A volta do Bola Romena

Notícia melhor para os admiradores do futebol jogado na terra de Gheorghe Hagi, não podia haver. O sensacional Bola Romena está de volta.

Tá, o leitor acessou o link e reparou que o último post é de fevereiro de 2009. Explico: é que o Bola Romena agora é uma coluna quinzenal sobre futebol romeno no (também excelente) blog Carta na Manga.

Gosto do futebol da Romênia desde que vi aquele timaço da Copa de 1994, que por pouco não enfrentou o Brasil na semifinal. A “primeira impressão”, que dizem ser a que fica (e parece ter sido mesmo), foi aquele jogo contra a Colômbia (considerada favorita), na estreia: eu torcia pelos sul-americanos contra um país desconhecido do Leste Europeu; mas com o correr do jogo, não pude mais torcer contra um time cujo camisa 10 encobria o goleiro adversário com um chute da lateral de campo com a mesma facilidade que tenho para calcular que dois mais dois são quatro. No final, 3 a 1 para a Romênia, com um espetáculo do “Maradona dos Cárpatos”.

Naquela Copa, a Romênia foi até as quartas-de-final (quando foi eliminada nos pênaltis pela Suécia), sua melhor campanha em um Mundial. E engana-se quem pensa que aquele time era só Hagi: também brilhavam os atacantes Florin Raducioiu e Ilie Dumitrescu (autor de dois dos três gols da vitória romena de 3 a 2 sobre a Argentina, nas oitavas-de-final), o defensor Dan Petrescu, assim como o líbero Miodrag Belodedici, o “heroi de duas nações” (de origem sérvia, Belodedici participou das duas únicas conquistas da Copa dos Campeões da UEFA por clubes do Leste Europeu: pelo Steaua de Bucareste em 1986, e pelo Estrela Vermelha de Belgrado em 1991).

A Copa de 1994 representou o auge da melhor fase da história do futebol romeno – iniciada na década passada, com a conquista do Steaua. Se antes a força estava nos clubes, nos anos 90 ela era representada pela seleção: após o violento final da ditadura de Nicolae Ceausescu em dezembro de 1989, a Romênia deixou de ser “socialista” e com isso o país abriu-se ao “mercado”; o futebol não escapou aos “novos tempos” e os melhores jogadores foram brilhar em gramados estrangeiros, principalmente na Espanha e na Itália.

A “era de ouro” do futebol romeno terminou em 2001: Hagi parou de jogar (já havia deixado a seleção um ano antes, na Euro 2000), e a Romênia ficou de fora da Copa de 2002 ao perder para a Eslovênia, na repescagem. Desde então, mesmo contando com alguns bons jogadores como Cristian Chivu e Adrian Mutu, os Tricolorii conseguiram, no máximo, a classificação para a Euro 2008 (quando acabaram eliminados na fase de grupos, depois de empatarem com a Itália em um jogo que poderia ter sido ganho não fosse um pênalti desperdiçado por Mutu).

Resta torcer para que os romenos reencontrem seu melhor futebol (ou que surja uma nova “geração de ouro” como aquela dos anos 80/90), para que possam se classificar para a Copa de 2014 com chances de fazerem algo de interessante aqui no Brasil.

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Xinga eles, Dunga!

Não sou fã incondicional de Dunga. E isso não se deve ao fato dele ser colorado – afinal, Olívio Dutra e Luís Fernando Veríssimo também têm este defeito.

Acho que Dunga pisou na bola muitas vezes (nem vou falar sobre os jogadores que ele levou para a Copa – acho que Victor podia estar lá, mas…). Como em suas lamentáveis opiniões sobre a escravidão e a ditadura no Brasil: para o técnico da Seleção, quem não viveu aquelas épocas não pode dizer se foram “boas ou ruins” – no meu caso, é impossível não formar um juízo de valor sobre épocas das quais há inúmeros documentos provando suas atrocidades (mesmo que eu saiba que, se for estudá-las, terei de ser o mais isento possível).

Outra queixa contra Dunga foi que ele não tirou uma das mãos do bolso da calça ao cumprimentar o presidente Lula, antes da Seleção embarcar para a África do Sul. Realmente achei uma atitude deselegante, mas tenho certeza de que muitos dos que criticam Dunga são daqueles que chamam Lula de tudo que é adjetivo depreciativo. Ou seja, um bando de hipócritas.

Agora, a discórdia é com ninguém menos que a Rede Globo, que queria direito a entrevistas exclusivas com os jogadores da Seleção, concedido por Ricardo Teixeira mas vetado por Dunga. Além disso, o técnico já vinha fechando os treinos e restringindo o máximo possível o contato dos jogadores com a imprensa.

Os atritos chegaram ao auge após o jogo contra a Costa do Marfim, em que o repórter Alex Escobar falava ao celular com Tadeu Schmidt durante a entrevista coletiva, criticando Dunga, que ouviu e interpelou o jornalista, que não quis dizer nada. Então o técnico o chamou de “cagão” e outros palavrões que foram captados pelos microfones. Mais tarde, aquele patético “editorial” da Globo detonando com Dunga.

Dunga foi “grosso”? Sim, foi. Mas ele também foi um dos brasileiros mais massacrados pela “grande mídia” em sua longa história de destruição de reputações (se bem que a de Dunga eles não conseguiram detonar). Em 1990, foi criada a expressão “era Dunga” para simbolizar o futebol defensivo da Seleção (como se aquela Copa não tivesse sido justamente marcada pelo defensivismo), considerado “medíocre”. O então volante foi considerado culpado pela eliminação do Brasil diante da Argentina, nas oitavas-de-final (se é para eleger um culpado, voto em Maradona, por ser gênio).

Quatro anos depois, lá estava Dunga para levantar a taça. Ainda sob fogo cerrado – assim como o resto do time – dos mesmos “opinistas”, que criticavam o fato da Seleção Brasileira “não jogar bonito”, mesmo que campeã mundial depois de 24 anos. Pois é, mas deviam perguntar aos torcedores na época (principalmente aos mais jovens, como eu, que nunca tinham visto o Brasil ganhar a Copa) se trocariam aquele time campeão por um que “desse espetáculo” mas ficasse pelo caminho.

Para a “grande mídia”, Dunga não tinha lá muitos méritos: afinal, era capitão de um time campeão, mas que não jogava o “futebol-arte”, logo, “era ruim” – palhaçada repetida até hoje. E vão querer que ele não tenha nenhuma mágoa contra a imprensa?

XINGA ELES, DUNGA!

Falha minha

No post sobre a Copa de 1994, acabei esquecendo um lance sensacional – que me foi lembrado pelo André, do Cataclisma 14, em um comentário.

Foi a bicicleta do zagueiro estadunidense Marcelo Balboa, na partida contra a Colômbia, vencida por 2 a 1 pelos Estados Unidos. Foi o “quase gol” mais bonito da Copa de 1994 – se aquela bola entrasse, seria digna de comparações com os golaços de Al-Owairan e Hagi.

Este foi o jogo em que o zagueiro colombiano Andrés Escobar marcou um gol contra e, consequência disso, foi covardemente assassinado em Medellín, poucos dias após o retorno a seu país.

As Copas que eu vi: Estados Unidos 1994

No ano letivo de 1993, como sempre acontecia, eu ia muito bem em todas as matérias. Na verdade, em quase todas as matérias: minhas notas em Educação Artística é que destoavam do resto. Comecei bem a 5ª série, com 9 no 1º bimestre, mas no 2º bimestre minhas notas começaram a decair – fruto do que considero uma certa implicância da professora, pois só com ela que fui mal, mesmo que jamais tenha desenhado bem – e cheguei ao último bimestre precisando de 6,5 para evitar o vexame de pegar recuperação. Não era uma tarefa das mais difíceis para quem tirava 10 em tudo, é verdade, mas eu não estava acostumado a uma situação daquelas; e além disso já tivera uma nota 6 no segundo bimestre (e 6,5 no terceiro). Mas consegui tirar 7, e obter a média final de 7,1: foi a única vez em todo o tempo de colégio (1989-1999) em que vibrei com uma aprovação (já que as outras nem tinham graça).

O leitor deve estar pensando: “tá, e o que isso tem a ver com futebol?”. A resposta é que pouco depois da notícia, comentei com um colega: “escapei da repescagem!”. Referência à situação vivida pela Argentina, que só se classificou para a Copa do Mundo de 1994 após vencer a Austrália na repescagem entre América do Sul e Oceania. Sinal dos tempos: eu já me interessava por futebol, graças a uma professora de Educação Física (cujo nome infelizmente esqueci) do Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto, que na segunda semana de aulas de 1993 praticamente me obrigou a jogar, pois não queria mais me ver parado – foi o bizarro episódio em que um colega inventou um gol que eu teria marcado no passado, que tenho certeza absoluta de jamais ter feito (lembro de ter marcado pela primeira vez no colégio na 6ª série, foi tão marcante que até o dia eu recordo: 19 de outubro de 1994).

Assim, o Mundial realizado nos Estados Unidos em 1994 não foi uma Copa qualquer, foi A Copa. A primeira que eu, mais que “dar bola”, curti aos montes. Isso após eu voltar a apenas observar meus colegas na Educação Física: no dia 14 de abril eu acordei com uma estranha dor de barriga que não passava, fui à aula de tarde e comecei a me sentir pior; voltei para casa, me deitei, e quando levantei novamente, não conseguia mais caminhar direito e ainda vomitei; minha mãe me levou ao médico e ele de cara deu o diagnóstico: apendicite – e a cirurgia teria de ser feita urgentemente. Uma semana depois, saí do hospital, mas com atestado médico me liberando da Educação Física. Eu queria jogar, mas não podia… Continuar lendo