Eduardo Galeano: PRESENTE!

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“Agora não somos mais aquele pequeno ponto no mapa do mundo”. Este comentário, do dirigente uruguaio Atilio Narancio, foi feito após a seleção de futebol do Uruguai conquistar sua segunda medalha de ouro olímpica, em 1928. Não foi por acaso que o país foi escolhido pela FIFA para sediar a primeira Copa do Mundo de futebol, dois anos depois.

O comentário de Narancio foi citado na crônica “O segundo descobrimento da América”, do excelente “Futebol ao Sol e à Sombra”, publicado em 1995 por Eduardo Galeano. Foi este o primeiro livro dele que li, adquirido em uma banca na Feira do Livro de Porto Alegre, vários anos atrás. Antes mesmo de seu clássico “As Veias Abertas da América Latina”.

Galeano era um grande cronista, e também um apaixonado por futebol. Como ele mesmo se definiu, “um mendigo do bom futebol”. Mas ainda que procurasse ser o mais imparcial possível em suas crônicas, jamais abriu mão de seu lado torcedor (que é, afinal, o que leva qualquer pessoa a gostar de futebol). Confessa que, como torcedor do Nacional, fez o possível para odiar os grandes jogadores do arquirrival Peñarol (não conseguiu). E também “alentava” à grande Celeste Olímpica, que “colocou o Uruguai no mapa do mundo” na década de 1920.

Não me esqueço de uma matéria, publicada na Zero Hora se não me engano, do dia em que o Uruguai enfrentaria a Holanda pela semifinal da Copa de 2010: uma das fotos que a ilustrava mostrava a porta da casa de Galeano com um cartaz onde se lia “cerrado por fútbol”. O que me faz lembrar mais um trecho daquela mesma crônica citada dois parágrafos atrás:

A paixão futebolística dos uruguaios vem daquele passado longínquo e suas raízes fundas ainda estão à vista: cada vez que a seleção nacional joga uma partida, seja com quem for, corta-se a respiração do país e calam a boca os políticos, os cantores e os charlatães de feira, os amantes interrompem seus amores e as moscas param o vôo.

Naquele dia, a Celeste Olímpica voltava a disputar uma semifinal de Copa do Mundo após 40 anos. Perdeu, mas não se entregou até o último minuto de jogo. Depois de tanto tempo, os uruguaios voltavam a sentir verdadeiro orgulho de sua seleção, que fazia jus a sua vitoriosa tradição.

Mas, ainda assim, isso não significava que o Uruguai voltava a figurar no mapa do mundo. Pois um país que produz alguém como Eduardo Galeano de forma alguma passaria despercebido.

Hoje em dia o Uruguai está um tanto “na moda”, muito por conta de outra grande personalidade que também merece toda a admiração: José Mujica. Aliás, tem muita gente que se diz fã do Pepe mas fala cada direitice que, felizmente, ele não escuta, pois se ouvisse perigaria morrer de desgosto…

Só que antes do Pepe ser eleito eu já sentia grande carinho e simpatia por nosso vizinho do sul, e inclusive já tinha esta camiseta aí da foto (que, inclusive, visto no momento em que escrevo estas linhas). Muito disso se devia a meu próprio parentesco: minha avó paterna é filha de uruguaios e nasceu bem próxima à fronteira. Mas descobrir o talento de Eduardo Galeano, cuja prosa era também poesia, me fez gostar ainda mais deste pequeno grande país chamado Uruguai.

¡Gracias, Eduardo!

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Henry, o salvador do mundo

Mês passado, postei aqui sobre como os números poderiam levar a um novo “Maracanazo” na Copa do Mundo de 2014. Não refarei toda a conta, o link anterior explica como funciona. Só digo que segundo a fórmula original (e também com as que inventei na hora) o campeão mundial de 2014 seria o mesmo de 1950, ou seja, o Uruguai. O que bem sabemos, não aconteceu, visto que a Celeste foi embora nas oitavas-de-final.

Para a fórmula continuar válida, também seria necessário que o Brasil tivesse sido campeão em 2006 e a Alemanha em 2010; mas como bem lembramos, deu respectivamente Itália e Espanha nessas duas Copas. Porém, vamos supor que tivesse saído tudo conforme os números previam, e tivesse dado Brasil em 2006, Alemanha em 2010 e Uruguai em 2014.

Na próxima Copa, para sabermos o campeão teríamos de subtrair 2018 de 3964, e o resultado seria 1946. Porém, ao olharmos a tabela com os resultados de todos os Mundiais, não encontramos campeão em 1946. E o mesmo acontece com 1942, que indicaria o vencedor de 2022.

A Copa do Mundo de 1942 não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que tornava impossível a realização de qualquer torneio internacional de futebol a nível mundial. O conflito só acabou em 1945, o que também inviabilizou a disputa do Mundial no ano seguinte: a Copa só retornaria em 1950, no Brasil, que era um dos candidatos a sede para 1942 (o outro era a Alemanha, que foi proibida de participar em 1950).

Percebam, assim, a importância que teve aquele gol de Thierry Henry marcado contra o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006: foi o que enterrou definitivamente aquela “fórmula”. Caso ela continuasse válida, seria um sinal indiscutível da aproximação da Terceira Guerra Mundial. Ainda mais no atual contexto internacional: a região oriental da Ucrânia vive uma guerra civil, com rebeldes lutando pela anexação das províncias do leste à Rússia.

Com a queda de um avião da Malaysia Airlines justamente na área conflagrada, com suspeitas de que teria sido abatido por um míssil terra-ar, há acusações de lado a lado: o Ocidente acusa os separatistas de terem lançado o míssil que derrubou a aeronave e, de quebra, a Rússia por ter fornecido-lhes armas; já uma fonte do Kremlin diz que o ataque teria sido ordenado pelo governo ucraniano e que o verdadeiro alvo seria o avião presidencial russo (semelhante à aeronave derrubada), ou seja, que o objetivo seria matar Vladimir Putin, que retornava da reunião de cúpula do BRICS acontecida no Brasil (as rotas dos dois aviões eram coincidentes no leste da Europa). Claro que em ambas as versões há coisas estranhas: na primeira, é preciso entender o que levaria os rebeldes a abaterem uma aeronave que não é de uso militar; já na segunda, é de se questionar por que a Ucrânia teria optado por uma maneira tão pouco discreta para tentar assassinar Putin, ainda mais sabendo que um atentado desse nível pode ter consequências seríssimas – há 100 anos, a “faísca inicial” da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria-Hungria, que nem era a principal potência europeia em 1914 (enquanto a Rússia atual é uma superpotência dotada de milhares de ogivas nucleares). Mas, ainda assim, trata-se de um acontecimento que ainda terá muitos desdobraentos.

Tivesse dado Brasil, Alemanha e Uruguai nas últimas três Copas, a essa altura eu já estaria pensando seriamente em construir um abrigo subterrâneo para me proteger de possíveis ataques nucleares que viriam na iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, graças àquele gol que eliminou o Brasil em 2006 e enterrou a “fórmula mágica”, confio em uma solução diplomática que impeça o fim do mundo.

Obrigado, Henry.

A “hospitalidade” brasileira

A Copa do Mundo no Brasil se aproxima do final, e os estrangeiros elogiam muito a “hospitalidade” do povo brasileiro. O que não é novidade: nosso país sempre teve fama de ser “hospitaleiro”, de receber bem os visitantes.

Porém, a própria Copa mostra que não é bem assim. Basta ver o que se sucedeu ao jogo Brasil x Colômbia, no qual a Seleção garantiu presença na semifinal ao vencer por 2 a 1, mas também marcado pela lesão que tirou Neymar do Mundial.

O lateral Juán Camilo Zúñiga, autor da joelhada nas costas de Neymar que fraturou uma vértebra do jogador, já disse que o lance não foi intencional. E a meu ver, realmente não foi: houve, sim, muita imprudência por parte do colombiano. Já que a FIFA suspendeu o atacante uruguaio Luis Suárez por nove jogos internacionais e inclusive o proibiu de treinar por quatro meses devido à mordida no zagueiro italiano Giorgio Chiellini durante a partida entre Uruguai e Itália (pena considerada excessiva até mesmo pelo “mordido”), espero que Zúñiga sofra uma punição mais severa, para que não se fique com a impressão de que morder uma adversário é pior do que acertá-lo com uma joelhada que pode ter consequências graves.

Instantes depois do apito final, o zagueiro brasileiro David Luiz teve uma bela atitude: consolou o meia James Rodriguez, destaque da Colômbia, e pediu ao público que aplaudisse o jogador adversário. Um exemplo que infelizmente a maioria das pessoas não segue.

Após a partida os jogadores colombianos decidiram ir a um restaurante. Reconhecidos, foram hostilizados por torcedores brasileiros, com o ônibus que transportava os atletas da Colômbia sendo alvo de latas.

Nas redes sociais, Zúñiga sofre um verdadeiro linchamento virtual (o que, vamos combinar, não é muito surpreendente, dado o apoio de tantos brasileiros à “justiça com as próprias mãos”). No Instagram, o perfil do jogador foi “invadido” por brasileiros, que lhe dirigiram todo o tipo de impropérios. No Twitter, o lateral foi alvo de insultos racistas.

Enfim: é esta a “hospitalidade” que temos a oferecer?

O Banheiro do Papa manda lembranças

O fato foi notícia anteontem. Das várias cidades do Rio Grande do Sul que investiram na expectativa de serem CTs de seleções na Copa do Mundo, só uma foi escolhida: Viamão, que receberá o Equador.

Quem acompanha o Cão há mais tempo, já lera em 2011: a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 têm tudo para resultar em vários “Banheiros do Papa” pelo Brasil. No caso do Rio Grande do Sul, como vimos, já “é uma realidade”, pois da mesma forma que a passagem do papa João Paulo II por Melo (Uruguai) gerou uma enorme e frustrada expectativa entre os habitantes da cidade, o Estado apostou em “atrativos” que uma análise racional mostraria serem inexpressivos: colonização alemã e italiana, clima e “platinos”.

A “natural” atração de Alemanha e Itália por conta das colônias alemã e italiana no Rio Grande do Sul, qualquer um com mais conhecimento perceberia ser uma furada. Primeiro, porque alemães e italianos não vieram apenas para o Estado: a colônia germânica é muito grande também em Santa Catarina (a maior Oktoberfest do mundo fora da Alemanha é a de Blumenau); e não faltam descendentes de italianos em São Paulo, de localização muito mais central, o que facilita os deslocamentos pelo Brasil. E outra: de forma geral, alemães e italianos não se identificam com seus descendentes por aqui – ou seja, exatamente o contrário do que acontece com teuto-brasileiros e ítalo-brasileiros em relação a Alemanha e Itália.

O clima mais frio também seria um “atrativo” para as seleções fugirem do calor excessivo. Porém, é importante lembrar que a maior parte dos jogos acontecerá em cidades quentes; as duas sedes mais frias são Curitiba e Porto Alegre: a primeira só terá partidas da primeira fase, e a segunda “se despede” nas oitavas-de-final. Ou seja, faz muito mais sentido “se hospedar” no centro do país, especialmente em São Paulo e arredores, onde na época o tempo é mais ameno – nem tão quente, nem tão frio – e também pela facilidade de ir tanto a Manaus (calor muito forte e úmido) como a Porto Alegre (inverno). Sem contar outro detalhe: as cidades litorâneas e quentes são mais atrativas a turistas europeus que pretendam vir por conta da Copa, visto que em boa parte de seus países faz frio durante a maior parte do ano.

Outra aposta furada era quanto à grande presença de argentinos e uruguaios no Rio Grande do Sul, devido à proximidade. Porém, havia um detalhe que poucos levavam em conta: as cidades onde cada seleção joga (exceto o Brasil) são definidas por sorteio, e nenhuma delas disputa mais de uma partida da primeira fase no mesmo lugar. Assim, desde que Argentina e Uruguai foram definidas como cabeças-de-chave, já se podia antecipar que só uma delas poderia jogar em Porto Alegre, para isso precisando ficar no grupo F. O sorteio nos brindou com um Argentina x Nigéria, mas também poderia ter deixado os platinos longe do Estado. E não podemos esquecer de algo: a proximidade entre Buenos Aires e Porto Alegre facilitará a vinda de argentinos para o jogo, mas também a volta… Não convém apostar muito neles quanto a benefícios monetários.

E de qualquer maneira, mesmo que os “atrativos” do Rio Grande do Sul fossem sem aspas, não se podia deixar de levar em conta a conjunção de dois fatores: organização e geografia. Até 1994, a distribuição das cidades-sede se dava por grupos, e assim as seleções de cada chave jogariam apenas em duas ou três cidades. Em 1998 isso mudou: os seis jogos de cada grupo passaram a acontecer em seis cidades diferentes, fazendo com que as seleções viajassem bastante pelo país-sede. Até 2010 não havia problemas, pois as distâncias não eram tão grandes; agora, num país enorme e de climas variados, e com jogos acontecendo em várias partes do vasto território, a coisa complicou. Imaginem uma seleção se hospedando no Rio Grande do Sul e precisando ir jogar em Manaus: isso significaria não apenas sair de um possível frio intenso para um calor sufocante, como também uma viagem bastante demorada, o que torna muito mais lógico a opção por concentrações em pontos mais centrais do Brasil.

Quanto à opção do Equador por se hospedar no Rio Grande do Sul, provavelmente tenha sido mais barata em comparação com outros Estados mais centrais. E a tabela também ajudou: os equatorianos não jogarão em Porto Alegre, mas sim em cidades acessíveis sem necessidade de viagens demoradas (Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro). Ou seja, Viamão também teve sorte.

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

“A trégua”, de Mario Benedetti

Manhã de segunda-feira. Levantamos da cama, muitas vezes sonhando acordados, literalmente. Sonhando com o final de tarde da sexta-feira.

Já Martín Santomé, personagem principal de “A trégua”, sonha com a aposentadoria. Quase aos 50 anos de idade, já está cansado de seu trabalho maçante no escritório, e conta os dias para finalmente ter o tempo livre para fazer o que gosta. Porém, ainda não tem a menor ideia do que fará após se aposentar: sua mulher morreu quase 20 anos antes e desde então teve poucos envolvimentos amorosos; mora com os três filhos, com os quais não fala muito.

Santomé decide registrar sua rotina em um diário, no qual consiste o romance de Mario Benedetti, publicado em 1960. Por meio do que o personagem escreve, acompanhamos seu dia-a-dia, monótono até a chegada de uma nova funcionária ao escritório, Laura Avellaneda. A jovem de 24 anos lhe causa boa impressão, mas inicialmente apenas isso. Santomé, que sente-se “sentimentalmente ressequido”, demora bastante até admitir que está apaixonado pela funcionária. Não vê futuro em um relacionamento com uma pessoa tão mais nova.

A situação se altera quando Avellaneda, que era comprometida, termina seu namoro, encorajando Santomé a buscar uma aproximação. Porém, isso significa muito mais para ele: é a chance de mudar a monotonia de seu dia-a-dia 20 anos após a morte de sua esposa, última pessoa que realmente amou.

O novo amor faz com que a rotina de Martín Santomé deixe de ser apenas a contagem dos dias para a aposentadoria. Inicialmente, continua a não ver muito futuro em seu relacionamento com Laura Avellaneda e procura mantê-lo “às escondidas” o máximo possível, inclusive alugando um apartamento apenas para encontrá-la. Não pensa que um dia vá casar-se com a jovem, devido à diferença de idade que, acredita, fará com que Avellaneda um dia se apaixone por um homem da mesma faixa etária. Parece um amor fadado a não durar o resto de seus dias, sendo apenas uma trégua para sua vida previsível. Aliás, como acontece com tantas pessoas, que saem da cama na segunda-feira pela manhã sonhando com a sexta-feira à tardinha, e um dia percebem que, sem prévio aviso, tudo mudou.

Porém, a vida de Santomé é definitivamente transformada. Igual ao que acontece com qualquer um de nós: por mais que tentemos, jamais voltaremos a ser o que éramos antes de um grande amor.

Tinha que ser o Pepe de novo

O governo de José Mujica no Uruguai não é revolucionário. O país ainda apresenta muitos problemas, a pobreza e a falta de moradia não foram deixaram de existir. Medidas como a descriminalização do aborto e o controle da maconha pelo Estado não são socialistas, mas sim, liberais em termos de costumes. O mínimo que se espera de qualquer país que se julgue democrático.

Mas, por outro lado, cada discurso do presidente uruguaio sempre vale a pena ser lido, ouvido, assistido. Como a fala dele na Assembleia Geral da ONU, resumida aqui e que pode ser assistida abaixo.

A beleza da qual Porto Alegre abre mão

Diz-se que antigamente, o porto-alegrense que ia a Montevidéu não notava muita diferença. E, de fato, não foram poucas as ruas da capital uruguaia que me deram a sensação de estar “em casa” quando lá estive pela primeira vez, em agosto de 1998.

Voltei a Montevidéu em fevereiro de 2006. Lendo o principal jornal do Uruguai, El País, me deparei com uma matéria que fazia justamente a tradicional comparação entre a capital uruguaia e Porto Alegre. E o texto chamava a atenção para o fim da “semelhança” entre as duas cidades: antigamente ambas tinham um ritmo mais, digamos, “pacato”; já em 2006, Porto Alegre lembrava muito mais São Paulo do que Montevidéu.

Engana-se quem pensa que o “distanciamento” entre Porto Alegre e Montevidéu deva-se apenas ao trânsito cada vez mais caótico da capital gaúcha. Há outros aspectos que mostram como estamos abrindo mão de nosso lado “montevideano”.

Um deles diz respeito à arborização. É verdade que Porto Alegre ainda tem muitas ruas com árvores, extremamente necessárias para que a cidade não se torne totalmente inóspita durante o verão. Porém, abre-se mão delas com uma facilidade constrangedora. Como prova o caso das árvores derrubadas no final de maio para que uma avenida seja alargada: trocou-se sombra, barulho de pássaros e ar menos poluído por sol inclemente, roncos de motores e fumaça. Montevidéu, por sua vez, tem árvores até nas ruas centrais.

Uma rua arborizada em pleno Centro

Uma rua arborizada em pleno Centro

Porto Alegre também sofre de uma estúpida fixação por edifícios altos e “modernos”, com muitas vagas de estacionamento para carros. A cidade, capital de um Estado que tanto se vangloria de ser “o melhor em tudo”, quer a todo custo aderir a um modelo padronizado de “modernidade”, que despreza a memória.

Um caso pessoalmente emblemático é o do Esquilo Travesso, escola de educação infantil que frequentei de 1986 a 1988. Ela encerrou suas atividades no final de 2008, pois funcionava em uma casa alugada, que foi vendida. Imaginei que em seu lugar seria erguido um edifício desses “modernosos”, todo envidraçado (o que acarreta em maior gasto de energia devido ao necessário uso constante de ar condicionado durante o verão); mas na última vez que passei por lá (em 2011) vi que o destino da área não foi menos simbólico do “progresso” porto-alegrense: um estacionamento. Crianças aprendendo e brincando foram substituídas por carros.

A escolinha ficava na Rua Dona Laura, bairro Rio Branco. Foi indicada pela terapeuta com a qual me tratava, que atendia em uma rua próxima, a Luciana de Abreu, no vizinho bairro Moinhos de Vento. De tal forma que aquela região da cidade está bastante associada à minha infância, mesmo que pouco frequentada depois de 1988, quando concluí o Jardim de Infância e deixei o Esquilo – morava no bairro Floresta, por cujas ruas andei muito mais.

Praticamente defronte ao prédio onde ficava o consultório, pouco depois de uma curva, há um conjunto de casas da década de 1930, típico do Moinhos de Vento, que se depender dos interesses do poder econômico será posto abaixo e substituído por um edifício “moderno”, igual a vários que se espalham pela cidade. Literalmente igual, pois as construtoras parecem sofrer de uma terrível falta de criatividade, seguindo padrões e os repetindo em todos os prédios que constroem. Porto Alegre está se “pasteurizando”: os bairros perdem suas características peculiares, e fica difícil saber se estamos no Moinhos de Vento, no Bom Fim ou no Menino Deus, pois os espigões são iguais; e tal processo se dá em inúmeras cidades, tornando-se difícil distingui-las.

E agora, pense: se isso acontece mesmo em “bairros nobres” (nos quais “todo mundo quer morar”, desculpa usada pelas construtoras para derrubar casas e erguer espigões), imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico

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O pior é perceber que para ser “cosmopolita” uma cidade não precisa abrir mão de suas características. Porto Alegre quis deixar de parecer com Montevidéu e optou por copiar os erros de São Paulo, quando poderia ter apenas “desviado os olhos” da capital uruguaia buscando inspiração em Buenos Aires, uma grande metrópole que, assim como Montevidéu, preserva os prédios antigos – o Centro da capital argentina é encantador justamente por conta disso.

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Caso exemplar é o do antigo teatro Grand Splendid, que fechou as portas e teve sua arquitetura original mantida, sendo apenas adaptada ao funcionamento de uma filial da rede de livrarias El Ateneo, uma das mais tradicionais da Argentina. A remodelação do prédio resultou em uma das livrarias mais belas do mundo; no antigo palco, no qual cantou Carlos Gardel, funciona um café, que tem os livros como “plateia”.

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Nobel da Paz: total desmoralização

O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, reagiu assim à proposta da ONG holandesa Drugs Peace Institute de indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 2013:

Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai conseguirem um dinheiro a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com quatro, cinco filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva interiormente. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.

Apesar de Mujica rejeitar a possibilidade, vê-lo indicado – e mesmo premiado – faz sentido. Obviamente ainda há muito pelo que avançar no Uruguai, mas o que já aconteceu serve de exemplo aos países vizinhos e em especial ao Brasil, onde o conservadorismo é muito forte. A ONG holandesa propôs “Pepe” ao Nobel da Paz por sua iniciativa de passar ao Estado o controle da maconha para lutar contra o tráfico de drogas (numa lógica oposta àquela defendida pelos Estados Unidos, ou seja, a “guerra” que apenas gera mais violência e vitima inúmeras pessoas na América Latina), mas o Uruguai de Mujica também é o primeiro país na região a legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação, o que salva a vida de muitas mulheres – situação diferente da verificada no Brasil. Sem contar inúmeras declarações do presidente uruguaio: considerado “o mais pobre do mundo” por seu estilo de vida simples, Mujica diz que “pobre é quem precisa de muito para viver”; recentemente, recomendou aos jovens que dedicassem mais tempo ao amor do que ao consumo.

Resumindo: Mujica mereceria, e muito, o prêmio. Porém, é o Nobel da Paz que não está mais à altura de “Pepe”. Instituído por iniciativa do químico sueco Alfred Nobel (inventor da dinamite) e entregue desde 1901, já laureou pessoas realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King e Nelson Mandela. Porém, há também muitos outros interesses por trás das decisões.

Em 11 de setembro de 1973, o Chile sofreu um sangrento golpe militar porque nas palavras de Henry Kissinger, os Estados Unidos não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual falava Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, era a eleição do socialista Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970. No final daquele ano de 1973, adivinhem quem ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Ele mesmo, Henry Kissinger… A escolha se deveu a acordo com o objetivo de pôr fim à Guerra do Vietnã, razão pelo qual o vietnamita Le Duc Tho também foi laureado – mas este, dignamente, recusou o prêmio.

Ano passado, o prêmio foi atribuído à União Europeia. Foi piada pronta: a UE ganhou o Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

Mas nada pode ser pior do que a escolha de 2009, como se percebe cada vez mais. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, foi premiado “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Um Nobel da Paz que faz a guerra: enquanto Obama “se esforçava diplomaticamente”, as guerras no Afeganistão e no Iraque prosseguiam.

E agora, Barack Obama prepara mais uma “diplomática” ação pela “paz mundial”. O alvo da vez é a Síria, em guerra civil desde 2011, devido à acusação de que as forças do ditador Bashar al-Assad teriam usado armas químicas. Há vários relatos de que realmente teriam acontecido ataques com o uso de gases venenosos, mas não se sabe de qual lado partiu. No entanto, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, diz ter provas de que o governo sírio usou armas químicas contra os adversários, situação que faz lembrar as “provas contundentes” de que o Iraque tinha armas químicas e biológicas em 2003: foi o que justificou a invasão mesmo após várias inspeções da ONU não encontrarem nada – e de fato, não havia nada; talvez apenas as notas fiscais emitidas pelos próprios Estados Unidos quando Saddam Hussein comprou tais armas para utilizá-las contra o Irã, na década de 1980.

E provavelmente Kerry saiba da posse de armas químicas pela Síria desde aquele jantar em 2009, época em que Assad era aliado

Ainda estamos longe de um Estado laico

O texto de quarta, no qual foi feita comparação entre o papa Francisco e outras personalidades de destaque que adotam estilos de vida “simples” – no caso, o presidente uruguaio José Mujica e, principalmente, o ex-governador gaúcho Olívio Dutra – foi responsável pelo que provavelmente é o recorde de visitas ao Cão em apenas um dia. Superou inclusive a véspera da abertura da Copa do Mundo de 2010, quando meus palpites para o Mundial escritos logo após o sorteio dos grupos atraíram inúmeras pessoas que tinham dúvidas antes de apostar em bolões.

Porém, não resultou apenas em “audiência”. Gerou também intolerância. Não me refiro aos católicos que se sentiram incomodados com críticas ao papa: acho compreensível que eles defendam o líder máximo de sua religião. Porém, alguns foram além, ignorando inclusive o que o próprio papa defendeu, surpreendendo a muitos: o Estado laico.

Quem lê o Cão sabe que sou ateu. Não é “rebeldia”, “demônio”: simplesmente não acredito na existência de algum deus. É um direito meu não acreditar, assim como é direito seu, leitor, expressar sua fé caso a tenha.

O próprio papa defendeu, em nome da convivência pacífica entre as diversas religiões, o Estado laico. E eu defendo também para que direitos não sejam negados por motivos religiosos. Casos do aborto, do casamento homossexual e da eutanásia: são “pecados” para os cristãos, e por isso muitos deles se sentem no direito de querer que toda a população seja obrigada a seguir seus preceitos religiosos; e é o que acontece na prática, pois, por exemplo, mesmo a mulher ateia só pode interromper a gravidez caso ela seja fruto de estupro, implique em risco de morte ou o feto seja anencéfalo (azar o dela se achar que não é a hora certa, não tiver condições financeiras ou simplesmente não quiser filhos, segundo nossa legislação).

Estado laico, como todos já sabemos (ou deveríamos saber) não é Estado ateu. O último caso se verificou em alguns países como a Albânia “socialista” (1945-1991), onde o ateísmo fazia parte da doutrina do Estado e todas as manifestações religiosas eram proibidas. É contrário à liberdade religiosa, e por isso mesmo, à própria liberdade.

Por isso, deve ser laico. Nem religioso (caso do tão criticado Irã), nem ateu. Apenas acima de qualquer crença e não-crença, para que todos tenham a mesma liberdade. Mas pelo visto, ainda será necessário percorrer um longo caminho.