Sobre os “bodes expiatórios” do Brasil no momento

Fazer análise histórica “no calor do momento” é algo por demais difícil. Pois lidamos com fatos dos quais ainda não sabemos o real significado, sendo necessário um certo tempo para que se tenha um melhor entendimento. Portanto, da mesma forma que nenhum jornal do dia 15 de julho de 1789 anunciava o acontecimento do dia anterior (Tomada da Bastilha) como marco inícial da Idade Contemporânea, ainda não podemos dizer com exatidão o que significou o Brasil levar 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa, para além do óbvio: foi uma humilhação. Pouco importa o adversário: uma derrota dessas é humilhante porque é 7 a 1 e “ao natural”, mesmo que contra a poderosíssima Alemanha.

Logo, mesmo que eu não seja exatamente um apaixonado pela Seleção (muitas vezes fui indiferente e nesta Copa torci, mas não com a mesma intensidade que pelo Grêmio), o que escrevo abaixo carece do necessário distanciamento histórico. Por isso prefiro me concentrar em alguns personagens que estão sendo transformados em “bodes expiatórios” por essa derrota: nenhum deles pode carregar a culpa sozinho, e há quem nada tenha a ver com o que aconteceu.

1. Fred. Não jogou absolutamente nada nessa Copa, é verdade. Mas, se pensarmos apenas no vexame de ontem, precisamos lembrar que centroavante tem de marcar gols, e não impedir que os adversários cheguem a ele. Verdade que Fred também foi inoperante em sua função, mas não podemos esquecer que nenhum jogador escala a si mesmo.

2. Luiz Felipe Scolari. Ele convocou e manteve Fred como titular incontestável, escalou (muito) mal o time contra a Alemanha, e na entrevista coletiva de ontem demonstrou que simplesmente não entendeu o que se passou no Mineirão (da mesma forma que Carlos Alberto Parreira). E o que aconteceu em 2012, no Palmeiras, ajuda a demonstrar que Felipão já não era mais o mesmo de antes: em junho ganhou a Copa do Brasil (quebrando escrita alviverde de títulos relevantes, o último fora a Libertadores de 1999), mas em setembro o treinador deixou o clube na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro (de onde o Palmeiras não mais sairia naquele ano); dois meses após a demissão, tornou-se técnico da Seleção em virtude da vitoriosa campanha de 2002, não de seus resultados em 2012. Felipão teria sido rebaixado caso não deixasse o Palmeiras, visto que não conseguia fazer o time reagir: definitivamente, isso não era um bom presságio. Mas, assim como Fred não escalou a si mesmo, Luiz Felipe não foi contratado por si mesmo.

3. José Maria Marin. Sim, transformar o detestado presidente da Confederação Brasileira de Futebol em “bode expiatório” (afinal, foi ele que contratou a atual comissão técnica e, sobretudo, é o mandatário-mor do futebol nacional) também é um erro. Marin não deveria de forma alguma ser presidente da CBF, mas é uma ilusão achar que basta ele sair para as coisas tomarem jeito. Toda a estrutura do futebol brasileiro é arcaica, amadora: “de cima a baixo”, da CBF aos clubes. Verdade que maus dirigentes não são “privilégio” brasileiro: uma possível vitória da Argentina nesta Copa não pode apagar o fato de que desde 1979 o futebol argentino tem como mandatário Julio Grondona, indicado por Carlos Alberto Lacoste (militar diretamente envolvido com a brutal ditadura que assolou nossos vizinhos). Mas não pode servir de justificativa para que as coisas continuem do mesmo jeito.

4. Torcida. Uma das queixas mais corretas, embora não completamente. Não sou fã do termo “coxinha” (muitas vezes ele é usado em um debate para “desqualificar” o oponente, o que demonstra falta de argumentos para continuar a troca de ideias: “não discuto mais pois você é um ‘coxinha'”, e saio achando que “ganhei” a discussão), mas ele é perfeito para descrever boa parte dos que foram aos jogos da Copa do Mundo: um bando de “coxinhas” cuja maior preocupação não era torcer, e sim tirar “selfies” para alimentar o ego nas redes sociais. Enquanto alguns torcedores de verdade se desesperavam no Mineirão por conta do vexame (caso de meu amigo Leonardo Sato, um dos maiores apaixonados por futebol que conheço), no mesmo estádio os “patriotas de ocasião” estavam felizes porque suas “selfies” ganhavam muitas “curtidas” no Facebook e no Instagram. É no que dá ter ingressos tão caros (e nem me refiro só à Copa do Mundo, que ofereceu certa quantidade de ingressos a R$ 60, o que pode ser considerado barato para um torneio desta magnitude): com isso, os estádios têm cada vez menos torcedores e mais “exibicionistas”.

5. Dilma Rousseff. Sim, acreditem: já tem gente passando atestado de burrice ao associar a derrota brasileira na Copa ao governo Dilma. O pessoal “esquece” (no fundo, sabem que são oportunistas de quinta categoria) que a Seleção é controlada pela CBF (uma entidade privada) e que em caso de intromissão governamental ela pode ser suspensa ou mesmo desfiliada pela FIFA (outra entidade privada). Culpar qualquer governante por uma derrota no futebol é tão estúpido quanto cobrar o técnico de qualquer time por problemas sem relação com o esporte (aliás, o que mais vejo são pessoas culpando Dilma por coisas que nada têm a ver com o governo federal, e inclusive que sequer aconteceram no Brasil, numa mostra de que não há limites para a estupidez). Aliás, também é burrice tentar associar o fracasso futebolístico ao governo acreditando em dividendos eleitorais pois, desde que se tornou “regra” as eleições presidenciais acontecerem meses após a Copa do Mundo, só em 1994 houve coincidência entre vitória da Seleção e do candidato do governo (Fernando Henrique Cardoso, que ganhou a eleição devido ao Plano Real e não por conta dos gols de Romário). Depois sempre “deu o contrário”, com a situação vencendo em anos de derrota brasileira (1998, 2006 e 2010) e com o oposicionista Lula sendo eleito poucos meses após a vitória da Seleção na Copa de 2002. O que obviamente não quer dizer que Dilma já esteja reeleita, mas sim que o povo sabe separar as coisas, ao contrário do que alguns “ilustrados” pensam.


Por fim, resta agora torcer pela Argentina. Apesar dos dirigentes (e me pergunto se alguém torceu contra seu clube alguma vez por não gostar do presidente) e do futebol apresentado (a Alemanha jogou muito mais durante a Copa, e é favorita na final), fico com minha identidade latino-americana. Ultimamente os europeus têm levado nossos jogadores embora cada vez mais jovens (muito por incompetência dos clubes em segurá-los por mais tempo) e os confrontos interclubes entre América do Sul e Europa estão a cada ano mais desiguais, então que ganhemos deles pelo menos nas disputas entre seleções.

Mas reconheço que vai ser bem difícil…

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R$ 92 mensais para ficar atrás do gol: Arena, te vejo pela TV

Sexta-feira, o Grêmio anunciou o “plano de migração” dos sócios, do Olímpico para a Arena. Os associados terão seus direitos garantidos no novo estádio, mas pagando mais caro. Os setores mais “baratos” ficarão atrás da goleira no lado norte: R$ 92 mensais no primeiro e quarto anéis.

É verdade que hoje em dia a mensalidade já está em R$ 86, mas posso ficar em qualquer ponto do anel inferior do Olímpico (para ir no anel superior, onde ficam as cadeiras, é preciso comprar ingresso ou locar cadeira). Na Arena, só atrás do gol, e se for para ficar mais perto do campo, terei de ir na Geral, onde não haverá cadeiras.

Agora, se na Arena eu quiser ficar na mesma posição que no Olímpico, o que acontecerá? Terei de desembolsar entre R$ 220 e R$ 269 todo mês. Valor absurdamente inviável. Para terem uma ideia, não paguei isso de luz nem em fevereiro passado (mês em que mais senti calor na minha vida, o que me fez ligar muitas vezes o ar condicionado).

Apesar de achar abusivos os últimos aumentos nas mensalidades, segui pagando, inclusive este ano, por saber que o Olímpico está com os dias contados. Em 2012, posso ir a todos os jogos por R$ 86 mensais: como em média são quatro partidas como mandante por mês, isto equivale a R$ 21,50 a cada jogo. Some-se a isto as despesas com deslocamento (muitas vezes vou e volto a pé ou de carona) e “com a barriga” (cerveja antes do jogo, água no estádio e vez que outra umas pipocas), e temos um gasto de aproximadamente R$ 28 por partida.

Na Arena, o valor da mensalidade mais barata (R$ 92) dividido pelo número de jogos em cada mês ficará em torno de R$ 23 (para ficar apenas atrás do gol). Não terei mais como ir a pé, assim precisarei pegar ônibus ou trem: só isso já eleva o gasto por partida a quase R$ 30 (se o apito inicial for no estúpido horário das 19h30min durante a semana, talvez seja preciso pegar táxi para chegar a tempo: lá se vão uns R$ 20 só de ida ao estádio). Somemos as “despesas com a barriga”, e gastarei bem mais que R$ 30 por jogo.

Aí penso que, se assistir ao jogo em casa ou mesmo no bar, o gasto já é bem menor. Quando vejo no bar, desembolso em torno de R$ 12 com cerveja e lanche, e acaba sendo este o meu custo com a partida. Com a vantagem de estar bem perto de casa. Ou seja: se fosse pensar somente “com o bolso”, já tinha deixado de pagar as mensalidades e passado a assistir aos jogos no bar. Como já falei, não o faço porque quero curtir o Olímpico o máximo possível em seu último ano. Mas também porque sei que a torcida faz, sim, a diferença quando o Grêmio joga em casa. O Tricolor precisa de nós, assim como nós o amamos e queremos ajudá-lo.

Agora, na Arena, será totalmente diferente – ou, para usar a palavra que está na moda, “diferenciado”. Mais do que um estádio para torcer, é para “dar lucro” – e antes fosse apenas para o Grêmio. Privilegiará aqueles que costumam mais assistir do que torcer; só ver o que acontecia no Olímpico quando o “povão” conseguia frequentá-lo: era o anel inferior (ingressos mais baratos que nas cadeiras do andar de cima) que mais “rugia”, intimidando os adversários. Tanto que quando fui pela primeira vez nas cadeiras, na hora que o árbitro não marcou um pênalti para o Grêmio comecei a gritar o tradicional “feira da fruta” e depois percebi que mais ninguém à minha volta xingava o juiz. E serão estes “quietos” os que ficarão mais perto do campo: cadê o “caldeirão”?

Assim, será não sem dor no coração, que deixarei de ir aos jogos do Grêmio assim que o Olímpico não for mais nossa casa. Passarei a fazer igual ao Natusch: assistirei ao Tricolor no bar (afinal, não deixarei de ser gremista, só não terei condições de frequentar a Arena “padrão FIFA”) e, se tiver vontade de ir a um jogo, os estádios de clubes menores – que ao menos seguirão tendo cara de estádio – serão meu destino.

Distintivo do Xavante nos órgãos públicos de Pelotas, JÁ!

Pense bem se isso não é justo.

Segundo uma imagem postada, se não me engano, pela Niara no Facebook, 80% da população de Pelotas torce pelo Brasil. Ou seja, é uma enorme proporção de xavantes na cidade.

Se a informação realmente é correta, não sei. Mas, se confirmada, é um bom argumento em favor de, por conta desta maioria esmagadora, os órgãos públicos municipais de Pelotas passarem a ter, em suas paredes, o distintivo do Xavante.

“Mas o Estado tem de ser neutro, não pode ter clube!”, dirá alguém, se achando o dono da razão. Ora, mas por que isso impede que a prefeitura de Pelotas, por exemplo, ostente o distintivo que representa a paixão de 80% da população do município?

Afinal, vários órgãos públicos têm crucifixos nas paredes mesmo que o Estado seja laico, ou seja, neutro em termos religiosos.

Todos ao Olímpico quarta!

O time está mal. O empate de ontem com o Atlético-PR não foi um bom resultado, como já andaram dizendo: ouvi o jogo pelo rádio e percebia que o Grêmio dominava. Só faltou algo: o gol da vitória. Quando a fase é ruim, parece que não tem jeito, a bola não entra mesmo.

Mas há, sim, uma maneira de sair dessa situação: com a torcida transformando o Olímpico num caldeirão. E a primeira oportunidade é nesta quarta, contra o Guarani: o jogo será cedo, às 19h30min (talvez até cedo demais, se levarmos em conta que muitos não conseguem sair do trabalho a tempo de chegarem ao estádio), mas ao menos não será no estúpido “horário da televisão” (22h); haverá promoção de ingressos (“paga um, leva dois”, como em 2003 – a única diferença é o preço, pois naquele ano cada dupla de gremistas entrava pagando apenas R$ 5); e com todo o respeito ao Guarani, não podemos negar que é um adversário bem mais fácil que o Santos de Neymar e Ganso (agora machucado, o que é uma pena para o futebol brasileiro), ou seja, é jogo para ganhar!

Como peguei um resfriado por conta da maldita umidade excessiva que se seguiu à secura do começo da semana passada, e há previsão de chuva para a quarta, já trato de ir tomando meus remédios e uns bons copos de suco de laranja (ou seja, vitamina C) para poder me somar aos milhares de gremistas que estarão no Olímpico para empurrar o Tricolor rumo à vitória!

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Como “recordar é viver”, e também para servir de motivação, não custa nada lembrar que hoje faz 15 anos que o Grêmio ganhou sua segunda Libertadores.

Torcidas deram espetáculo

Logo que o Brasil de Pelotas anunciou a contratação do goleiro Danrlei, eu decidi que de jeito nenhum deixaria de ir ao jogo do Grêmio contra o Brasil no Olímpico. A partida era para ter sido realizada em 29 de janeiro, mas devido à tragédia de duas semanas antes, o Xavante só estreou no Gauchão no início de fevereiro, e o jogo com o Grêmio foi remarcado para a noite passada.

Imaginei que o momento máximo do jogo – além dos gols que acontecessem, é claro – seria a entrada de Danrlei em campo. Mas Grêmio x Brasil-Pel teve mais.

Nos últimos jogos, a Geral resolveu fazer um protesto pelo fato da direção do Grêmio não dar mais subsídio às torcidas organizadas. Não levaram as faixas e os instrumentos musicais. Mas um grupo de torcedores discordantes das lideranças da Geral passou a se reunir no lado oposto, atrás da goleira da Carlos Barbosa.

No jogo de ontem, os dissidentes estavam presentes, com suas faixas. Era um grupo muito pequeno, mas que cantava bastante, bem mais animado do que a Geral “oficial”. Resultado: ao longo do jogo, vários torcedores deixaram o espaço da Geral (atrás da goleira da Cascatinha) e se dirigiram ao outro lado, para cantar junto com a “outra Geral”. Detalhe: este grupo – que no segundo tempo tornou-se significativo – ficou em local abaixo da torcida do Brasil, que estava no anel superior. A Brigada Militar reforçou o efetivo, mas não precisou trabalhar. As duas torcidas deram um belo espetáculo.