Quando sai o listão

Uma bobagem na qual muitas pessoas acreditam é aquela história de que existe “idade certa” para tudo. São vidas que, caso sigam tal “roteiro”, tornam-se tão previsíveis a ponto de serem um verdadeiro tédio.

Ainda assim, mesmo não dando bola para as “idades certas”, somos influenciados por elas. Pois muitos amigos acabam seguindo o “roteiro”, mesmo que algumas vezes por “linhas tortas”.

Um bom exemplo é o vestibular. Em geral, fazemos a prova logo após terminar o Ensino Médio, o que, caso “corra tudo bem”, acontece por volta dos 18 anos de idade – ou seja, justamente quando se atinge a maioridade, reforçando o caráter de “rito de passagem”. Mas passar é outra história, visto que não há lugar para todos. “De primeira”, então, não é a regra – embora haja a exigência.

Porém, passando ou não “de primeira”, a lista de aprovados no vestibular é aguardada por mais anos além daqueles que participamos. Pois também queremos saber se nossos amigos passaram – e nem todos conseguem o ingresso no mesmo ano. Às vezes vem antes do nosso, às vezes depois.

Então percebe-se um fato interessante: em certas fases de nossas vidas, o listão é cercado de expectativa, tenhamos ou não prestado o vestibular. Comigo, especificamente, foi de 2000 a 2006, muito embora alguns amigos e parentes tenham feito vestibular antes. No primeiro ano da série, além de meu próprio nome na lista da UFRGS (quando ingressei no curso de Física), estava o de vários amigos, em especial do colégio. Mas nem todos passaram “de primeira”, e assim em janeiro de 2001 voltou a expectativa; o mesmo aconteceu em 2002.

Em 2003, boa parte dos meus amigos já estava na faculdade, e assim “restavam poucos” na luta para passar no vestibular da UFRGS. Porém, após largar a Física concorri a uma vaga no curso de Direito, apenas para “treinar” com vistas a 2004. E por isso o “treino” não resultou em aprovação, o que teria acontecido caso a opção fosse História; mas não achei ruim, pois assim não ingressei sem convicção de que era a escolha certa: tenho certeza de que caso a vaga viesse em 2003, na primeira dificuldade largaria o curso. (Ainda mais que os primeiros semestres são os mais difíceis.)

Um ano depois, veio a segunda (e última) aprovação no vestibular da UFRGS. No dia 16 de janeiro de 2004, lá estava meu nome no listão. A essa altura, alguns amigos já se formavam em seus cursos, mas como bem disse, não existe idade certa para as coisas: mais valia recomeçar do que persistir em uma escolha que considerava errada.

Em 2005 e 2006, foram as vezes do meu irmão prestar vestibular: no primeiro ele tentou Jornalismo, no segundo passou para Geografia. Mas, dali em diante, passaram a se suceder formaturas, não expectativas por listões.

A “ficha caiu”, porém, recentemente. E em “dois tempos”. O primeiro foi quando me perguntaram se não sabia de alguém que estivesse no Ensino Médio e que estivesse procurando estágio. Então reparei: não conhecia ninguém. Afinal, a maior parte dos meus amigos concluiu o Ensino Médio há mais de 10 anos.

E hoje, foi a vez do listão da UFRGS de 2014. Bateu uma nostalgia, visto que meu último vestibular foi há 10 anos. E então reparei: a última vez que o vestibular me causou alguma expectativa foi em 2006, quando meu irmão passou. Oito anos atrás, portanto. E ele se formou no final de 2010…

Ou seja, seguindo ou não a norma não-escrita da “idade certa” no âmbito pessoal, ainda assim somos influenciados por ela: a fase de olhar o listão para procurar o nome dos amigos já é passado. E mesmo a fase das formaturas também já podemos dizer que passou. Quer mais claro sinal de estar ficando velho que não saber de ninguém que esteja na expectativa (seja amigos ou filhos de amigos) pelo vestibular?

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A redação da UFRGS

Este janeiro de 2014 marca o 10º aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ver aquele monte de estudantes na frente de colégios me faz sentir um misto de alívio e saudosismo: o primeiro por ter superado tal etapa (por mais que muitas vezes durante a faculdade pensemos que no vestibular “éramos felizes e não sabíamos”, trata-se de um autêntico “rito de passagem”, com suas incertezas e angústias), e o segundo por conta da vontade de recomeçar, ingressar em uma nova fase, assim como aconteceu 10 anos atrás.

Dentre os fatores que geram ansiedade no vestibulando, um deles é, sem dúvidas, a redação. Pois, quando estudamos, nos preparamos para responder às provas objetivas por meio de exercícios que não nos dizem exatamente o que cairá no vestibular, mas já “dão uma pista”. Já com a redação, acontece algo diferente: escrevemos várias, sobre diversos temas, com o objetivo de estarmos preparados; e isso de fato nos ajuda a aumentar nossa capacidade argumentativa – o que é realmente avaliado em uma dissertação. Porém, só sabemos sobre o que teremos de escrever na hora que abrimos a prova.

Claro que podemos ter algumas “pistas”, em alguns casos. Meu primeiro vestibular foi o da PUCRS: no dia 4 de janeiro de 2000, enfrentei um longo congestionamento (mas cheguei a tempo!) para fazer a prova de língua portuguesa; ao final, lá estava a “questão de redação” (como era chamada). A universidade propunha três temas, todos ligados a assuntos que tinham sido noticiados na imprensa; um deles dizia respeito às celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, que seriam completados meses mais tarde. Não tenho o esboço do texto (não recordo se a folha de rascunho precisava ser entregue com a prova ou se perdi), e por isso não lembro qual tema escolhi, mas uma certeza tenho: achei mais difícil escrever a redação da PUCRS que a da UFRGS, cujo vestibular começaria dentro de alguns dias.

A principal diferença consistia no tipo de tema. Enquanto a PUCRS costumava propôr assuntos noticiados na imprensa, a UFRGS optava por temas mais “subjetivos”, como ética, amor, esperança etc. Algo que, aliás, ainda acontece: o tema de 2014 foi o livro considerado “clássico” pelo candidato. Assim, por um lado ela é mais “imprevisível” (afinal, não é possível dar “palpites” quanto ao tema com base em “assuntos do momento”), mas por outro, escrever sobre coisas “subjetivas” aos 17 anos de idade me parece mais fácil do que, por exemplo, dissertar sobre o povo brasileiro. E como no vestibular da UFRGS o rascunho da redação é escrito no caderno de prova (que o candidato leva para casa no dia seguinte), é possível reler, anos depois, o que escrevemos naquele dia.

Quantas vezes não lemos textos escritos por nós mesmos há muitos anos e praticamente “não nos reconhecemos” neles? Pois bem: foi exatamente isso, estranhamento, que senti ao reler os rascunhos das redações escritas em três vestibulares prestados na UFRGS (2000, 2003 e 2004). Por motivos óbvios, elas não são os melhor textos de nossas vidas; mas, ainda assim, são verdadeiros “documentos históricos” acerca do que pensamos na época em que escrevemos. Por meio dela, podemos ter noção de nossa mentalidade de 10, 15 anos atrás.

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A vida é uma soma de insignificâncias

O avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Mas ao mesmo tempo é também o mais apavorante para muitas pessoas. Afinal de contas, por mais que as estatísticas nos mostrem que morrer em um acidente de carro a caminho do aeroporto é mais fácil do que na aeronave, também sabemos que um erro do piloto pode ser fatal – ou seja, sentimos que nossas vidas está nas mãos de outra pessoa. Quando viajamos de carro, temos a ilusão de que está tudo sob controle: sim, uma ilusão, pois mesmo tomando todos os cuidados necessários quando se dirige, um outro motorista pode estar bêbado ao volante e na próxima curva nos acertar em cheio, de frente, sem que tenhamos tempo suficiente para desviar.

Acredito que tenha sido mais ou menos assim que o papo com o Alexandre Haubrich, do Jornalismo B, tenha tomado a direção que tomou quinta-feira passada, no Parangolé. Resumindo: somos resultados de escolhas que nós mesmos e outras pessoas fazemos. E que, por mais insignificantes que sejam aparentemente, definem o que será de nossas vidas a curto, médio, ou longo prazo. Continuar lendo

Cotas, sim!

Na última quinta-feira, o STF tomou uma histórica decisão, ao definir que as cotas “raciais” em universidades não são inconstitucionais. Pois embora todos os humanos formem apenas uma raça (daí o uso de aspas em “raciais”), muita gente ainda acredita que a humanidade se divida em diferentes raças. E pior ainda: tem o costume de achar que as pessoas de pele branca são superiores.

Já fui crítico à adoção de cotas com base na cor da pele dos candidatos à vaga nas universidades. Achava que o critério mais justo seria o de renda, pois isso também beneficiaria a população negra – que em sua maioria é pobre, uma herança da escravidão. Também me baseava em uma exceção – negros de classe média, que tinham condições de pagar por uma escola particular, além dos caríssimos cursinhos pré-vestibular – para defender que os brancos pobres seriam prejudicados.

Minha visão não podia ser mais errada. Primeiro, porque a comprovação de renda poderia ser facilmente fraudada. E em segundo lugar, as políticas de ação afirmativa, pelo menos como foram adotadas na UFRGS, não prejudicam os brancos pobres. Afinal, as cotas não são simplesmente para negros e indígenas, mas sim, em primeiro lugar, para estudantes vindos de escolas públicas, que tradicionalmente têm desvantagem em comparação com os alunos de colégios particulares. Das vagas reservadas a quem cursou o Ensino Médio numa escola pública, metade é destinada a candidatos negros – ou seja, eles perdem o direito a concorrer pelas cotas caso tenham estudado em colégio particular.

Aí o leitor pode vir com um argumento muito válido, mas que não considero adequado: “mas o governo tinha é de melhorar o ensino público ao invés de ficar dando cota”. Concordo que as escolas públicas estão de chorar, só que isso não se resolve de uma hora para outra. Obviamente as cotas não acabam com o problema (aliás, quem dera fosse fácil solucioná-lo). Mas são uma maneira de enfrentar o preconceito.

Afinal, a má qualidade do ensino nas escolas públicas faz com que a universidade não reflita a diversidade da sociedade brasileira – ou seja, não há convivência entre os diferentes, tão necessária para que eles se conheçam e assim haja menos preconceito. Nas escolas particulares, com raros alunos negros, é que isso não acontece; já nas públicas sim, o problema era que os alunos de escolas públicas dificilmente conseguiam chegar à universidade.

Com as cotas, eles conseguem – mesmo que ainda sejam poucas as vagas reservadas. E numa prova de que desempenho no vestibular não quer dizer nada, os alunos cotistas não só têm se saído melhor em muitos cursos, como também desistem menos. Ou seja, valorizam mais a oportunidade que têm.

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Já prevejo a alta probabilidade de aparecer alguém para dizer que já estou formado, não preciso mais me preocupar que minha vaga na faculdade seja “roubada”, dentre outras idiotices. Pois respondo antes mesmo de vir um comentário tosco desses: graças às cotas, muitas famílias não precisam pagar caro para pôr seus filhos – sejam eles brancos ou negros – em colégios particulares.

Os valores conservadores e a influência da escola

Em 1970, o sociólogo francês Pierre Bourdieu publicou, em parceria com o colega Jean-Claude Passeron, “A reprodução”, obra que faz uma análise do sistema educacional na França. Embora não a tenha lido, tive acesso a sinopses e resumos dela, sabendo que o livro demonstra, de forma geral, que a função principal das escolas francesas não era a de estimular o pensamento, e sim, de legitimar o status quo.

Semana passada, tive um excelente exemplo de como a análise de Bourdieu e Passeron é correta. Percebi o óbvio: alunos de colégios conservadores tendem a ser adultos conservadores, ainda mais se vindos de famílias assim. (E se estudarem em universidades conservadoras, então…)

Notei isso semana passada, quando conversei com uma ex-colega do segundo grau com quem não falava há muitos anos, e uma das primeiras coisas que ela me perguntou foi se eu tinha casado… Foi quando reparei que, dentre o pessoal da época do segundo grau que mais encontro, o casamento – seja formal ou informal (o famoso “se juntar”) – é regra.

Então comparei com a turma de amigos do tempo do primeiro grau: nela, não só o casamento não é regra, como há mais contestação à “obrigatoriedade” de se ter uma relação afetiva estável. Como prova uma manifestação de uma de minhas ex-colegas, solteira e descompromissada, no Facebook em dezembro passado: comentando os “votos” para que arranjasse um namorado em 2012, ela questionou por que uma mulher solteira aos 30 anos incomoda tanta gente.

O que diferencia ambas as turmas? O colégio. Cursei o primeiro grau em escola pública (Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto); a maioria dos colegas também cursou o segundo grau em escolas públicas (muitos ficaram no próprio Floriano), ou seja, oficialmente laicas. Bem diferente do segundo grau, que cursei no Colégio Marista São Pedro; embora houvesse uma separação nítida entre a religião e o conteúdo ministrado nas aulas (em Biologia e História estudávamos Biologia e História mesmo, não criacionismo), o colégio era oficialmente católico, portanto, conservador (me digam qual religião não é conservadora?), e muitos colegas já eram alunos do São Pedro desde o jardim de infância.

A visão de mundo conservadora dá uma importância muito grande à “defesa da família”. Logo, é compreensível que um dos principais objetivos de vida para quem é conservador seja “constituir família”, antes de crescer profissionalmente, fazer algo para melhorar o mundo etc. (Não que eu considere ruim alguém querer constituir família: só acho que não é a única opção.)

Surge assim parte da resposta ao questionamento da minha amiga solteira: ao não dar tanta importância à busca por um namorado, ela subverte a lógica de que “toda pessoa solteira está em busca de um amor”, o que a impede de “constituir família”. E isso realmente incomoda muita gente – principalmente os machistas, que não suportam a ideia de uma mulher ser independente e não estar a fim de assumir compromisso com homem algum: para eles, a função da mulher ainda é “pilotar fogão”, limpar a casa e cuidar dos filhos.

Por fim, alguns devem estar querendo saber como não me tornei um conservador (e, “pior” ainda, agora sou ateu!). Certamente pesaram para isso o fato de não ter vindo de família conservadora (apesar de minha mãe ser católica, meu pai é agnóstico e de esquerda, logo, questionador), além de ter estudado predominantemente em instituições laicas: foram apenas três anos no São Pedro, contra dezesseis na soma de Floriano e UFRGS (Física inclusive). Pois como foi dito lá no começo, o conservadorismo trata-se de uma tendência, e não de um destino inevitável.

Coragem de mudar

O título deste texto foi o lema da vitoriosa campanha de Olívio Dutra à Prefeitura de Porto Alegre na eleição de 1988. Contrariando as pesquisas, que apontavam Antônio Britto (então no PMDB) como favorito, Olívio foi eleito em 15 de novembro, e Britto acabou em 3º lugar, sendo superado por Carlos Araújo (PDT). Foi o marco inaugural dos 16 anos de gestões petistas em Porto Alegre, uma experiência que deu muitos exemplos ao mundo.

Uma das maiores dificuldades que as pessoas têm na vida se chama “mudança”. Manter tudo como está, em todos os aspectos, é mais cômodo do que tentar fazer diferente. Não por acaso, muita gente tem verdadeiro pavor a qualquer tentativa de mudar as coisas – como a própria palavra explica, são os conservadores.

E não é apenas a sociedade que é difícil de ser mudada. Pois muitas vezes nós mesmos adiamos necessárias mudanças em nossas vidas, pelo simples fato de não aceitarmos que isso se deve a uma opção errada que tomamos anteriormente. Afinal, uma mudança de rumos significa admitir tal erro.

Penso nisso justamente por olhar o calendário. Estarmos em março de 2012 significa que se passaram 10 anos daquele março de 2002, quando começou uma grande reviravolta na minha vida: comecei a admitir que tinha errado (e feio!) na escolha de que faculdade cursar: quando eu cursava o último ano do Ensino Médio, em 1999, não tinha a menor ideia de que curso escolher para o vestibular – quando fazia testes vocacionais, indicavam que “minhas áreas” eram tanto Ciências Exatas como Humanas. E como minhas melhores notas no colégio eram em Física… Bom, não preciso dizer mais nada.

Passei muito bem no vestibular, e comecei a frequentar o curso de Física da UFRGS em março de 2000. Levei dois anos até admitir que estava no lugar errado, embora já houvesse indícios disso que só muito depois fui perceber – e bem além de minhas notas serem lastimáveis (quando eu não rodava nas cadeiras, ficava com o medíocre conceito “C”).

Se era difícil tirar uma boa nota em uma cadeira como Equações Diferenciais, onde o professor muitas vezes ocupava uma aula inteira para explicar a resolução de um (!!!) problema cheio de números imaginários e letras gregas, mais ainda era admitir que havia errado na escolha do curso e que não tinha mais jeito de continuar naquela situação: era preciso recomeçar. Ou seja, enquanto os amigos “seguiam em frente”, construindo seus futuros, eu voltava à estaca zero.

Foi uma das decisões mais difíceis que já tive, mas também foi a mais sábia de todas. Em março de 2004, quando alguns amigos já estavam se formando, comecei o curso de História da UFRGS, que concluí no final de 2009. No momento atual, apesar de não exercer a profissão de historiador (leia-se “ganhar a vida” desta maneira), vejo os seis anos de faculdade como importantíssimos em relação à minha maneira de pensar atual, graças ao que aprendi dentro e fora das salas de aula.

Assim, se tem um conselho que eu posso dar a qualquer pessoa, este é: não ter medo de mudanças. Elas podem até não dar certo, mas ao menos não causam aquela sensação de arrependimento por não se ter tentado.

Ser de esquerda é atestado de inteligência?

O resultado de um estudo feito por uma universidade canadense é, no mínimo, polêmico. Segundo a pesquisa feita por acadêmicos da Universidade Brock, pessoas de esquerda são mais inteligentes que as de direita.

Não resisti à tentação e compartilhei o link no Facebook, com um comentário pra lá de provocador: “não sei se o estudo é sério, mas eu acredito nesta tese”. Esperei reação indignada de direitosos, mas até agora nenhum deles comentou (o que é uma pena, pois determinados bostejos fariam o “chapéu de burro” servir perfeitamente neles).

Mas, afinal, será que realmente a posição política defendida é um atestado de inteligência ou burrice? Pois, para provocar os reaças, é interessante exibir esta pesquisa como “prova” de que nós, de esquerda, somos os certos e eles, de direita, são os errados. Mas, uma coisa é provocar, outra é argumentar. (E é bom reparar que o conceito de “esquerda” e “direita” é meio variável: no Canadá – onde foi feito o estudo – e nos Estados Unidos, ele é mais de ordem moral que econômica, visto que lá a polarização se dá entre “liberais” e “conservadores”, com os primeiros sendo a “esquerda” e os segundos a “direita”, mesmo que no campo econômico ambos defendam o que consideramos ser políticas de direita.)

Acho mais válido dizer que pessoas de esquerda tendem a ser mais inteligentes. O motivo é simples: são contestadoras. Quem se questiona o tempo todo, não aceita certas verdades ditas “absolutas”, consequentemente pensa bastante, usa mais o cérebro.

Porém, isso não quer dizer que, necessariamente, uma pessoa de direita é “burra”. O escritor (e Prêmio Nobel de Literatura em 2010) peruano Mario Vargas Llosa, por exemplo, para “burro” não serve – muito antes pelo contrário. O fato de ser de direita não faz dele um mau escritor; e, inclusive, não podemos esquecer que também pensa de forma crítica, embora “para o outro lado”, em defesa do neoliberalismo. (Foi Vargas Llosa que criou a expressão “ditadura perfeita” para definir o período em que a política do México foi totalmente dominada pelo PRI – Partido Revolucionário Institucional – com base na violência e na fraude eleitoral; desta forma, o partido fundado na época da Revolução Mexicana que originalmente era de esquerda e inclusive membro da Internacional Socialista, mas passou a adotar práticas cada vez mais de direita – com direito a reformas neoliberais nas décadas de 80 e 90 -, manteve-se por várias décadas no poder, até ser derrotado nas eleições presidenciais de 2000 pelo também conservador Vicente Fox.)

Alguém pode muito bem dizer que a “ignorância das massas” favorece a manutenção do status quo, e portanto, a direita é “burra”. Mas não esqueçamos que manter as coisas assim como estão interessa a certas pessoas. Elas não querem perder o poder – e se fossem ignorantes, não teriam conseguido mantê-lo por tanto tempo.

E além disso, reparem que falei em “ignorância”, termo que denota falta de conhecimento sobre determinado(s) assunto(s) – ou seja, situação plenamente reversível. Pois não acredito que existam pessoas 100% “burras”, nem 100% inteligentes. Aquele aluno no qual ninguém aposta, por só tirar notas baixas, pode muito bem ter um grande talento na música ou no futebol (coisas que não são cobradas em provas de colégio). Ao mesmo tempo que o “CDF” que só tira notas altas pode ser um perna-de-pau; sem contar que ele pode também ter alguma dificuldade numa matéria em específico. Lembro que me chamavam de “gênio” por conta de minhas notas muito boas, mas nunca fui muito bom em Biologia (nos três vestibulares que fiz na UFRGS foi sempre minha pior nota, nunca acertei mais que a metade das questões), e prefiro nem falar do meu “talento” com a bola de futebol…

14 de dezembro

Faixa levada por torcedores ao jogo Seleção "Gaúcha" x Seleção Brasileira, realizado no Beira-Rio em 17/06/1972

Dia mais do que especial.

Há exatos dois anos, defendi minha monografia de conclusão do curso de História da UFRGS, trabalho que recebeu conceito “A” da banca. Um dia glorioso: embora oficialmente eu só tenha me tornado bacharel em História após o ato burocrático acontecido em 18 de fevereiro de 2010, a data que festejo é o 14 de dezembro de 2009.

Já um ano atrás… O 14 de dezembro foi o dia não só do primeiro aniversário da defesa do TCC, mas também de risada. De muita risada! Foi o melhor presente que eu poderia ter ganho.

Estação do descaso

Até abril do ano passado, a parada no corredor de ônibus da Avenida João Pessoa em frente à Faculdade de Direito da UFRGS se chamava “Estação Universidade”, por motivos óbvios. Depois, passou a se chamar “Estação do Vavá”, e recebeu também uma placa, bastante explicativa:

ESTAÇÃO DO VAVÁ. Em memória de Valtair Jardim de Oliveira.

Um turista que visita Porto Alegre, ou um morador recém-chegado à capital gaúcha, vê aquela placa e talvez se pergunte quem foi a pessoa que dá nome àquela parada de ônibus. Resposta, só fazendo busca na internet.

Se procurar, encontrará as notícias referentes ao absurdo ocorrido na noite de 13 de abril de 2010, naquele local: o estudante Valtair Jardim de Oliveira, de 21 anos, esperava o ônibus para voltar a sua casa quando se encostou no corrimão da parada, e recebeu uma descarga elétrica fatal.

Pior ainda, é que o problema já era conhecido. Outras pessoas já haviam levado choques naquela mesma parada de ônibus, e ela não tinha sido interditada.

Para “compensar” a perda (entre aspas mesmo, pois até parece que é possível compensar uma vida), que podia muito bem ter sido evitada, se decidiu mudar o nome da parada para “Estação do Vavá”, homenagem ao apelido de Valtair. Mas aquela placa que “explica” o nome do ponto de ônibus pode melhorar, tenho inclusive uma sugestão:

ESTAÇÃO DO VAVÁ. Em memória de Valtair Jardim de Oliveira, que neste local, na noite de 13 de abril de 2010, foi vítima fatal do descaso.

“Os Meninos da Rua Paulo” no cinema

Em maio do ano passado, postei sobre o livro “Os Meninos da Rua Paulo”, do escritor húngaro Ferenc Molnár, e sobre como era impossível não lembrar a minha infância após a leitura. Afinal, assim como para o grupo de meninos da Rua Paulo em Budapeste, a Rua Pelotas em Porto Alegre tinha para mim um significado semelhante: era o meu “território”, minha principal referência de pertencimento.

Pois para quem está em Porto Alegre, há não uma, mas duas oportunidades de conhecer a fantástica história (a dos meninos húngaros, não a minha…) na telona. No mês de fevereiro, a Sala Redenção (Cinema Universitário da UFRGS) apresentará filmes voltados ao público infanto-juvenil, com direito a duas exibições de “Os Meninos da Rua Paulo” (A Pál-utcai fiúk, Hungria, 1969, 110 min), dirigido por Zoltán Fábri: dia 3, às 19h; e dia 7, às 16h. Todos os filmes terão entrada franca.

Não perca!

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Uma dica: se o leitor puder conseguir o livro, é interessante ler antes de ver o filme… Se for assistir à sessão do dia 7, então, dá tempo de ler!