Grândola, Vila Morena

A Revolução dos Cravos, que em 25 de abril de 1974 pôs fim a um regime ditatorial que assolava Portugal há quase 50 anos, inspirou uma bela canção de Chico Buarque, chamada “Tanto Mar”. Aliás, nem poderia ser diferente, visto que ela começou com música: a ação militar que depôs o governo se iniciou após o rádio tocar “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso. A canção tinha sido proibida pela ditadura por fazer “alusão ao comunismo”, visto que sua letra falava muito de solidariedade e fraternidade. Hoje em dia, é um símbolo da insatisfação popular com a política de austeridade que a troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe aos portugueses.

Buscando outras versões da música, achei o vídeo abaixo – uma belíssima interpretação pelo Grupo Canto D’Aqui, da cidade de Braga. Não deixe de clicar e ouvir.

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E a Revolução dos Cravos continua a mandar lembranças

Em 15 de fevereiro o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, foi interrompido por manifestantes no Parlamento que começaram a cantar “Grândola, Vila Morena”. Em 25 de abril de 1974, a canção de Zeca Afonso foi a senha para a deflagração da Revolução dos Cravos. E quase 40 anos depois, é o símbolo da insatisfação com a rigorosa política de austeridade adotada pelo governo, por imposição da troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.

A manifestação do dia 15 de fevereiro foi uma ação do movimento “Que se Lixe a Troika”, que promoveu uma onda de protestos ontem. Segundo o movimento, pelo menos 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas (inclusive fora de Portugal). Só em Lisboa, foram 800 mil manifestantes.

Em Loulé, foi lido um manifesto (transcrito aqui), e na sequência, o povo cantou “Grândola, Vila Morena” junto ao Castelo.

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Assim como Portugal e Grécia, a Espanha também sofre com a crise econômica e a rigorosa austeridade imposta pela troika. E os espanhóis se manifestam de forma semelhante a seus vizinhos portugueses, como se viu na Puerta del Sol, em Madri, no dia 16 de fevereiro.

Em Portugal, a Revolução dos Cravos manda lembranças

Aconteceu ontem, em Lisboa. Durante debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho foi interrompido pelo público de uma forma diferente: ao invés de vaias, o que se ouviu foi a canção “Grândola, Vila Morena”, composta por Zeca Afonso.

A ação promovida pelo grupo “Que se Lixe a Troika” foi extremamente simbólica, pois “Grândola, Vila Morena” não é uma música qualquer. Nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, a canção foi executada na Rádio Renascença, de Lisboa. Era a segunda senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado por militares descontentes com o regime ditatorial e com a Guerra Colonial) para dar início à Revolução dos Cravos.

A primeira senha, executada horas antes, fora “E depois do adeus”, que era a “ordem” para as tropas ficarem a postos – sendo uma música “politicamente neutra”, não despertou maiores suspeitas de militares favoráveis ao governo. Já “Grândola, Vila Morena” refere-se à solidariedade entre as pessoas, e foi proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”. Assim, sua execução no rádio era o sinal de que “o caminho estava livre” para a derrubada do regime.

Era o fim de uma ditadura iniciada em 1926 e que a partir de 1933 passara a ser chamada oficialmente de Estado Novo*, mas também ficou conhecida como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, ditador de Portugal por 36 anos (1932-1968). O povo, cansado de quase 50 anos de autoritarismo, celebrou nas ruas distribuindo cravos aos soldados, daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

O fato de “Grândola, Vila Morena” ser cantada em pleno Parlamento, interrompendo o primeiro-ministro, mostra o tamanho do descontentamento popular em Portugal, que assim como a Espanha e a Grécia, vive uma grave crise econômica. A troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe rigorosos planos de austeridade como condições para “ajudar” tais países. Porém, as “ajudas” fazem com que a crise econômica torne-se também social, com o aumento do desemprego e da pobreza. Afinal, como mostra o documentário grego “Dividocracia”, a troika não quer salvar o povo, e sim, bancos e empresas falidas…

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* A semelhança com o Brasil de 1937 a 1945 não é mera coincidência: Getúlio Vargas se inspirou em Salazar para denominar sua ditadura como “Estado Novo”.