Há 30 anos

libertadores83

Na noite daquela quinta-feira, 28 de julho de 1983, eu era um bebê (e bem gordo), com 1 ano, 9 meses e 13 dias de idade. Mas já era campeão da Libertadores.

Em 30 de agosto de 1995, aos 13 anos, 10 meses e 16 dias, comemorei outra Libertadores. Enquanto isso, gente de idade parecida com a minha só teve essa indescritível sensação depois de adulta…

É muito bom saber que, há 30 anos, sou campeão da Libertadores.

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Minha proposta de calendário para o futebol brasileiro (e sul-americano)

O texto de domingo rendeu vários comentários acerca do calendário do futebol brasileiro. Destaco a proposta feita pelo André Egg em seu blog, bastante interessante – embora eu defenda algo um pouco diferente. Mas é a partir dela que escrevo.

Por mim, teríamos algo semelhante ao que defende o André em relação ao número de participantes dos campeonatos estaduais. Mas diferente quanto à duração: o modelo que considero ideal é o dos “superestaduais”, adotado em 2002, ano em que os torneios regionais (Copa Sul-Minas, Torneio Rio-São Paulo, Campeonato do Nordeste etc.) ocuparam o lugar dos campeonatos estaduais no primeiro semestre. Como “não se podia acabar com a tradição”, os estaduais foram mantidos, mas de curtíssima duração. O “Supergauchão”, por exemplo, começou em 18 de maio, e no dia 2 de junho o Inter levantou a taça.

Estes torneios estaduais poderiam ser realizados em fevereiro. Os clubes das Séries A, B e C do Brasileirão teriam participação garantida (em 2002, eram os participantes dos regionais). Os demais, disputariam as vagas que restassem até completar um número entre oito e doze equipes, ao longo do ano anterior ao torneio. As “eliminatórias” seriam divididas por regiões, de modo a que clubes de todas as partes dos Estados pudessem jogar os “superestaduais”. Citando um exemplo, o Rio Grande não precisaria ser promovido para enfrentar a dupla Gre-Nal, visto que as divisões estaduais seriam extintas (talvez só fosse necessário mantê-las em São Paulo, onde se disputa até pelo menos a quinta divisão).

Nesse torneio curto, os clubes das capitais jogariam apenas no interior (exceto, é claro, quando se enfrentassem). Assim, se daria mais chance aos times pequenos, assim como “se agradaria aos torcedores do interior”.

Quanto ao Brasileirão, eu não reduziria o número de participantes nas Séries A e B a 16, como propôs o André. Manteria em 20, mas com jogos apenas aos finais de semana – reservando as terças, quartas e quintas para Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil. O Campeonato Brasileiro de 2011, desta forma, poderia ter começado em 19 de março, se estendendo até 4 de dezembro – ou seja, no próximo fim-de-semana se disputaria a décima rodada, e não a primeira. Isso sem nenhuma “folga” que poderia ser dada devido a convocações da Seleção (se bem que a maioria dos convocados joga na Europa, então…), mas ainda assim há bastante espaço para o Brasileirão.

A Série C atualmente conta com 20 clubes, mas o regulamento é diferente: o campeonato é disputado com fases de grupos e, na sequência, “mata-matas”. Eu acharia legal adotar a mesma fórmula das séries A e B: pontos corridos, turno e returno. Não sei se seria viável. Mas ao menos se manteria os participantes jogando o ano inteiro, como acontece nas séries A e B.

Na Série D, eu mexeria só na definição dos participantes: além dos quatro rebaixados da Série C, também seria disputada por clubes bem classificados nas “eliminatórias” para os “superestaduais” (que seriam jogados apenas pela tradição).

Quanto ao acesso e descenso, manteria como está: quatro caem, quatro sobem. Fossem apenas dois, poderia inviabilizar a disputa em pontos corridos das séries B e C, visto que no meio do campeonato um clube poderia já não ter mais chance de subir, mas também estaria livre do rebaixamento, e assim teria de se manter jogando sem motivação, o que facilitaria tentativas de suborno (não adianta pensarmos bonito, em “eles vão jogar pela honra”, se não estiverem disputando mais nada).

Mudaria a definição das vagas brasileiras à Libertadores. Atualmente, elas ficam com os quatro melhores do Campeonato Brasileiro, mais o campeão da Copa do Brasil (que seria disputada ao longo de toda a temporada, e não só em um semestre). Pela minha proposta, os cinco melhores do Brasileirão iriam para a Libertadores, e o campeão da Copa do Brasil asseguraria vaga na Copa Sul-Americana – vale lembrar que na Europa, nenhuma das copas nacionais classifica para a Liga dos Campeões. E algo bacana seria a volta da Supercopa do Brasil, entre o campeão brasileiro e da Copa do Brasil: na única edição, realizada em 1990, o Grêmio (campeão da Copa do Brasil de 1989) foi campeão diante do Vasco (campeão brasileiro de 1989).

Conforme avisei no título, as mudanças não devem acontecer apenas no Brasil. Deveriam mudar também a Taça Libertadores e a Copa Sul-Americana: assim como acontece com a Liga dos Campeões e a Liga Europa, os dois principais torneios de clubes da Conmebol deveriam ser realizados simultaneamente, e ao longo de toda a temporada. Poderiam começar em fevereiro, e serem decididos em novembro. E em janeiro do ano seguinte, se disputaria a Recopa Sul-Americana, entre os campeões dos dois torneios.

A Copa Sul-Americana deixaria de classificar para a Libertadores (ou seja, o “G-5” do Brasileirão seria sempre “G-5”). Afinal, com os jogos dela menos concentrados em uma época (atualmente, é disputada de agosto a dezembro), não iria “atrapalhar”, a ponto de precisar ter vaga à Libertadores para motivar os clubes a valorizá-la. Diferente do que acontece hoje, quando quem está bem no Brasileirão despreza a Sul-Americana, que acaba sendo prioridade dos times sem chances no campeonato nacional: foi assim com Inter (campeão de 2008), Fluminense (vice de 2009) e Goiás (vice de 2010, depois de ser rebaixado no Brasileirão).

Outra ideia para valorizar a Sul-Americana seria diminuir o número de clubes brasileiros e argentinos que a disputam. Ao invés de oito (que se enfrentam numa tosca “fase nacional”), iriam apenas quatro, direto para a disputa com os estrangeiros. Deixaria, assim, de acontecer a bizarrice de um clube escapar do rebaixamento na última rodada e acabar na Sul-Americana do ano seguinte.

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Claro, pensei nas datas levando em conta o atual calendário usado pelo futebol brasileiro, em que a temporada começa e termina no mesmo ano. Mas há as propostas para que se adote o chamado “calendário europeu”: assim, basta trocar janeiro por julho, março por setembro, dezembro por junho, e por aí vai…

Associação Nacional dos Torcedores

Talvez seja a melhor novidade do futebol brasileiro nos últimos anos. Uma associação com o objetivo de lutar pelos direitos dos torcedores de clubes de futebol no Brasil, e discutir criticamente a organização da Copa do Mundo de 2014, com suas inevitáveis consequências para todos.

A Associação Nacional de Torcedores foi fundada a partir das iniciativas de Christopher Gaffney (professor visitante da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF e autor de “Temples of the Earthbound Gods”, em que trata sobre os estádios de futebol como santuários) e Marcos Alvito (professor do Departamento de História da UFF), preocupados com as mudanças acontecidas no futebol brasileiro nos últimos anos.

A Associação define sua missão em sete pontos:

Criar uma organização sem fins lucrativos para lutar contra:

  1. A exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol, fruto de uma política deliberada de diminuição da capacidade dos estádios, extinção de setores populares dos estádios e aumento abusivo dos ingressos
  2. O desrespeito à cultura torcedora com a extinção de áreas populares como a geral, onde há uma tradição própria de participação no espetáculo que inclui assistir ao jogo de pé (o que acontece na Alemanha)
  3. A falta de transparência no futebol brasileiro, há décadas nas mãos de dirigentes incompetentes e corruptos; exigimos a democratização das decisões acerca do futebol brasileiro com a participação dos torcedores; por exemplo: as sucessivas e milionárias reformas do Maracanã, feitas sem nenhuma consulta aos torcedores
  4. A exploração politiqueira do futebol visando eleger candidatos que aproveitam-se da sua popularidade para conseguirem mandatos contra o povo
  5. O controle das tabelas e horários dos campeonatos na mão da rede de televisão que há décadas detém o lucrativo monopólio das transmissões televisivas de jogos de futebol; horário máximo de 20h para o início das partidas durante a semana e 17h aos domingos
  6. A retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas
  7. A falta de meios de transporte dignos durante os dias de jogos; exigimos esquemas especiais em dias de jogos

Uma sugestão a mais, é também lutar contra o grande apelo midiático (não só na televisão, como também em jogos de videogame) que se vê em favor de clubes europeus, para evitar que possa acontecer no Brasil o que já se vê em vários países asiáticos: os jovens, ao invés de torcerem pelos clubes de seus países, optam por times da Europa. Antes que alguém ache que é bobagem, lembremos que em vários Estados os clubes locais não têm torcida significativa, devido à maior visibilidade de Flamengo e Corinthians. Tendência que se fortalece com a elitização dos estádios, que força a maioria dos torcedores a só verem futebol profissional pela televisão.

Por aqui, embora a gurizada ainda torça por nossas equipes, é crescente o número de crianças vestindo camisas de clubes europeus, inclusive de menos tradição que boa parte dos nossos grandes: ninguém me convence que o Chelsea – clube que até ser comprado pelo bilionário russo Roman Abramovich só tinha sido campeão inglês uma vez, em 1955 – possa ser maior que o Grêmio (ou, para um exemplo menos passional, que o Cruzeiro). Porém, no videogame se pode jogar com o Chelsea; Grêmio, Cruzeiro e outros grandes do futebol brasileiro, só se o jogo for pirata.

Menos mal que no próximo Pro Evolution Soccer ao menos se poderá disputar a Libertadores, fazendo a “geração PlayStation” perceber que o nosso futebol também é bacana.

Mais sobre pontos corridos x “mata-mata”

Mais dois ótimos textos a respeito da tentativa da Rede Globo de impor suas vontades sobre o futebol brasileiro:

  • O primeiro é do Hélio Paz, que relembra inclusive um post escrito por ele mesmo em outubro de 2007 sobre a fórmula e lembra que a credibilidade de um campeonato depende fundamentalmente da sua regularidade – e é o que vem acontecendo com os Campeonato Brasileiro, desde 2006 com o mesmo regulamento: pontos corridos, 20 clubes e rebaixamento de quatro equipes. Número de vagas à Libertadores é algo que não depende somente da CBF, embora também não tenha sofrido alterações desde então;
  • O segundo, que foi citado pelo Hélio também, é do Bruno Coelho, no Grêmio 1903, que considera o retorno do “mata-mata” como um retrocesso para o futebol brasileiro (e de fato, é), e também detona alguns mitos contra os pontos corridos, como a tal “falta de emoção”.

Os dois apresentam bons argumentos a favor dos pontos corridos. Já em favor do mata-mata, o que existe? Só os interesses comerciais da Globo, que deseja conquistar a esmagadora maioria da audiência brasileira em uma tarde de domingo, transmitindo a “grande final”.

Espero que a CBF, que merece muitas críticas, desta vez faça por merecer um elogio e não se curve à Globo. Inclusive na questão dos horários dos jogos: o presidente Ricardo Teixeira deseja que no Brasileirão 2010 os jogos no meio de semana comecem às 20h, e não mais às 21h ou 21h45min – o último é o horário da transmissão da Globo, depois da novela, reservado aos jogos “mais imporantes”.

Jogos às 20h são muito melhor para o torcedor, já que terminariam por volta das 22h (exceto se fossem eliminatórios, onde haveria a possibilidade de prorrogação ou pênaltis), horário em que ainda há uma boa disponibilidade de linhas de ônibus. Para se ter uma ideia, em jogos da Libertadores que fui gastei uma nota em táxi porque a partida terminou à meia-noite e perdi o último T5, que só conseguiria pegar se saísse rápido do estádio e ainda teria de contar com a sorte para não pegar atrolhado – tanto que pego o ônibus algumas paradas antes para que esteja vazio.

Tomara que se dê um passo para diminuir a influência da televisão no futebol, que decide onde, quando e como se joga. É hora de deter a “telecracia”, nas felizes palavras de Eduardo Galeano em seu ótimo livro “Futebol ao sol e à sombra” (L&PM, 2002, p. 195):

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo o que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão européia. O arqueiro alemão, Harald Schumacher, contou o que acontecia:

– Suo. Tenho a garganta seca. A grama está como a merda seca: dura, estranha, hostil. O sol cai a pique sobre o estádio e explode sobre nossas cabeças. Não projetamos sombras. Dizem que isto é bom para a televisão.

Ranking de pontos da Libertadores

A Conmebol divulgou a tabela histórica atualizada da Taça Libertadores da América, em que são somados todos os pontos conquistados por todos os clubes que dela participaram – semelhante ao ranking de pontos do Campeonato Brasileiro. O River Plate, da Argentina, é o líder, com 495 pontos, quatro a mais que o uruguaio Peñarol.

O São Paulo (melhor brasileiro no ranking) aparece apenas em 12º lugar, com 231 pontos – atrás de clubes como o Bolívar (Bolívia), que nunca chegou sequer à decisão mas disputou 25 edições da Libertadores, enquanto o São Paulo participou 13 vezes.

O segundo melhor brasileiro é o Palmeiras, 15º colocado com 225 pontos, e o terceiro é o Grêmio, 18º com 184. Já o “mais internacional dos clubes brasileiros” é o sétimo melhor do Brasil na história da Libertadores: ocupa a 36ª posição, com 111 pontos.