Duas décadas em um piscar de olhos

A passagem do tempo é algo muito interessante. Sabemos que a cada dia que passa estamos mais perto da morte, essa coisa que tanto assusta mas que no fundo é o que de mais democrático existe (afinal, é o destino inexorável de todos nós, pouco importando renda, etnia, sexo ou clube do coração). Só que não costumamos parar para pensar nisso, até que alguém lembra que se passou bastante tempo de um fato importante.

Hoje, 4 de julho de 2013, a seleção da Argentina completa vinte anos sem levantar taças. Não são só dez, são vinte. Duas décadas. Duas vezes dez anos. Mas quem acha que o restante do texto é flauta e que no fim “reclamarei” que o Brasil não ganha nada há quatro dias, pode parar de ler. Não, melhor… Continue lendo.

Constatar que a Argentina está há 20 anos sem erguer um troféu no futebol me fez perceber que muita coisa mudou de lá para cá. Afinal, lembro daquela Copa América, decidida num aparentemente “próximo” 4 de julho de 1993, com vitória argentina de 2 a 1 sobre o México.

  • Estava na 5ª série, ia bem em todas as matérias, exceto em Educação Artística, na qual quase peguei recuperação. O final daquele ano foi o mais dramático que tive no colégio, e quando a professora anunciou as médias finais vibrei e disse “escapei da repescagem”. Referência justamente à situação da Argentina nas eliminatórias para a Copa de 1994, quando só obteve classificação via repescagem, “com as calças na mão” contra a Austrália;
  • Ainda tinha bastante cabelo, e não queimava a cabeça nos dias de verão;
  • O presidente do Brasil era Itamar Franco, que há menos de um ano assumira o cargo no lugar do destituído Fernando Collor;
  • Nunca tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. De Lula e Brizola sim, pois lembrava da campanha eleitoral de 1989;
  • Na minha carteira, carregava cruzeiros. Ou melhor, logo a esvaziava, pois mesmo sem me desfazer das notas o dinheiro se ia, comido pela hiperinflação;
  • Quando me perguntavam o que seria quando crescesse, dizia “médico”. Ideia que alimentaria por mais quatro anos, até as primeiras aulas de Biologia no 2º grau;
  • Das aulas de Geografia, lembro muito bem que a professora tinha pedido que sempre levássemos um atlas. O meu era novo, mas os de alguns colegas eram um pouco mais antigos e em seus mapas aparecia um gigantesco país chamado “União Soviética”;
  • Aliás, por que raios de motivos a URSS tinha deixado de existir? Eu ainda nem sabia…
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A suposta “turma socialista”

Recebi mais um texto daqueles que classifico como “correntes”. Só que este é diferente: mais bem escrito, elaborado, sem exalar aquele ódio comum aos que recebo mais frequentemente. Mas ainda assim, não podia ficar sem resposta.

Vamos a ele, então:

Um professor de economia em uma universidade americana disse que nunca havia reprovado um só aluno, até que certa vez reprovou uma classe inteira.

Esta classe em particular havia insistido que o socialismo realmente funcionava: com um governo assistencialista intermediando a riqueza ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e justo.

O professor então disse, “Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam ‘justas’. Todos receberão as mesmas notas, o que significa que em teoria ninguém será reprovado, assim como também ninguém receberá um “A”.

Após calculada a média da primeira prova todos receberam “B”. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.

Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Já aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Como um resultado, a segunda média das provas foi “D”. Ninguém gostou.

Depois da terceira prova, a média geral foi um “F”. As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram aquela disciplina… Para sua total surpresa.

O professor explicou: “o experimento socialista falhou porque quando a recompensa é grande o esforço pelo sucesso individual é grande. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros para dar aos que não batalharam por elas, então ninguém mais vai tentar ou querer fazer seu melhor. Tão simples quanto isso.”

1. Você não pode levar o mais pobre à prosperidade apenas tirando a prosperidade do mais rico;
2. Para cada um recebendo sem ter de trabalhar, há uma pessoa trabalhando sem receber;
3. O governo não consegue dar nada a ninguém sem que tenha tomado de outra pessoa;
4. Ao contrário do conhecimento, é impossível multiplicar a riqueza tentando dividí-la;
5. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

Em primeiro lugar, nos atenhamos ao “um professor de economia em uma universidade americana”. Qual é o nome do professor? De qual universidade ele é? O fato do texto não passar tais informações me faz pensar que muito provavelmente tal “experimento socialista” jamais aconteceu. Basta lembrar que o “experimento nazista” relatado no filme “A Onda” não foi ideia “de um professor de História em um colégio nos Estados Unidos”: o professor se chamava Ron Jones, e a escola era a Cubberley High School, em Palo Alto, Califórnia. Mas, vamos dar ao texto o benefício da dúvida e suponhamos que o experimento realmente aconteceu – afinal, o mais importante é contra-argumentar. Continuar lendo

30 anos sem Garrincha

Garrincha

Algum de seus muitos irmãos batizou-o de Garrincha, que é o nome de um passarinho inútil e feio. Quando começou a jogar futebol, os médicos o desenganaram: diagnosticaram que aquele anormal nunca chegaria a ser um esportista. Era um pobre resto de fome e de poliomielite, burro e manco, com um cérebro infantil, uma coluna vertebral em S e as duas pernas tortas para o mesmo lado.

Nunca houve um ponta direita como ele. No Mundial de 58, foi o melhor em sua posição. No Mundial de 62, o melhor jogador do campeonato. Mas ao longo de seus anos nos campos, Garrincha foi além: ele foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol.

Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa. Garrincha não deixava que lhe tomassem a bola, menino defendendo sua mascote, e a bola e ele faziam diabruras que matavam as pessoas de riso: ele saltava sobre ela, ela pulava sobre ele, ela se escondia, ele escapava, ela o expulsava, ela o perseguia. No caminho, os adversários trombavam entre si, enredavam nas próprias pernas, mareavam, caíam sentados.

Garrincha exercia suas picardias de malandro na lateral do campo, no lado direito, longe do centro: criado nos subúrbios, jogava nos subúrbios. Jogava para um time chamado Botafogo, e esse era ele: o Botafogo que incendiava os estádios, louco por cachaça e por tudo que ardesse, o que fugia das concentrações, pulando pela janela, porque dos terrenos baldios longínquos o chamava alguma bola que pedia para ser jogada, alguma música que exigia ser dançada, alguma mulher que queria ser beijada.

Um vencedor? Um perdedor com boa sorte. E a boa sorte não dura. Bem dizem no Brasil que se merda tivesse valor, os pobres nasceriam sem cu.

Garrincha morreu sua morte: pobre, bêbado e sozinho.

(Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 118-119.)

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Suécia, junho de 1958. Após estrear na Copa do Mundo com vitória de 3 a 0 sobre a Áustria, o Brasil ficou no 0 a 0 contra a Inglaterra. Na última rodada, teria pela frente a União Soviética: apesar de estreante em Copas, tinha Lev Yashin no gol (um dos maiores goleiros de todos os tempos), vinha badalada pela medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956) e, dizia-se, jogava um “futebol científico”. Se o Brasil perdesse para a URSS e a Inglaterra vencesse a Áustria, estaria eliminado.

A má atuação contra a Inglaterra, somada ao risco de eliminação em caso de derrota, motivou o técnico Vicente Feola a mexer no time para o jogo contra a URSS: saíram Joel, Mazzola e Dino Sani para a entrada de Garrincha, Pelé e Zito. (Por muitos anos se disse que os jogadores teriam procurado o técnico e sugerido as mudanças, fato negado por Zito.)

Na preleção, Feola mostrava como o time deveria se postar para vencer o “futebol científico” dos soviéticos. Foi quando Garrincha manifestou sua curiosidade: “já combinaram com os russos?” – sim, pelo que o técnico dizia seria muito fácil, parecia estar combinado com o adversário… Uma amostra do temperamento um tanto ingênuo que caracterizava o “anjo das pernas tortas”. (Diz-se que quando chegou ao Botafogo para fazer um teste, ninguém acreditava que poderia jogar futebol, até ele dar um drible desconcertante em Nílton Santos, melhor jogador do time – após o lance, o próprio Nílton teria dito “contratem ele agora”.)

Porém, Mané Garrincha não precisava combinar com ninguém. Como “cartão de visitas”, entortou os soviéticos e meteu uma bola na trave de Yashin logo no começo do jogo. Com dois gols de Vavá, o Brasil venceu por 2 a 0 e arrancou para a conquista de sua primeira Copa do Mundo.

Com Pelé e Garrincha jogando juntos, “derrota” foi uma palavra inexistente no dicionário da Seleção Brasileira. Tanto que em 1966 o Brasil caiu na primeira fase da Copa da Inglaterra após uma preparação muito bagunçada, mas na estreia venceu a Bulgária por 2 a 0 – justamente a última partida em que Pelé e Garrincha jogaram juntos. Nos jogos seguintes, duas derrotas por 3 a 1 para Hungria (única vez que a Seleção perdeu com Garrincha) e Portugal eliminaram o Brasil do Mundial.

No Mundial do Chile, em 1962, Pelé se machucou no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia. Mau sinal para o Brasil? Não, pois Garrincha estava com tudo. A Copa de 1962 foi sua. Na semifinal contra os donos da casa, motivou o jornal chileno El Mercurio a perguntar de que planeta teria vindo aquele gênio com duas pernas tortas para o mesmo lado.

Caçado pelos chilenos, acabou expulso ao revidar um pontapé, mas foi liberado pela FIFA para jogar a final contra a Tchecoslováquia (diz-se que a liberação se deveu ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa). Nada que manche tudo o que Mané fez naquele Mundial – até porque, com febre de quase 40°C, Garrincha não jogou contra os tchecos o mesmo futebol que já tinha mostrado antes.

Porém, a lenta decadência começou pouco tempo depois da Copa de 1962. Aos hábitos de fugir das concentrações e beber demais (tolerados porque ele barbarizava em campo), somou-se um problema nos joelhos, cuja recuperação não evoluía justamente porque Garrincha não se cuidava. Acabou dispensado pelo Botafogo no final de 1965, foi para o Corinthians e, depois, teve passagens rápidas por vários clubes, sem jogar o mesmo futebol que o consagrara.

Garrincha acabou vitimado por uma cirrose hepática em 20 de janeiro de 1983, fruto de seu excessivo consumo de álcool.

Desligue o anti-BBB e abra um livro

Pedro Bial deveria ser lembrado não como o apresentador do Big Brother, e sim como o jornalista da Globo que estava em Moscou no histórico 25 de dezembro de 1991, dia em que a União Soviética deixou de existir.

Sim, sou desses que detestam BBB. Quando chega essa época do ano, lembro de várias vezes em que fiquei sem assunto em rodas de amigos, por não assisti-lo. Tanto que já falei mal dele aos montes.

Pois bem: o programa começou. Abri o Facebook e vi um monte de postagens falando do BBB. Falando mal. Pedindo que não se poste nada sobre ele.

Tem mais comentários depreciativos ao programa e a quem o assiste, do que tratando do que acontece nele. Houve quem postasse uma imagem acreditando, ingenuamente, que com um milhão de compartilhamentos a Globo tiraria o BBB do ar.

Pois bem: a Globo certamente não o tirará do ar enquanto ele der audiência. E não será falando mal do BBB e de seus fãs no Facebook que alguém fará com que menos gente o assista. Aliás, quem tentar me convencer a deixar de achar alguma coisa bacana com o “argumento” de que é “isso é burrice”, pode ter certeza de que não atingirá seu objetivo.

É comum recomendar aos fãs do programa que o troquem por um livro. Acho ótima ideia. Mas então, é bom dar o exemplo e realmente ler, ao invés de só ficar reclamando nas redes sociais. Até porque assim poderemos trocar ideias sobre nossas leituras, o que é bem melhor do que só falar do BBB. Seja pró ou contra.

E, enfim, lembro o que falei quando tinha gente reclamando de quem fazia campanha eleitoral pelo Facebook: se só tem (o que você considera) “lixo” no seu feed, é melhor fazer uma “faxina” nos seus contatos ao invés de ficar “cagando regra”, dizendo o que os outros podem ou não postar.

Como diz o ditado, “nada como um dia após o outro”

No início da década de 1990, Osama Bin Laden era um “guerreiro anti-soviético” na imprensa ocidental. Em menos de 10 anos, porém, o saudita seria considerado o inimigo nº 1 dos Estados Unidos…

Matéria do jornal britânico “The Independent” em 6 de dezembro de 1993.

A democracia não é uma tradição russa

Na sexta-feira, a justiça russa condenou as três integrantes da banda punk Pussy Riot a dois anos de prisão por “vandalismo motivado por ódio religioso”. Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich foram ao tribunal por terem protestado contra o então primeiro-ministro (e agora presidente) Vladimir Putin no altar da catedral Cristo Salvador, maior igreja ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, em fevereiro. Mais do que um protesto contra Putin, foi também contra o patriarca da igreja, que usava sua posição para pedir votos ao atual presidente na última eleição (marcada por denúncias de fraude, recorrentes nos processos eleitorais russos).

Foi um julgamento que esteve bem longe de ser justo. Enquanto todas as testemunhas de acusação foram interrogadas, o mesmo foi feito com apenas três das treze de defesa. O advogado Nicolay Polozov, que defendeu as integrantes da Pussy Riot, foi taxativo: “Mesmo nos tempos soviéticos, nos tempos de Stalin, os julgamentos eram mais honestos do que esse”. Uma das integrantes do grupo, Yekaterina Samutsevich, disse mais: “Estou considerando isso como o início de uma campanha autoritária e repressiva do governo que procura dificultar a atividade política e criar um sentimento de medo entre os ativistas políticos”.

Surpresa diante disso? Sinceramente, só é possível caso não se conheça nada da história russa. Pois trata-se de um país onde “democracia” é apenas uma palavra no dicionário. E não me refiro simplesmente à época da autocracia czarista, nem aos 74 anos de regime soviético (onde podemos destacar em matéria de crueldade a longa ditadura de Josef Stalin). Pois mesmo na era pós-soviética, que diziam ser a da “democratização” da Rússia, não faltaram lembranças da forma como sempre funcionou a política russa: baseada no autoritarismo. Inclusive foi desta forma que se implantou o neoliberalismo por lá, sob o comando do presidente Boris Yeltsin.

Após o fim da União Soviética em dezembro de 1991, o nível de vida dos russos, que já vinha despencado nos últimos anos da URSS, caiu ainda mais drasticamente, aumentando a insatisfação popular. E além disso, Yeltsin tinha no parlamento um forte adversário à consolidação de seu poder: eleito ainda sob o regime soviético e dominado pelos comunistas, o legislativo russo impedia o prosseguimento do programa de reformas neoliberais (com direito à venda das antigas estatais soviéticas “a preço de banana”). A saída de Yeltsin foi violar a Constituição vigente com a dissolução do parlamento em 21 de setembro de 1993, de modo a acabar com a oposição.

A revolta que se seguiu ao golpe produziu os piores conflitos de rua em Moscou desde a Revolução de 1917 e resultou em mais de cem mortos. O exército tomou o partido do presidente e em 4 de outubro bombardeou o prédio do parlamento, defronte ao qual o próprio Boris Yeltsin liderara a resistência ao fracassado golpe da “linha dura” comunista contra Mikhail Gorbachev em agosto de 1991.

Detalhe importante: o mesmo Ocidente que hoje em dia denuncia (embora não sem razão) o crescente autoritarismo na Rússia de Putin, não fez o mesmo em 1993. Muito antes pelo contrário: o golpe de Yeltsin foi apoiado pelos principais líderes ocidentais, que chegaram a dizer que o presidente russo agia pela democracia. Aí reparo no fato de que Yeltsin, ao contrário de Putin, era um aliado do Ocidente, e percebo não ser mera coincidência a semelhança de discursos “democratas” entre os golpistas (incluídos os apoiadores estrangeiros) de 1993 na Rússia e de 1964 no Brasil.

Olimpicamente político (ou politicamente olímpico)

Os Jogos Olímpicos de Londres terminaram ontem, e a Grã-Bretanha teve um de seus melhores desempenhos na história olímpica: com 29 ouros, os britânicos acabaram em terceiro lugar no quadro de medalhas, embora tenham subido menos vezes ao pódio do que a Rússia (que obteve 24 ouros e 82 medalhas no total, contra 65 da Grã-Bretanha).

Porém, nesta mesma semana ouvi a notícia de que o Estado britânico cortará investimentos em esportes, devido à recessão que atinge o país – fruto da crise econômica quase que generalizada na Europa. Ou seja, os britânicos investiram bastante apenas com vista aos Jogos de 2012, para irem bem em casa – provavelmente, o governo temia que sua popularidade caísse com um mau desempenho da Grã-Bretanha, como se a população já não tivesse outros problemas para se preocupar.

A verdade é que os Jogos Olímpicos há muito tempo são uma arma política, vistos como oportunidade de um país demonstrar, através do esporte, que é uma potência. Não por acaso a China, que busca se afirmar como a nova superpotência mundial, também cresceu muito na área esportiva – por mais contestáveis que sejam seus métodos de formação de esportistas, assim como eram os de extintos países do antigo “bloco socialista” como União Soviética e Alemanha Oriental.

Sendo assim, relembremos alguns outros momentos em que os Jogos tiveram importância não só esportiva, como também política. Continuar lendo

Catastroika

A mesma equipe que produziu o excelente “Dividocracia” agora apresenta um novo documentário. “Catastroika” demonstra o quão desastrosos são para os cidadãos os impactos das privatizações de serviços essenciais como água, energia, transportes etc.

O nome “catastroika” é uma corruptela de “perestroika”, a fracassada tentativa de reestruturação da economia da União Soviética implementada por Mikhail Gorbachev. O nível de vida na Rússia, que já havia caído nos últimos anos do regime soviético, despencou de forma assustadora após a desintegração da URSS, aumentando a insatisfação popular. O presidente Boris Yeltsin, que vinha promovendo a venda das antigas estatais soviéticas a “preço de banana”, enfrentava a oposição do povo e do parlamento (dominado pelos comunistas), e reagiu dando um golpe de Estado em 1993: eliminada a oposição, levou adiante o processo de privatizações. E a Rússia não se democratizou, como prometiam os “liberais de plantão”: assim como no Chile de Augusto Pinochet, a implantação do neoliberalismo foi um processo não-democrático.

São medidas semelhantes que agora estão sendo aplicadas na Grécia e em diversos países afetados pela crise econômica, que a utilizam como pretexto para saquear os bens públicos.

Encontro de stalinistas

Em maio de 1978, o ditador romeno Nicolae Ceauşescu visitou a Coreia do Norte. Seu par norte-coreano, Kim Il-sung (o “presidente eterno”, sucedido em 1994 por Kim Jong-il e agora, por Kim Jong-un), recebeu-o de maneira apoteótica, como manda a cartilha stalinista.

Não era a primeira vez que Ceauşescu ia à Coreia do Norte. A visita anterior ocorrera em 1971, e fora “inspiradora”: o ditador ficara impressionado com a “mobilização ideológica”, a megalomania e o culto à personalidade de Kim Il-sung, e decidira aplicar algo semelhante na Romênia.

Não por acaso, as celebrações do dia 23 de agosto, em lembrança à libertação da Romênia do domínio nazista (1944), não eram muito diferentes da recepção que Ceauşescu recebera em Pyongyang. Performances que, imagino, devam ter sido ensaiadas várias centenas de vezes, além de muita bajulação ao ditador.

A megalomania também foi característica dos dois ditadores. Em 1º de maio de 1989, Kim Il-sung inaugurou em Pyongyang o que é na atualidade o maior estádio do mundo, o Rungrado May Day, com capacidade para 150 mil espectadores. Além de receber jogos da seleção da Coreia do Norte, também é palco de grandes celebrações de endeusamento dos líderes políticos do país.

Já na Romênia, enquanto o povo tinha de racionar tudo (até a calefação durante o inverno) para que o país pagasse sua dívida externa, Ceauşescu decidiu construir um novo centro para a capital Bucareste (arrasando assim vários prédios históricos), com destaque para o maior palácio do mundo, projetado para abrigar todo o poder político e também servir de residência para o ditador e sua esposa.

Em dezembro de 1989, a obra ainda não estava concluída. Mas o exasperado povo romeno, cansado de tanta opulência por parte de seus líderes políticos, depôs a ditadura. E há exatos 22 anos, enquanto eu brincava com o “Pense Bem” que tinha ganho de Natal (naquela época eu gostava de Natal), Nicolae e Elena Ceauşescu foram fuzilados após um julgamento sumário que os condenou à morte. O palácio, cuja construção era muito onerosa para os cofres públicos romenos mas sairia ainda mais caro para ser derrubado, hoje abriga, incompleto, o parlamento da Romênia.

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Vinte anos atrás, e dois após o fuzilamento do casal Ceauşescu, eu continuava a gostar de Natal. Por novamente estar me divertindo com os presentes, perdi um momento histórico naquele 25 de dezembro de 1991: a renúncia de Mikhail Gorbachev à presidência da União Soviética, fato que resultou na dissolução do país. Foi apenas a antecipação do fim, pois este já estava marcado para dali a seis dias.

Pouco após a renúncia de Gorbachev, a bandeira vermelha da URSS que tremulava no mastro do Kremlin foi arriada. Em seu lugar, foi hasteado o pavilhão branco, azul e vermelho da Rússia.

O canto do cisne da União Soviética

Em 25 de dezembro de 1991, Mikhail Gorbachev renunciou à presidência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fato que decretou a dissolução do país do qual ele era Chefe de Estado. O ato de Gorbachev apenas antecipou o fim, que estava marcado para a virada do ano.

A URSS, de qualquer forma, já estava mortalmente ferida desde agosto daquele ano, quando a “linha-dura” do Partido Comunista tentou derrubar Gorbachev, cuja popularidade estava em níveis baixíssimos devido aos graves problemas econômicos que o país enfrentava desde a adoção do programa de reformas (glasnost e perestroika). Porém, o golpe fracassou graças ao principal adversário político do presidente soviético, Boris Yeltsin, que conclamou a população a resistir e foi para a frente do parlamento em Moscou, onde chegou a discursar em cima de um tanque.

Gorbachev voltou a seu cargo, mas na prática o poder passou às mãos de Yeltsin, que acelerou a desagregação da URSS: reconheceu a independência de Estônia, Letônia e Lituânia, abrindo o caminho para as demais repúblicas soviéticas fazerem o mesmo; o líder russo também determinou a suspensão das atividades do Partido Comunista e o confisco de seus bens.

Yeltsin chegou a apoiar a proposta de Gorbachev para a assinatura de um novo Tratado da União, em substituição ao que vigorava desde 1922 e estabelecera a URSS. Porém, no dia 1º de dezembro a Ucrânia proclamou sua independência, após 90% da população aprová-la em um plebiscito. Com a segunda república em importância declarando-se independente, ficou claro que não seria possível manter o que restava da URSS como um só país.

Assim, no dia 8 de dezembro os presidentes de Bielo-Rússia, Rússia e Ucrânia firmaram um tratado que extinguia a União Soviética e estabelecia a CEI (Comunidade de Estados Independentes), e marcaram a data da “morte” da URSS: 31 de dezembro de 1991. Gorbachev antecipou o fim, e após sua renúncia a bandeira soviética foi arriada do mastro no alto do Kremlin e substituída pelo pavilhão da Rússia.

Porém, entre o golpe fracassado de agosto e a renúncia de Gorbachev, havia um 7 de novembro. Tal data era a mais importante da URSS, por marcar o aniversário da Revolução de Outubro.

Obviamente a situação política não era favorável à comemoração do 74º aniversário da Revolução. Além da proibição das atividades do Partido Comunista por Yeltsin, também era claro que a URSS estava se desagregando. E justamente naquele 7 de novembro, a cidade de Leningrado passava a se chamar São Petersburgo, nome que lembra o anterior a 1917 (Petrogrado).

Porém, os 74 anos da Revolução foram lembrados. Pela primeira vez desde 1917, sem celebrações oficiais – apenas com manifestações populares, que tinham também caráter de protesto contra os rumos da URSS.