O outro 11 de setembro

Há 11 anos o dia 11 de setembro virou, para muita gente, um símbolo de barbárie. Não foi sem justificativa: cerca de 3 mil pessoas perderam suas vidas nos atentados terroristas que aconteceram naquela terça-feira de 2001 nos Estados Unidos. Uma das consequências daquele trágico dia foi a “guerra ao terror” travada pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, que já matou quase um milhão de pessoas.

Porém, é sempre importante lembrar o outro 11 de setembro, que já era um símbolo de barbárie desde 1973. Há 39 anos, também uma terça-feira, um golpe militar que contou com o apoio dos Estados Unidos derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende. O general Augusto Pinochet, que fora nomeado comandante do Exército pelo próprio Allende, traiu seu comandante-em-chefe e liderou a criminosa ação militar que resultou no bombardeio do Palácio de la Moneda, sede da presidência chilena. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como derrotar os golpistas, fez um último pronunciamento pelo rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre sua morte.

Pinochet assumiu o poder à força, para governar ditatorialmente até 1990 e comandar uma repressão que foi das mais sangrentas que viu a América Latina. Milhares de pessoas foram assassinadas.

Assim como lembramos e lamentamos as vidas perdidas naquela terça-feira de 2001, é preciso também fazer o mesmo em relação às vítimas do 11 de setembro de 1973.

30 anos do atentado terrorista no Riocentro

Na mais recente campanha eleitoral, fomos bombardeado (geralmente, via e-mail) com a baixaria de que “Dilma foi terrorista”, e que por isso não deveríamos votar nela. Ora, se havia motivos para não votar nela, alguns eram os que apresentei em um texto postado em 5 de maio do ano passado (acabaria mudando o voto cinco dias antes do 1º turno). O fato dela ter combatido a ditadura militar (embora sem provas de que tenha participado de ações armadas), que motivou a alcunha de “terrorista” por parte dos reacionários, na minha opinião pesa a favor dela, e não contra.

Porém, o que os mesmos reaças teriam a dizer do acontecido na noite de 30 de abril de 1981? Naquela ocasião, enquanto acontecia no Riocentro um show de música popular para um público de 20 mil pessoas (comemorativo ao 1º de Maio), duas bombas explodiram no lado de fora: uma delas, dentro de um carro que manobrava no estacionamento do local; já a outra, mais potente, foi lançada contra a casa de força do Riocentro, mas não chegou a atingir seu alvo, e assim a explosão não resultou na escuridão que provavelmente causaria o pânico nas milhares de pessoas que assistiam ao show, o que obviamente teria consequências funestas. Dentro do automóvel Puma destruído por uma das bombas, estavam dois militares do Exército: um morreu na hora (sargento Guilherme do Rosário), o outro (capitão Wilson Machado) sobreviveu à explosão.

O atentado terrorista no Riocentro não foi um fato isolado. Desde o início do ano anterior, várias bombas já tinham explodido em várias partes do Brasil, inclusive com consequências fatais: em 27 de agosto de 1980, a explosão de uma carta-bomba na sede da OAB-RJ resultou na morte de sua secretária, Lyda Monteiro.

Por motivos óbvios, o governo (militar e ainda ditatorial, apesar da “abertura lenta, gradual e segura”) acusava “radicais de esquerda” de serem os autores dos atentados. Porém, tal hipótese era absurda, visto que a feroz repressão dos anos 60 e (principalmente) 70 acabara com os grupos armados de esquerda no Brasil. E o fato da bomba no Puma ter explodido no colo de um dos seus passageiros (que ainda por cima eram militares) não deixou dúvidas de que era a extrema-direita que, por meio do terrorismo, pretendia “fabricar” uma ameaça, de modo a “justificar” a retomada de uma repressão mais severa e, consequentemente, a continuidade da ditadura por mais tempo. O que obviamente interessava ao governo de então.

A investigação do atentado foi feita no âmbito da Justiça Militar, e o inquérito acabou arquivado em setembro de 1981. A reabertura do caso, em 1999, foi breve: três meses depois, o processo foi novamente arquivado; apesar de alguns envolvidos terem sido indiciados, nenhum deles cumpriu pena. Em 30 de abril de 2001 (ou seja, há dez anos), o crime prescreveu.

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Agora voltemos ao começo do texto, e à questão do uso do termo “terrorista”. Acusavam (erradamente) Dilma de ter participado de ações armadas contra a ditadura, considerando isso como “terrorismo”, mesmo que os alvos fossem específicos (ou seja, gente ligada ao regime, de modo a conseguir a libertação de presos políticos).

Pode-se até questionar o método dos militantes de esquerda em sua luta contra a ditadura (afinal, houve inocentes que acabaram morrendo). Mas não é possível falar sério deixando de considerar o contexto histórico: mesmo que se consiga realmente provar que as guerrilhas pretendiam instalar “uma ditadura comunista” no Brasil, não foi contra um regime democrático que elas pegaram em armas, e sim contra o terrorismo de Estado que imperava desde 1964.

Bem diferente dos que tramaram os diversos atentados acontecidos em 1980 e 1981 em várias partes do país. Estes, eram contra a democracia – que, aliás, ainda nem tinha sido restaurada, mas só tal possibilidade já era suficiente para deixá-los em polvorosa. E aquelas bombas não tinham alvos específicos: o objetivo era assustar a população. Ou seja, terrorismo.

¿Quién soy yo?

Vale a pena assistir a este documentário de Estela Bravo. Ele trata sobre uma questão terrível que ainda não foi totalmente resolvida: as crianças que tiveram suas identidades roubadas pela repressão durante a ditadura militar de 1976-1983 na Argentina.

Eram filhos de militantes de esquerda que foram presos, torturados e mortos ou desaparecidos, e foram entregues a famílias de agentes da repressão; ou adotados por casais que não podiam ter filhos e não sabiam que tinham a guarda de crianças cujos pais biológicos haviam sido assassinados pela ditadura (caso em que mesmo depois de tomarem conhecimento, se mantém o afeto entre pais e filhos adotivos, por não ter se tratado de uma mentira).

Muitos jovens tiveram suas identidades recuperadas graças à luta das Abuelas de Plaza de Mayo, mas ainda restam vários outros perdidos pela Argentina, que não sabem quem realmente são.

Se alguém que assistir a este documentário continuar a chamar de “terroristas” os que lutaram contra as ditaduras sem no mínimo (eu disse no mínimo) estender a mesma designação aos regimes que eles combatiam (ou seja, o terrorismo de Estado, o pior que existe), na minha opinião, só pode se tratar de alguém que tem um coração de merda.