Para a humanidade ser menos arrogante

Em 10 de abril de 1912, o Titanic partiu para sua viagem inaugural. Maior transatlântico construído até então, era considerado “inafundável”.

Menos de cinco dias depois, um iceberg afundou o navio “inafundável” e matou 1.514 pessoas. Era um sinal de que, por mais que a humanidade “progrida”, a natureza sempre está um passo à frente.

Ainda assim, acreditamos que podemos “domar” a natureza. A única maneira dela nos lembrar que não temos tal capacidade é mandando sinais que muitas vezes são destrutivos, como tempestades, terremotos… E também corpos celestes como o meteorito que caiu sexta-feira em Cheliabinsk, na Rússia, e feriu mais de mil pessoas.

O mais interessante foi a coincidência: no mesmo dia da queda do meteorito, um asteroide três vezes maior passou a apenas 28 mil quilômetros da superfície terrestre – para se ter uma ideia, a distância que separa o planeta da Lua é de 384 mil quilômetros. Caso ele se chocasse com a Terra, provocaria uma grande devastação, muito maior do que os danos registrados na Rússia.

A queda do meteorito na última sexta-feira foi o maior acontecimento do tipo desde o Evento de Tunguska, em 1908, quando um corpo celeste (não se sabe se foi um meteorito, um asteroide ou um pedaço de um cometa) caiu na Sibéria e devastou uma enorme área. E demonstra o quão vulneráveis somos: mesmo que seja possível calcular a trajetória de asteroides, ainda não sabemos o que fazer caso um deles entre em rota de colisão com a Terra. Sem contar os corpos menores como o meteorito de sexta, que geralmente são desconhecidos, chegam ao planeta “sem avisar” e ainda causam estragos.

Ou seja: nos achamos os donos do mundo, mas somos apenas uma espécie a mais, e que a natureza pode muito bem eliminar. Talvez acabemos do mesmo jeito que os dinossauros, basta que o asteroide chegue antes de nós mesmos transformarmos a Terra num lugar inabitável.

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O perigo da energia nuclear

No momento, as atenções do mundo se voltam para usinas nucleares no Japão, principalmente para a de Fukushima, devido ao temor de um desastre semelhante ao de Chernobyl, que em 1986 contaminou e tornou inabitável por vários séculos vastas áreas das então repúblicas soviéticas da Ucrânia (onde fica a desativada usina), Bielorrúsia (para onde se dirigiu a maior parte da radiação resultante do desastre) e Rússia. Ano passado, incêndios florestais atingiram áreas próximas à “zona de exclusão”, despertando o temor de liberação das partículas radioativas, o que por sorte, não aconteceu (pelo menos, não que eu saiba).

O acidente de Chernobyl e todas as suas consequências foram atribuídos tanto às falhas no sistema de segurança dos reatores, quanto ao esforço da União Soviética em esconder o acontecimento: as autoridades soviéticas só admitiram o desastre quando a radiação chegou a outros países, e a evacuação da cidade de Pripyat (construída em 1970 para abrigar os trabalhadores da usina) só se deu mais de 24 horas após a explosão do reator nº 4 de Chernobyl. Assim, chegou a se dizer que o perigo maior não era a energia nuclear, e sim a falta de cuidado.

Porém, agora há um bom motivo para se pôr em xeque a opção pela energia nuclear para produzir eletricidade. Pois ficou provado que não basta apenas um controle adequado: o Japão é um país onde a eficiência e a disciplina são muito valorizadas, mas isso não pode deter uma tsunami, ainda mais provocada por um terremoto de magnitude 9 (o quarto mais forte já registrado).

Afinal, a natureza pode ser mais forte do que o melhor sistema de segurança. Ainda mais em um país onde há certa frequência de terremotos.

O mito do “país abençoado por Deus”

Ora, a essência de uma nação consiste em que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido muitas coisas.¹

Os países, em geral, têm mitos que ajudam a forjar suas identidades. Não por acaso, são vistos como “dogmas nacionais”: as populações de tais países vêem tais mitos como valores muito importantes para si. Contestar alguns deles pode ser uma ofensa muito grande.

No Brasil, temos dois grandes mitos. O maior de todos é quanto ao futebol. É fato: experimenta dizer a “heresia” de que não temos o melhor futebol do mundo, ou pior ainda, que o verdadeiro “país do futebol” não é o Brasil (já li um artigo que defende a tese de que a Alemanha é tão “país do futebol” quanto o Brasil, tamanha é a paixão dos alemães pelo esporte). É, meu amigo, serás simplesmente massacrado por midiotas que repetem feito papagaios tudo o que certo locutor esportivo costuma dizer (no Twitter mandavam ele “calar a boca” só para fazerem farra). Se disseres que a Argentina é melhor que o Brasil ou que ela é o “país do futebol”, então…

Considerando que o futebol, gostem ou não, é o terreno onde melhor se expressa a “identidade nacional” brasileira, é compreensível tais reações. Porém, algo difícil de compreender é que se continue com o mito de que o Brasil é um “país abençoado por Deus”. Tem até música sobre isso:

Moro num país tropical, abençoado por Deus
E bonito por natureza, mas que beleza²

Tenho certeza de que moradores de rua em várias partes do Brasil andaram com vontade de ter uma conversinha com Jorge Ben Jor, autor da letra, perguntando onde fica o tal país tropical, já que o frio polar chegou até a Amazônia. Tudo bem que lá a queda da temperatura foi rápida, mas em Porto Alegre o frio é praticamente contínuo há duas semanas, com breves intervalos de calor (pouco mais de 20°C).

Agora, quanto ao “abençoado por Deus”, serve apenas para que se diga que o Brasil tem muitos problemas mas, em compensação, “não tem terremoto, tornado, furacão etc.”, males que afetam países mais desenvolvidos como Estados Unidos e Japão.

Nada mais ilusório do que isso. Pois se não temos terremotos arrasadores como os países citados, não raras vezes a terra treme em nosso país. Em dezembro de 2007, uma criança morreu quando a casa em que morava desabou devido a um tremor em Minas Gerais. Tudo bem que foi um terremoto fraco (se não me engano nem chegou a 5 graus na escala Richter), e que a casa provavelmente caiu por ser frágil, mas será que não é hora de parar com a história de que “aqui não tem terremoto”?

Outra ilusão é quanto aos furacões, como nos mostrou de forma trágica o Catarina em março de 2004. Há quem o credite às mudanças climáticas, já que foi o primeiro furacão documentado no Atlântico Sul. Se já houve outro no passado, só uma ampla pesquisa poderá nos dizer (afinal, se já aconteceu em outra oportunidade, é possível terem dito que foi um “temporalzão”, com base no mito de que “aqui não tem furacão”). E em março deste ano, uma nova tempestade tropical – que recebeu o nome de Anita – se formou próximo às costas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (tal qual o Catarina). Logo, é bom que as cidades litorâneas estejam preparadas para a ocorrência de furacões, ao invés de se continuar com a crença no mito. Até porque eles não provocam só vento, como também muita chuva – que já causou várias tragédias no Brasil, como as recentes enxurradas em Alagoas e Pernambuco.

E quanto aos tornados, nada mais furado do que acreditar que eles não acontecem por aqui. O centro-sul da América do Sul (ou seja, Paraguai, Uruguai, norte da Argentina e sul do Brasil) é a segunda região mais propícia à ocorrência de tornados no planeta. Ou seja, o que aconteceu em Canela na última quarta-feira não foi “fato isolado”, e seria bom que se tivesse no Brasil um sistema de alerta como nos Estados Unidos.

Mas para tudo isso se torne realidade, será preciso convencer a população do país de que não somos “abençoados por Deus” e que aqui tem tornado, furacão e até alguns terremotos, sem contar as enchentes e mesmo as secas, para que não haja absurdas reclamações de que “isso é caro e desnecessário” (e os “elefantes brancos” para a Copa e a Olimpíada, são o quê?): perguntem a quem perdeu pessoas queridas em tais eventos se não acham que as vidas valem muito mais. Sem contar que, mesmo se não houvesse nada disso, ainda assim o Brasil não seria “abençoado por Deus”, já que a fé em Deus (que eu não tenho) não é exclusividade brasileira: os argentinos teístas certamente acham que a Argentina é “abençoada por Deus”, e que seu “país temperado” é “bonito por natureza”.

Agora, se ainda quiserem continuar com a crença nesse mito… Quando vierem para Porto Alegre em fevereiro, não esqueçam do casacão, do gorro e do cachecol, afinal, aqui faz muito frio o ano inteiro – ainda mais durante a noite.

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¹ Original, em francês: “Or l’essence d’une nation est que tous les individus aient beaucoup de choses en commun, et aussi que tous aient oublié des choses”. Ver: RENAN, Ernest. Qu’est-ce qu’une nation? In: Oeuvres completes, 1, p. 892 apud ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 32.

² “País tropical”, letra de Jorge Ben Jor.

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Haiti: pobreza e deflorestamento

Meu pai ouviu pela internet uma rádio da República Dominicana, vizinha do Haiti. Dentre os comentários acerca do terremoto, falava-se no agravamento dos efeitos gerado pela “capa de terra”.

O Haiti exporta carvão, mas não o tem na forma mineral. Ou seja, o produz a partir de árvores derrubadas. O resultado disso é que o Haiti é um país quase sem florestas. Inclusive, observando-se imagens de satélite da ilha de Hispaniola – onde ficam o Haiti (à oeste) e a República Dominicana (à leste) – no Google Earth, não é difícil distinguir os dois países, mesmo sem marcar a opção “mostrar fronteiras”.

Inclusive, enquanto almoçávamos, o meu pai comentou que uma vez se gastou milhões de dólares num projeto de reflorestamento no Haiti. As árvores mal cresceram e começaram a serem derrubadas para virarem carvão.

Resultado disso (somado à pobreza extrema enfrentada por boa parte da população haitiana – que é também fruto desta exploração predatória do carvão vegetal, já que a terra está secando por falta de vegetação, e por isso mesmo tornando-se estéril): quaisquer fenômenos naturais com um pouco mais de força, no Haiti tornam-se tragédias. Como todos sabem, encostas “nuas”, mesmo que não muito íngremes, deslizam com muito mais facilidade do que aquelas com cobertura vegetal, quando ocorrem chuvas torrenciais (como as causadas pelos furacões que assolam o Caribe) ou terremotos.

Resumo das notícias da semana


(charge do Kayser)

Por falar em padre voador, tem um post sensacional lá no Cataclisma 14 com uma série de considerações a respeito do caso.

Só faltou o tal terremoto em São Paulo: o Valter, do Moldura Digital, mora lá e não viu nem sentiu nada. Mas a mídia…