Coisas do país do futebol

22 de dezembro, ano quase acabando – mas no final, como já é tradição, se arrasta como nunca. As principais notícias esportivas são especulações sobre transferências de jogadores de futebol. Além, é óbvio, das (atrasadas) obras para a Copa.

Enquanto isso, o Brasil fez história em Belgrado, capital da Sérvia. Na final do Campeonato Mundial de Handebol feminino, a Seleção Brasileira bateu a dona da casa por 22 a 20, conquistando o título pela primeira vez. Uma belíssima página escrita na história do esporte brasileiro.

Não se pode mentir: houve notícias sobre a campanha brasileira. Principalmente quando o Brasil se classificou para a semifinal, um feito já histórico: até então, o melhor resultado da Seleção fora o 5º lugar no Mundial de 2011, disputado no próprio Brasil.

Mas, em nenhum momento houve grande destaque sobre o que estava acontecendo na Sérvia. Para muitas pessoas, uma conquista histórica do esporte brasileiro passou quase despercebida: para saber mais informações, era preciso “correr atrás”, não havia manchetes garrafais nem matérias bem elaboradas.

Alguma emissora de televisão aberta transmitiu a final? Não pergunto para dizer “não”, mas sim porque realmente não sei de algum canal aberto que tenha transmitido a final…

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A melhor não é daqui

A cerveja Polar, uma das mais apreciadas no Rio Grande do Sul, deu início a uma campanha de comunicação com direito a uma nova página de internet, que à primeira vista parece mostrar que se trata realmente de uma cerveja “muito gaúcha”.

Mas não pensem que agora o Rio Grande do Sul tem seu próprio domínio de topo de código de país, como tanto sonham os separatistas. É que agora a “cerveja daqui” na verdade é da Sérvia

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Por falar nisso, penso em adquirir um domínio próprio para o Cão Uivador. Na Austrália, é claro.

A fome no mundo em 2009

Um dos textos mais lidos do Cão Uivador é o que escrevi em 13 de setembro de 2007, comentando o “mapa da fome” feito pela FAO, que tinha dados de 1970 a 2003.

E agora descobri um mapa mais atualizado (2009) sobre este triste flagelo da humanidade, que também merece alguns comentários. Os países são divididos em cinco categorias: a primeira engloba os que têm menos de 5% da população subnutrida; a segunda, vai de 5 a 9%; a terceira, de 10 a 19%; a quarta vai de 20 a 34%, e a quinta corresponde aos países onde 35% ou mais da população sofre de subnutrição.

A situação da África, por exemplo. Mudou muito pouco desde 2003. Naquela ocasião, apenas cinco países africanos estavam na categoria 1: Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul (único que não se localiza na “África árabe”, setentrional). Agora, mais dois países se juntaram ao seleto grupo: Marrocos (África setentrional) e Gabão (central) – ou seja, a maioria ainda é de países do norte do continente, árabes e muçulmanos (os “malvados” segundo a visão de mundo tosca de muitos).

E por falar em muçulmanos, é digna de nota a situação do Irã, atual “perigo mundial”: segundo o mapa, a subnutrição era um problema para menos de 5% da população iraniana. Ou seja, o país está na mesma categoria que a maior parte da Europa.

Sim, “maior parte”, e não “toda” a Europa. A fome é uma realidade um pouco mais dolorosa para Eslováquia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Bulgária e Moldávia. Países da Europa Oriental, poderá lembrar algum fã da “civilização” e do liberalismo, que ainda dirá que a fome “é fruto do comunismo” – mas convém lembrar que, exceto a Albânia (país mais pobre da Europa), eles não sofriam de tais problemas antes da queda dos regimes “socialistas”; e também que destes oito países, dois integram a União Europeia (Eslováquia desde 2004 e Bulgária desde 2007), que diziam ser “o paraíso”. Dentre os oito, há até mesmo integrantes da categoria 3 (10-19%), caso de Sérvia, Montenegro e Moldávia.

Já na América Latina, nada mudou muito. Cuba continua com menos de 5% de sua população subnutrida, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e México (os dois últimos, novidades em relação a 2003).

O Brasil está um pouco abaixo, de 5% a 9% de subnutrição. Em 2003, o país se enquadrava entre 5 e 15% (ou seja, o critério para categorização era um pouco diferente), e provavelmente o percentual de pessoas subnutridas tenha baixado devido aos programas sociais do governo federal.

Craque iugonostálgico

Em entrevista ao programa de Ana Maria Braga na Globo, o meia Dejan Petkovic, do Flamengo, deu uma resposta inesperada à apresentadora. A “cansada” (lembram?) tentou induzir o craque sérvio a dizer que a Iugoslávia socialista era um país em que se passavam muitas dificuldades, mas Petkovic a contrariou. (Não reparem no mapa, em que trocaram Croácia e Bósnia-Herzegovina…)

“Iugonostalgia” é o termo utilizado para definir as pessoas que sentem saudades da época em que Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia e Kosovo formavam apenas um país, a Iugoslávia. Mais específicamente, da época de Tito (1945-1980).

O termo “Iugoslávia”, que significa “união dos eslavos do sul”, passou a denominar em 1929 o reino surgido em 1918 a partir da união entre diversos povos eslavos dos Bálcãs, e que se chamava “Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos” (embora também o integrassem diversas outras etnias, como montenegrinos, macedônios, bósnios e albaneses).

Em 1945, sob a liderança do croata Josip Broz Tito, a Iugoslávia se libertou do domínio nazista que lhe fora imposto na Segunda Guerra Mundial, e transformou-se em uma república socialista federativa. Era um socialismo diferente do que se viu em outros países do Leste Europeu: não foi imposto pelos tanques soviéticos, e sim, construído pelos próprios iugoslavos a partir da liderança de Tito.

Desta forma, o socialismo iugoslavo adquiriu características próprias, como o sistema de autogestão nas fábricas e propriedades agrícolas (que não eram pertencentes ao Estado, e sim aos próprios trabalhadores), a democracia direta (em que a representação não se dava por deputados, e sim por grupos de delegados), a descentralização política (as repúblicas e províncias tinham ampla autonomia) e a independência em relação à União Soviética, após o rompimento entre Tito e Stalin em 1948. Mesmo após a melhora das relações entre Belgrado e Moscou, os iugoslavos mantiveram sua política externa independente e não-alinhada nem à URSS, nem aos Estados Unidos.

A Iugoslávia de Tito desenvolveu-se muito até a década de 1970, proporcionando o aumento tanto da qualidade como da expectativa de vida. Porém, a situação mudou totalmente nos anos seguintes. Em 1980, Tito morreu, e conforme previa a Constituição promulgada em 1974, implantou-se um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas. Ao mesmo tempo, o país começou a passar por uma crise econômica, que não atingiu igualmente a todas as repúblicas: Eslovênia e Croácia eram mais desenvolvidas e viviam uma situação melhor, o que atraiu trabalhadores de outras partes da Iugoslávia.

Os anos sob a liderança de Tito tinham criado um sentimento de união entre as diversas etnias que formavam a Iugoslávia. Porém, a perda de uma figura que simbolizava a união nacional, somada à crise econômica, fez ressurgirem velhos rancores que haviam sido temporariamente esquecidos (como entre sérvios e croatas – os primeiros consideravam os segundos colaboradores dos nazistas, mesmo que Tito fosse croata), dando origem a movimentos nacionalistas, principalmente na Sérvia, república mais populosa.

Os nacionalistas sérvios, liderados por Slobodan Milosevic (que assumiu a presidência sérvia em 1989), consideravam injusto o sistema de igual divisão do poder: para eles, a Sérvia, mais populosa, deveria ter maior influência sobre os rumos da Iugoslávia, o que obviamente não agradou às demais repúblicas. No decorrer dos anos 80, a etnia (sérvia, croata, eslovena etc.) passou a ter maior valor como referência de pertencimento do que a “nacionalidade” iugoslava.

As rivalidades cada vez mais acirradas se verificavam em diversos aspectos da vida social. No futebol (já que falamos do Petkovic…), o ultranacionalismo entrou em campo no dia 13 de maio de 1990, quando torcedores do Dinamo Zagreb e do Estrela Vermelha de Belgrado travaram uma violenta briga no estádio da capital croata, com muitos feridos. A polícia, controlada pelos sérvios, reprimia com violência os torcedores do Dínamo, e em resposta o craque do time de Zagreb, Zvonimir Boban, aplicou uma voadora em um policial, feito que o transformou em um heroi nacional para os croatas.

Em 1991, Eslovênia e Croácia proclamaram a independência, e começou assim a violenta desintegração da Iugoslávia, com um conflito militar principalmente entre sérvios e croatas, em que ambos os lados cometeram atrocidades. No ano seguinte foi a vez da Bósnia-Herzegovina declarar sua independência, porém, como o país tinha uma população muito diversificada (muçulmanos, sérvios e croatas), o que se seguiu foi uma sangrenta guerra civil que durou três anos e meio, ceifou muitos milhares de vidas e produziu os piores massacres na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Milosevic assumiu em 1997 a presidência da Iugoslávia (já não mais socialista e restrita apenas às repúblicas de Sérvia e Montenegro), cargo que ocupou até ser deposto por uma revolta popular em outubro de 2000. Reprimiu violentamente manifestações nacionalistas em Kosovo, província da Sérvia em que a maioria da população era de etnia albanesa, motivando ataques aéreos da OTAN em 1999, o que elevou a tensão entre Ocidente e Rússia – eslava como a Iugoslávia. Tropas da ONU ocuparam Kosovo, que em 2008 proclamou sua independência, não reconhecida pela Sérvia (que considera a região como berço de sua consciência nacional) e por muitos países, dentre eles o Brasil.

Em 2003, a Iugoslávia mudou de nome, e passou a chamar-se “Sérvia e Montenegro”, união que se manteve até 2006, quando em um referendo os montenegrinos optaram pela independência de sua república, aceita sem problemas pela Sérvia. Da antiga Iugoslávia de Tito, restou apenas um parque temático – a “Iugolândia” – e as lembranças de um tempo em que se tinha assistência médica gratuita, emprego garantido e boa aposentadoria, sem contar uma maior liberdade para se viajar (para se ir da Eslovênia à Macedônia, por exemplo, não era preciso cruzar fronteiras internacionais por serem pertencentes ao mesmo país) e, principalmente, a paz decorrente da tolerância mútua entre diversos povos que acabou desaparecendo na década de 1980.

Racismo e xenofobia

Depois que terminou o jogo de ontem, fiquei sabendo (e assisti um pouco pela televisão) sobre a denúncia do volante Elicarlos, do Cruzeiro contra o atacante gremista Maxi López, por injúria racial: o argentino teria chamado o adversário de “macaco”. Na hora, claro que todo mundo lembrou do episódio de 2005 entre o então atacante são-paulino Grafite e o zagueiro Leandro Desábato, do Quilmes.

Se houver provas, Maxi López tem de ser punido exemplarmente, e também dispensado do Grêmio. Afinal, o racismo é um mal que precisa urgentemente ser erradicado, em todo o mundo. E penso o mesmo da xenofobia, “irmã gêmea” do racismo.

Afinal, nessas horas vai aparecer muita gente que, além de acusar toda a torcida do Grêmio de ser racista (e isso não é preconceito também?), começará a dizer que a atitude de Maxi López (se realmente ocorreu) é “típica de argentino”. O que aconteceu em 2005, no episódio do Desábato.

Vale lembrar que o futebol, muitas vezes, é mais do que apenas esporte. Ele pode ser uma espécie de “válvula de escape” para os mais variados sentimentos – como a xenofobia. Em 1969, havia uma crescente tensão entre Honduras e El Salvador, que se refletiu nas partidas entre as seleções dos dois países, válidas pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, e levou a um conflito militar que ficou conhecido como “Guerra do Futebol”, já que o esporte serviu de pretexto.

Algo semelhante ocorreria 20 anos depois, em uma partida pelo antigo campeonato iugoslavo: no dia 13 de maio de 1990, as tensões entre croatas e sérvios entraram em campo na partida entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha de Belgrado, resultando em violentos conflitos no estádio da capital croata, com várias mortes. Foi uma “prévia” da guerra na qual mergulharia a região dos Balcãs a partir do ano seguinte.

E podemos dizer que não há xenofobia na relação Brasil-Argentina, nem mesmo no tocante ao futebol?

Os leitores lembram de uma infame propaganda de uma cerveja durante a Copa do Mundo de 2006, em que “valia qualquer coisa” para ganhar da Argentina? E de como a “grande mídia”, principalmente do centro do país, fala mal dos argentinos?

Enfim, repito: se houver provas da injúria racial de Maxi López contra Elicarlos, que ele seja punido e mandado embora do Grêmio. Mas, por favor, sem hipocrisia. Rotular toda uma torcida – e também um povo – devido à atitude (da qual nem se tem provas) de uma pessoa, é preconceito também.