“¿Será peor que el 23 de agosto?”

Fevereiro de 2006. Andava pelas ruas ruas centrais de Montevidéu com meu pai e meu irmão, e o que não faltava era vendedores de guarda-chuva, apesar do tempo não estar com cara de chuva. Mas bastava nos aproximarmos de um deles que se ouvia o prognóstico, acompanhado de uma cara preocupada:

– Viene un ciclón, puede ser peor que el 23 de agosto.

Outro pedestre passava e perguntava, mais assustado:

– ¿¿¿Será peor que el 23 de agosto???

A preocupação dos montevideanos não se dava a toa. Em 23 de agosto de 2005, o Uruguai fora atingido por um violento e destrutivo ciclone (vídeo abaixo) com rajadas de vento acima de 150km/h, que deixou um saldo de sete mortes e uma população traumatizada, que não podia ouvir falar em ciclón sem sentir medo.

Sabendo do que acontecera naquele 23 de agosto, decidimos não arriscar: compramos um guarda-chuva para cada um, mesmo sabendo que ele não adianta de nada quando venta muito. A tempestade veio no dia seguinte, e esperamos o vento mais forte passar abrigados no saguão de entrada de um prédio na Praça Independência: não notamos nenhum estrago nas ruas após a ventania, que ficou muito aquém do ciclone de seis meses antes.

Não voltei a Montevidéu desde aquela visita. Mas só imagino que, na última quarta-feira, certamente o que não faltou foi gente lembrando do 23 de agosto de 2005 devido a mais um ciclone, que matou três pessoas e causou muitos danos. Na Praça Independência, o vento era tão forte que a única maneira de atravessar uma rua era se agarrando em uma corda.

Dentre os feridos pelo ciclone, se encontra o próprio presidente do Uruguai: José Mujica machucou o nariz ao ajudar um vizinho que teve a casa destelhada. (Aliás, alguém me diga se outro Chefe de Estado que não o Pepe sairia em meio a um vendaval para ajudar alguém…)

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O Uruguai, nos dando um “baile”

O general Gregório Álvarez, ditador do Uruguai de 1981 a 1985, foi condenado a 25 anos de prisão por sua participação em 37 mortes durante a ditadura civil-militar* no país (1973-1985). E ele não foi o único: o ex-capitão da Marinha Juan Carlos Larcebeau foi sentenciado a 20 anos por outras 29 mortes.

Embora o Uruguai tenha uma “lei de caducidade” (versão local da nossa lei de anistia de 1979) que ajuda a manter impunes muitos violadores dos direitos humanos, há crimes aos quais ela não se aplica. Em outubro de 2009 foi realizado um plebiscito pela anulação parcial da lei, mas as mudanças não foram aprovadas. Menos mal que, ao menos, haja punições aos carrascos do período ditatorial.

Enquanto isso, no Brasil, todos os ditadores de 1964 a 1985 morreram sem arcarem com a responsabilidade por suas violações aos direitos humanos. Muitos torturadores também já são falecidos, e os vivos continuam livres, leves e soltos.

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* No Uruguai, o golpe de Estado foi dado em 27 de junho de 1973 pelo presidente civil (e, até então, constitucional) Juan María Bordaberry, com apoio dos militares, mas o regime foi predominantemente de ditadores civis. O único ditador militar do período foi Gregório Álvarez, que só assumiu o poder oito anos após o golpe, e renunciou poucos dias antes da posse do presidente eleito diretamente em novembro de 1984, Julio María Sanguinetti.

Uruguai, o maior da América

Foi incontestável. O Uruguai praticamente não deu chance ao Paraguai: marcando o primeiro gol cedo, com Suárez aos 11 minutos de jogo, impôs aos guaranis a necessidade de algo que estavam pouco acostumados a fazer nesta Copa América: ter de correr atrás do prejuízo – só saíram perdendo contra Brasil e Venezuela, na primeira fase (aliás, em nenhum jogo o Paraguai saiu na frente).

O técnico uruguaio Oscar Tabárez fez jus ao apelido de maestro, e mandou a Celeste para o ataque, de modo a abrir o placar o mais rápido possível. Deu certo, e poderia ter sido ainda mais cedo, se o árbitro brasileiro Sálvio Spinola tivesse marcado o pênalti cometido por Ortigoza, que com o braço impediu o primeiro gol uruguaio antes dos 5 minutos de jogo. À frente no placar, o Uruguai controlou a partida com tranquilidade, sendo raramente ameaçado pelo Paraguai. E ao invés de se preocupar apenas em segurar o resultado, continuou buscando o gol e demonstrando garra. Chegou ao 3 a 0 com dois de Forlán, mas poderia ter sido mais.

Por falar em garra, vejo nesta grande conquista uruguaia (que também faz da Celeste Olímpica a maior vencedora da Copa América, com 15 títulos) uma lição para o Grêmio. Nos últimos tempos, muitos torcedores (e mesmo dirigentes) passaram a achar que “ter garra” era apenas dar pontapé. Como bem lembra Eduardo Galeano:

No futebol uruguaio, a violência foi filha da decadência. Antes, a garra charrua era o nome da valentia, e não dos pontapés. No Mundial de 50, sem ir mais longe, na célebre final do Maracanã, o Brasil cometeu o dobro de faltas que o Uruguai. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 206.)

Repararam na semelhança com o que aconteceu com o Grêmio? A garra que tinha aquele Grêmio dos anos 90 não era “violência”, embora a mídia do eixo Rio-São Paulo tanto batesse nessa tecla, provavelmente por inveja de tantas conquistas gremistas. (Inclusive, lembro que em novembro de 1996 a revista Placar publicou o resultado de pesquisa que elegeu o jogador mais violento do Campeonato Brasileiro daquele ano, com base nos votos dos próprios atletas que disputavam a competição: apesar de Dinho ter ficado em 2º lugar – mesmo sem ter sido expulso nenhuma vez naquele campeonato -, os outros sete jogadores que ficaram entre os oito primeiros eram de Corinthians, Flamengo e Vasco; e o mais votado foi o volante Mancuso, do Flamengo – time cujos jogadores receberam o maior número de votos, ou seja, foi o “campeão da pancadaria”).

Tabárez fez mais uma jogada de maestro ao fazer o Uruguai praticar o “jogo limpo”: a Celeste, além de ser campeã, também recebeu o prêmio de fair play da Copa América 2011. O que não significou o abandono da garra, até mesmo quando o time estava à frente no placar: contra o Paraguai, mesmo quando venciam por 2 a 0, os uruguaios não deixaram de disputar a posse de bola. (Aliás, nesse Uruguai campeão até Suárez e Forlán têm de brigar pela bola, marcar o adversário… Lembram que Renato Portaluppi disse que “craque não precisa marcar”, para “justificar” a displicência de Douglas?)

Era algo assim que o Grêmio praticava nos anos 90. E por isso era tão vencedor: embora às vezes seja necessário parar o jogo com algumas faltas, cometê-las em excesso resulta em mais chances de gol para o adversário. Ou seja, só “dando porrada” pode-se até ganhar jogos, mas dificilmente contra times de grande qualidade, principalmente fora de casa. E aí é difícil ser campeão de algo realmente importante.

Um campeão de empates? Por favor, não…

Considerando a campanha do Paraguai até agora nesta Copa América, não teria medo de apostar em mais um empate na tarde de hoje. E assim a Albirroja poderá, ironicamente, ser campeã invicta, mesmo sem ganhar nenhum jogo…

Não chega a ser algo inédito uma seleção ir longe num campeonato só empatando. Em 1990, a Irlanda chegou até as quartas-de-final da Copa do Mundo com quatro empates: três na primeira fase, e nas oitavas-de-final eliminando a Romênia nos pênaltis; nas quartas, os irlandeses não conseguiram empatar mais uma, e foram eliminados pela anfitriã Itália com uma derrota de 1 a 0 (curiosamente, na Copa seguinte as duas seleções se enfrentaram na estreia e a Irlanda devolveu o placar). No Mundial de 1998, Chile e Bélgica tiveram campanhas semelhantes, mas não a mesma sorte: ambas empataram os três jogos da primeira fase, mas os chilenos se classificaram, e os belgas voltaram para casa. Já ano passado, com três empates na primeira fase a Nova Zelândia fez história: apesar de não ir adiante na Copa, foi a única seleção invicta e certamente tirou pontos de todos os que participaram de bolões.

Mas campeão só empatando os seis jogos, que eu saiba, nunca se viu. E espero não ver hoje. Pelo bem do futebol e de minha querida Celeste Olímpica. VAI URUGUAI! (E não me importarei se for nos pênaltis, como naquele jogo com Gana. Tá na hora do Paraguai perder uma desse jeito…)

Quase o gol contra mais bizarro dos últimos tempos

Foi no jogo Uruguai x Chile, pela Copa América. O “lance de soccer” começa aos 25 segundos do vídeo abaixo: o jogador uruguaio vai dar um chutão na bola, e… Olha o que (quase) acontece.

Um ano DAQUELE JOGO

A tarde de 2 de julho de 2010 teve sol e calor em Porto Alegre, situação bem diferente da verificada hoje. Também tinha futebol: no caso, eram as quartas-de-final da Copa do Mundo da África do Sul.

Começou com a eliminação do Brasil: 2 a 1 para a Holanda, de virada. Horas depois, veio o jogaço: Uruguai x Gana. O melhor que vi em uma Copa depois daquela de 1994, a maior de todas (e nem adianta me falarem de 1982, quando eu não tinha nem completado um ano!).

Qualquer que fosse o resultado, seria histórico. Desde 1970 o Uruguai não chegava às quartas-de-final de uma Copa (e também a uma semifinal). Já Gana poderia fazer história ao ser a primeira seleção africana a estar entre as quatro melhores do Mundial.

Sinto grande carinho pelo Uruguai, e queria ver a Celeste na semifinal. Mas ver uma seleção africana chegar lá não me deixaria triste. E parecia que a segunda opção era a que se confirmaria. Só que Gyan mandou no travessão, certamente causando enfartos em torcedores de ambos os países.

E a classificação do Uruguai veio de forma “maluca”: Sebástian “El Loco” Abreu, de cavadinha, converteu a ultima cobrança da série de pênaltis. No Grêmio ele não fazia dessas

Assisti ao jogo no antigo bar Ritrovo, na Rua da República, em companhia do Hélio Paz que, admirador do futebol africano, torcia por Gana. A maioria dos presentes era “uruguaia”, mas no final todos celebramos o futebol, que mais uma vez mostrava porque é tão apaixonante.

Grande Peñarol!

O Peñarol me dá uma grande alegria nesta Libertadores. Não por ter eliminado o Inter (isso nada mais é do que OBRIGAÇÃO), mas sim por confirmar a melhora da auto-estima do futebol uruguaio, que andava tão por baixo em tempos recentes.

Pois a classificação do Peñarol para a final não é exceção. Basta dar uma conferida no que tem acontecido nos últimos dois anos.

  • 2009: Nacional chega à semifinal da Libertadores, fase que não alcançava desde 1988, e que desde 1989 nenhum clube uruguaio disputava (quando o Danúbio foi semifinalista);
  • 2010: Seleção do Uruguai faz sua melhor campanha em Copas do Mundo desde 1970, acabando em 4º lugar;
  • 2011 (fevereiro): Uruguai é vice-campeão no Sul-Americano sub-20, resultado que coloca a Celeste nos Jogos Olímpicos após 84 anos de ausência (curiosamente, a última participação fora em 1928, quando o Uruguai ganhou o ouro);

E agora, em junho, o futebol uruguaio volta a ter um representante na final da Libertadores depois de 23 anos (na última ocasião, em 1988, o Nacional foi campeão). O Peñarol, por sua vez, desde 1987 não chegava à final (naquela oportunidade, foi também campeão).

No texto em que falei sobre a classificação do Uruguai às quartas-de-final da Copa de 2010, eu comentei que, com aquela campanha, os uruguaios voltavam a acreditar que era possível fazer bonito no futebol e, até mesmo, conquistar grandes títulos. O que se reflete não só na torcida, como nos próprios jogadores da seleção e dos clubes do país, que não entram mais em campo “semiderrotados”, oprimidos por um longo jejum de títulos. Sí, se puede: se só a técnica não bastar, então é preciso que seja na garra. E o Peñarol de 2011 tem os dois, mais a experiência de alguns jogadores que passaram anos na Europa.

Mas é preciso ressaltar que a visível melhora do futebol uruguaio também se deve ao sensacional trabalho que vem sendo realizado nas categorias de base da seleção e que é coordenado pelo técnico da equipe principal, o maestro Oscar Tabárez. Além da formação de atletas, há a preocupação com o ser humano que é cada um dos jovens: como se sabe que a maioria esmagadora não terá sucesso no futebol, então, é preciso prepará-los para a vida fora dos gramados, estimulando-os a estudar. E os que dão certo, são jogadores com mais “cabeça”, mais senso crítico, coisa rara no meio.

Ou seja: o que vem acontecendo não é, de forma alguma, obra do acaso. Assim como uma festa uruguaia no dia 22 de junho, em São Paulo, também não pode ser descartada: embora o Santos tenha um time melhor, é importante lembrar que o Peñarol só passou por equipes consideradas superiores nos “mata-matas”. Se já bateu três (Inter, Universidad Católica e Vélez Sarsfield), pode muito bem vencer a quarta.

Uma luta contra o esquecimento

Nunca me canso de elogiar a Argentina pelo valor que dá à memória e à justiça (aqui no Brasil, se tem a cara-de-pau de chamar isso de “revanchismo”). E isso não se dá apenas em relação ao que aconteceu em seu próprio país.

Segunda-feira, via Facebook, li a notícia de que um juiz argentino emitiu, no início de abril, uma sentença condenando a Turquia pelo crime de genocídio contra o povo armênio. O dia 24 de abril de 1915 é considerado o início da matança, quando diversas lideranças armênias foram presas em Constantinopla (atual Istambul) e levadas ao interior do Império Otomano (do qual a Turquia é o Estado sucessor), onde foram brutalmente assassinadas. Cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos deliberadamente entre 1915 e 1923 pelo governo ultranacionalista dos “Jovens Turcos”.

O Genocídio Armênio foi o primeiro evento deste tipo no século XX, e é o segundo mais estudado depois do Holocausto. Ainda assim, os armênios precisam lutar contra o esquecimento, 96 anos depois do início do massacre.

A Turquia não apenas insiste em negar que houve um genocídio – admite que muitos armênios morreram, mas afirmando que foi consequência da Primeira Guerra Mundial, e não de uma matança deliberada -, como ainda reprime qualquer manifestação pró-reconhecimento dentro de suas fronteiras: quando o escritor turco Orhan Pamuk (Prêmio Nobel de Literatura em 2006) afirmou em 2004 numa entrevista a um jornal suíço que na Turquia “ninguém se atreve a falar” do genocídio contra os armênios e da posterior matança de 30 mil curdos, sofreu processo por “insultar e desacreditar a identidade turca” (crime previsto no código penal do país); a acusação foi retirada no início de 2006.

O esquecimento, como já se sabe muito bem, favorece a repetição de eventos semelhantes. Afirma-se que Adolf Hitler teria dito “afinal, quem fala hoje do extermínio dos armênios?” em 1939 – provavelmente argumentando a favor do plano de exterminar milhões de judeus (pois lhe parecia óbvio que isso seria esquecido).

Porém, Hitler perdeu a guerra, e o mundo fez questão de não esquecer o Holocausto, inclusive com a colaboração da própria Alemanha, onde há memoriais em homenagem aos seis milhões de judeus mortos. Nenhum Estado ousa não reconhecer que houve um genocídio, diferentemente do que acontece em relação ao sucedido com os armênios, caso em que muitos países, em nome de manter boas relações com a Turquia (né, Brasil?), não fazem um reconhecimento formal de que houve um extermínio.

E voltando ao começo: a sentença do juiz não foi o primeiro ato oficial nesse sentido na Argentina, pois o Estado argentino já reconhecia formalmente o Genocídio Armênio. O primeiro país a reconhecer o massacre foi o Uruguai, mediante resolução parlamentar em 1965.

Copa 2014 e Rio 2016: os nossos “Banheiros do Papa”?

Em agosto passado – mais precisamente, durante a final da Libertadores – assisti ao filme uruguaio “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa), de César Charlone e Enrique Fernández. De meu programa alternativo ao futebol nasceu uma resenha, publicada no Pipoca Comentada.

O filme é baseado em fatos reais. Em maio de 1988, João Paulo II visitou o Uruguai, e a cidade de Melo, próxima à fronteira com o Brasil, estava no roteiro.

O anúncio de que o Papa passaria por Melo gerou enorme expectativa em seus moradores, que viram no acontecimento a oportunidade de ganharem bastante dinheiro com a venda de lanches aos muitos milhares de fiéis de outros lugares (principalmente do Brasil) que, segundo a televisão, iriam à cidade ver o pontífice. O personagem principal, Beto (César Troncoso), decidiu construir um banheiro e cobrar pelo uso: como tanta gente iria comer tanto, também precisaria “se aliviar” em algum lugar, né?

Assistir a esse filme faz pensar muito nos próximos “eventos grandiosos” que acontecerão no Brasil: a Copa do Mundo de 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016 (embora sejam só no Rio de Janeiro, todos os brasileiros irão pagar). Muitos veem tais eventos como “a grande oportunidade”, e a televisão apenas estimula ainda mais o ufanismo. Aqui em Porto Alegre, pela Copa se justifica qualquer barbaridade.

Só que em Melo, o dia 8 de maio de 1988 virou símbolo de ruína econômica, já que a passagem do Papa não atraiu os muitos milhares de visitantes que a televisão dizia que iriam à cidade e assim a maior parte dos “comes e bebes” não foi vendida, restando apenas dívidas para quem havia apostado tudo no acontecimento. Assim como muitos gregos não devem gostar de lembrar dos Jogos Olímpicos de 2004, realizados em Atenas: dentre os motivos para a quebra da Grécia estão os gastos excessivos com instalações esportivas que, após o apagamento da pira olímpica, viraram “elefantes brancos”. Falta saber como será o final da história para o Brasil.