A grande palhaçada do Brasileirão

Está complicado o futebol brasileiro ultimamente… Nem falo da Seleção (para a qual não dou a mínima), e sim, do Campeonato Brasileiro.

Dizer que o Fluminense está sendo beneficiado é complicado. Seria preciso ter provas de que os seguidos erros de arbitragem têm por objetivo facilitar o caminho do Flu rumo a mais um título – que, convenhamos, o clube carioca conquistaria de qualquer forma, por ser indiscutivelmente o melhor time do Brasil.

O problema é que agora, não querem nem que se insinue isso. Já foi o que vimos em um jogo do Náutico nos Aflitos, no qual o árbitro Leandro Vuaden só apitou o início da partida depois que a polícia retirou uma faixa de protesto que dizia “Não vão nos derrubar no apito” (referência ao absurdo pênalti não marcado a favor do clube pernambucano no jogo contra o Fluminense, no Rio). E por conta da torcida do Atlético-MG ter formado um mosaico nas cores do Flu e com a inscrição “CBF” de cabeça para baixo no jogo contra o mesmo clube carioca, o Galo foi denunciado no STJD.

Assim o leitor deve estar pensando: “bom, então é óbvio que o Flu está sendo ajudado”. Bom, de fato está, mas não exatamente por um “apito amigo”, e sim, por um “apito ruim”. Pois a arbitragem no Brasileirão é calamitosa. Como bem provou o acontecido no jogo do Inter contra o Palmeiras, sábado passado: o árbitro Francisco Carlos Nascimento inicialmente validou o gol que Barcos claramente marcou com a mão, para depois voltar atrás, alertado pelo quarto árbitro (e os bandeirinhas e os juízes de linha de fundo servem para quê?); pior, não deu cartão amarelo para o argentino.

Logo surgiu a polêmica de que o quarto árbitro teria visto o lance pela televisão – o que a regra proíbe. Ora, é impossível provar que ele sofreu ou não influências externas. Mas, o que aconteceu? O STJD decidiu deixar sub judice os pontos da partida, que poderá ser jogada novamente.

Alguém pode alegar, então, que o Palmeiras é beneficiado, e os adversários dele na briga contra o rebaixamento são prejudicados. De fato, isso está acontecendo. Mas é o futebol brasileiro como um todo que perde. E muito.

Perigoso precedente

O zagueiro Bolívar, do Inter, recebeu uma punição inédita por parte do STJD. Após entrada criminosa que rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo do lateral-esquerdo Dodô, do Bahia, o colorado ficará suspenso por no mínimo quatro jogos. Além destes, também estará proibido de jogar pelo mesmo período em que Dodô não puder entrar em campo devido à lesão.

Aparentemente, é uma punição exemplar. Porém, abre um perigoso precedente: agora, qualquer jogador que se machucar em uma dividida poderá provocar punição do mesmo tipo ao adversário, mesmo que ele não seja o culpado pela lesão.

Suponhamos que um atleta tenha problema no ombro, que inclusive já seja de conhecimento do departamento médico de seu clube. Aí um dia, num lance “ombro a ombro” (que pode até ser faltoso, mas é das jogadas mais normais no futebol), ele desloca a clavícula. O adversário é culpado? Não, pois o lesionado poderia se machucar em outro lance, talvez até mesmo sozinho. Sem contar que teríamos de partir do pressuposto de que o “agressor” sabia do problema do jogador adversário, e assim a “jogada de corpo” teria tido a intenção de machucar seu oponente.

Obviamente a minha hipótese não se aplica a Bolívar: sua entrada foi maldosa, merecedora de uma punição severa. Seis meses, um ano talvez, um longo tempo afastado dos gramados (até se levando em conta o período estimado para a recuperação de Dodô). E poderiam ser incluídos na pena os custos do tratamento.

Mas, que seja por um tempo definido. Pois caso Dodô machuque sozinho o mesmo joelho no futuro, como definir se a culpa ainda é de Bolívar? Aliás, mesmo caso do hipotético jogador com problema no ombro: se logo após voltar a jogar ele novamente deslocar a clavícula, a tendência será culpar o “responsável” por sua primeira lesão (mesmo que talvez nem na primeira ele seja culpado!).

Grêmio elege novo presidente no sábado

Sábado, como todos os gremistas já devem saber, o Tricolor elege novo presidente. Pela segunda vez em sua história, a escolha se dará de forma direta, com votação dos sócios.

Respondendo ao comentário de ontem do Jorge Vieira: também vou de Duda Kroeff (chapa 1). Não tanto por ele, mas sim pelos apoios do vice de futebol André Krieger (que decidiu manter Celso Roth contrariando a imensa maioria dos gremistas, inclusive este blogueiro, e agora o Grêmio luta pelo título nacional contra seu maior adversário, o STJD) e Renato Moreira. A outra chapa, que tem Antônio Vicente Martins como candidato a presidente, tem apoio do presidente Paulo “Arena” Odone.

Aliás, um outro comentário do Jorge, mas no blog de futebol do Hélio Paz, me lembrou: Martins participou da gestão de José Alberto Guerreiro (1999-2002) nos departamentos jurídico (1999) e de futebol (2000). No futebol, 2000 foi um desastre: o Grêmio assinou a maldita parceria com a ISL, que deixou o clube ainda mais endividado do que já estava. Montou um “supertime” que foi eliminado da Copa do Brasil de maneira humilhante (4 a 1 para a Portuguesa em pleno Olímpico), perdeu o Campeonato Gaúcho para o Caxias e conseguiu chegar às semifinais da Copa João Havelange mas caiu diante do São Caetano, em casa.

Não foi bem o que eu queria, mas valeu!

Eu queria vitória colombiana, mas foi 0 a 0. De qualquer jeito, foi melhor do que uma vitória do time da CBF.

Valeu, Colômbia!

E dá-lhe Grêmio! Vamos passar por cima do STJD!

Quero um “presente de colombiano”

Acaba de sair o resultado absurdo do que chamam “julgamento” de Léo, Réver e Morales no STJD (ou STID*?). Afinal, se pressupõe que um julgamento deva ser justo.

Nunca vi jogador algum receber oito jogos de punição com base em imagens de TV (o que aconteceu com Morales). Isso me faz lembrar uma citação que fiz da obra “Sobre a Televisão” de Pierre Bourdieu (1997, p. 12), em que o autor comenta o trabalho de análise de uma fotografia de Joseph Kraft feito pelo cineasta Jean-Luc Godard:

E eu teria podido retomar por minha conta o programa proposto pelo cineasta: “Este trabalho consistia em começar a se interrogar politicamente [eu diria sociologicamente] sobre as imagens e os sons, e sobre suas relações. Era não dizer mais: ‘É uma imagem justa’, mas: ‘É justo uma imagem’; não dizer mais: ‘É um oficial do exército dos federais sobre um cavalo’, mas: ‘É uma imagem de um cavalo e de um oficial’.”

Já que o STJD me deu um péssimo presente de aniversário, espero receber, em compensação, um presente colombiano: vitória da seleção da Colômbia sobre o time da CBF. Há cerca de um mês, escrevi aqui que não consigo torcer pela seleção que se diz ser do Brasil, por não me identificar com aquele time formado por atletas que jogam longe do país.

Agora, vou torcer contra de raiva mesmo. E conclamo todos os gremistas a cantarem antes do jogo, como forma de protesto, a seguinte música que os jogadores da Colômbia também cantarão.

HIMNO NACIONAL DE LA REPÚBLICA DE COLOMBIA
Letra: Rafael Núñez
Música: Oreste Síndici

Coro:
¡Oh gloria inmarcesible!
¡Oh júbilo inmortal!
¡En surcos de dolores
el bien germina ya!

I
¡Cesó la horrible noche! La libertad sublime
derrama las auroras de su invencible luz.
La humanidad entera, que entre cadenas gime,
comprende las palabras del que murió en la cruz.

II
“¡Independencia!” grita el mundo americano;
se baña en sangre de héroes la tierra de Colón.
Pero este gran principio: “El rey no es soberano”,
resuena, y los que sufren bendicen su pasión.

III
Del Orinoco el cauce se colma de despojos;
de sangre y llanto un río se mira allí correr.
En Bárbula no saben las almas ni los ojos,
si admiración o espanto sentir o padecer.

IV
A orillas del Caribe hambriento un pueblo lucha,
horrores prefiriendo a pérfida salud.
¡Oh, sí! De Cartagena la abnegación es mucha,
y escombros de la muerte desprecia su virtud.

V
De Boyacá en los campos el genio de la gloria
con cada espiga un héroe invicto coronó.
Soldados sin coraza ganaron la victoria;
su varonil aliento de escudo les sirvió.

VI
Bolivar cruza el Ande que riega dos océanos;
espadas cual centellas fulguran en Junín.
Centauros indomables descienden a los Llanos,
y empieza a presentirse de la epopeya el fin.

VII
La trompa victoriosa en Ayacucho truena;
y en cada triunfo crece su formidable son.
En su expansivo empuje la libertad se estrena,
del cielo americano formando un pabellón.

VIII
La Virgen sus cabellos arranca en agonía
y de su amor viuda los cuelga del ciprés.
Lamenta su esperanza que cubre loza fría,
pero glorioso orgullo circunda su alba tez.

IX
La patria así se forma, termópilas brotando;
constelación de cíclopes su noche iluminó.
La flor estremecida, mortal el viento hallando,
debajo los laureles seguridad buscó.

X
Mas no es completa gloria vencer en la batalla,
que al brazo que combate lo anima la verdad.
La independencia sola al gran clamor no acalla;
si el sol alumbra a todos, justicia es libertad.

XI
Del hombre los derechos Nariño predicando,
el alma de la lucha profético enseñó.
Ricaurte en San Mateo en átomos volando,
“Deber antes que vida”, con llamas escribió.

E serão muito bem-vindos os colorados que quiserem se juntar ao coro. Como bom gremista, quero que o Inter se exploda, mas que isso se dê de maneira justa, não de forma vergonhosa como em 2005 e como pode vir a acontecer com o Grêmio em 2008.

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* STID = Superior Tribunal de Injustiça Desportiva