Você sabe que está ficando velho quando…

  • Repara que parcela considerável de suas amizades casou e/ou inclusive “já deu cria”;
  • Lê matérias sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim ou das eleições de 1989 e percebe que lembra daquela época;
  • Seu atlas do colégio tinha União Soviética, Iugoslávia, Tchecoslováquia, duas Alemanhas, Goiás com o dobro do tamanho atual e Roraima e Amapá como territórios;
  • Olha a capa da Veja na banca e pensa “putz, antigamente dava para levá-la a sério”.
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30 anos sem Garrincha

Garrincha

Algum de seus muitos irmãos batizou-o de Garrincha, que é o nome de um passarinho inútil e feio. Quando começou a jogar futebol, os médicos o desenganaram: diagnosticaram que aquele anormal nunca chegaria a ser um esportista. Era um pobre resto de fome e de poliomielite, burro e manco, com um cérebro infantil, uma coluna vertebral em S e as duas pernas tortas para o mesmo lado.

Nunca houve um ponta direita como ele. No Mundial de 58, foi o melhor em sua posição. No Mundial de 62, o melhor jogador do campeonato. Mas ao longo de seus anos nos campos, Garrincha foi além: ele foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol.

Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa. Garrincha não deixava que lhe tomassem a bola, menino defendendo sua mascote, e a bola e ele faziam diabruras que matavam as pessoas de riso: ele saltava sobre ela, ela pulava sobre ele, ela se escondia, ele escapava, ela o expulsava, ela o perseguia. No caminho, os adversários trombavam entre si, enredavam nas próprias pernas, mareavam, caíam sentados.

Garrincha exercia suas picardias de malandro na lateral do campo, no lado direito, longe do centro: criado nos subúrbios, jogava nos subúrbios. Jogava para um time chamado Botafogo, e esse era ele: o Botafogo que incendiava os estádios, louco por cachaça e por tudo que ardesse, o que fugia das concentrações, pulando pela janela, porque dos terrenos baldios longínquos o chamava alguma bola que pedia para ser jogada, alguma música que exigia ser dançada, alguma mulher que queria ser beijada.

Um vencedor? Um perdedor com boa sorte. E a boa sorte não dura. Bem dizem no Brasil que se merda tivesse valor, os pobres nasceriam sem cu.

Garrincha morreu sua morte: pobre, bêbado e sozinho.

(Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 118-119.)

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Suécia, junho de 1958. Após estrear na Copa do Mundo com vitória de 3 a 0 sobre a Áustria, o Brasil ficou no 0 a 0 contra a Inglaterra. Na última rodada, teria pela frente a União Soviética: apesar de estreante em Copas, tinha Lev Yashin no gol (um dos maiores goleiros de todos os tempos), vinha badalada pela medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956) e, dizia-se, jogava um “futebol científico”. Se o Brasil perdesse para a URSS e a Inglaterra vencesse a Áustria, estaria eliminado.

A má atuação contra a Inglaterra, somada ao risco de eliminação em caso de derrota, motivou o técnico Vicente Feola a mexer no time para o jogo contra a URSS: saíram Joel, Mazzola e Dino Sani para a entrada de Garrincha, Pelé e Zito. (Por muitos anos se disse que os jogadores teriam procurado o técnico e sugerido as mudanças, fato negado por Zito.)

Na preleção, Feola mostrava como o time deveria se postar para vencer o “futebol científico” dos soviéticos. Foi quando Garrincha manifestou sua curiosidade: “já combinaram com os russos?” – sim, pelo que o técnico dizia seria muito fácil, parecia estar combinado com o adversário… Uma amostra do temperamento um tanto ingênuo que caracterizava o “anjo das pernas tortas”. (Diz-se que quando chegou ao Botafogo para fazer um teste, ninguém acreditava que poderia jogar futebol, até ele dar um drible desconcertante em Nílton Santos, melhor jogador do time – após o lance, o próprio Nílton teria dito “contratem ele agora”.)

Porém, Mané Garrincha não precisava combinar com ninguém. Como “cartão de visitas”, entortou os soviéticos e meteu uma bola na trave de Yashin logo no começo do jogo. Com dois gols de Vavá, o Brasil venceu por 2 a 0 e arrancou para a conquista de sua primeira Copa do Mundo.

Com Pelé e Garrincha jogando juntos, “derrota” foi uma palavra inexistente no dicionário da Seleção Brasileira. Tanto que em 1966 o Brasil caiu na primeira fase da Copa da Inglaterra após uma preparação muito bagunçada, mas na estreia venceu a Bulgária por 2 a 0 – justamente a última partida em que Pelé e Garrincha jogaram juntos. Nos jogos seguintes, duas derrotas por 3 a 1 para Hungria (única vez que a Seleção perdeu com Garrincha) e Portugal eliminaram o Brasil do Mundial.

No Mundial do Chile, em 1962, Pelé se machucou no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia. Mau sinal para o Brasil? Não, pois Garrincha estava com tudo. A Copa de 1962 foi sua. Na semifinal contra os donos da casa, motivou o jornal chileno El Mercurio a perguntar de que planeta teria vindo aquele gênio com duas pernas tortas para o mesmo lado.

Caçado pelos chilenos, acabou expulso ao revidar um pontapé, mas foi liberado pela FIFA para jogar a final contra a Tchecoslováquia (diz-se que a liberação se deveu ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa). Nada que manche tudo o que Mané fez naquele Mundial – até porque, com febre de quase 40°C, Garrincha não jogou contra os tchecos o mesmo futebol que já tinha mostrado antes.

Porém, a lenta decadência começou pouco tempo depois da Copa de 1962. Aos hábitos de fugir das concentrações e beber demais (tolerados porque ele barbarizava em campo), somou-se um problema nos joelhos, cuja recuperação não evoluía justamente porque Garrincha não se cuidava. Acabou dispensado pelo Botafogo no final de 1965, foi para o Corinthians e, depois, teve passagens rápidas por vários clubes, sem jogar o mesmo futebol que o consagrara.

Garrincha acabou vitimado por uma cirrose hepática em 20 de janeiro de 1983, fruto de seu excessivo consumo de álcool.

Final monárquica

Domingo, o seleto clube das seleções campeãs mundiais ganhará um novo integrante. Mas a decisão entre Holanda e Espanha também tem outro fato curioso a ser destacado: ambos os países são Estados monárquicos.

A última monarquia campeã mundial foi a Inglaterra, em 1966. E a última (e única, até agora) vez em que duas monarquias decidiram a Copa do Mundo foi em 1938: o título ficou com a Itália (campeã também em 1934), que tinha Benito Mussolini como seu primeiro-ministro, mas o Chefe de Estado era o rei Vítor Emanuel III, que reinou até 9 de maio de 1946, pouco antes da proclamação da República Italiana; já o vice-campeonato ficou com a Hungria, também monárquica na época, embora o Chefe de Estado não fosse propriamente um rei, e sim um regente eleito, Miklós Horthy, que colaborou com o nazismo e “reinou” até 1944, quando abdicou defendendo um armistício com a União Soviética.

A Hungria de 1938 não foi a única monarquia vice-campeã mundial. Também “bateram na trave” a Suécia em 1958, e a própria Holanda, em 1974 e 1978.

Como se vê, a maioria esmagadora das Copas teve como campeãs e também vices seleções representantes de países republicanos. Alguns, apenas nominalmente: duas vezes, países sob ditaduras militares ganharam a taça – o Brasil em 1970, e a Argentina em 1978 (jogando em casa).

Já os países “socialistas” (acho mais adequado o termo “burocráticos de partido único”) chegaram duas vezes ao vice-campeonato: a fantástica Hungria de Ferenc Puskás em 1954, e a Tchecoslováquia em 1962 (inclusive, se diz que a liberação de Garrincha para jogar a final mesmo tendo sido expulso na semifinal contra o Chile se deveria ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa).

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Outra curiosidade desta “final monárquica” é que ela também é a segunda consecutiva entre seleções europeias, o que não acontecia desde 1934 (Itália x Tchecoslováquia) e 1938 (Itália x Hungria).

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.