Cachorro em campo é vida

O pessoal do Impedimento apoia declaradamente as invasões caninas aos gramados de futebol. Como eles costumam dizer, “cachorro em campo é vida”.

Os cães já entraram em campo diversas vezes. Até mesmo em Copa do Mundo: no Mundial de 1962, no Chile, dois perros invadiram o gramado durante o jogo Brasil x Inglaterra – e um deles driblou ninguém menos que Garrincha.

Na Copa América de 2011, na Argentina, novamente um “cusco” esteve em campo. Foi durante a partida entre Brasil e Venezuela.

E agora, como foi dito no Impedimento, o Campeonato Brasileiro “atingiu sua maturidade”: um cão invadiu o gramado de São Januário no jogo Botafogo x Náutico, sendo ovacionado pela torcida presente.

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Por motivos óbvios, este blogueiro é totalmente favorável às invasões caninas nos campos de futebol. Do contrário, seria obrigação moral trocar o nome do blog…

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Henrique Capriles, um mau perdedor

Quando postei ontem sobre o resultado da eleição presidencial na Venezuela, disse que o fato do oposicionista Henrique Capriles não reconhecer a vitória de Nicolás Maduro poderia resultar em violência nas ruas, visto que a direita venezuelana já fez isso em abril de 2002, no golpe que tirou Hugo Chávez do governo por 48 horas.

Pois já estava acontecendo. Partidários de Capriles atenderam ao chamado do oposicionista e foram às ruas, porém, muitos não se limitaram ao protesto pacífico e partiram para a violência, que deixou pelo menos sete mortos e 61 feridos.

Ou seja, Capriles demonstra, acima de tudo, que é um mau perdedor. Segundo a TeleSur (cuja sede em Caracas foi cercada por militantes oposicionistas), o candidato da direita sequer formalizou o pedido de recontagem de votos que ele dissera que ia solicitar. Ou seja, demonstra ter certeza de que perdeu a eleição. Mas, parecendo uma criança birrenta, esperneia e não aceita a derrota.

O problema é que essa “criança birrenta” é também “mimada”: sua gritaria animou o governo dos Estados Unidos, que não reconhece o resultado da eleição (mesmo que o sistema de votação na Venezuela seja muito elogiado, inclusive pelo Centro Carter de Estudos, liderado pelo ex-presidente estadunidense Jimmy Carter). E assim, essa “birra”, que ainda ganhou um “mimo”, pode acabar nada bem.

O grande erro político de Hugo Chávez

Algo que já disse várias vezes, e que novamente repito: a aprovação pelo povo venezuelano da reeleição ilimitada em referendo realizado em fevereiro de 2009 foi uma aparente vitória do presidente Hugo Chávez, que ganhou o direito de se candidatar novamente à presidência em 2012. Assim aconteceu, e em outubro passado, os venezuelanos deram mais um mandato a Chávez.

O fato da vitória ser “aparente” ficou claro quando Hugo Chávez anunciou que tinha câncer, em junho de 2011. Não tivesse se empenhado tanto em mudar a constituição para poder se reeleger mais vezes (inclusive alcançado tal objetivo), Chávez teria forçado seu partido, o PSUV, a formar novas lideranças em condições de dar continuidade a seu projeto político – e isso já teria começado bem antes de 2011.

Resultado: o povo não votava em um projeto político, e sim, no líder que encarnava uma espécie de “salvador da pátria”. Prova disso é que Nicolás Maduro, o candidato indicado por Chávez (apenas em dezembro de 2012), venceu, mas por uma margem muito pequena, inferior a 2%. A expressiva votação do oposicionista Henrique Capriles assanhou a oposição, que solicitou auditoria dos votos (pedido prontamente aceito por Maduro) e recusa-se a aceitar a vitória do candidato governista, o que pode resultar inclusive em violência nas ruas, dado o histórico da direita venezuelana.

Ou seja, das urnas emerge uma Venezuela praticamente dividida ao meio. A eleição de Maduro mostra que um chavismo sem Hugo Chávez não é impossível (afinal, vitória apertada não deixa de ser vitória), mas é muito mais fraco na ausência de seu líder. Justamente por ser um projeto político extremamente vinculado a Chávez.

Chávez: sai o líder, entra o mito

Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo.

(Eduardo Galeano: “A demonização de Chávez”

Pretendo escrever um texto mais aprofundado sobre Hugo Chávez, postando-o talvez no final de semana. Mas uma coisa já posso afirmar sem medo de errar: o presidente venezuelano deixa a vida para se tornar, definitivamente, um mito.

O documentário “A revolução não será televisionada” dá uma amostra. Afinal, não é qualquer líder político que reduz drasticamente a pobreza e a desigualdade, praticamente erradica o analfabetismo, e não bastasse isso, resiste a um golpe de Estado.

Pedra cantada há quatro anos

Porém, como ninguém está livre de nada, e se acontecer algum problema que impeça Hugo Chávez de continuar, quem o substituirá? Não há a preocupação de se lançar novas lideranças dentro do próprio partido de Chávez, que possam sucedê-lo sem dificuldades.

Escrevi o parágrafo acima em fevereiro de 2009, quando os venezuelanos aprovaram, em referendo, o fim do limite de reeleições consecutivas para cargos executivos. Foi, aparentemente, uma vitória do presidente Hugo Chávez.

Ao contrário do que os ingênuos acreditam, a medida não beneficiou apenas Chávez: a mudança foi na constituição, ou seja, todos os ocupantes de cargos executivos na Venezuela podem concorrer indefinidamente à reeleição. Logo, prefeitos e governadores oposicionistas também se deram bem.

Mas o principal motivo pelo qual a vitória foi aparente, agora é entendido – embora não sem aviso, como prova o texto de quatro anos atrás. Antes da emenda constitucional ser aprovada, Chávez não poderia ser candidato à presidência em 2012. Desta forma, seu partido precisaria se preocupar em formar novas lideranças em condições de dar continuidade a seu projeto político – o que seria ótimo para o chavismo, que deixaria de ser vinculado apenas a Chávez.

Não foi o que aconteceu: com Chávez podendo concorrer indefinidamente, a possibilidade dele não ter condições de continuar na presidência acaba gerando uma grande incerteza na Venezuela. Caso a emenda não tivesse sido aprovada em 2009, na próxima quinta-feira um novo presidente (provavelmente vinculado ao chavismo) seria empossado em situação que, embora não de normalidade (afinal, Chávez estaria ausente da cerimônia de transmissão do cargo devido às suas condições de saúde), seria bem mais tranquila em termos políticos.

Dez anos do golpe fracassado na Venezuela

Em abril de 2002, a Venezuela vivia uma grave crise política. A oposição ao presidente Hugo Chávez o acusava de ser um “ditador”. E decidiu agir, implantando ela própria sua ditadura, colocando o empresário Pedro Carmona na presidência, sem que ele tivesse recebido um voto sequer, já que não disputara uma eleição.

Sem conseguir vencer Chávez nas urnas, a direita venezuelana comprovava que só defendia a democracia quando ganhava as eleições. Quando a esquerda ganhou, começou aquele discurso de que “o povo não sabe votar”, e de quanto isso “ameaça a democracia”, por permitir a instalação de uma “ditadura comunista”.

Qualquer semelhança com o que diziam os golpistas de 1964 no Brasil não é mera coincidência. Pois os golpistas de 2002 na Venezuela decidiram fazer igual a seus pares brasileiros: apelar à força das armas contra o voto do povo.

Só não tinham percebido que os tempos eram outros. No Brasil de 1964, as pessoas se informavam basicamente via jornal, rádio e televisão – e todos estes meios, com poucas exceções, apoiaram a quartelada. Na Venezuela de 2002 tinha tudo isso. Tinha também uma televisão pública – o Canal 8 – que não deixava a visão da mídia corporativa ser a única e, não por acaso, foi a primeira emissora a ter seu sinal cortado pelos golpistas na noite de 11 de abril, para que o povo não soubesse que Chávez fora deposto por um golpe midiático-militar e assim acreditasse que ele havia renunciado. Só que o povo não acreditou – como, aliás, já não vinha acreditando mais na “grande mídia” da Venezuela, que tanto falava que o país piorava em tudo; enquanto isso, para os mais pobres a vida só melhorava.

O povo fez mais do que não acreditar. Usou a tecnologia a seu favor: dotado de celulares que enviavam mensagens de texto, podia se comunicar, se informar, sem depender da mídia tradicional. Assim como podia se mobilizar.

E se mobilizou. Tomou as ruas de Caracas no dia 13 de abril. Foi para a frente do Palácio de Miraflores dizer que só reconhecia a autoridade do presidente que havia sido legitimamente eleito, ou seja, Hugo Chávez. E os golpistas fugiram com o rabo entre as pernas.

Na noite de 13 para 14 de abril, Chávez estava de volta ao palácio, nos braços do mesmo povo que o levara à presidência pelo voto – esta instituição que a direita tanto finge defender, mas revela temer quando não a favorece.

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Dez anos depois, Chávez continua a ser o presidente da Venezuela, e pode, em outubro próximo, conquistar um novo mandato de seis anos. Ditador? Se só o tempo de governo é pré-requisito para uma ditadura, a direita tinha de falar um pouquinho mais sobre um certo Hosni Mubarak, que governou o Egito por 30 anos e só quando estava caindo foi chamado de ditador pelos que criticam Chávez. Mubarak só enfrentou um opositor nas urnas quando já estava no poder há 24 anos, e venceu graças a fraudes. Já todas as eleições que Chávez venceu foram comprovadamente limpas, com a oposição tendo todo o direito de fazer campanha e de se manifestar (quer maior “liberdade de expressão” para a oposição do que ter a “grande mídia” a seu favor?). Tanto que Chávez também perdeu um referendo, em dezembro de 2007, quando não conseguiu aprovar uma série de reformas constitucionais nas urnas – nas ruas, opositores chegaram a usar a bandeira dos Estados Unidos na comemoração.

Porém, nem tudo são flores na Venezuela. Em 2009, quando foi aprovado o fim do limite de reeleições para cargos executivos, alertei:

Porém, como ninguém está livre de nada, e se acontecer algum problema que impeça Hugo Chávez de continuar, quem o substituirá? Não há a preocupação de se lançar novas lideranças dentro do próprio partido de Chávez, que possam sucedê-lo sem dificuldades.

Pois agora Chávez luta contra um câncer. E se devido à doença ele não puder continuar a ser presidente? Seu projeto político é muito vinculado a ele próprio, e assim seu partido se verá em maus lençóis caso ele não possa continuar. E com Chávez podendo se candidatar à reeleição quantas vezes quiser, provavelmente se pensará ainda menos em alguém que possa dar continuidade a seu projeto político.

Ah, se fosse na Venezuela…

Hoje pela manhã, um grupo de policiais foi ao DCE da USP para “pedir” aos alunos que deixassem o local devido a uma (suposta) reforma a ser empreendida pela reitoria (à qual os estudantes se opõem, assim como à presença da PM no campus). Um policial “achou” que um dos jovens presentes – coincidentemente, o único negro – não era aluno da USP, e “pediu” para que se identificasse. O estudante recusou-se a mostrar sua carteirinha ao PM e por isso foi agredido pelo mesmo, que ainda por cima sacou sua arma e a apontou para o jovem.

Depois, o mesmo policial tapou sua identificação no uniforme e recusou-se a dizer seu nome aos estudantes que o questionavam. Ué, mas o aluno agredido não o foi por não querer se identificar? Achei que a polícia deveria dar exemplo, e não adotar a filosofia do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” para reprimir utilizando-se do argumento “minha autoridade foi desacatada!”.

Nos comentários dos vídeos no YouTube, claro, os fascistas de sempre vomitam os mesmos bostejos. “Bando de maconheiros, tem de dar porrada mesmo!”, “vão estudar, vagabundos”, etc., etc.

Agora, imaginem se isso tivesse acontecido na Venezuela, com a polícia agredindo gratuitamente estudantes por eles protestarem contra o governo de Hugo Chávez…

Câncer de Chávez é ameaça a seu projeto político

O que era rumor, se confirmou ontem. O presidente venezuelano Hugo Chávez, em pronunciamento à TeleSur, admitiu estar combatendo um câncer.

Mesmo estando em Cuba para o tratamento de saúde, Hugo Chávez não transmitiu interinamente o cargo ao vice-presidente Elias Jaua, gerando protestos da oposição. Chávez diz estar acompanhando e liderando as questões políticas na Venezuela.

Em fevereiro de 2009, logo que a população venezuelana aprovou em referendo a reeleição ilimitada para cargos executivos, escrevi sobre o assunto, defendendo que, ao contrário do que muitos apoiadores pensam, tal medida era prejudicial a seu projeto político. Pois este é vinculado a apenas a uma pessoa, o próprio Hugo Chávez, não havendo a preocupação em se formar novas lideranças dentro de seu partido – e com o fim do limite de reeleições, se passou a pensar menos ainda em alguém que possa suceder Chávez sem dificuldades caso ele não possa mais ser o presidente.

Pois tal situação parece mais próxima: embora Chávez diga que o tratamento do câncer esteja evoluindo bem, sabemos como tal doença é traiçoeira, muitas vezes voltando quando se acredita estar livre dela. E a próxima eleição presidencial na Venezuela ocorrerá no final do próximo ano… Chávez terá condições de continuar?

Uma boa prova da parcialidade da mídia corporativa

Na próxima quarta-feira, 2 de fevereiro, Hugo Chávez completa 12 anos na presidência da Venezuela. Os principais “opinistas” não hesitam em qualificá-lo como “personalista”, “aprendiz de ditador”, isso quando não o chamam de “ditador” mesmo.

No dia 14 de outubro, Hosni Mubarak completa 30 anos na presidência do Egito (se o povo não derrubá-lo antes, a exemplo do que aconteceu com Ben Ali na Tunísia). E só agora que percebo a palavra “ditador” acompanhando seu nome na mídia corporativa – provavelmente porque vai pegar mal para os “democratas” não o chamarem assim quando o povo sai às ruas contra seu governo.

E olha que Chávez se mantém no poder ganhando eleições reconhecidamente limpas. Já Mubarak, só foi enfrentar um opositor nas urnas em 2005 – num processo eleitoral marcado por denúncias de fraude.

A diferença entre eles, mais do que o tempo no poder (e sem falar em suas linhas políticas), é que Mubarak é aliado dos Estados Unidos, e Chávez não…

A maior piada do ano (até agora)

Ontem, no fórum defensor da liberdade só para quem tem dinheiro (“e quem não tem que se dane” – eles não dizem abertamente mas certamente é o que pensam), foi dada um prêmio de “liberdade de imprensa”… A um golpista!

O premiado foi Marcel Granier, diretor-presidente da RCTV, emissora de televisão que foi uma das principais apoiadoras do golpe militar na Venezuela em 11 de abril de 2002. Os falsos democratas que derrubaram Hugo Chávez por dois dias instalaram uma ditadura de verdade (sorte que durou pouco): dissolveram o parlamento, a Suprema Corte e o Conselho Nacional Eleitoral; destituíram todos os governadores, prefeitos, conselheiros, dentre diversos outros cargos.

Ah, e o premiado por “defender a liberdade de imprensa” apoiou um governo que a combateu: a Venezolana de Televisión, emissora pública, teve seu sinal cortado pelos golpistas – afinal, fora a única a não aderir à quebra da ordem constitucional.

Bem diferente do que aconteceu com a RCTV, que transmitiu seu sinal na TV aberta por mais cinco anos, até o vencimento da concessão em 2007.

E Granier disse que o prêmio é algo que ele “preferia não ter recebido”. É, acho que apesar de tudo o que fez, o sujeito tem consciência e ela pesou…

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Além do prêmio de “liberdade de imprensa”, o presidente da entidade que organiza o evento disse que “os direitos humanos não podem se sobrepor ao direito de propriedade”. Ou seja: se for for preciso uma ditadura… Ué, e a liberdade que eles tanto defendem?