se agarrando em uma corda.

Dentre os feridos pelo ciclone, se encontra o próprio presidente do Uruguai: José Mujica machucou o nariz ao ajudar um vizinho que teve a casa destelhada. (Aliás, alguém me diga se outro Chefe de Estado que não o Pepe sairia em meio a um vendaval para ajudar alguém…)

O mito do inverno com neve no Rio Grande do Sul

Hoje foi um dia com a minha cara aqui em Porto Alegre: manhã com 6°C e muito vento, tão forte que chegava a uivar (e ainda querem que eu goste do verão?). Houve rajadas superiores a 90 km/h, que causaram transtornos como queda de árvores, falta de energia elétrica e, consequentemente, de água, devido à interrupção do fornecimento de eletricidade em algumas estações de bombeamento. E o vento obviamente aumentou a sensação de frio.

Taí a verdadeira cara do inverno gaúcho: o famoso “minuano”. O vento gelado deve seu apelido aos minuanos, povo indígena que habitava os pampas (e que como vários outros, foi exterminado pelo homem branco “civilizado”). E todo ano há pelo menos um desses dias de “minuano”, um “frio de renguear cusco”.

Aí alguém vai perguntar: “e a neve?”; e eu já respondo: QUE NEVE???

Episódios como o de agosto do ano passado são exceção. É muito raro nevar daquele jeito no sul do Brasil – fosse comum, não seria tão noticiado.

Só que a “grande mídia”, de tanto falar sobre “a possibilidade de neve”, faz muita gente pensar que basta comprar a passagem para Gramado, reservar o hotel e a festa – “nevada”, claro – estará garantida.

Dados os preços que costumam ser cobrados em Gramado e Canela durante o inverno, quem quer realmente ver neve deveria economizar um pouco mais e viajar a algum lugar onde é garantido que vai nevar (ir a Bariloche, na Argentina, deve estar mais barato que o normal por causa do vulcão Puyehue). Já a Serra Gaúcha, por sua vez, pode ser uma excelente alternativa para o verão: foge-se tanto do calor insuportável de “Forno Alegre” como do movimento absurdo nas praias.

————

E por falar em calor, quase derreti no ônibus hoje pela manhã, com todas as janelas fechadas e sem ar condicionado. Tudo bem que fazia frio, o vento era muito forte. Mas não justifica fechar tudo, impedindo qualquer renovação do ar dentro do coletivo. Aí, quando pegam uma gripe, reclamam do frio…

Não fosse o meu trajeto curto, provavelmente eu abriria uma janela, a despeito dos “protestos” dos demais passageiros. Para convencê-los (se necessário), forçaria uma tossida e comentaria, em tom de lamento: “bosta de gripe A que nunca passa”. Queria só ver se não abririam tudo correndo…

As curtas “férias” do blog

Já houve “não-férias” da mesma duração – principalmente em épocas de correria. Desde sua criação, em 14 de maio de 2007, o blog jamais teve “férias” propriamente ditas, pois o Carnaval de 2009 fez com que parasse tanto tempo quanto no fim de maio de 2008, quando eu tinha de terminar um artigo para a faculdade.

A parada se deveu a uma curta viagem para a praia de Araçá, um pouco depois de Capão da Canoa (mas pertencente ao mesmo município), onde não tive acesso à internet (e não seriam três dias sem computador que me entediariam). Como é típico do litoral gaúcho, teve vento, areia e água gelada. Além de chuva, trânsito caótico (afinal, boa parte de Porto Alegre se muda…), cerveja e carteado. Somei também o War à lista.

E nada de Carnaval: a única folia que me atrai é a de Pernambuco – por curiosidade, pois nunca fui mas acredito que deva ser divertido. Por mais que falem maravilhas do Carnaval da Bahia, eu jamais gastaria meu dinheiro para ir ver trios elétricos e cantoras de cabelos diferentes mas de vozes iguais. E não tenho saco para passar uma noite assistindo desfile de escolas de samba: o que eu gosto mais é de acompanhar a apuração.

Mas o que mais me chamou a atenção no feriado foi a especulação imobiliária, que está a todo vapor no Litoral Norte. Já há diversos condomínios fechados prontos, e mais uma porrada em construção.

O que muitos vêem como “progresso do Litoral Norte”, me passa a impressão de um retorno no tempo; para ser mais preciso, à Idade Média. Diversas cidades cercadas por muralhas (com direito à cerca eletrificada no alto, na versão do século XXI), que servem para dar a famosa “sensação de segurança”. Mas que claramente servem para manter do lado de fora, “invisíveis”, não apenas os “bandidos”: no retorno para casa, vi de um lado da Estrada do Mar uma muralha, e do outro, uma favela. Cujos moradores provavelmente serão expulsos com a valorização da região.

As próximas “férias” do blog talvez durem apenas um fim-de-semana (menores que muitas “não-férias”). Quero ir ao litoral no inverno, não só pela curiosidade de ver a praia vazia no frio, mas também para ter uma idéia melhor de como é a vida real na região – o verão engana.