Ser pedestre em Porto Alegre é um teste de paciência

Isso não é nenhuma novidade, vamos combinar. Basta caminhar pelas “maravilhosas” calçadas porto-alegrenses para perceber: quem administra a cidade está se lixando para os pedestres.

Os semáforos são concebidos, em sua maioria, para os carros. São poucos os que também têm sinalização para quem não se desloca sobre rodas – ou seja, não obrigam o pedestre a cuidar o sinal para os veículos para saber se é a sua vez de atravessar.

Por conta disso, os tempos também são ajustados de acordo com o fluxo de veículos motorizados. A “esquina da agonia” é um bom exemplo: pedestres têm pouquíssimo tempo para atravessar, pois o “sinal verde” para eles corresponde ao mesmo para os ônibus que vêm pelo corredor da Osvaldo Aranha e dobram à esquerda. Em compensação, o grande número de veículos na Sarmento Leite faz com que o semáforo lhes dê um verdadeiro latifúndio de tempo – e mesmo assim, alguns motoristas imbecis ainda passam no sinal vermelho, dificultando ainda mais a vida de quem anda a pé.

Pior ainda, é naqueles semáforos com botoeira. O ideal seria o sinal abrir para o pedestre imediatamente (ou pouco tempo) após o botão ser pressionado; porém, é preciso esperar. E muito. Justamente porque a sinaleira está sincronizada com outras que têm seus tempos ajustados de acordo com o fluxo de veículos. Tanto que é natural o pedestre não ter paciência e atravessar quando vê uma brecha, pouco se importando se o sinal está aberto ou fechado, o que aumenta os riscos de atropelamentos.

Solução para o problema? Só tem uma: aumentar o tempo para as pessoas atravessarem e reduzir o de espera (inclusive há em Porto Alegre um projeto de lei nesse sentido, de autoria do vereador Marcelo Sgarbossa, do PT). Vai “trancar o trânsito”? Bom, não esqueçamos que pedestres também são trânsito, e já estão “trancados” por perderem tanto tempo enquanto os carros passam (cada vez mais lentamente, devido ao crescente número de automóveis entupindo as ruas). Aliás, o caos diário nas grandes cidades evidencia o quão urgente é deixar de dar prioridade aos veículos automotores.

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Milhares de motoristas sozinhos em seus carros trancam o trânsito

A sexta-feira foi um dia de caos em Porto Alegre. Devido ao treino da Seleção Brasileira no Beira-Rio, a avenida homônima que passa junto ao estádio foi fechada. O resultado não poderia ter sido outro: congestionamento por toda parte.

Quando acontece alguma manifestação, é normal os principais portais de notícias darem destaque não à reivindicação, e sim, ao trânsito. “Ato contra reajuste das passagens causa congestionamentos”, era mais ou menos nessas palavras que se referiam aos protestos contra o aumento da passagem do ônibus. Porém, hoje não consegui encontrar nenhuma matéria falando sobre a Seleção ter trancado o trânsito.

Porém, a verdade é que não foi o treino do time de Felipão que causou o caos. Quem tranca o trânsito não é a Seleção, nem as manifestações nas ruas: são os próprios motoristas que circulam sozinhos em seus carros (quando poderiam levar mais quatro pessoas junto, no mínimo). Eles reclamam do problema sem perceberem que são o problema.

É muito tentador atribuir a outros elementos a tranqueira. Lembro que certa vez eu ia de ônibus para a faculdade, e na Ipiranga o trânsito não andava. Quando vi uma carroça, foi inevitável pensar que ela estava atrapalhando a nossa vida, que não devia circular na Ipiranga aquela hora etc. Porém, desliguei o “piloto automático” e reparei no entorno: vários carros só com o motorista. Não fossem tantos, o trânsito fluiria sem problemas, com ou sem carroça.

É por isso que as prefeituras têm de parar de investir em vias para automóveis*: isso só estimula mais pessoas a usarem o carro particular. E desse jeito o trânsito vai trancar, prejudicando os próprios motoristas reclamões, além dos que realmente precisam do carro para trabalhar; assim como aos que se deslocam usando ônibus (que também ficam presos no trânsito, pois boa parte das ruas não têm faixa exclusiva) e mesmo a quem anda a pé, pois se em situação “normal” os motoristas já não costumam ter respeito ao pedestre, quando o trânsito congestiona eles ignoram a existência da faixa de segurança, param em cima mesmo.

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* Prova disso é o que vi em Buenos Aires: a Avenida 9 de Julio é uma das mais largas do mundo, com um grande número de faixas, e mesmo assim passa boa parte do tempo congestionada em dias úteis. A prefeitura da capital argentina decidiu agir: só que ao invés de alargar ainda mais a avenida, está implantando um corredor de ônibus.

A esquina da agonia

Quinta-feira, fui e voltei do trabalho pelo mesmo caminho. Ao invés de “cortar” pela Redenção, optei pela Sarmento Leite, pelo meio do Campus Central da UFRGS. Assim, tive de passar duas vezes pela esquina da Sarmento com a Osvaldo Aranha, que passo a denominar, “carinhosamente”, como “esquina da agonia”.

O motivo? É que ali, pedestre mofa esperando uma chance para atravessar. É preciso esperar que feche o sinal não só para cruzar a Sarmento Leite, como a Osvaldo Aranha no trecho em direção à João Pessoa, visto que os carros dobram ali um atrás do outro. E o tempo que se tem para atravessar é mínimo: mal a sinaleira abre para os pedestres, já fecha, e os carros voltam a converter um atrás do outro… Um dia vou cronometrar, mas tenho certeza de que os veículos têm no mínimo três vezes mais tempo do que quem anda a pé. (E alguns motoristas, não satisfeitos com o latifúndio temporal à disposição deles, ainda dobram mesmo com o sinal vermelho: semana passada eu começava a atravessar quando uma daquelas caminhonetes poluidoras se atravessou; gesticulei lembrando que era a minha vez de passar e a motorista teve a cara de pau de reclamar como se estivesse certa.)

Obviamente defendo que se aumente o tempo para quem anda a pé atravessar, o que certamente gerará uma reação contrária. “Vai trancar o trânsito!”, dirá o(a) motorista revoltado(a) e estressado(a). Pois bem: trancará mais o trânsito de veículos automotores (é preciso fazer tal ressalva, pois pedestres e ciclistas também são trânsito). E que seja assim mesmo, pois nos finais de tarde, a maioria dos carros circula apenas com o motorista: além de “trancar o trânsito”, também representa um grande desperdício de energia, pois gasta-se combustível – que também polui o ar que respiramos – para mover uma máquina cuja massa é em torno de uma tonelada, com o objetivo de transportar uma pessoa de aproximadamente 80kg. (E esses 80kg tendem a aumentar, com mais gente preferindo andar de carro do que a pé.)

Aliás, por mim automóveis particulares teriam circulação restrita na área central há muito tempo. “E o direito de ir e vir?”, pergunta novamente o(a) motorista revoltado(a) e estressado(a). Pois bem: ele tem de ser garantido a todos, independentemente do meio usado para se locomover. E sinto que é o meu – e o de muitas pessoas – que está sendo negado, ao se permitir que milhares de carros transportando apenas o motorista congestionem as ruas da cidade: quantas vezes já não mudamos nossa programação (tanto em termos de horários como de local) devido à tranqueira? Sem contar o próprio prejuízo à nossa saúde: além da poluição, uma rua tomada de veículos que não andam impede que uma ambulância chegue rápido a seu destino e salve uma vida.

Carro pra quê?

Terça-feira era dia de aula na especialização. Assim, ao invés de sair do trabalho e voltar a pé para casa, embarquei em um ônibus da linha T1.

Na hora de descer, me deparei com o par de olhos mais lindo que já vi. Até agora me pergunto se o rosto dela era tão belo assim, ou se era só reflexo daqueles olhos verdes…

Isso também me faz perguntar: comprar um carro, pra quê? Quando saio com os amigos, também me acompanha a cerveja – o que me deixa inapto a voltar dirigindo. Assim, melhor pegar carona com quem não bebe, ou um táxi, ou até ônibus no caso deles ainda passarem.

Usar carro durante a semana, para ir e voltar do trabalho? Nem pensar. Se andando a pé (ou de ônibus, como na última terça) já sou estressado ao extremo, imaginem dirigindo no “fantástico” trânsito de Porto Alegre? Isso não iria acabar bem.

De qualquer forma, adoro andar de ônibus, apesar dos pesares (como os constantes aumentos na passagem que não correspondem a uma melhoria no serviço – o que motiva mais gente a usar o carro no dia-a-dia). Ao contrário do Milton Ribeiro, não consigo ler durante o trajeto (embora eu siga insistindo em levar um livro toda vez que viajo de ônibus), então procuro observar as pessoas, as paisagens. Olho tanto para fora como para dentro do ônibus, e vejo tanto coisas ruins como boas.

Quando se está dirigindo, por sua vez, é impossível fazer tais observações sem correr sérios riscos. A única coisa que interessa é saber a distância do carro da frente, cuidar a velocidade, a sinalização etc. E a coisa piora quando o trânsito está caótico. Enfim, acho um saco dirigir na realidade, esse negócio que acontece fora das propagandas de automóveis.

Sem contar que dirigindo não há a possibilidade de poder observar um belo par de olhos verdes: se olhar demais, o sinal é que fica verde e preciso acelerar para não ser xingado até a quinta geração.

Do “Forno Alegre” para o “Caos Alegre”

Se tinha coisa que eu muito desejava, era o fim daquele calorão que assolava a cidade até ontem. Ainda bem que este rigorosíssimo verão finalmente está acabando!

Charge do Kayser

A chuva era a única maneira de acabar com tanto calor, mas bem que não precisava vir tanta água em tão pouco tempo…

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E lembram do que falei duas semanas atrás, sobre a Copa? Pois é…

Feliz 2012!

Avenida Borges de Medeiros, por volta das 8h20min de hoje. Viaduto congestionado no sentido bairro-centro. Agora sim, podemos dizer que o ano começou…

Mas não se preocupem: tenho certeza de que é só aumentar a velocidade máxima na cidade para os congestionamentos acabarem. Assim como tenho certeza de que o coelho da Páscoa me trará muito chocolate, e de que os ETs trarão de volta a irmã de Fox Mulder.

Um ano depois

Ontem, se completou um ano do atropelamento da Massa Crítica de Porto Alegre. O responsável pela barbárie daquele 25 de fevereiro de 2011 responde em liberdade por 17 tentativas de homicídio.

Depois de um ano e de muitas manifestações de solidariedade à Massa Crítica de Porto Alegre, nossa cidade sedia o primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, “para discutir o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural”, conforme informa a página oficial do evento. Ou seja, apesar dos pesares o atropelamento acabou tendo esta consequência positiva, de fomentar o debate sobre a bicicleta como meio de transporte, e não apenas como lazer.

Porém, nem tudo são flores. Enquanto Porto Alegre deveria se voltar para a discussão de um sistema de mobilidade urbana que deixe de privilegiar os automóveis particulares (modelo que se prova ultrapassado a cada final de tarde em que se locomover pela cidade requer paciência extrema), há um projeto do vereador Alceu Brasinha (PTB) na Câmara Municipal que aumenta o limite de velocidade para 70km/h na cidade – atualmente o máximo permitido é de 60km/h, sendo exceção a Avenida da Legalidade, via expressa na qual se pode transitar a 80km/h.

Alguém acredita que aumentar o limite de velocidade vai melhorar o trânsito? Até porque, com o limite de 60km/h, em horários de pico dificilmente se anda a mais de 20km/h. O que quer dizer que o problema não é a velocidade máxima permitida e sim, a quantidade de carros.

Sem contar o principal: 60km/h já é uma velocidade elevada. Um vento de 60km/h é suficiente para causar alguns transtornos como falta de luz, queda de galhos de árvores etc. Caminhar contra ele, então, requer alguma força.

Agora, imagine o choque de um carro a 60km/h. Melhor só imaginar, jamais querer experimentar.