Ué? O Complexo do Alemão não tinha sido “pacificado”?

Charge de Carlos Latuff

Lembram de todo o “auê” midiático quando da ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas, em novembro do ano passado? Diziam que era o início de uma “era de paz” para as comunidades da região, uma das mais violentas do Rio de Janeiro.

Eis que, no último domingo, chegaram via Twitter informações sobre um confronto entre moradores e integrantes da “força de pacificação”. E desde ontem, os tiroteios entre traficantes (é, eles voltaram…) e militares ocupam bastante espaço na “grande mídia”.

Obviamente lá estão os repórteres da Globo usando coletes a prova de balas. Achei estranha tal cena: afinal, se há paz, para que usar colete a prova de balas?

E na televisão assisti também a cenas de pessoas, provavelmente moradoras da região, sendo agredidas com spray de pimenta, por motivos que não entendi muito bem. Tudo isso, claro, super “na paz”.

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Cercas não adiantam nada

Ontem à tarde, uma briga de gangues resultou em um tiroteio próximo ao chafariz do Parque da Redenção, um dos lugares mais movimentados de Porto Alegre. Não presenciei o fato porque estava no Olímpico Monumental.

Já imagino a avalanche de artigos de um colunista de um dos jornais da cidade, clamando pelo cercamento do parque. E muito bovino, claro, vai atrás…

Não percebem que uma cerca em nada deixará os frequentadores da Redenção mais seguros. A diferença é que um eventual ladrão terá de passar por um portão – mas entrará no parque mesmo assim. O mesmo se aplica para as gangues que ontem trocaram tiros: a briga foi combinada pela internet, logo eles iriam à Redenção com ou sem cerca. (A propósito, se o confronto foi marcado, será que não havia maneira de avisar a Brigada Militar com antecedência, para que aumentasse o policiamento de modo a inibir a ação das gangues? Só imagino tudo o que estariam dizendo na mídia se o governador fosse o Olívio: a culpa seria dele e do Bisol!)

Cercas também não adiantam nada porque não eliminariam a causa do problema. Enquanto jovens de bairros da periferia – como os de onde eram as gangues que se enfrentaram ontem – não tiverem educação de qualidade, continuarão com forte tendência à criminalidade. E não hesitarão em cruzar o eventual portão de um parque cercado para lá cometerem seus delitos.

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Também não adiantará nada simplesmente não ir à Redenção. Já li que há pessoas que “não levarão mais os filhos à Redenção”. Eu fui caminhar no final da tarde de hoje no parque. E não deixaria de ir se alguém me dissesse que “a rua está muito perigosa”.

Pois sim, a rua está muito perigosa. Afinal, ela está cada vez mais vazia. Quanto menos pessoas caminhando, melhor para o ladrão, que terá menos testemunhas para seu roubo. Se todo mundo ficar trancado dentro de casa ou só andar de carro, vai piorar. E muito.