Adoramos ler mas não temos tempo… Será?

Sensacional a matéria de Alan Bisset no The Guardian, e que o Milton Ribeiro traduziu para o Sul 21. Começa com o autor falando sobre sua decisão de reler Guerra e Paz, de León Tolstói, e pegá-lo na estante, com o marcador na página 55. Depois, notou que havia outros livros com marcadores, sinais de várias leituras iniciadas e não acabadas.

Na sequência, Bisset fala na grande quantidade de opções que temos hoje em dia para distração. Incrivelmente posso citar minha própria experiência: durante a maior parte da década de 1990 não tinha computador em casa, então me distraía basicamente lendo e escrevendo (na máquina de escrever). Tinha a televisão também, mas à medida que o tempo passava eu tinha menos saco de ficar parado na frente dela.

Hoje, temos a internet, que é um extraordinário meio de comunicação (e é graças a ela que o leitor chega a este texto e à matéria que indiquei). Podemos não só receber informação, como também difundi-la, sendo ativos e não só passivos como defronte à televisão. Também nos oferece a possibilidade de escolher o que queremos ver, enquanto a TV nos empurra aquilo “goela abaixo”. Porém, ainda não aprendemos bem a fazer isso: somos sufocados por um monte de informações nem um pouco relevantes (e não necessariamente em páginas de fofoca: o próprio Facebook colabora muito com isso), e assim levamos mais tempo para realmente ficarmos sabendo do que é importante.

E o pior de tudo é que depois reclamamos da falta de tempo para ler. Quando na verdade ele nunca nos faltou: apenas o desperdiçamos com outras coisas.

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Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

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Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.

Sobre o horário eleitoral gratuito

Todo ano par, é sempre a mesma história. Porque ano par tem eleição. E antes dela, um mês e meio de horário eleitoral gratuito, que gera muitas e muitas reclamações do “cidadão médio” brasileiro. Afinal, a propaganda política “atrasa” tudo no rádio e na televisão. Principalmente a novela (o que é um motivo a mais para simpatizar com o “horário político”).

Porém, eu gosto de assistir o horário eleitoral (e dou umas boas risadas com os candidatos bizarros, ao mesmo tempo que temo a eleição de algum deles). Acho interessante ver a maneira como os candidatos se expressam na televisão, mesmo que isso não necessariamente aumente suas chances de receberem meu voto – ainda mais em tempos de internet, quando podemos saber muito mais informações sobre o candidato através de sua página. (Até porque dificilmente tenho maiores dúvidas: desde que votei pela primeira vez, em 1998, a ideologia sempre pesou bastante – principalmente nas eleições proporcionais. Ou seja, não voto em pessoas, mas sim, em ideias. Se a pessoa muda de ideia e eu não, pode esquecer meu apoio.)

Assim, obviamente, assisti ao horário eleitoral hoje à noite, para conferir alguns candidatos a vereador (e dar umas risadas). E o que mais me chamou a atenção, além das bizarrices, foi a artificialidade. É impressionante o quanto se repetem algumas palavras, como “atitude”, “mudança” e “renovação”. Sem contar o clássico “chega de promessas” – expressão que geralmente é seguida por uma… Promessa! Tudo isso não é outra coisa senão “encheção de linguiça”, para disfarçar a completa falta do que dizer da qual sofrem muitos candidatos.

No próximo horário eleitoral (em especial no dos candidatos a vereador), procurarei contar quantas vezes se repetirão algumas palavras “clássicas” como as citadas no parágrafo anterior. Acho que vai ser uma experiência divertida.

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Em tempo: não embarco na canoa furada do “são todos iguais” ou “político nenhum presta”. Basta saber separar o joio do trigo, que se encontrará muita gente que merece nosso voto. E escolher com base na ideologia, como eu faço, facilita bastante.

Não tem jeito

Charge do Kayser (2007). Se o Corinthians ganhar a Libertadores, a TV ganha junto...

Semana passada consegui torcer pelo Corinthians (quis ser “do contra” só por ser). Mas hoje, no jogo decisivo, não vai dar.

Não entro nessas de que “o Boca é o Brasil na final da Libertadores”. E nem na visão “global”, que dá tal papel ao Corinthians – afinal, sua torcida é uma das mais apaixonadas do país, mas não corresponde a nem metade dos brasileiros.

Aliás, essa ideia de que “o Corinthians é o Brasil” nem vale só para a Libertadores. Na decisão da Copa do Brasil de 2008, por exemplo, eu tinha a impressão de que Pernambuco era outro país, tamanha a “empolgação” com que os gols do Sport foram narrados.

Não quero nem imaginar o que será assistir televisão (coisa que já faço raramente) caso o Corinthians vença. Quando o Timão foi rebaixado em 2007, lembro que chegaram a transmitir ao vivo um treino do time antes da partida decisiva contra o Grêmio (que acabou empatada em 1 a 1). Agora, já tivemos programas especiais sobre o clube, antes mesmo da bola rolar (esquecem que o Boca adora oba-oba de adversário).

Pelo visto acham que a maioria dos brasileiros é formada por torcedores do Flamengo ou do Corinthians. Os dois clubes têm as duas maiores torcidas, é verdade, mas há um enorme contingente de brasileiros que não torce para nenhum dos dois: as cinco maiores torcidas não correspondem nem à metade da população do Brasil. (E repare que a maioria dos corintianos mora no estado de São Paulo.)

Viver bastante vale a pena, seja por muito ou pouco tempo

O título parece uma frase sem sentido, mas não é. Viver bastante, não é a mesma coisa que viver por muito tempo.

Na última segunda-feira, 5 de março, minha avó Luciana completou 90 anos de idade. Mais que isso: 90 anos de vida. Pois ela nunca aceitou aquele papel que costuma ser designado aos idosos, o de apenas existirem. Faz comida (com especial preocupação voltada ao almoço de sábado, que é quando meu irmão e eu costumamos visitá-la), toma cerveja, lava louça, roupa, e até pouco tempo atrás, ia sozinha ao supermercado e ao banco – só não tem mais ido porque já levou dois tombos graças às “maravilhosas” calçadas de Porto Alegre, o que é muito perigoso para quem tem osteoporose.

A verdade é que existir não é igual a viver. Conheço idosos que são “úteis”, não no sentido de “trabalhar para fazer o sistema funcionar” (como pregam os defensores do status quo), e sim, de procurarem fazer alguma diferença, e assim serem importantes para as pessoas que conhecem – e muitas vezes, até para quem não conhecem.

Ao mesmo tempo conheço gente com menos idade que a minha avó, mas que só existe para se alimentar e assistirem televisão – e falo da programação de domingo da TV aberta; antes fossem os documentários do National Geographic ou do Discovery. Sinceramente, não consigo me imaginar vivendo assim: só de tentar, já me vem à cabeça a palavra “depressão”.

Não sei se viverei por tanto tempo, igual à minha avó (que deve ir ainda mais longe). Mas se eu chegar aos 90, quero que seja igual a ela: podendo fazer a maior parte das coisas que gosto. Mas, caso eu tenha muitas limitações, espero que não me impeçam de ler bastante.

Algo que dificilmente veremos no Brasil

Em 1988, a TV pública da Espanha (TVE) promoveu uma campanha chamada Aprenda a ver televisão, para mostrar que ficar o dia inteiro grudado na telinha não é lá muito bom… Não acredita? Então é só assistir ao vídeo abaixo.

Alguém acredita que um dia veremos algo assim na Globo? Nem é preciso responder… Pois o objetivo da Globo (assim como da Record, Bandeirantes, SBT etc.) é o lucro – afinal, trata-se de uma empresa privada. Uma campanha dessas só é possível numa TV pública. Caso da TVE na Espanha, assim como da BBC no Reino Unido – emissoras que são, inclusive, referência internacional.

Já no Brasil, infelizmente, as principais emissoras continuam a ser as privadas. Fica difícil que se possa ver na televisão uma campanha recomendando que ela seja desligada.

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Como este blog não tem como objetivo o lucro (mesmo porque nunca ganhei sequer um centavo com isso), recomendo que não se fique o tempo todo na frente do computador – eu, agora vou para a frente da televisão (!!!), assistir à final da Copa do Brasil.

Copa 2014 e Rio 2016: os nossos “Banheiros do Papa”?

Em agosto passado – mais precisamente, durante a final da Libertadores – assisti ao filme uruguaio “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa), de César Charlone e Enrique Fernández. De meu programa alternativo ao futebol nasceu uma resenha, publicada no Pipoca Comentada.

O filme é baseado em fatos reais. Em maio de 1988, João Paulo II visitou o Uruguai, e a cidade de Melo, próxima à fronteira com o Brasil, estava no roteiro.

O anúncio de que o Papa passaria por Melo gerou enorme expectativa em seus moradores, que viram no acontecimento a oportunidade de ganharem bastante dinheiro com a venda de lanches aos muitos milhares de fiéis de outros lugares (principalmente do Brasil) que, segundo a televisão, iriam à cidade ver o pontífice. O personagem principal, Beto (César Troncoso), decidiu construir um banheiro e cobrar pelo uso: como tanta gente iria comer tanto, também precisaria “se aliviar” em algum lugar, né?

Assistir a esse filme faz pensar muito nos próximos “eventos grandiosos” que acontecerão no Brasil: a Copa do Mundo de 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016 (embora sejam só no Rio de Janeiro, todos os brasileiros irão pagar). Muitos veem tais eventos como “a grande oportunidade”, e a televisão apenas estimula ainda mais o ufanismo. Aqui em Porto Alegre, pela Copa se justifica qualquer barbaridade.

Só que em Melo, o dia 8 de maio de 1988 virou símbolo de ruína econômica, já que a passagem do Papa não atraiu os muitos milhares de visitantes que a televisão dizia que iriam à cidade e assim a maior parte dos “comes e bebes” não foi vendida, restando apenas dívidas para quem havia apostado tudo no acontecimento. Assim como muitos gregos não devem gostar de lembrar dos Jogos Olímpicos de 2004, realizados em Atenas: dentre os motivos para a quebra da Grécia estão os gastos excessivos com instalações esportivas que, após o apagamento da pira olímpica, viraram “elefantes brancos”. Falta saber como será o final da história para o Brasil.

Que chegue logo o outono!

No momento que escrevo, milhões estão grudados na televisão para assistirem à maior idiotice da TV brasileira – tanto que é um dos motivos pelos quais odeio o verão.

Uma pergunta muito pertinente: qual a percentagem de fanáticos que sabe o motivo do programa ter o nome que tem? Triste ironia: o negócio é inspirado em um personagem de um livro (o “Grande Irmão”, de 1984, clássico de George Orwell), mas seu objetivo ao confinar pessoas numa casa não é que elas discutam literatura (ou o crescente vigilantismo dos dias atuais).

Aliás, mais um motivo para ter nojo da Globo: na Argentina, eles assistem ao Gran Hermano – ou seja, tradução ao espanhol do original em inglês. Já a “vênus platinada”, como defensora do Brasil que é (né, Galvão Bueno?), prefere que falemos Big Brother

A única coisa boa nessa bosta é que, quando terminar, já estaremos no outono. Que chegue logo!

Começa o horário eleitoral gratuito

Óbvio que aquele pessoal que enche a boca para dizer que odeia política já está reclamando. Afinal, o horário eleitoral gratuito significa que o Jornal Nacional termina mais cedo e a novela, começa mais tarde.

Já eu gosto, sim, de assistir ao “horário político”. Mais, é um dos raros programas que me fazem assistir alguma coisa nos canais abertos de televisão.

Não acho que será através da propaganda política no rádio e na TV que eu escolherei em quem votar. É mais fácil conhecer as ideias, as propostas de cada candidato, por meio de sua página de internet, já que ali a exposição na tela não é restrita a segundos. E se o cara já exerceu algum cargo político, bom, aí fica até mais fácil decidir sobre votar ou não nele: só ver o que ele fez – ou deixou de fazer.

Mas o horário eleitoral gratuito é, sim, uma forma das pessoas “gravarem” certos nomes. Só uma pena que haja alguns candidatos que só o fato de estarem concorrendo já represente uma bizarrice: esses aí acabam chamando muito a atenção. Ao mesmo tempo que é engraçado, também é dose.