Da Servidão Moderna

Documentário EXCELENTE que assisti. Interessantíssimo para se fazer uma autocrítica sobre o que pensamos, o que fazemos. Afinal, somos realmente livres? Ou apenas os escravos modernos mostrados pelo documentário?

A servidão moderna se dá em relação a um poder aparentemente inexistente – e por isso mesmo, muito mais eficaz – que se enquadra perfeitamente na definição de “poder simbólico” de Pierre Bourdieu* (os grifos são meus):

No entanto, num estado do campo em que se vê o poder por toda a parte, como em outros tempos não se queria reconhecê-lo nas situações em que ele entrava pelos olhos dentro, não é inútil lembrar que – sem nunca fazer dele, numa outra maneira de o dissolver, uma espécie de “círculo cujo centro está em toda a parte e em parte alguma” – é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem.

É por isso que o documentário acerta em cheio ao dizer que a maioria de nós hoje em dia somos escravos, mas acreditamos sermos livres. Este poder não se sustenta com base na violência (embora a use quando ameaçado), e sim, no convencimento. A partir de uma pretensa “neutralidade” (lembra algo, né?), conseqüência de “não ter ideologia”, nos é imposta a ideologia consumista, que valoriza mais o TER do que o SER. E para TER, é preciso OBEDECER cegamente, sentindo MEDO de fazer qualquer contestação.

“Crescer, estudar, arrumar um emprego, casar, ter filhos e morrer”: eis a síntese dos objetivos de vida de muita gente. Fazer o sistema funcionar, e se reproduzir para que ele continue funcionando: não é preciso se preocupar com a educação dos filhos, a televisão se encarrega disso.

Assista:

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* BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, p. 7-8.

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