Maturidade?

Alguns dias atrás, fiz breve comentário no Facebook sobre não ter mais o mesmo apreço por certas companhias. Não especifiquei pessoas, pois penso que os alvos da crítica não são elas, mas sim suas atitudes. Tanto que, como disse, não tinha mais o mesmo apreço – o que quer dizer que antes tais companhias me eram mais agradáveis.

Com os 32 anos batendo à porta, brinquei sobre “ser coisa da idade” (embora obviamente não esteja tão velho assim, apesar de lembrar coisas acontecidas um quarto de século atrás). Mudamos com o tempo e pode, de fato, ser “coisa da idade”. Mas relativo apenas à minha pessoa, visto que dentre companhias agradáveis para passar horas conversando há pessoas tanto da minha faixa etária, como mais novas e mais velhas.

A verdade é que conversas sobre banalidades, bobagens, me cansam quando duram muito tempo. E tem gente que só fala disso. Consequentemente, são pessoas que também cansam.

É claro que, de vez em quando, é preciso descontrair, falar de amenidades. Mas não sempre – e acredito que eu não seja o único que pensa dessa forma. Gosto de falar de política, cultura, sociedade etc. Assuntos que muitas vezes geram discórdia, é verdade. E aí reside o problema: como discutir sobre isso com quem só repete o senso comum?

O senso comum, inclusive, diz que “amadurecer” é aceitar o status quo. Discordo totalmente. Aliás, nem sei exatamente como definir “maturidade”, talvez seja algo variável de pessoa para pessoa. De repente, preferir minha própria companhia (ou a dos livros) a conversas com a mesma profundidade de um pires seja, de fato, um sinal de amadurecimento.

E então, não acho mais tão ruim esse negócio de estar “ficando velho”.

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Mídia conservadora desinforma sobre o #15O

Amanhã é o dia da grande mobilização mundial convocada pelos jovens indignados espanhóis. Em várias cidades – inclusive Porto Alegre – a juventude irá ocupar as praças para exigir a democracia real, não esta falsificada que temos aí.

As manifestações terão como alvo os poderes financeiro, político (que é subjugado pelo primeiro), militar e midiático. Este último é uma das explicações para a mentira descarada que foi publicada em jornais de Porto Alegre ontem. Segundo a mídia conservadora guasca, amanhã Porto Alegre terá uma “marcha contra a corrupção” convocada pela OAB, e não uma manifestação que é parte de uma mobilização mundial. Detalhe: seguindo exatamente o mesmo roteiro previsto para a marcha do #15O.

Obviamente a corrupção nos causa indignação. Só que o #15O e as “marchas contra a corrupção” são movimentos absolutamente distintos.

O #15O questiona o modelo político e econômico vigente, defende um mundo com mais solidariedade em lugar de tanto individualismo e consumismo. E obviamente, é crítico à corrupção: basta lembrar que quem se corrompe o faz objetivando vantagens ilícitas sobre os outros. Em um mundo mais solidário e menos individualista, as pessoas passarão a pensar mais nas outras e não só em si mesmas: não é óbvio que com isso, a tendência é de que a corrupção diminua (ou até mesmo acabe)?

Já as tais “marchas contra a corrupção” não questionam o status quo. São manifestações apenas moralistas e de caráter conservador, ainda mais quando se percebe quem está por trás: tem um tal de grupo “Acorda Brasil” (lembram daquelas malditas correntes?) apoiando, além da “juventude maçom”.

A companhia de gente desse “naipe”, eu não quero de jeito nenhum.

Pelo direito de sonhar

Belas palavras do grande Eduardo Galeano (que sábado completou 71 anos de idade, mas mantém-se jovem de coração). A cada dia, me convenço mais de que realista não é quem se enquadra ao status quo e passa a defendê-lo com unhas e dentes, mas sim quem não abre mão do direito de sonhar.

Sejamos “malas” (de preferência, “sem alça”)

Hoje pela manhã, li o excelente artigo de Victor Necchi, “Eu tenho turma”, publicado no RS Urgente. A origem do texto é a coluna de David Coimbra na Zero Hora de sexta, de título “contrário” – ou seja, “Eu não tenho turma”. (No site do jornal a leitura só é permitida aos assinantes, achei o nauseabundo texto aqui.)

Não é de turma de amigos que David Coimbra fala. Ele dispara contra todos os grupos que lutam por alguma coisa, desde os de esquerda até mesmo aos reacionários. Para ele, “é tudo mala”. Na certa, o mundo ideal para o colunista do jornal é um no qual não haja discordâncias, debates: todos devem pensar igual.

Ora, eu discordo totalmente do que defendem os evangélicos ou os reaças “à Bolsonaro”, mas pior seria se, por conta disso, eles fossem proibidos de falar. Como eu disse no texto de segunda-feira, se ofendem alguém, é preciso que haja a possibilidade de punição por isso (afinal, eles são responsáveis pelo que dizem), mas sempre depois de falarem, nunca antes (o que configuraria a verdadeira censura). Se todos pensassem que nem eu, nunca haveria a possibilidade de eu mudar de ideia em relação a qualquer assunto. Convenhamos, um mundo sem os “chatos” que discordam seria muito… Chato.

David Coimbra diz que pode até mesmo ser um tremendo mala, mas que não tenta cooptar os outros para sua “malice”. Então, pergunto: por que raios de motivos ele escreve? Pois toda vez que nos comunicamos, queremos que as pessoas saibam o que temos a dizer. E geralmente o objetivo é convencer quem pensa diferente a mudar de ideia (leia-se “pensar de forma semelhante a nós”). Ela pode ser convencida – ou não. E o texto do colunista da ZH não me convenceu.

Ou melhor, realmente me convenceu. Mas de forma contrária ao que ele defende. Ele quer um mundo “bovino”, em que as pessoas ajam como se estivessem numa manada, só se preocupem em se enquadrar no sistema que ele defende. Eu não quero. Se isso é ser “mala”, então eu sou “mala sem alça”, com orgulho.

E somos “malas” todos os que criticamos o status quo, justamente por que não deixamos os conformistas em paz. Eles acham um saco que alguém os questione. Então, que continuemos assim, sendo “malas”. E de preferência, “sem alça”, para que incomodemos ainda mais.

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No texto, David Coimbra também diz não ter ideologia. Nada pode ser mais ideológico: com essa, ele optou pela defesa do que está aí.