Previsão de “seca” por aqui

Já fazia quatro dias que não escrevia nada, e a tendência é “piorar”. Em 2013, agosto faz jus à fama de “mês do desgosto”, e terei pouco tempo para postar – aliás, já podia ter diminuído a frequência antes, mas como não fiz isso agora preciso correr atrás do prejuízo.

O motivo: trabalho final da especialização mais estudos para prestar concurso público. Descanso, só depois do dia 2 de setembro.

Ao contrário do que fiz em ocasiões anteriores, não vou “congelar” o blog. O motivo é simples: ter a ideia fixa de “só postar depois que passarem os compromissos” apenas me deixa com mais vontade de escrever, e consequentemente, me desconcentra.

Assim, até o dia 2 de setembro a tendência é de não haver novas atualizações por aqui. Mas não prometo deixar o Cão parado até lá. Algo que tenho feito bastante é tirar fotos com o celular, de repente as usarei para não surgirem teias de aranha por aqui.

Anúncios

Este país que não é sério

Esses dias um amigo compartilhou no Facebook uma informação que me deixou indignado. Descobri que nós, cidadãos de bem, nos matamos trabalhando para sustentar um monte de vagabundo. Somos os palhaços desse circo chamado Brasil.

Por isso decidi que não quero mais saber de trabalhar. Afinal, posso viver numa boa por conta do governo comunista do PT, que dá Bolsa Família para tudo que é vagabundo, pelo resto da vida.

Terei muito tempo para fazer sexo loucamente, e assim minha mulher terá incontáveis filhos. Como sustentar essa prole toda? Basta entrar para o mundo do crime. Se o assalto der certo, ótimo, mas se der errado também: vou preso e aí receberei o Bolsa Bandido, que paga R$ 971,78 mensais por filho. Ou seja, minha família passará a ter uma baita renda mensal. Tudo isso sem trabalhar!

Enquanto estiver preso, não terei tempo de dizer à criançada para que fique longe das drogas. É capaz de começarem a fumar crack. Bom, aí terão direito ao Bolsa Crack: R$ 1.350,00 por mês. Multiplique isso por um número grande e pense na fortuna que minha família fará… Viva o PT!

————

Se você está indignado, clique aqui. Aliás, devia é ter clicado nos links anteriores, onde entenderia que as coisas não são bem assim como dizem no Facebook.

O Bolsa Família é apenas assistência e não sustenta uma família: se alguém largou o emprego para receber o benefício, pode ter certeza de que essa pessoa trabalhava por um salário de fome. O auxílio-reclusão existe há mais de 50 anos e é previsto na Constituição de 1988, logo, não é “coisa do Lula”; ele é pago à família do preso, mas não é proporcional ao número de filhos e sim à contribuição do detento para o INSS (ou seja, o “vagabundo” precisa ter emprego com carteira assinada), e tem o objetivo de evitar que a família passe necessidades por não mais contar com a renda do sujeito foi para a cadeia (afinal, ela não tem culpa do crime que o cara cometeu). Já o Cartão Recomeço é do governo do Estado de São Paulo (desde 1995 nas mãos do PSDB) e só pode ser usado para o dependente de crack buscar tratamento em comunidades terapêuticas privadas (o que é alvo de críticas), sem possibilidade de se receber qualquer valor em dinheiro.

Agora, se você continua indignado e pretende deixar um comentário cheio de palavrões para me xingar… Pena é o que sinto.

Abaixo a procrastinação

Talvez não consiga, nos próximos sete a nove dias, dar a devida atenção ao Cão. Mas desta vez é por um motivo mais justo do que passar muito tempo no Facebook: trata-se de um artigo para a especialização, que tenho de entregar dia 22. O trabalho está andando bem, mas será preciso revisar, colocar nas regras da ABNT… E não quero deixar tudo para a última hora.

De qualquer forma, não há motivos para reclamação quanto à “agenda cheia”. A pesquisa acadêmica é a “minha montanha”*, e estou gostando de escrever o artigo. Sem contar que, não raras vezes, meus trabalhos acadêmicos acabaram resultando em postagens no Cão.

————

* Gosto mais de montanha do que de praia, então é preciso usar a expressão correta.

1º de maio: Dia do Trabalhador, não do trabalho

Passei boa parte do dia pensando num texto para o dia de hoje, Dia do Trabalhador, mas a Cris Rodrigues e o Emir Sader (no Vi o Mundo) foram mais rápidos. Na lógica capitalista, fui um “vagabundo”: perdi tempo assistindo – e falando de – futebol… (E o Grêmio perdeu o Gre-Nal nos pênaltis, mas um dirigente colorado foi quem mais reclamou: eu morro e não vejo tudo!)

Então, vou apenas deixar registrado o meu feliz Dia do Trabalhador a todos os leitores – inclusive aos que estão sem trabalhar e têm de aguentar babacas chamando-os de “vagabundos” por conta disso. Tal rótulo já é aplicado a quem trabalha e aparentemente “não se esforça”, assim como muitas vezes aos pobres – afinal, se eles estão na pobreza desde a infância, é culpa deles, e não do sistema.

Valorizar o trabalho, e não o trabalhador, significa valorizar a opressão.

1º de maio

Tá, o dia foi ontem… Mas não custa nada lembrar, já que o camarada aqui “vagabundeou” ontem e não postou.

A propósito, o “sonho” dos que cultuam o “trabalho acima de tudo” não é exatamente o que mostra o filme “Tempos Modernos”? Homens comportando-se como máquinas, porque “a produção não pode parar”. Afinal, descansar é “coisa de vagabundo”.

O dia 1º de maio é “do trabalho” ou “do trabalhador”? Sem dúvida alguma, é do trabalhador.

Tem de ser do trabalhador. Pois foi de uma greve por redução da jornada de trabalho (ou seja, por uma vida melhor, com mais tempo livre para o descanso), iniciada em 1º de maio de 1886 na cidade de Chicago, que surgiu a comemoração.

Monstrografia

“Monografia” lembra mais uma palavra amputada do que um tipo de trabalho acadêmico. Parece faltar o “str”, que a deixam mais, digamos… Ameaçadora.

Ainda mais se tratando de uma que define os rumos do cara na vida – ou seja, meu caso. Gera angústia olhar para o editor de texto, que hoje em dia é uma autêntica representação eletrônica das folhas de papel, e ver aquela porcaria em branco. Faço as contas, e constato ter cerca de dois meses e meio para transformar aquela “folha em branco” em no mínimo 35 páginas de um texto consistente e com embasamento teórico. Parece impossível. Desanimador.

Mas aí começo a pensar nos formandos dos tempos em que computador caseiro era coisa rara – tanto que não se exigia trabalho digitado, e sim datilografado. (Aliás, incrível pensar que os nascidos de 1990 em diante tiveram pouco ou nenhum contato com LP, ficha telefônica e datilografia. Assim como dificilmente viram um telefone no qual realmente se discava – ou seja, que tinha um disco no painel, e não teclas.)

Fazer uma monografia à máquina de escrever devia uma tarefa realmente monstruosa. Considerando que é um trabalho acadêmico, certamente uma letra errada inviabilizaria uma página inteira – afinal, é muito importante para ficar cheia de borrões. E provavelmente, era preciso pensar muito bem antes de escrever: não havia “delete” nem “recorta e cola” para reorganizar o texto. Hoje, pode-se errar à vontade – desde que os erros sejam suprimidos da versão final do trabalho, é claro. Assim, fica mais fácil começar a escrever.

Mas a relativa facilidade de se escrever uma monografia de conclusão em 2009 não lhe tira o caráter de “rito de passagem”. De certa forma, todos precisamos deles, para nos sentirmos “em uma nova etapa da vida”. Provavelmente o leitor não imagine o que significou o 15 de outubro de 1997 para mim: eu completava 16 anos de idade, podia, enfim, votar! Embora a eleição fosse ocorrer somente em 1998, já tinha o título em mãos quase um ano antes, pois fui fazê-lo ainda em outubro de 1997. Mais do que ter os tão sonhados 16 anos, eu precisava do símbolo deste “poder”.

Já o trabalho de conclusão de curso é o rito de passagem acadêmico. Eu até poderia saber tudo de História (algo impossível), mas de nada adiantaria sem ter uma boa monografia. Pois não basta saber, é preciso produzir conhecimento. E isso é ótimo para o Brasil – pois quanto mais pesquisas forem desenvolvidas nas universidades, melhor – e também para mim: percebo que terei superado uma etapa na vida no momento em que a banca disser que meu trabalho está aprovado. Passarei a me ver não mais como um graduando, e sim graduado. Me sentirei realmente historiador (hoje digo que sou um “quase”).

Menos mal que a “angústia da folha em branco” já é passado. Agora, minha preocupação é não ultrapassar o número máximo de páginas permitido para o trabalho.

As diferenças entre classe média e classe mérdia

Tem sido objeto de certa “polêmica” ultimamente o uso da expressão “classe mérdia” em alguns posts. Tem gente que acha o termo ofensivo à classe média. Uma bobagem: eu sou de classe média (vou me xingar no meu próprio blog???), a maioria esmagadora dos meus amigos e conhecidos também. Não iria querer comprar briga com todo mundo, né?

Classe média não é igual a classe mérdia. O primeiro motivo, é ortográfico: um “r” que entra na parada – justamente para diferenciar.

A classe mérdia é uma parte da classe média, não toda ela. Não é rica, mas sonha em ser, em ter os mesmos bens que os “de cima”. Acredita que “trabalhando muito” chegará lá, e que quem é pobre é porque “não trabalha duro”. Não por acaso, se ouve desse tipo de gente (e eu conheço) absurdos do tipo “pobre tem que se f…”.

É formada por pessoas egoístas, consumistas, preconceituosas, e que não admitem ter tais características (quando alguém diz isso, ficam indignados com a “ofensa”). Nelas serve muito bem o chapéu após ouvir a música “Classe média” (sem o “r”, provavelmente para evitar maiores polêmicas) do Max Gonzaga. É a descrição mais perfeita da “classe mérdia” que eu conheço, o que faz eu não me estender muito nesse post:

Moral de cuecas

Uma das máximas dos defensores do status quo é “o trabalho dignifica o homem”.

Para eles, pobre é vagabundo que não aproveita as oportunidades. Não tem dignidade, não merece ser ajudado pelos que a têm.

———-

Se o que escrevi acima fosse verdade, não existiria Bolsa de Valores. Pois lá se ganha (muito) dinheiro sem trabalhar.

Porém, também se perde. É como se fosse um cassino: nem todo dia se ganha, e, para uns ganharem, outros têm que perder…

“O Corte”, de Costa-Gavras

Assisti na tarde de segunda-feira ao filme “O Corte”, de Constantin Costa-Gavras. É a história de Bruno Davert (interpretado por José Garcia), um típico pai de classe média na França, que era executivo de uma fábrica de papel mas foi demitido porque a empresa queria “cortar despesas”. Depois de passar dois anos e meio desempregado, decidiu solucionar o problema de forma drástica: eliminando – diga-se matando – seus prováveis concorrentes a uma vaga de emprego.

O filme começa com Davert fazendo uma “confissão” em um gravador, arrependido depois de ter cometido seu terceiro assassinato. Depois volta no tempo, ao ponto em que o ex-executivo toma a decisão de matar seus concorrentes. Aí Costa-Gavras pecou: poderia ter explorado mais o período em que Davert buscava emprego e fracassava nas entrevistas para mostrar melhor o drama do desemprego, que afeta também os países desenvolvidos.

Mas isto não impede que “O Corte” seja um bom filme, que sirva para fazer uma ótima reflexão sobre o mundo do trabalho na atualidade: para termos “sucesso”, devemos ser extremamente competitivos, precisamos viver para trabalhar. Era o que Davert fazia até sua demissão: o trabalho era sua vida, sem emprego ele se sentia uma pessoa “sem valor”. Personagem principal, Bruno Davert é um “anti-herói”: nos sensibilizamos com seu drama, mas ficamos chocados com o meio que ele utiliza para resolver seu problema, visto que seus concorrentes a uma vaga, “inimigos” no seu ponto de vista, são pessoas que também enfrentam o desemprego, algumas há até mais tempo do que ele.

Por fim, um diálogo que considero central no filme: quando Bruno Davert almoça com a esposa e os filhos, surge o questionamento sobre o fato dos meios utilizados serem ou não justificados pelos objetivos desejados. Logo vem uma resposta: “os fins não justificam os meios, exceto nas guerras”. Davert está em guerra, e fará qualquer coisa para conseguir um emprego.