Associação Nacional dos Torcedores

Talvez seja a melhor novidade do futebol brasileiro nos últimos anos. Uma associação com o objetivo de lutar pelos direitos dos torcedores de clubes de futebol no Brasil, e discutir criticamente a organização da Copa do Mundo de 2014, com suas inevitáveis consequências para todos.

A Associação Nacional de Torcedores foi fundada a partir das iniciativas de Christopher Gaffney (professor visitante da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF e autor de “Temples of the Earthbound Gods”, em que trata sobre os estádios de futebol como santuários) e Marcos Alvito (professor do Departamento de História da UFF), preocupados com as mudanças acontecidas no futebol brasileiro nos últimos anos.

A Associação define sua missão em sete pontos:

Criar uma organização sem fins lucrativos para lutar contra:

  1. A exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol, fruto de uma política deliberada de diminuição da capacidade dos estádios, extinção de setores populares dos estádios e aumento abusivo dos ingressos
  2. O desrespeito à cultura torcedora com a extinção de áreas populares como a geral, onde há uma tradição própria de participação no espetáculo que inclui assistir ao jogo de pé (o que acontece na Alemanha)
  3. A falta de transparência no futebol brasileiro, há décadas nas mãos de dirigentes incompetentes e corruptos; exigimos a democratização das decisões acerca do futebol brasileiro com a participação dos torcedores; por exemplo: as sucessivas e milionárias reformas do Maracanã, feitas sem nenhuma consulta aos torcedores
  4. A exploração politiqueira do futebol visando eleger candidatos que aproveitam-se da sua popularidade para conseguirem mandatos contra o povo
  5. O controle das tabelas e horários dos campeonatos na mão da rede de televisão que há décadas detém o lucrativo monopólio das transmissões televisivas de jogos de futebol; horário máximo de 20h para o início das partidas durante a semana e 17h aos domingos
  6. A retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas
  7. A falta de meios de transporte dignos durante os dias de jogos; exigimos esquemas especiais em dias de jogos

Uma sugestão a mais, é também lutar contra o grande apelo midiático (não só na televisão, como também em jogos de videogame) que se vê em favor de clubes europeus, para evitar que possa acontecer no Brasil o que já se vê em vários países asiáticos: os jovens, ao invés de torcerem pelos clubes de seus países, optam por times da Europa. Antes que alguém ache que é bobagem, lembremos que em vários Estados os clubes locais não têm torcida significativa, devido à maior visibilidade de Flamengo e Corinthians. Tendência que se fortalece com a elitização dos estádios, que força a maioria dos torcedores a só verem futebol profissional pela televisão.

Por aqui, embora a gurizada ainda torça por nossas equipes, é crescente o número de crianças vestindo camisas de clubes europeus, inclusive de menos tradição que boa parte dos nossos grandes: ninguém me convence que o Chelsea – clube que até ser comprado pelo bilionário russo Roman Abramovich só tinha sido campeão inglês uma vez, em 1955 – possa ser maior que o Grêmio (ou, para um exemplo menos passional, que o Cruzeiro). Porém, no videogame se pode jogar com o Chelsea; Grêmio, Cruzeiro e outros grandes do futebol brasileiro, só se o jogo for pirata.

Menos mal que no próximo Pro Evolution Soccer ao menos se poderá disputar a Libertadores, fazendo a “geração PlayStation” perceber que o nosso futebol também é bacana.

Revendo conceitos

Em agosto do ano passado, escrevi um post explicando os motivos pelos quais eu não sinto vontade de deixar o Rio Grande do Sul para fazer um mestrado no Rio de Janeiro – onde se localizam duas das universidades mais bem conceituadas na área de História, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF).

Bom, ainda continuo não muito disposto a fazer isto, basicamente pelos mesmos motivos: clima – tenho excessiva produção de suor, o que me faz literalmente tomar banhos quando caminho pelas ruas nos dias de verão, mas pelo menos o calor aqui em Porto Alegre não dura o ano inteiro – e não ter como prioridade a carreira acadêmica, pois não quero publicar mil e um artigos em revistas acadêmicas que serão lidas só pelos meus pares, e sim escrever para despertar o interesse pela História em quem não está na faculdade de História (este é um projeto que penso em concretizar logo). E isto eu posso fazer aqui.

Mas, muita coisa que eu pensava, mandei para a “lata do lixo”. Não são sobre o Rio de Janeiro e sim, do Rio Grande do Sul.

Sobre a cerveja, eu já havia reconhecido naquele post de agosto: a Polar é muito boa, mas não é melhor que a Bohemia. Os marqueteiros que produziram as campanhas publicitárias da Polar souberam explorar o forte sentimento regionalista dos gaúchos para vender um produto que nem é mais “daqui”: a cervejaria Polar foi comprada – há muito tempo – pela AmBev.

Reflexo de nosso regionalismo, de nosso “provincianismo” até. Temos tendência a desvalorizar tudo o que “não é daqui”.

E tal preconceito é forte até mesmo entre a esquerda: em 2006 eu votei no Olívio porque achava que ele, um político identificado com os trabalhadores, seria muito melhor governador do que a Yeda, que formou um dos governos mais bizarros da história gaúcha – como exemplo cito o fato da Secretária de Cultura (filha de um dos mais ardorosos defensores da Ditadura Militar) ter sido candidata ao Senado defendendo a bandeira da segurança pública. Mas vi muita gente que sempre defendeu ideais de esquerda dizer que não se devia votar na Yeda simplesmente porque “ela é paulista”. Ou seja, se a pessoa nasceu em outro Estado não tem o direito de governar o Rio Grande do Sul, mesmo que fixe raízes aqui?

Já o Rio de Janeiro foi governado duas vezes por um gaúcho (Leonel Brizola) que, aliás, acabou indo morar lá definitivamente – só voltou a “fixar residência” no Rio Grande do Sul depois de morto. Segundo uma amiga nascida lá, quando Brizola se candidatou ao governo do Rio os adversários não tentavam desqualificá-lo porque era gaúcho.

Bom, poderá usar-se o argumento de que o Rio foi capital federal e, assim, é mais aberto ao resto do Brasil. Mas provavelmente nenhum Estado seja tão fechado culturalmente quanto o Rio Grande do Sul.

Querem uma prova disso? O Carnaval. Tem gente que não é muito de pular Carnaval (é o meu caso), mas a classe média em geral vai a “bailes de Carnaval”. Pois bem: vão às festas de sua classe, mas não querem saber do Carnaval popular, no caso os desfiles de escolas de samba. Aliás, tem gente que adora dizer “o Carnaval de Porto Alegre é ruim” não com o sentido de “tem que melhorar!”, e sim, de “isso não tem que ter aqui”.

Lembram de como a mídia batia no fato de que depois dos desfiles de Carnaval muitas vezes acontecia das escolas deixarem carros alegóricos abandonados nas ruas, “sujando a cidade”? Pois bem: e quando que reclamaram de, depois dos desfiles de 20 de setembro, as ruas ficarem sujas de bosta dos cavalos que desfilaram? Nunca!

Além disso, argumentavam que era preciso “interromper o trânsito” para realizar o Carnaval (e isso não acontece para o 20 de setembro?) e assim justificavam a necessidade de Porto Alegre ter um sambódromo. Mas no Centro e em bairros próximos, nem pensar: a classe média se levantava toda contra a idéia, “ia ser muita bagunça”. Isso que já se dizia que seria uma “pista de eventos”, não só um sambódromo, e que assim outros desfiles – como o 20 de setembro – poderiam acontecer lá.

Mas, o que aconteceu? Construiu-se a “pista de eventos” bem longe do Centro, dificultando o acesso a quem não mora próximo ao local. E assim, mandou-se o Carnaval, “essa coisa de pobre” como muitos reaças pensam, para um local afastado da classe média, enquanto os desfiles de 20 de setembro seguem acontecendo perto do Centro.

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Claro que não acho que o Rio Grande do Sul seja um lugar cheio de defeitos e o Rio de Janeiro cheio de qualidades – até porque não conheço o Rio e fica difícil falar a respeito de lá. Todos os lugares tem suas coisas boas e ruins. O Rio Grande do Sul, por exemplo, tem de bom o inverno (pelo menos na minha opinião), o chimarrão – que não é “tradição gaudéria” porra nenhuma, é de origem guarani -, o Grêmio (é óbvio!) e muitas outras qualidades.

Leia mais sobre o Rio de Janeiro onde escrevem pessoas que conhecem a cidade: no Palanque do Blackão, do Hélio Paz (que está em férias no Rio) e no Blog do Rodrigues – o Diego, mestrando em Economia pela UFJF, passou cinco dias no Rio de Janeiro antes de ir para Juiz de Fora.

A melhor é daqui?

No bar, os gaúchos são quase sempre iguais. “Vê uma Polar!”, pede o cervejeiro rio-grandense ao garçom.

É uma cerveja muito boa, mas reconheço que a Brahma Extra é melhor. E as cervejas uruguaias então? Mesmo assim a Polar é a cerveja que mais vende, não só por ser mais barata que a Brahma Extra e as uruguaias, mas graças à idéia de que “é do Rio Grande do Sul” (apesar de ter sido comprada pela AmBev). Temos a tendência de achar que tudo o que “é daqui” é melhor.

O Diego, do Pensamentos do Mal, se formou em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul no último dia 10. Ele pretende ingressar logo no mestrado, mas nem cogita de tentar na UFRGS. Apenas universidades do eixo Rio-São Paulo, que são consideradas as mais fortes na área de Ciências Econômicas.

Na área de História, a universidade brasileira que mais se destaca é a Federal Fluminense (UFF), tenho colegas na UFRGS cuja pretensão após a formatura é fazer mestrado na UFF. Apesar de essa universidade ser muito bem conceituada, dificilmente eu irei para lá. Não por “falta de capacidade”, mas sim, porque não sinto vontade de sair do Rio Grande do Sul.

É um negócio muito interessante. Já li vários textos sobre a construção dos mitos da Revolução Farroupilha, sei que foi um movimento das elites estancieiras, mas todos os anos, no dia 20 de setembro, sinto aquele orgulho. Aquela sensação de ter nascido no melhor lugar do mundo. “É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor, onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor”. Jogo botão com meus amigos a cada 20 de setembro no Torneio Farroupilha, que tem até uma “cerimônia de abertura”: todos os participantes têm de cantar o Hino Rio-Grandense antes da “bola rolar”.

Além disso, no Rio de Janeiro eu sentiria muita falta do que tenho aqui. Família (tenho uma prima que mora no Rio e é muito legal, mas não seria suficiente), amigos, chimarrão, Grêmio, inverno… Faria um mestrado (ou um doutorado), mas seria infeliz longe do que gosto. Me sentiria em um “exílio acadêmico”, contando os dias, as horas, para voltar ao Rio Grande. Ao pensar nisso, faço a pergunta: vale a pena colocar a carreira acima de tudo?

Sinceramente, do que adianta ser mestre, doutor, pós-doutor, ter duzentas publicações em revistas científicas (que quase ninguém lê, de tão chatas que são) se para isso for preciso passar anos de “exílio” para escrever uma tese? Não sinto vontade de deixar o Rio Grande para escrever uma dissertação ou uma tese sabendo que o trabalho só será lido por meia dúzia de gatos pingados¹ e que, se alguém que não for do meio acadêmico tentar ler, certamente não entenderá porra nenhuma, devido à escrita numa linguagem extremamente restrita aos acadêmicos – e por isto mesmo, elitista.

Quanto às cervejas, Brahma Extra tem em todo o Brasil e posso bebê-la em Porto Alegre. As uruguaias eu não sei se são vendidas no Rio de Janeiro. Agora, a Polar não tem lá! E como já falei, ela não é a melhor cerveja, mas “é daqui”.

Ah, eu não tenho patrocínio da Polar. Faço “propaganda” dela de graça mesmo… Duvido que ela seja como a FIFA², que ameaçou punir o Inter pelo uso de sua “marca” (!) no letreiro do título mundial.

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¹ O problema é que essa meia dúzia acha que “vale mais”…

² Seria extremamente engraçado se a FIFA decidisse retirar o título mundial do Inter por causa do “uso comercial da marca”: ao meu ver o Inter continuaria com o mérito de campeão, mas como eles vivem no “mundo FIFA”… Leia mais no Alma da Geral.