Allende: foi suicídio, não assassinato

Cartum de Carlos Latuff em homenagem a Salvador Allende (2007)

Todas as vezes que lembrei o golpe militar no Chile, disse que não havia a confirmação de como o presidente Salvador Allende tinha morrido: se fora suicídio ou assassinato. Pois (só) hoje descobri que desde o ano passado já há a confirmação: Allende realmente se suicidou. Aliás, a própria família dele já dizia isso, só faltava a perícia comprovar.

Tinha pensado apenas em pôr uma “atualização” reparando o meu texto de ontem (e mesmo o do ano passado e anteriores), mas optei por um novo post e uma espécie de mea culpa. Até para poder escrever mais do que em uma simples “atualização”.

Afinal, se a família de Allende dizia que ele cometeu suicídio, por que insistia tanto em questionar tal informação? Obviamente não era por falta de prova científica, e sim, por conta da ideia de que o suicídio é uma “fuga”. Assim, na dúvida, preferia acreditar na versão de que ele tinha sido assassinado.

Dizer que o presidente chileno se suicidou ao invés de ter sido assassinado parecia dar a impressão de que ele “se acovardou” diante do golpe, “não lutou até a morte”. Porém, basta lembrar tudo o que aconteceu para perceber que, se tem algo que Salvador Allende não fez em 11 de setembro de 1973, foi “fugir”.

Mesmo com o Palácio de la Moneda sob bombardeio, Allende lá permaneceu. Os militares exigiram a renúncia do presidente, o que talvez permitisse que ele saísse vivo do palácio; ainda assim, Allende recusou. Preferiu não capitular.

E, àquela altura, sabendo que não havia mais possibilidades de derrotar os golpistas, fica claro que a única maneira de Salvador Allende não se entregar seria cometendo suicídio. Pois esperar que os militares invadissem o palácio para matá-lo ou levá-lo preso seria exatamente uma rendição.

A importância do futebol

Um vazio assombroso: a história oficial ignora o futebol. Os textos de história contemporânea não o mencionam, nem de passagem, em países onde o futebol foi e continua sendo um símbolo primordial de identidade coletiva. Jogo, logo sou: o estilo de jogar é uma maneira de ser, que revela o perfil próprio de cada comunidade e reafirma seu direito à diferença. (Eduardo Galeano, Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 243-244.)

As imagens da tentativa de suicídio de um vascaíno após o rebaixamento do time do coração são chocantes. Por sorte, a tragédia maior foi impedida. Porém, as palavras do torcedor – “a minha vida não faz mais sentido” – mostram o quão importante é o futebol na vida de muitas pessoas.

Assim como há gente que morre (ou mata) “pela pátria”, muitos são capazes de matar ou morrer por um time de futebol. Para essas pessoas, o clube talvez seja uma das únicas fontes de alegria. A compensação, no fim-de-semana, de uma vida sofrida de segunda a sexta. A glória ou a desgraça não são apenas do time, afetam cada torcedor, cada um à sua maneira.

Certa vez li que, após o Maracanazo de 1950, morreram dois torcedores. Um brasileiro se jogou da marquise do Maracanã, e um uruguaio enfartou em Montevidéu após ouvir pelo rádio o segundo gol do Uruguai.

Definitivamente, futebol é algo muito mais importante do que parece para muitos intelectuais que insistem em ignorá-lo como fenômeno de massas, ainda mais no Brasil.