De volta à realidade

Acabou a Copa do Mundo do Brasil, com resultado mais do que justo. A Alemanha, primeira seleção europeia a ser campeã na América, mereceu pelo que fez não só no Mundial (onde somou ao belo futebol uma simpatia incomparável que, seja ou não jogada de marketing, conquistou a torcida brasileira de maneira que nem aqueles 7 a 1 reverteram), como também nos últimos anos.

Torci pela Argentina (por ser sul-americana), que com a derrota segue em seu jejum de títulos: o último foi a Copa América de 1993. Já os alemães voltaram a ganhar uma taça depois de 18 anos (a última fora a Eurocopa de 1996), graças à total reformulação iniciada após o fiasco na Euro 2000 – um modelo que, se não é para ser seguido à risca pelo Brasil (afinal, somos diferentes da Alemanha), ao menos deveria servir de inspiração para a reconstrução do futebol brasileiro.

Agora, é voltar à realidade:

  • Depois da Copa do Mundo com segunda melhor média de público de todos os tempos, marcada por grandes jogos, é hora de voltar a assistir partidas de baixo nível técnico em estádios que muito raramente lotam. Algo do tipo Coritiba x Figueirense, que jogam quarta-feira às 19h30min pelo Campeonato Brasileiro;
  • Na Argentina, o segundo semestre de 2014 terá o Torneo Transición, e em 2015 o Campeonato Argentino abandonará o calendário europeu. Mas, passará a ser disputado por 30 clubes numa fórmula que não entendi, mostrando que o futebol no país vizinho (sob o comando de Julio Grondona desde 1979) também precisa de uma “arejada”;
  • Semana que vem, recomeça a Libertadores em sua fase semifinal. Sem nenhum clube brasileiro: é verdade que a maioria dos convocados para a Seleção Brasileira hoje em dia jogam na Europa, mas não ter nenhum representante do Brasil nas semifinais da principal competição de clubes da América do Sul poderia ter servido de alerta para o que nos aguardava na Copa, né? E reparemos que a Seleção passou por Chile e Colômbia “com as calças na mão” como diz o ditado – para depois ser humilhada diante da Alemanha;
  • Os protestos contra a Copa não chegaram nem perto de igualar as grandes multidões que foram às ruas em 2013, é verdade. O que cresceu foi a repressão, e nada faz crer que ela diminuirá porque o Mundial já é passado;
  • Enquanto acompanhávamos as partidas decisivas da Copa do Mundo, Israel atacava novamente a Faixa de Gaza, matando mais de 100 palestinos com a desculpa de reagir a foguetes lançados pelo Hamas contra território israelense. Uma reação, para variar, desproporcional de um país dono de um dos exércitos mais bem preparados do mundo contra um povo oprimido há décadas;
  • E a campanha eleitoral já começou, com direito a desmiolados querendo culpar Dilma pela derrota da Seleção. Isso é só o começo do que veremos até outubro…
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Sobre os “bodes expiatórios” do Brasil no momento

Fazer análise histórica “no calor do momento” é algo por demais difícil. Pois lidamos com fatos dos quais ainda não sabemos o real significado, sendo necessário um certo tempo para que se tenha um melhor entendimento. Portanto, da mesma forma que nenhum jornal do dia 15 de julho de 1789 anunciava o acontecimento do dia anterior (Tomada da Bastilha) como marco inícial da Idade Contemporânea, ainda não podemos dizer com exatidão o que significou o Brasil levar 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa, para além do óbvio: foi uma humilhação. Pouco importa o adversário: uma derrota dessas é humilhante porque é 7 a 1 e “ao natural”, mesmo que contra a poderosíssima Alemanha.

Logo, mesmo que eu não seja exatamente um apaixonado pela Seleção (muitas vezes fui indiferente e nesta Copa torci, mas não com a mesma intensidade que pelo Grêmio), o que escrevo abaixo carece do necessário distanciamento histórico. Por isso prefiro me concentrar em alguns personagens que estão sendo transformados em “bodes expiatórios” por essa derrota: nenhum deles pode carregar a culpa sozinho, e há quem nada tenha a ver com o que aconteceu.

1. Fred. Não jogou absolutamente nada nessa Copa, é verdade. Mas, se pensarmos apenas no vexame de ontem, precisamos lembrar que centroavante tem de marcar gols, e não impedir que os adversários cheguem a ele. Verdade que Fred também foi inoperante em sua função, mas não podemos esquecer que nenhum jogador escala a si mesmo.

2. Luiz Felipe Scolari. Ele convocou e manteve Fred como titular incontestável, escalou (muito) mal o time contra a Alemanha, e na entrevista coletiva de ontem demonstrou que simplesmente não entendeu o que se passou no Mineirão (da mesma forma que Carlos Alberto Parreira). E o que aconteceu em 2012, no Palmeiras, ajuda a demonstrar que Felipão já não era mais o mesmo de antes: em junho ganhou a Copa do Brasil (quebrando escrita alviverde de títulos relevantes, o último fora a Libertadores de 1999), mas em setembro o treinador deixou o clube na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro (de onde o Palmeiras não mais sairia naquele ano); dois meses após a demissão, tornou-se técnico da Seleção em virtude da vitoriosa campanha de 2002, não de seus resultados em 2012. Felipão teria sido rebaixado caso não deixasse o Palmeiras, visto que não conseguia fazer o time reagir: definitivamente, isso não era um bom presságio. Mas, assim como Fred não escalou a si mesmo, Luiz Felipe não foi contratado por si mesmo.

3. José Maria Marin. Sim, transformar o detestado presidente da Confederação Brasileira de Futebol em “bode expiatório” (afinal, foi ele que contratou a atual comissão técnica e, sobretudo, é o mandatário-mor do futebol nacional) também é um erro. Marin não deveria de forma alguma ser presidente da CBF, mas é uma ilusão achar que basta ele sair para as coisas tomarem jeito. Toda a estrutura do futebol brasileiro é arcaica, amadora: “de cima a baixo”, da CBF aos clubes. Verdade que maus dirigentes não são “privilégio” brasileiro: uma possível vitória da Argentina nesta Copa não pode apagar o fato de que desde 1979 o futebol argentino tem como mandatário Julio Grondona, indicado por Carlos Alberto Lacoste (militar diretamente envolvido com a brutal ditadura que assolou nossos vizinhos). Mas não pode servir de justificativa para que as coisas continuem do mesmo jeito.

4. Torcida. Uma das queixas mais corretas, embora não completamente. Não sou fã do termo “coxinha” (muitas vezes ele é usado em um debate para “desqualificar” o oponente, o que demonstra falta de argumentos para continuar a troca de ideias: “não discuto mais pois você é um ‘coxinha'”, e saio achando que “ganhei” a discussão), mas ele é perfeito para descrever boa parte dos que foram aos jogos da Copa do Mundo: um bando de “coxinhas” cuja maior preocupação não era torcer, e sim tirar “selfies” para alimentar o ego nas redes sociais. Enquanto alguns torcedores de verdade se desesperavam no Mineirão por conta do vexame (caso de meu amigo Leonardo Sato, um dos maiores apaixonados por futebol que conheço), no mesmo estádio os “patriotas de ocasião” estavam felizes porque suas “selfies” ganhavam muitas “curtidas” no Facebook e no Instagram. É no que dá ter ingressos tão caros (e nem me refiro só à Copa do Mundo, que ofereceu certa quantidade de ingressos a R$ 60, o que pode ser considerado barato para um torneio desta magnitude): com isso, os estádios têm cada vez menos torcedores e mais “exibicionistas”.

5. Dilma Rousseff. Sim, acreditem: já tem gente passando atestado de burrice ao associar a derrota brasileira na Copa ao governo Dilma. O pessoal “esquece” (no fundo, sabem que são oportunistas de quinta categoria) que a Seleção é controlada pela CBF (uma entidade privada) e que em caso de intromissão governamental ela pode ser suspensa ou mesmo desfiliada pela FIFA (outra entidade privada). Culpar qualquer governante por uma derrota no futebol é tão estúpido quanto cobrar o técnico de qualquer time por problemas sem relação com o esporte (aliás, o que mais vejo são pessoas culpando Dilma por coisas que nada têm a ver com o governo federal, e inclusive que sequer aconteceram no Brasil, numa mostra de que não há limites para a estupidez). Aliás, também é burrice tentar associar o fracasso futebolístico ao governo acreditando em dividendos eleitorais pois, desde que se tornou “regra” as eleições presidenciais acontecerem meses após a Copa do Mundo, só em 1994 houve coincidência entre vitória da Seleção e do candidato do governo (Fernando Henrique Cardoso, que ganhou a eleição devido ao Plano Real e não por conta dos gols de Romário). Depois sempre “deu o contrário”, com a situação vencendo em anos de derrota brasileira (1998, 2006 e 2010) e com o oposicionista Lula sendo eleito poucos meses após a vitória da Seleção na Copa de 2002. O que obviamente não quer dizer que Dilma já esteja reeleita, mas sim que o povo sabe separar as coisas, ao contrário do que alguns “ilustrados” pensam.


Por fim, resta agora torcer pela Argentina. Apesar dos dirigentes (e me pergunto se alguém torceu contra seu clube alguma vez por não gostar do presidente) e do futebol apresentado (a Alemanha jogou muito mais durante a Copa, e é favorita na final), fico com minha identidade latino-americana. Ultimamente os europeus têm levado nossos jogadores embora cada vez mais jovens (muito por incompetência dos clubes em segurá-los por mais tempo) e os confrontos interclubes entre América do Sul e Europa estão a cada ano mais desiguais, então que ganhemos deles pelo menos nas disputas entre seleções.

Mas reconheço que vai ser bem difícil…

Coisas do país do futebol

22 de dezembro, ano quase acabando – mas no final, como já é tradição, se arrasta como nunca. As principais notícias esportivas são especulações sobre transferências de jogadores de futebol. Além, é óbvio, das (atrasadas) obras para a Copa.

Enquanto isso, o Brasil fez história em Belgrado, capital da Sérvia. Na final do Campeonato Mundial de Handebol feminino, a Seleção Brasileira bateu a dona da casa por 22 a 20, conquistando o título pela primeira vez. Uma belíssima página escrita na história do esporte brasileiro.

Não se pode mentir: houve notícias sobre a campanha brasileira. Principalmente quando o Brasil se classificou para a semifinal, um feito já histórico: até então, o melhor resultado da Seleção fora o 5º lugar no Mundial de 2011, disputado no próprio Brasil.

Mas, em nenhum momento houve grande destaque sobre o que estava acontecendo na Sérvia. Para muitas pessoas, uma conquista histórica do esporte brasileiro passou quase despercebida: para saber mais informações, era preciso “correr atrás”, não havia manchetes garrafais nem matérias bem elaboradas.

Alguma emissora de televisão aberta transmitiu a final? Não pergunto para dizer “não”, mas sim porque realmente não sei de algum canal aberto que tenha transmitido a final…

Milhares de motoristas sozinhos em seus carros trancam o trânsito

A sexta-feira foi um dia de caos em Porto Alegre. Devido ao treino da Seleção Brasileira no Beira-Rio, a avenida homônima que passa junto ao estádio foi fechada. O resultado não poderia ter sido outro: congestionamento por toda parte.

Quando acontece alguma manifestação, é normal os principais portais de notícias darem destaque não à reivindicação, e sim, ao trânsito. “Ato contra reajuste das passagens causa congestionamentos”, era mais ou menos nessas palavras que se referiam aos protestos contra o aumento da passagem do ônibus. Porém, hoje não consegui encontrar nenhuma matéria falando sobre a Seleção ter trancado o trânsito.

Porém, a verdade é que não foi o treino do time de Felipão que causou o caos. Quem tranca o trânsito não é a Seleção, nem as manifestações nas ruas: são os próprios motoristas que circulam sozinhos em seus carros (quando poderiam levar mais quatro pessoas junto, no mínimo). Eles reclamam do problema sem perceberem que são o problema.

É muito tentador atribuir a outros elementos a tranqueira. Lembro que certa vez eu ia de ônibus para a faculdade, e na Ipiranga o trânsito não andava. Quando vi uma carroça, foi inevitável pensar que ela estava atrapalhando a nossa vida, que não devia circular na Ipiranga aquela hora etc. Porém, desliguei o “piloto automático” e reparei no entorno: vários carros só com o motorista. Não fossem tantos, o trânsito fluiria sem problemas, com ou sem carroça.

É por isso que as prefeituras têm de parar de investir em vias para automóveis*: isso só estimula mais pessoas a usarem o carro particular. E desse jeito o trânsito vai trancar, prejudicando os próprios motoristas reclamões, além dos que realmente precisam do carro para trabalhar; assim como aos que se deslocam usando ônibus (que também ficam presos no trânsito, pois boa parte das ruas não têm faixa exclusiva) e mesmo a quem anda a pé, pois se em situação “normal” os motoristas já não costumam ter respeito ao pedestre, quando o trânsito congestiona eles ignoram a existência da faixa de segurança, param em cima mesmo.

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* Prova disso é o que vi em Buenos Aires: a Avenida 9 de Julio é uma das mais largas do mundo, com um grande número de faixas, e mesmo assim passa boa parte do tempo congestionada em dias úteis. A prefeitura da capital argentina decidiu agir: só que ao invés de alargar ainda mais a avenida, está implantando um corredor de ônibus.

Um país de secadores

Acabou agora há pouco a partida entre Brasil e Chile, empate em 2 a 2. Não vi todo o jogo, mas me chamou a atenção a quantidade de manifestações contra a Seleção no Twitter e no Facebook. (E não me refiro a quem foi ao Mineirão, pois as vaias foram um claro sinal de descontentamento com o fraco desempenho nos últimos três anos.)

Antes de qualquer coisa, não quero criticar ninguém por isso (até porque eu também não consigo torcer faz muito tempo). Mas ultimamente eu venho me questionando: por que tantos não apoiam a Seleção, e chegam a torcer contra?

“Há corrupção na CBF”, poderá me dizer alguém. E é um bom motivo, afinal, ela é responsável pela Seleção. Porém, há corrupção em nosso clubes, e isso faz com que torçamos contra eles?

“O futebol é o ópio do povo”, poderá me dizer outra pessoa. Espero que seja coerente e não fume, não beba…

“A Seleção não me representa”, também pode ser um argumento. Mas, por esse critério, posso até dizer que o Grêmio não me representa – e não é por estar jogando mal, já que por pior que esteja, jamais chegará perto de minha “categoria” com uma bola de futebol.

Vários questionamentos poderiam ser feitos para tentar entender o motivo pelo qual tanta gente seca a Seleção (já eu sou indiferente). Talvez seja porque há corrupção na CBF, por não gostarem de futebol, não se sentirem representados por aqueles jogadores etc. Ou, quem sabe, sou eu que tenho muitos amigos “secadores”…

30 anos sem Garrincha

Garrincha

Algum de seus muitos irmãos batizou-o de Garrincha, que é o nome de um passarinho inútil e feio. Quando começou a jogar futebol, os médicos o desenganaram: diagnosticaram que aquele anormal nunca chegaria a ser um esportista. Era um pobre resto de fome e de poliomielite, burro e manco, com um cérebro infantil, uma coluna vertebral em S e as duas pernas tortas para o mesmo lado.

Nunca houve um ponta direita como ele. No Mundial de 58, foi o melhor em sua posição. No Mundial de 62, o melhor jogador do campeonato. Mas ao longo de seus anos nos campos, Garrincha foi além: ele foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol.

Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa. Garrincha não deixava que lhe tomassem a bola, menino defendendo sua mascote, e a bola e ele faziam diabruras que matavam as pessoas de riso: ele saltava sobre ela, ela pulava sobre ele, ela se escondia, ele escapava, ela o expulsava, ela o perseguia. No caminho, os adversários trombavam entre si, enredavam nas próprias pernas, mareavam, caíam sentados.

Garrincha exercia suas picardias de malandro na lateral do campo, no lado direito, longe do centro: criado nos subúrbios, jogava nos subúrbios. Jogava para um time chamado Botafogo, e esse era ele: o Botafogo que incendiava os estádios, louco por cachaça e por tudo que ardesse, o que fugia das concentrações, pulando pela janela, porque dos terrenos baldios longínquos o chamava alguma bola que pedia para ser jogada, alguma música que exigia ser dançada, alguma mulher que queria ser beijada.

Um vencedor? Um perdedor com boa sorte. E a boa sorte não dura. Bem dizem no Brasil que se merda tivesse valor, os pobres nasceriam sem cu.

Garrincha morreu sua morte: pobre, bêbado e sozinho.

(Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 118-119.)

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Suécia, junho de 1958. Após estrear na Copa do Mundo com vitória de 3 a 0 sobre a Áustria, o Brasil ficou no 0 a 0 contra a Inglaterra. Na última rodada, teria pela frente a União Soviética: apesar de estreante em Copas, tinha Lev Yashin no gol (um dos maiores goleiros de todos os tempos), vinha badalada pela medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956) e, dizia-se, jogava um “futebol científico”. Se o Brasil perdesse para a URSS e a Inglaterra vencesse a Áustria, estaria eliminado.

A má atuação contra a Inglaterra, somada ao risco de eliminação em caso de derrota, motivou o técnico Vicente Feola a mexer no time para o jogo contra a URSS: saíram Joel, Mazzola e Dino Sani para a entrada de Garrincha, Pelé e Zito. (Por muitos anos se disse que os jogadores teriam procurado o técnico e sugerido as mudanças, fato negado por Zito.)

Na preleção, Feola mostrava como o time deveria se postar para vencer o “futebol científico” dos soviéticos. Foi quando Garrincha manifestou sua curiosidade: “já combinaram com os russos?” – sim, pelo que o técnico dizia seria muito fácil, parecia estar combinado com o adversário… Uma amostra do temperamento um tanto ingênuo que caracterizava o “anjo das pernas tortas”. (Diz-se que quando chegou ao Botafogo para fazer um teste, ninguém acreditava que poderia jogar futebol, até ele dar um drible desconcertante em Nílton Santos, melhor jogador do time – após o lance, o próprio Nílton teria dito “contratem ele agora”.)

Porém, Mané Garrincha não precisava combinar com ninguém. Como “cartão de visitas”, entortou os soviéticos e meteu uma bola na trave de Yashin logo no começo do jogo. Com dois gols de Vavá, o Brasil venceu por 2 a 0 e arrancou para a conquista de sua primeira Copa do Mundo.

Com Pelé e Garrincha jogando juntos, “derrota” foi uma palavra inexistente no dicionário da Seleção Brasileira. Tanto que em 1966 o Brasil caiu na primeira fase da Copa da Inglaterra após uma preparação muito bagunçada, mas na estreia venceu a Bulgária por 2 a 0 – justamente a última partida em que Pelé e Garrincha jogaram juntos. Nos jogos seguintes, duas derrotas por 3 a 1 para Hungria (única vez que a Seleção perdeu com Garrincha) e Portugal eliminaram o Brasil do Mundial.

No Mundial do Chile, em 1962, Pelé se machucou no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia. Mau sinal para o Brasil? Não, pois Garrincha estava com tudo. A Copa de 1962 foi sua. Na semifinal contra os donos da casa, motivou o jornal chileno El Mercurio a perguntar de que planeta teria vindo aquele gênio com duas pernas tortas para o mesmo lado.

Caçado pelos chilenos, acabou expulso ao revidar um pontapé, mas foi liberado pela FIFA para jogar a final contra a Tchecoslováquia (diz-se que a liberação se deveu ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa). Nada que manche tudo o que Mané fez naquele Mundial – até porque, com febre de quase 40°C, Garrincha não jogou contra os tchecos o mesmo futebol que já tinha mostrado antes.

Porém, a lenta decadência começou pouco tempo depois da Copa de 1962. Aos hábitos de fugir das concentrações e beber demais (tolerados porque ele barbarizava em campo), somou-se um problema nos joelhos, cuja recuperação não evoluía justamente porque Garrincha não se cuidava. Acabou dispensado pelo Botafogo no final de 1965, foi para o Corinthians e, depois, teve passagens rápidas por vários clubes, sem jogar o mesmo futebol que o consagrara.

Garrincha acabou vitimado por uma cirrose hepática em 20 de janeiro de 1983, fruto de seu excessivo consumo de álcool.

Brasil versus combinados regionais: errei

No texto anterior, o leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada. Disse eu que aquele Seleção Brasileira versus “Seleção Gaúcha” em 17 de junho de 1972 teria sido o último confronto do Brasil contra um combinado regional de dentro do país. Mas, depois daquela partida, só a “Seleção Gaúcha” (chamo assim, entre aspas, por ela na verdade reunir jogadores que jogavam no Rio Grande do Sul, principalmente na dupla Gre-Nal, fossem eles gaúchos ou não) ainda jogou duas vezes contra a Seleção Brasileira.

A primeira foi pouco antes da Copa do Mundo da Argentina. E de forma semelhante ao acontecido seis anos atrás, havia ressentimento nas arquibancadas do Beira-Rio: o técnico Cláudio Coutinho deixara Falcão (catarinense de Abelardo Luz) fora da Seleção que disputaria a Copa do Mundo, apesar dele vir jogando muita bola no Inter. Assim como em 1972, o jogo da noite de 25 de maio de 1978 acabou empatado, desta vez em 2 a 2.

Em 19 de janeiro de 1983, pela última vez a “Seleção Gaúcha” enfrentou a Seleção Brasileira. Só que, diferentemente do acontecido nos dois confrontos anteriores, os “gaúchos” levaram 4 a 1.

O que me dá vergonha de ser gaúcho

Espaços para comentários sem moderação, principalmente em matérias da “grande imprensa”, têm uma incrível tendência à baixaria e a demonstrações das piores características de quem comenta. É assim em textos sobre política, cultura, e principalmente, sobre futebol.

Pois bem: hoje, o Esporte Espetacular apresentou uma reportagem sobre o famoso jogo entre a Seleção Gaúcha e a Seleção Brasileira, realizado no Beira-Rio em 17 de junho de 1972. Tem algumas coisas bem interessantes na matéria: a Globo chamou jogadores que disputaram a partida, como Paulo Cesar Caju, Rivellino e Claudiomiro; também apresentou algumas imagens do jogo. Porém, senti muita falta de outras, como uma melhor análise do contexto da época (não só futebolístico, como também político): como não estava com vontade de escrever tudo de novo, recomendo o texto que escrevi logo após o 40º aniversário da partida.

Mas, se a matéria tem seus problemas, terrível mesmo é ler os comentários sobre ela. Um texto lembrando um jogo que se fosse proposto nos dias de hoje (desde então nunca mais a Seleção Brasileira enfrentou algum combinado estadual), pareceria ideia de O Bairrista, só podia resultar em… Bairrismo explícito nos comentários.

Aliás, antes fosse simplesmente bairrismo. Na citada matéria, um dos raros comentaristas sensatos disse que a overdose de comentários “gauchamente orgulhosos” fazia ele sentir vergonha de ser gaúcho. Resultado: os “gaúchos melhores em tudo” começaram a xingá-lo e dizer que ele deveria “ir embora” do Rio Grande do Sul.

A verdade é que o tal de “orgulho gaúcho”, alicerçado na crença absurda de que somos “os melhores em tudo”, já começa a ser mais do que bairrismo, se tornando ufanista e mesmo xenófobo. Não por acaso, para muitos que compartilham dessa visão (e que inclusive comentaram na reportagem da qual falei) o Rio Grande do Sul deveria ser um país independente, por ser “tão diferente” (leia-se “tão melhor em tudo”). Como se a principal característica do Brasil não fosse justamente a diversidade, ainda mais por suas dimensões continentais.

E a chuva de “vai embora” pro cara que criticou o bairrismo e disse ter ficado com vergonha de ser gaúcho me fez lembrar da famosa frase ufanista “Brasil: ame-o ou deixe-o”, dos tempos da ditadura militar: qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de história sabe que o “amor pelo Brasil” na expressão correspondia, na verdade, a não criticar o regime. Quem o fazia, era “traidor da pátria” – assim como os que criticam o bairrismo exagerado viram também “traidores”.

Alguém pode argumentar que o “orgulho gaúcho” é muito diferente do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, por não ter um regime autoritário por trás. Porém, há uma certa imprensa (que inclusive apoiava a ditadura militar) o insuflando, ao transformar gaúchos em referências sobre qualquer acontecimento no mundo – mesmo que na hora ele esteja a mais de mil quilômetros de onde o fato ocorre. Pois ver um naufrágio na costa da Itália ser transformado em “drama gaúcho” é de se finar de rir (e certamente tem muita gente rindo de nós por conta disso), mas há quem leve isso muito a sério e realmente acredite que o Rio Grande do Sul é o centro do universo.

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Atualização (07/08/2012, 23:07). O leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada – a correção virou novo post.

“Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”

Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici, fanático por futebol e que costumava frequentar estádios, tornou-se ditador do Brasil. Durante seu período de governo (até 15 de março de 1974), o país viveu o período mais sangrento da repressão política, com a intensificação da tortura e dos desaparecimentos forçados. Continuar lendo

O dia em que percebo o quanto estou velho

17 de junho. Hoje o Brasil celebra os 50 anos do bicampeonato mundial conquistado no Chile. Desde então, nunca mais uma seleção ganhou duas Copas seguidas.

Hoje também é o 40º aniversário do famoso jogo da Seleção Brasileira contra uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal), em “desagravo” a Everaldo. Já era para ter um texto aqui sobre a partida, mas me atrapalhei demais e ficou para amanhã.

Mas este 17 de junho também mostra o quanto estou velho, por outros dois fatos importantes – e também relacionados a futebol – que são lembrados hoje.

O primeiro deles é que hoje faz 20 anos que o São Paulo ganhou a Libertadores pela primeira vez. Mesmo sendo gremista, não posso negar que dava gosto ver aquele São Paulo de 1992/93, timaço que marcou época como um dos melhores times que já vi jogar. Foi o esquadrão que dominou o futebol brasileiro antes do início dos duelos entre Grêmio e Palmeiras.

Já o segundo, é algo que já falei alguns meses atrás. Hoje faz 18 anos que começou a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Quem nasceu naquele dia do qual me lembro tão bem, acaba de atingir a maioridade.

Em questão de semanas, será a vez de Mattheus, filho de Bebeto, comemorar sua chegada à maioridade…