Guerra Fria em campo

Neste domingo, completaram-se 40 anos de uma partida histórica. Em Hamburgo, duas seleções alemãs entraram em campo na noite de 22 de junho de 1974 para um jogo de Copa do Mundo. Os únicos “estrangeiros” dentro de campo eram os integrantes do trio de arbitragem: a partida foi apitada pelo uruguaio Ramon Barreto Ruiz, com o brasileiro Armando Marques e o argentino Luis Pestarino como auxiliares.

O jogo reunia as seleções das Alemanhas Ocidental e Oriental, que jamais tinham se enfrentado até então. E tal confronto aconteceu pela primeira (e única) vez justamente em uma Copa do Mundo. Mas todos os 22 jogadores que iniciaram a partida serem alemães não queria dizer que era um confronto “entre iguais”, e isso não tem a ver com o fato de serem dois países rivais por motivos ideológicos. Enquanto a anfitriã capitalista Alemanha Ocidental já tinha uma seleção respeitadíssima (ganhara a Copa de 1954 batendo a fantástica Hungria de Puskas, e dificilmente não ficava entre as semifinalistas dos Mundiais que disputava), a socialista Alemanha Oriental disputava apenas a sua primeira Copa (e que acabaria sendo a única). A lógica, portanto, pesava a favor do oeste.

As duas seleções já estavam classificadas, e o que restava em disputa era a liderança do grupo 1 da primeira fase – que ficaria com os ocidentais caso o jogo acabasse empatado. E assim parecia que ia acontecer: mais da metade do segundo tempo já tinha se passado e o placar permanecia fechado. Mas aos 32 minutos, o meio-campista Jürgen Sparwasser tratou de abri-lo, fazendo 1 a 0 para a Alemanha… Oriental.

E assim acabou o jogo: com uma inesperada vitória do leste sobre o oeste. Após o apito final não houve a tradicional troca de camisetas entre os jogadores, tamanha era a tensão (obviamente por motivos políticos) em torno da partida.

Reza a lenda que a Alemanha Ocidental teria facilitado as coisas para a Oriental (fato nunca comprovado e altamente improvável, visto que até os 32 do segundo tempo o placar permanecia em 0 a 0). Mas não pelos jogadores ocidentais simpatizarem com o comunismo, e sim para terem um caminho mais fácil na segunda fase – que naquela Copa era disputada em grupos, não em confrontos eliminatórios – e, em especial, para escaparem do Brasil – mesmo que a Seleção não estivesse jogando grande coisa.

Com o primeiro lugar no grupo 1, coube à Alemanha Oriental enfrentar não só os brasileiros, como também a Holanda (sensação da Copa) e a Argentina no grupo A da segunda fase; enquanto a Ocidental ficou no grupo B com Iugoslávia, Suécia e Polônia. Os orientais foram eliminados (mas acabaram à frente da Argentina), já os ocidentais ficaram em primeiro lugar no grupo, foram à final contra a Holanda e acabaram campeões com uma vitória por 2 a 1, de virada.

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40 anos de um tenebroso 11 de setembro

Numa manhã de terça-feira, uma barbárie chocou o mundo e causou milhares de mortes tanto naquele dia como nos vários anos subsequentes. Foi em Santiago do Chile, em 11 de setembro de 1973 – há exatos 40 anos, portanto. O violento golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet dava fim ao governo de Salvador Allende e à tentativa de construir o socialismo de maneira distinta em relação a outros países: pela via eleitoral.

Os limites da “via chilena para o socialismo” já ficaram claros na própria eleição presidencial de 1970, quando Salvador Allende foi o mais votado, mas sem o apoio de mais da metade do eleitorado: obteve 36,6% dos votos, contra 34,9% do conservador (e ex-presidente) Jorge Alessandri. A decisão ficou nas mãos do Congresso, que elegeu Allende em 24 de outubro: o novo presidente tomou posse no dia 4 de novembro com o desafio de promover a transição ao socialismo sem contar com maioria parlamentar.

O plano de governo da Unidade Popular (coligação de partidos de esquerda pela qual Allende foi eleito) combinava políticas econômicas de caráter socialista (como a estatização de áreas estratégicas da economia) com outras que visavam à redistribuição da riqueza de forma a reativar a economia do país. Algumas das medidas tiveram grande apoio parlamentar, como a nacionalização do cobre; porém, não agradavam aos Estados Unidos, visto que empresas estadunidenses que exploravam o minério no Chile tornaram-se devedoras de grandes cifras ao Estado chileno (em 1975, já sob a ditadura de Pinochet, o governo “indenizou” uma das mineradoras).

Colocar os interesses nacionais acima daqueles defendidos pelos Estados Unidos fez com que não tardasse para o Chile começar a ser “sufucado” pela via econômica: o governo estadunidense, chefiado por Richard Nixon, “investiu” milhões de dólares para desestabilizar o país, promovendo desde greves patronais (“locautes”), até financiamento de grupos terroristas de extrema-direita (como o Pátria y Libertad) que contribuíram sobremaneira para o aumento da violência política no país. Porém, nas eleições legislativas de março de 1973, a UP aumentou sua base parlamentar (embora ainda fosse minoritária), impedindo que a oposição obtivesse dois terços das cadeiras e assim pudesse dar andamento a um processo de impeachment contra Allende, faltando três anos para o término de seu mandato. Assim, podemos dizer que ambos os lados perderam: o governo não tinha maioria para aprovar seus projetos, e a oposição não tinha como derrubar Allende.

As Forças Armadas chilenas tinham certa tradição constitucionalista, porém, em 29 de junho houve uma primeira tentativa de golpe militar, o chamado Tancazo. O levante fracassou, mas ficou claro que não se podia descartar a derrubada do governo pela força, dada a impossibilidade de fazê-lo pela via institucional. O comandante do Exército, general Carlos Prats, defendia a lealdade à Constituição, mas após uma manifestação de esposas de generais defronte à sua casa, e com pouco apoio de seus comandados, renunciou e recomendou o nome do general Augusto Pinochet, considerado “apolítico”, para substituí-lo. Allende atendeu à recomendação e, em 23 de agosto de 1973, nomeou Pinochet.

Sabendo que dificilmente conseguiria concluir seu mandato (que se encerraria apenas em novembro de 1976), Allende decidiu convocar um plebiscito quanto à sua continuidade na presidência: com isso, provavelmente seria derrotado e renunciaria, mas ao mesmo tempo derrotaria os defensores de um golpe militar.

Porém, como sabemos, o plebiscito jamais foi realizado. Apenas 18 dias depois de ser nomeado, o novo comandante do Exército, Augusto Pinochet, traiu seu chefe liderando um dos mais violentos golpes militares que a América já viu. Enquanto aviões bombardeavam o Palácio de La Moneda, sede do governo, lá de dentro Allende fazia seu último pronunciamento anunciando que não renunciaria, como exigiam os militares; pouco depois, para não se render a eles, cometeu suicídio.

Naquele 11 de setembro de 1973, uma terça-feira, o país que era um dos mais estáveis da América do Sul ingressava em uma cruel e assassina ditadura, que só teria fim em 1990. Sob a mão de ferro do general Augusto Pinochet, o Chile tornou-se “laboratório de testes” para o neoliberalismo, detonando o mito de que liberalismo econômico e democracia são sinônimos: ao contrário, os defensores da “mão invisível do mercado” põem o lucro acima de tudo, inclusive da democracia.

“Mudar não mudando”

Essa expressão foi proferida em 1997 pelo presidente do Internacional na época, Pedro Paulo Záchia. O Inter era treinado por Celso Roth, vinha mal no Campeonato Gaúcho, e como se não bastasse, o Grêmio era o então campeão brasileiro e fortíssimo candidato ao título da Libertadores daquele ano. A pressão por mudanças na comissão técnica colorada era enorme, mas Záchia decidiu manter Roth e anunciou que o Inter iria “mudar não mudando”. Deu certo: o time ganhou o Gauchão e fez sua melhor campanha da década em Campeonatos Brasileiros, acabando em terceiro lugar; como se não bastasse, o centroavante Christian desandou a marcar gols, fazendo 23 só no Brasileirão.

Pois foi algo semelhante que fez a Igreja Católica, ao eleger papa o argentino Jorge Mario Bergoglio. É o primeiro latino-americano que chega a tal posto, e ainda por cima escolheu o nome de Francisco, santo católico associado aos pobres.

“Não mudar, mudando”, é assim que podemos resumir o que aconteceu. Afinal, o novo papa é conservador (se manifestou fortemente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto), e pesam contra ele acusções de colaboração com a última ditadura argentina, uma das mais sanguinárias que o continente já viu – familiares de desaparecidos, por sua vez, dizem que Bergoglio não colaborou mas fez “poderia ter feito mais” pelos perseguidos políticos na Argentina; e o Vaticano, obviamente, nega tudo.

Só que tem mais. Hoje em dia a América do Sul é uma das regiões do mundo onde o conservadorismo é muito contestado (como provam os vários governos de centro-esquerda e esquerda no subcontinente), ou a Igreja Católica perde terreno (caso do Brasil). Assim, eleger um papa sul-americano pode indicar uma tentativa de reverter o quadro na região. E não simplesmente no aspecto religioso.

Paranoia? Então lembremos de como foi “aberta” a chamada Cortina de Ferro que dividia a Europa na Guerra Fria. Inúmeros fatores causaram o colapso dos regimes socialistas do Leste Europeu: corrupção, burocratização excessiva, autoritarismo etc. Mas tais países eram estáveis politicamente na década de 1970 não devido ao monopólio do poder pelo Partido Comunista, e sim porque a população se adaptara ao status quo, sendo poucas as contestações ao regime – antes da década de 1980, a última fora a Primavera de Praga na Tchecoslováquia, em 1968.

Então a Igreja entrou no jogo em outubro de 1978: quebrando uma tradição que já durava mais de 400 anos, o papa eleito pelo conclave não foi um italiano, e sim um polonês, Karol Józef Wojtyła, que adotou o nome de João Paulo II.

Boa parte dos países do Leste Europeu não têm no catolicismo sua religião majoritária. Mas a Polônia há muito tempo tem uma das mais elevadas proporções de católicos da Europa.

Pois bem: e onde o status quo começou a ser questionado com mais força na Europa Oriental? Foi exatamente na Polônia, onde em 1980 foi fundado o primeiro sindicado desvinculado do PC em um país do Leste Europeu (o Solidariedade), que organizou greves em protesto contra o governo. Após decretar lei marcial no final de 1981 e colocar o Solidariedade na ilegalidade, o regime acabou sendo forçado a negociar, e em 1989 convocou eleições semi-livres (nas quais o Solidariedade conquistou praticamente todas as cadeiras do Senado); no final de 1990, o líder do sindicato, Lech Wałęsa, foi eleito presidente. Tanto Wałęsa quanto Wojciech Jaruzelski (último governante da Polônia socialista) e Mikhail Gorbachev (último presidente soviético) afirmam que o papa foi fundamental no desmoronamento da Cortina de Ferro, por ter “inspirado” os poloneses a se levantarem.

Agora, a escolha da Igreja foi por um papa argentino. Que era visto pelos Estados Unidos como um “poderoso” opositor ao governo Kirchner. Coincidência?

Talvez seja mera coincidência que, poucos dias após Bergoglio ter sido eleito, o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla tenha convocado um golpe contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Condenado à prisão perpétua, Videla parece “fora da casinha”. Mas é bom ficar atento com gente “séria” que poderá se meter a defender tais absurdos.

A suposta “turma socialista”

Recebi mais um texto daqueles que classifico como “correntes”. Só que este é diferente: mais bem escrito, elaborado, sem exalar aquele ódio comum aos que recebo mais frequentemente. Mas ainda assim, não podia ficar sem resposta.

Vamos a ele, então:

Um professor de economia em uma universidade americana disse que nunca havia reprovado um só aluno, até que certa vez reprovou uma classe inteira.

Esta classe em particular havia insistido que o socialismo realmente funcionava: com um governo assistencialista intermediando a riqueza ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e justo.

O professor então disse, “Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam ‘justas’. Todos receberão as mesmas notas, o que significa que em teoria ninguém será reprovado, assim como também ninguém receberá um “A”.

Após calculada a média da primeira prova todos receberam “B”. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.

Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Já aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Como um resultado, a segunda média das provas foi “D”. Ninguém gostou.

Depois da terceira prova, a média geral foi um “F”. As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram aquela disciplina… Para sua total surpresa.

O professor explicou: “o experimento socialista falhou porque quando a recompensa é grande o esforço pelo sucesso individual é grande. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros para dar aos que não batalharam por elas, então ninguém mais vai tentar ou querer fazer seu melhor. Tão simples quanto isso.”

1. Você não pode levar o mais pobre à prosperidade apenas tirando a prosperidade do mais rico;
2. Para cada um recebendo sem ter de trabalhar, há uma pessoa trabalhando sem receber;
3. O governo não consegue dar nada a ninguém sem que tenha tomado de outra pessoa;
4. Ao contrário do conhecimento, é impossível multiplicar a riqueza tentando dividí-la;
5. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

Em primeiro lugar, nos atenhamos ao “um professor de economia em uma universidade americana”. Qual é o nome do professor? De qual universidade ele é? O fato do texto não passar tais informações me faz pensar que muito provavelmente tal “experimento socialista” jamais aconteceu. Basta lembrar que o “experimento nazista” relatado no filme “A Onda” não foi ideia “de um professor de História em um colégio nos Estados Unidos”: o professor se chamava Ron Jones, e a escola era a Cubberley High School, em Palo Alto, Califórnia. Mas, vamos dar ao texto o benefício da dúvida e suponhamos que o experimento realmente aconteceu – afinal, o mais importante é contra-argumentar. Continuar lendo

“No” e a “transição incompleta” do Chile

Assisti semana passada ao filme chileno “No”, de Pablo Larráin, que concorre ao Oscar de melhor filme de língua não-inglesa. Baseado em fatos reais, “No” relembra a campanha do “não” no plebiscito de 1988 no Chile, quando o povo rejeitou a permanência do ditador Augusto Pinochet no governo por mais oito anos. Larráin usou câmeras semelhantes às utilizadas na década de 1980, para que o filme lembrasse as transmissões da televisão chilena na época.

Em 1980, uma nova constituição para o Chile fora aprovada em um referendo marcado por denúncias de fraude. Esta previa um “período de transição” de oito anos a partir de sua entrada em vigor, em 11 de março de 1981, no qual o país seria governado por Pinochet. Ao final deste período, os militares deveriam indicar uma pessoa para ocupar a presidência pelos oito anos seguintes (ou seja, até 1997): o escolhido foi o próprio Pinochet.

Um plebiscito foi convocado para o dia 5 de outubro de 1988, em que o povo deveria apoiar ou rejeitar a permanência do ditador no poder: caso a opção “não” vencesse, Pinochet teria seu “mandato” prorrogado até 11 de março de 1990, quando entregaria o governo a um presidente eleito diretamente. Haveria 15 minutos diários de propaganda eleitoral na televisão para ambas as opções, mas não era uma situação de igualdade: enquanto a campanha do “não” se resumiria aos 15 minutos, o “sim” era favorecido pela mídia, controlada pelo governo.

A princípio, acreditava-se que o plebiscito era “jogo de cartas marcadas”. Afinal, era promovido por um regime ditatorial, que não pouparia esforços para se perpetuar. O fato de atrair as atenções do mundo, se por um lado ajudava a diminuir a desconfiança quanto à lisura do processo, por outro também despertava o temor de que, caso o “sim” vencesse, a própria oposição acabasse legitimando Pinochet, por ter ido votar. Assim, havia uma forte tendência a se boicotar o plebiscito.

Porém, a possibilidade de que Pinochet permanecesse no poder por mais oito anos era um motivador a que se fosse votar. É aqui que “entra em jogo” René Saavedra (Gael García Bernal), um talentoso publicitário: filho de um exilado político, ele é convidado a ajudar a campanha do “não”, de modo a que a oposição (agrupada na Concertación de Partidos por el No) participe do plebiscito com chances de vencê-lo. Continuar lendo

Mito detonado

Tem um famoso ditado que diz o seguinte:

Quem não for de esquerda até os 30 anos não tem coração. Quem for de esquerda depois dos 30 anos não tem cérebro.

É aquele mito conservador do “amadurecimento”, que serve apenas para justificar a manutenção do status quo. Contestar o sistema é considerado “imaturidade”, a famosa “rebeldia juvenil” – vista por muitos como “sem causa”.

Ironicamente, uma grande manifestação de contestação ao status quo aconteceu justamente no dia em que completei 30 anos. Em várias partes do mundo, os indignados tomaram as ruas para exigir democracia real. Naquele dia, escrevi: “‘imaturidade’, é defender o sistema injusto que temos”. Ou seja, na visão conservadora, não “amadureci”…

Mas não é só isso: estou ainda mais “imaturo”, conforme o teste de visão política que já havia feito e postado os resultados aqui no blog em janeiro de 2009 e fevereiro de 2010.

Em janeiro de 2009, quando eu tinha 27 anos de idade, deu isto:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -8.62
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: -8.31

Já em fevereiro de 2010, aos 28, meu resultado foi este:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -8.75
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: -8.36

Posteriormente, cheguei a fazer o teste novamente mas sem postar os resultados no blog, daí a ausência de números relativos ao começo de 2011, quando eu estava com 29 anos.

Agora, vejamos como é minha visão política aos 30 anos de idade:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -9.75
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: -9.79

Como as escalas vão de -10 a 10 (em ambos os critérios), estou chegando aos extremos e por isso não tenho como ficar muito mais libertário e socialista. Mas é um legítimo “tapa com luva de pelicas” naqueles que, alguns anos atrás, achavam que à medida que eu ficasse mais velho eu iria “endireitar”.

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Decidi fazer um exercício de imaginação: responder o teste com base no que eu pensava 15 anos atrás, quando tinha a metade de minha idade atual. Digo que é “imaginação” pois o que penso hoje obviamente influi sobre a visão que tenho de meu próprio passado, sem contar que certas questões, como sobre “a luta contra o terrorismo”, na época (entre 1996 e 1997) não fariam tanto sentido quanto hoje.

O resultado é o seguinte:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -5.75
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: 2.00

Ou seja, em 1996-1997 eu seria um projeto de stalinista… Felizmente, abortado.

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Agora, como nas outras vezes, “passo a bola” aos leitores. Façam o teste (em espanhol ou em inglês) e, claro, postem seus resultados nos comentários.

A onda revolucionária de 2011

A historiografia costuma usar a expressão “onda revolucionária” para descrever certas épocas em que irrompem diversos movimentos contestatórios à ordem vigente, que têm mais em comum do que apenas a proximidade temporal. Temos diversos exemplos, como as revoluções liberais de 1848, as socialistas de 1917-1919 (inspiradas na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia), os protestos de 1968 (contra a ordem tanto de direita quanto de esquerda – como prova a Primavera de Praga), os movimentos por independência em diversas épocas (no início do Século XIX na América Latina; nas décadas de 1950 a 1970 na África) e as manifestações de 1989 nos países do Leste Europeu que resultaram na queda do chamado “socialismo real”.

O ano de 2011 ainda não terminou, mas já podemos dizer sem receio que ele é marcado por mais uma onda revolucionária. Aliás, tão significativa que qualquer um que tenha o mínimo de bom senso jamais repetirá a afirmação de Francis Fukuyama de que em 1989 se havia alcançado “o fim da História” com a suposta “vitória capitalista”. Afinal, por mais que seja óbvio que enquanto houver sociedades haverá História, muita gente fingia não enxergar isso.

Todos os grandes protestos registrados neste ano têm a mesma origem: a crise econômica iniciada em 2008 e que não havia realmente acabado. Milhões de pessoas empobreceram muito, enquanto um punhado enriqueceu demais. Foi o que desencadeou a Primavera Árabe e derrubou três ditadores (Ben Ali na Tunísia, Hosni Mubarak no Egito e Muammar al-Gaddafi na Líbia), além de abalar outros regimes autoritários (como o de Bashar al-Assad na Síria e de Ali Abdullah Saleh no Iêmen). E serviu de exemplo aos europeus: na Grécia e em Portugal o povo foi às ruas, e em maio na Espanha, os cidadãos demonstraram sua insatisfação com o atual estado das coisas através do movimento dos “indignados”, que começou a ocupar praças em várias cidades e exigir democracia real, JÁ.

Agora, vemos os protestos de indignados contra a ditadura do mercado chegarem exatamente ao centro do sistema (Wall Street), e se tornarem “a coisa mais importante do mundo hoje” nas palavras de Naomi Klein. Algo impensável anos atrás. São novamente as massas, e não os “grandes homens”, fazendo a História.

E a onda revolucionária de 2011 terá mais um belo capítulo a ser escrito no próximo sábado, 15 de outubro*, quando os indignados de todo o mundo acamparão em praças para exigir uma democracia verdadeira, não esta falsificada que temos. Afinal, as principais decisões acerca de nosso futuro não são tomadas na esfera política, sobre a qual temos aparente influência. Podemos eleger o presidente do Brasil, mas, e os das multinacionais? E a eleição para presidente da FIFA, na qual não pudemos votar? Isso já fora lembrado, anos atrás, por José Saramago.

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Porém, é preciso também ficar atento em relação ao que virá pela frente, como também alerta Slavoj Zizek. Pois em comum entre as diversas ondas revolucionárias do passado, é que foram seguidas por violenta reação. Após as revoluções liberais de 1848, lideradas pela burguesia (revolucionária desde 1789), esta tornou-se conservadora, por temer o proletariado que reivindicava mais direitos – o que prejudicaria os interesses burgueses. As revoluções de 1917-1919 também: na Rússia ela foi vitoriosa, mas a tentativa de construção do socialismo acabou resultando no stalinismo e no próprio autoritarismo que caracterizou a política da União Soviética; já em outros países onde houve movimentos revolucionários de caráter socialista a repressão foi violenta – e, a soma “ameaça comunista” mais a gravíssima crise econômica de 1929 resultou em muitos regimes ditatoriais de extrema-direita.

Em 1968, quando o ímpeto contestador arrefeceu, os conservadores venceram as eleições (França e Estados Unidos), ou intensificaram a repressão na defesa da ordem (caso do Brasil) – e foi o que se viu também em países em que o status quo era “socialista” (caso da Tchecoslováquia invadida por tropas do Pacto de Varsóvia, para esmagar a Primavera de Praga e manter intacto o “socialismo real”, burocrático e autoritário). No Leste Europeu em 1989, o povo foi às ruas pedir democracia, mas confiou na condução do processo democratizante pelos mesmos burocratas que já estavam há décadas no poder e acabou por ganhar esta falsificação que hoje é questionada em todo o mundo.

Ou seja, foram revoluções incompletas, e por isso que é preciso ficar atento. Pois até já está acontecendo, como se vê no Egito: após a queda de Mubarak em fevereiro, uma junta militar assumiu o poder prometendo entregá-lo aos civis após as eleições presidenciais que eram previstas para setembro. Já estamos em outubro, e nada dela acontecer…

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* Curiosamente, em 1968 uma das palavras de ordem era “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. E o próximo sábado é justamente o dia em que deixarei de ser “uma pessoa confiável”… Logo, virou dever cívico ir até o acampamento de Porto Alegre, que acontecerá na Praça da Matriz, demonstrar que vale mais a idade de coração do que a do cartório.

Todo apoio às lutas dos povos líbio e sírio

Em fevereiro, questionei se a ditadura de Muammar al-Gaddafi na Líbia estava realmente chegando ao fim. Afinal, dada a velocidade com que caíram os regimes ditatoriais em dois países vizinhos (Tunísia e Egito) no início do ano, parecia que não demoraria muito para Gaddafi ter destino semelhante aos que tiveram o tunisiano Ben Ali e o egípcio Hosni Mubarak.

Porém, a longa ditadura iniciada em 1969 não caiu tão rapidamente. Foi preciso uma guerra civil. Num comparativo da chamada Primavera Árabe com as quedas dos regimes “socialistas” no Leste Europeu em 1989, Muammar Gaddafi agiu de forma semelhante ao romeno Nicolae Ceausescu: ambos acreditaram que eram amados pelo povo, e decidiram resistir. Na Romênia a guerra civil foi breve (durou pouco mais de uma semana) e resultou na execução do ditador e de sua esposa. Já a Líbia vive um conflito que ainda parece longe de acabar: Gaddafi já pode ser considerado ex-ditador, mas seus apoiadores não parecem dispostos a deporem as armas. Ainda mais que o líder, a princípio, está vivo, mas em local desconhecido.

Aliás, a citação ao “socialismo” do Leste Europeu não foi só para comparar Gaddafi a Ceausescu. Pois algo me incomoda: muita gente que se considera de esquerda apoia Gaddafi por seu suposto “anti-imperialismo”. Até reconhecem que os regimes da Europa Oriental eram burocráticos, autoritários e muito distantes do ideal socialista, mas não percebem que Gaddafi era também um ditador. E, principalmente, que há certo tempo ele nem era mais um “inimigo dos Estados Unidos”. Aliás, virou tão amigo, que os serviços secretos estadunidense e britânico colaboraram com seu regime por pelo menos cinco anos (2002-2007), inclusive entregando opositores da ditadura!

Aí alguém vai perguntar por que a OTAN bombardeia a Líbia, em suposto apoio os rebeldes que lutam contra a ditadura. A resposta é bem simples: oportunismo. Afinal, se o amiguinho Gaddafi está podre e vai cair, melhor derrubá-lo de uma vez e instalar um novo governo que se mantenha alinhado ao Ocidente, ao invés de correr o risco da revolta popular resultar numa Líbia verdadeiramente democrática e anti-imperialista.

Por isso, é importante que o povo líbio não se contente com a queda de Gaddafi: é preciso garantir que a vitória seja, realmente, dos líbios, e não do Ocidente.

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Outro ditador intragável é Bashar al-Assad, da Síria. Como defender quem massacra o povo com tanques de guerra para se manter no poder??? Mas, há gente de esquerda que o considera “anti-imperialista”… É dose.

Campanha da Legalidade – 50 anos

O povo na Praça da Matriz, agosto de 1961

Folha da Tarde, 25/08/1961

Entre o final de agosto e o começo de setembro de 1961, o Brasil esteve na iminência de uma guerra civil. O presidente Jânio Quadros, no poder há menos de sete meses, renunciou ao cargo no dia 25 de agosto denunciando a pressão de “forças terríveis”. Conforme previa a Constituição de 1946, o vice-presidente João Goulart deveria assumir a presidência. Só que este encontrava-se em viagem oficial à República Popular da China, e os ministros militares iniciaram um movimento golpista que tinha por objetivo impedir o retorno de Jango ao Brasil e, consequentemente, sua posse como Presidente da República.

Naquela época o mundo vivia o auge da Guerra Fria. Em abril, uma tentativa de invasão a Cuba – a famosa Invasão da Baía dos Porcos – por exilados cubanos treinados pelos Estados Unidos e ligados à anterior ditadura de Fulgêncio Batista – derrubada pela Revolução Cubana no início de 1959 – resultou em fracasso, e a Revolução, iniciada como um movimento nacionalista, assumiu seu caráter socialista. No dia 13 de agosto, teve início a construção do Muro de Berlim, que por 28 anos impediria o trânsito do lado oriental (capital da República Democrática Alemã, alinhada com a União Soviética) para o lado ocidental (pertencente à República Federal da Alemanha, alinhada com os EUA). Tais fatos aumentaram a tensão entre as duas superpotências mundiais, e obviamente tiveram reflexos no debate político de todo o mundo – antes da renúncia de Jânio Quadros, a crise internacional provocada pela construção do Muro de Berlim era destaque nos jornais.

Correio do Povo, 26/08/1961

E justamente em uma época de tanta tensão internacional, Jânio Quadros, que em outubro de 1960 fora eleito com o apoio da conservadora UDN, dava mostras de que sua política externa não seria voltada apenas ao Ocidente: no início de agosto, recebeu o cosmonauta soviético Yuri Gagarin (primeiro homem a ir ao espaço), e no dia 19, condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul (a mais alta honraria brasileira) o revolucionário argentino e Ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara. Tais atos desagradavam não somente aos conservadores, como também aos Estados Unidos.

A condecoração de Che deu início a uma crise política. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, passou a atacar violentamente o governo federal, inclusive acusando Jânio de tramar um golpe de Estado com o objetivo de tornar-se ditador. Lacerda era dono do jornal Tribuna da Imprensa, que tivera importante papel na crise política de agosto de 1954, que culminara com o suicídio de Getúlio Vargas.

Na manhã do dia 25 de agosto, Jânio Quadros enviou ao Congresso sua carta de renúncia, surpreendendo o país. Diz-se que o verdadeiro objetivo de Jânio era que sua renúncia não fosse aceita tanto pelo parlamento como pelo povo, de forma a que ele pudesse retornar ao governo com poderes ampliados. Porém, nada disso aconteceu.

João Goulart (PTB), o vice-presidente, era considerado pelos setores conservadores como “esquerdista demais”. Contribuía para o temor destes o fato de Jango estar na República Popular da China, onde a revolução socialista se dera no campo – e no Brasil de 1961, a maior parte da população era rural.

Correio do Povo, 29/08/1961

O veto dos ministros militares à posse de Jango desencadeou a chamada Campanha da Legalidade. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (PTB), conclamou os brasileiros a resistirem ao golpe e desta forma garantirem o cumprimento da Constituição e a manutenção do regime democrático. Para que suas mensagens chegassem o mais longe (e o mais rápido) possível, em 27 de agosto Brizola requisitou a Rádio Guaíba, que na época tinha os mais potentes transmissores de rádio no Estado, formando uma rede de radiodifusão que ficou conhecida como “Cadeia da Legalidade”. O principal estúdio foi instalado no porão do Palácio Piratini, de onde Brizola falava. Os transmissores foram ajustados acima da potência máxima permitida por lei, e o sinal chegou a ser captado por radioamadores na Nova Zelândia, do outro lado do mundo.

Os ministros militares estavam decididos a esmagar a resistência e assim consolidar o golpe. Se preciso, o Palácio Piratini seria bombardeado, para calar Brizola e a Cadeia da Legalidade. Por conta da real ameaça, no dia 28 o governador ordenou o fechamento das escolas, e pediu também que a multidão em frente ao palácio se retirasse – pedido que não foi atendido.

Folha da Tarde, 28/08/1961

O III Exército (sediado em Porto Alegre) aderiu à causa da Legalidade, assim como o governador de Goiás (Estado que praticamente circunda Brasília), Mauro Borges. E o golpe não se consumou. Mas ainda assim, não foi uma vitória completa: a solução para o impasse foi uma emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo como sistema de governo no Brasil (até janeiro de 1963, quando em um plebiscito o povo decidiu pela volta ao presidencialismo), de forma a enfraquecer Jango. E além disso, o golpe apenas foi adiado para 1964 – com os mesmos argumentos de 1961, ou seja, de “combater o comunismo”.

Mas ainda assim, a Campanha da Legalidade tem grande valor histórico. Pois demonstrou a importância de se saber usar a mídia: Brizola percebeu que não bastava declarar resistência, também era preciso comunicá-la o mais rápido possível para o máximo de pessoas, e por isso tratou de logo formar a “Cadeia da Legalidade” com tal propósito. Naquela época, o rádio era o meio mais eficaz de se atingir muita gente: a televisão era incipiente, os jornais não tinham um público leitor tão grande (aliás, como ainda não têm), e não existia internet.

A Legalidade também serviu de lição aos golpistas, que perceberam a necessidade de terem “apoio da opinião pública” para seu propósito. Tanto que, se em 1961 a população foi às ruas repudiar a quebra da ordem constitucional, três anos depois aconteceu o contrário. O que também deve servir de alerta a todos nós: com base nessa tal de “opinião pública”, se procurou “legitimar” o golpe de 1964.

Leonel Brizola no estúdio instalado no porão do Piratini

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Imagens: Acervo do Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa

A origem do Dia Internacional da Mulher

Por muito tempo, ouvi a história de que o 8 de março era o Dia Internacional da Mulher devido a um acontecimento de 1857. Naquele dia, mulheres que trabalhavam numa fábrica teriam sido queimadas vivas por ordens do dono da empresa, em punição ao fato de estarem em greve. Inicialmente eu acreditava, mas depois de um certo tempo pensei que se o cara realmente fez isso, ele queimou não só sua mão-de-obra, como também as máquinas. E sabemos que, para um capitalista, nada pode ser mais importante que a produção: ele caga e anda para a mão-de-obra; agora, as máquinas…

E de fato, é possível que esta greve não tenha acontecido – ou não com um final tão trágico. De acordo com o blog Quem mandou nascer mulher?, não há registros históricos sobre tal acontecimento de 8 de março de 1857.

Já tinha lido que a escolha do 8 de março se devia a um acontecimento da Revolução Russa de 1917: sua primeira etapa, a “Revolução de Fevereiro”, começou nesse dia (23 de fevereiro pelo calendário juliano, utilizado pela Rússia naquela época), quando teve início uma greve de operárias têxteis, que saíram às ruas protestando contra a fome e a participação na Primeira Guerra Mundial (cujas trincheiras ceifavam muitas vidas). Só que, de acordo com o link que citei no parágrafo anterior, a escolha da data se deveu justamente ao fato de já ser, na época, considerada como Dia Internacional da Mulher.

Assim, a razão pela qual se considera o dia de hoje como Dia Internacional da Mulher permanece desconhecida. Agora, o que se sabe é o motivo de existir um dia dedicado às mulheres: a luta contra a exploração. Não é uma data comercial, para se dar rosas, como muitos fazem.

Seja pela tal greve de 1857 da qual falta documentação, seja pelas operárias russas de 1917, o que se percebe é que o Dia Internacional da Mulher está diretamente relacionado à luta contra o capitalismo – sistema que gera toda a exploração que elas enfrentaram, e ainda enfrentam*.

Logo, engana-se quem pensa que a luta das mulheres “é problema delas”. Nós, homens que defendemos um mundo mais justo, não podemos deixar de apoiá-las, e também devemos combater o machismo que ainda está enraizado em nossa sociedade (dentro de nós mesmos, muitas vezes). Até porque isso é prejudicial não só às mulheres, como até mesmo aos homens que não se encaixam no padrão de “masculinidade” que é socialmente imposto.

Ou seja, sem a superação do machismo, será impossível que se tenha uma sociedade mais justa.

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* Alguém pode lembrar que nos países ditos “socialistas reais” uma mulher jamais chegou ao poder, e é verdade. Porém, é bastante questionável a ideia de que aquilo era, realmente, socialismo: afinal, o regime que pregava a igualdade apenas criava uma nova elite dirigente, a burocracia do Partido Comunista (os “mais iguais” dos quais falava George Orwell em seu excelente “A Revolução dos Bichos”). E, como qualquer elite, ela era predominantemente masculina.