Das efemérides

Depois do ótimo almoço de domingo (feijão tropeiro, feito por gaúchos com feijão argentino), conversando com o meu pai recordei uma efeméride: 1º de setembro é o aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Neste caso em específico, foi o de 80 anos.

Meu pai comentou que o fato era digno de uma postagem no blog. Pensei que realmente era. E que isso aconteceria sem dúvida alguma nos meus bons tempos, em que bastava pensar em um assunto e sentar à frente do computador que o texto sairia quase ao natural. Então lembrei que não precisava ficar apenas me lamentando: exatos dez anos atrás escrevi um sobre o 70º aniversário do início da guerra que eu não mudaria muito nos dias de hoje, pois só foi preciso corrigir um ou outro erro de português (nada como uma década para ajudar na revisão, e os equívocos que sobrarem serão corrigidos em setembro de 2029).

A efeméride me fez pensar que nosso mundo atual anda cada vez mais parecido com aquele de 1939. Em várias partes do mundo a extrema-direita ganha força, por mais que as pessoas digam rejeitar o nazi-fascismo: ele é pintado como algo “anormal”, e a humanidade acredita estar “vacinada” contra ele.

Mas não está: uma das principais características do fascismo (do qual o nazismo era a versão alemã, com algumas particularidades) é oferecer “soluções simples” para tudo e, principalmente, ter um “inimigo” que sirva para dividir a sociedade entre “nós” e “eles”. Na União Europeia, o medo dos imigrantes de origem árabe que fogem da guerra e da pobreza em seus países de origem deu força à extrema-direita até mesmo na Alemanha (onde ela obteve em 2017 seus melhores resultados eleitorais no pós-guerra) e elegeu governos que descambaram para o autoritarismo puro e simples, como é o caso da Hungria. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito presidente prometendo construir um muro na fronteira com o México para barrar a imigração de latino-americanos, por lá chamados pejorativamente de cucarachas (baratas).

Já aqui no Brasil, várias pessoas culpam o PT por todos os males, desde a crise econômica iniciada em 2014 (que qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de geopolítica sabe que foi causada apenas por erros do governo petista) até mesmo a problemas que podemos chamar de “sistêmicos” (como a corrupção) e também imaginários como a tal “ameaça comunista” (que já tinha “justificado” o golpe civil-militar de 1964, e mesmo que em 13 anos de governo o PT jamais tenha implantado uma só política que se assemelhasse ao comunismo). Contra ele vale tudo, até votar em um político que em 2016 foi apontado como um dos mais repulsivos do mundo por um importante site de notícias australiano.


Adolf Hitler não era levado a sério com suas promessas de romper os humilhantes tratados de 1919 que tinham sido impostos à Alemanha; quando seu Partido Nazista chegou ao poder em 1933, não foi visto como ameaça pelos grandes industriais alemães (alguns dos quais aderiram com entusiasmo ao nazismo) nem pelas potências europeias rivais (França e Grã-Bretanha), que temiam mais o comunismo e a União Soviética de Josef Stalin que um renascimento do expansionismo alemão (que anteriormente já tinha sido uma das causas da Primeira Guerra Mundial). Ainda mais que Hitler também elegia como “inimiga” a URSS. Logo a Alemanha começou a anexar territórios estrangeiros: primeiro a Áustria (terra natal do ditador), depois a região tchecoslovaca dos Sudetos e na sequência a Tchecoslováquia inteira. O máximo que ouviram foi uma ameaça de britânicos e franceses de que não tolerariam uma invasão da Polônia: fazendo concessões, acreditaram que seria possível “segurar” Hitler e deram com os burros n’água.


Jair Bolsonaro não era levado a sério com seus discursos odiosos e que teciam loas à ditadura, e não era visto como ameaça pela direita tradicional, liderada pelo PSDB, visto que ambos tinham como “inimigo” o PT, que queriam derrotar a qualquer custo. Quando Bolsonaro tornou-se líder nas pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial de 2018, boa parte da direita tradicional teve certeza que ele “perderia força”, mas depois, quando o candidato da extrema-direita foi ao segundo turno e venceu, ela acreditou que fazendo concessões (leia-se “oferecendo apoio parlamentar a reformas de caráter ultraliberal”) seria possível “segurá-lo”, tornando seu governo “normal”, respeitador da Constituição de 1988 e do pacto sócio-político que foi vigente por quase 30 anos. Vários setores do empresariado e do agronegócio viram nele uma opção “menos pior que o PT”, e alguns aderiram ao bolsonarismo com entusiasmo…

Ei, já não vimos um filme parecido?


No fim, acabei escrevendo um texto bem maior do que imaginava, ainda mais que não estou nos meus bons tempos. Mas nada de novo, ao menos no tocante à Segunda Guerra Mundial.

E nem sequer respeitei o prazo: só terminei no dia 2 de setembro, quando a efeméride já passou.

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A batalha sem campo

Em 22 de junho de 1941, teve início a invasão da União Soviética por tropas alemãs, quebrando o pacto de não-agressão acordado entre a Alemanha nazista e a URSS menos de dois anos antes. Os alemães adentraram ao território soviético de maneira arrasadora, visto que o ataque de forma alguma era esperado (diz-se que Josef Stalin demorou dias a emitir algum comunicado por sentir-se traído por Adolf Hitler). Somente onze dias após o início da invasão é que o ditador soviético finalmente falou: determinou o uso da chamada “tática de terra arrasada”, que consistia em destruir tudo o que pudesse servir aos alemães; consequentemente, os próprios soviéticos passaram a queimar casas e plantações, de modo a deixar as forças inimigas desabrigadas e sem alimentos à disposição, o que as prejudicaria principalmente quando tivesse início o inverno, que naquela região é rigorosíssimo. Foi a mesma tática utilizada para repelir a invasão napoleônica à Rússia em 1812, e que novamente deu certo na Segunda Guerra Mundial (ou “Grande Guerra Patriótica”, como chamam os russos).

Porém, a expulsão dos alemães demorou mais tempo, pois embora eles não estivessem preparados para as dificílimas condições impostas pelo inverno russo, ainda assim eram forças muito bem equipadas. Após o inverno de 1941-1942 a União Soviética continuava na defensiva frente à Alemanha, apesar dos invasores não terem conseguido tomar duas cidades de grande valor simbólico na operação: Moscou (por ser a capital) e Stalingrado (por seu nome homeagear Stalin). E foi justamente na “Cidade de Stalin” que se deu o “ponto de inflexão” na guerra: a famosa Batalha de Stalingrado, travada por vários meses nas ruas da cidade, culminou com uma decisiva vitória soviética em fevereiro de 1943. Dali em diante, a URSS tomou a ofensiva e por dois anos avançou até a conquista de Berlim em maio de 1945 e o consequente fim da guerra.


O leitor pode ser curioso e querer saber onde exatamente se deu tão importante batalha. Logicamente, vai ao Google Maps e digita “Stalingrado, Rússia”, mas percebe que a pesquisa dá como resultado uma cidade chamada “Volgogrado”, sugestivamente às margens do Rio Volga, um dos mais importantes da Rússia.

Estranho: afinal, não dizem que o Google sabe de tudo? Ou será que a Batalha de Stalingrado é apenas um mito e na verdade nunca aconteceu? Afinal, nunca se viu batalha sem campo (embora esta tenha se dado em área urbana).

Pois o Google sabe, sim. Tanto de Geografia como de História.

A cidade que ele encontrou já mudou de nome duas vezes. Fundada em 1589 com o nome de Tsaritsyn, em 1925 passou a chamar-se Stalingrado para homenagear Stalin, recém ascendido à liderança da União Soviética após a morte de Lenin (sem contar que não fazia mais sentido uma cidade com nome que remetesse ao deposto regime tsarista). Mas no ano de 1961 sua denominação foi novamente alterada: passou a chamar-se Volgogrado (“Cidade do Volga”), e não foi exatamente para homenagear o rio.

O que aconteceu foi o processo conhecido como “Desestalinização”, que consistiu na eliminação do culto à personalidade de Stalin (falecido a 5 de março de 1953) após seu sucessor Nikita Khrushchev denunciar no famoso “Discurso Secreto”, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), os crimes cometidos pelo regime stalinista. Foi algo chocante aos que ouviram Khrushchev, dado que Stalin era visto como herói devido à sua liderança na Segunda Guerra, e não como um terrível ditador cuja política repressiva vitimou tanto opositores como muitos integrantes do próprio Partido Comunista.

As denúncias tornaram inaceitável manter qualquer homenagem a Stalin – e eram muitas. Incluindo o hino nacional (que continha referências ao ditador) e a cidade onde se dera tão importante batalha da “Grande Guerra Patriótica”.

A importância de tais homenagens não foi suficiente para mantê-las “intactas”. A letra do hino soviético foi suprimida e só readotada em 1977, mas sem as referências ao ditador. Já Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado: a mudança provavelmente não agradou a todos os habitantes da cidade (desde simpatizantes do ditador até “pragmáticos” que preferiam o antigo nome por estarem acostumados a ele), mas não era mais possível homenagear Stalin e, por conta disso, ela não foi revertida.


Os parágrafos acima demonstram que mudar nomes de ruas por homenagearem ditadores não é “bobagem” ou “falta do que fazer”, como dizem muitos idiotas em caixas de comentários por aí acerca de uma grande vitória obtida hoje em Porto Alegre por quem defende a democracia: a aprovação pela Câmara de Vereadores de um projeto de lei da bancada do PSOL que altera o nome da principal entrada da cidade, de Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia. Fernanda Melchionna e Pedro Ruas já tinham apresentado projeto semelhante em 2011, mas ele fora rejeitado por 16 votos contra 12. Hoje, a vitória foi acachapante: 25 a 5.

O projeto será enviado ao prefeito José Fortunati (PDT). Se sancionado, a principal entrada de Porto Alegre deixa de homenagear o “inaugurador” da ditadura militar e passa a fazer referência à democracia e a um movimento em sua defesa, a Legalidade – que, coincidentemente, aconteceu no mesmo ano em que Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado (1961) e foi liderado pelo fundador do partido de Fortunati, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

Quem é contra a mudança provavelmente se utiliza de argumentos semelhantes a quem não quis que Stalingrado passasse a se chamar Volgogrado. Desde simpatia pela ditadura militar (autoritário é autoritário, independente de ideologia) até “pragmatismo”, por estarem acostumados ao nome que, espero, logo deixe de ser “atual”. Porém, reparem que é uma alteração com muito menos “tamanho”: não é uma cidade (que ainda por cima era famosa por uma das mais importantes batalhas da Segunda Guerra Mundial), apenas uma via que, inclusive, não tem nenhuma residência ou estabelecimento comercial, e cujos prédios mais próximos têm entradas por outras ruas (ou seja, em nada atrapalhará, pois não será preciso alteração de endereços devido à nova denominação).

Sem contar que a avenida é uma via expressa, praticamente sem esquinas. Logo, o custo da troca da sinalização viária (que muitos certamente questionarão) será imensamente inferior à dor causada por ditadores como Castelo Branco a muitos brasileiros – que em muitos casos se traduziu em prejuízo financeiro, pois várias pessoas perderam seus empregos pelo simples fato de serem contrárias à ditadura.


João Carlos Nedel (PP), um dos vereadores que votaram contra a proposta, disse que a alteração é uma tentativa de reescrever a História. Demonstrou assim que não entende nada de História: ela é constantemente reescrita a cada novo trabalho historiográfico produzido.

Henry, o salvador do mundo

Mês passado, postei aqui sobre como os números poderiam levar a um novo “Maracanazo” na Copa do Mundo de 2014. Não refarei toda a conta, o link anterior explica como funciona. Só digo que segundo a fórmula original (e também com as que inventei na hora) o campeão mundial de 2014 seria o mesmo de 1950, ou seja, o Uruguai. O que bem sabemos, não aconteceu, visto que a Celeste foi embora nas oitavas-de-final.

Para a fórmula continuar válida, também seria necessário que o Brasil tivesse sido campeão em 2006 e a Alemanha em 2010; mas como bem lembramos, deu respectivamente Itália e Espanha nessas duas Copas. Porém, vamos supor que tivesse saído tudo conforme os números previam, e tivesse dado Brasil em 2006, Alemanha em 2010 e Uruguai em 2014.

Na próxima Copa, para sabermos o campeão teríamos de subtrair 2018 de 3964, e o resultado seria 1946. Porém, ao olharmos a tabela com os resultados de todos os Mundiais, não encontramos campeão em 1946. E o mesmo acontece com 1942, que indicaria o vencedor de 2022.

A Copa do Mundo de 1942 não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que tornava impossível a realização de qualquer torneio internacional de futebol a nível mundial. O conflito só acabou em 1945, o que também inviabilizou a disputa do Mundial no ano seguinte: a Copa só retornaria em 1950, no Brasil, que era um dos candidatos a sede para 1942 (o outro era a Alemanha, que foi proibida de participar em 1950).

Percebam, assim, a importância que teve aquele gol de Thierry Henry marcado contra o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006: foi o que enterrou definitivamente aquela “fórmula”. Caso ela continuasse válida, seria um sinal indiscutível da aproximação da Terceira Guerra Mundial. Ainda mais no atual contexto internacional: a região oriental da Ucrânia vive uma guerra civil, com rebeldes lutando pela anexação das províncias do leste à Rússia.

Com a queda de um avião da Malaysia Airlines justamente na área conflagrada, com suspeitas de que teria sido abatido por um míssil terra-ar, há acusações de lado a lado: o Ocidente acusa os separatistas de terem lançado o míssil que derrubou a aeronave e, de quebra, a Rússia por ter fornecido-lhes armas; já uma fonte do Kremlin diz que o ataque teria sido ordenado pelo governo ucraniano e que o verdadeiro alvo seria o avião presidencial russo (semelhante à aeronave derrubada), ou seja, que o objetivo seria matar Vladimir Putin, que retornava da reunião de cúpula do BRICS acontecida no Brasil (as rotas dos dois aviões eram coincidentes no leste da Europa). Claro que em ambas as versões há coisas estranhas: na primeira, é preciso entender o que levaria os rebeldes a abaterem uma aeronave que não é de uso militar; já na segunda, é de se questionar por que a Ucrânia teria optado por uma maneira tão pouco discreta para tentar assassinar Putin, ainda mais sabendo que um atentado desse nível pode ter consequências seríssimas – há 100 anos, a “faísca inicial” da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria-Hungria, que nem era a principal potência europeia em 1914 (enquanto a Rússia atual é uma superpotência dotada de milhares de ogivas nucleares). Mas, ainda assim, trata-se de um acontecimento que ainda terá muitos desdobraentos.

Tivesse dado Brasil, Alemanha e Uruguai nas últimas três Copas, a essa altura eu já estaria pensando seriamente em construir um abrigo subterrâneo para me proteger de possíveis ataques nucleares que viriam na iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, graças àquele gol que eliminou o Brasil em 2006 e enterrou a “fórmula mágica”, confio em uma solução diplomática que impeça o fim do mundo.

Obrigado, Henry.

A Hora “W”

Varsóvia, 1º de agosto de 1944. Às 17h locais, o exército da resistência polonesa (Armia Krajowa) atacou as tropas nazistas que ocupavam a cidade desde o início da Segunda Guerra Mundial e deu início à Revolta de Varsóvia, com o objetivo de libertar a capital – e o próprio país – do domínio tanto alemão quanto soviético. (A Conferência de Teerã, em 1943, já estabelecera a “partilha” da Europa para o pós-guerra com a Polônia ficando na área de influência da União Soviética, o que não deixava de ser a troca de uma dominação por outra.)

O levante acabou derrotado após dois meses, vários milhares de mortos e desaparecidos, e muitos prédios destruídos nos combates (como se já não bastassem os danos que vinham desde 1939). Após a rendição dos resistentes os nazistas continuaram a destruir Varsóvia, de modo que em 1945, quando a guerra chegou ao fim, 85% da capital polonesa estava em ruínas.

A cada 1º de agosto, os poloneses literalmente param tudo o que estão fazendo às 17h para prestar homenagem aos resistentes com um minuto de silêncio, na chamada Hora “W” (Godzina “W”, de “Warszawa”).

Mentiras sobre a Avenida da Legalidade

No quarto parágrafo do texto de quarta-feira, comentei sobre a comodidade de se manter o atual nome da “porta de entrada” de Porto Alegre, em nome da “facilidade de se localizar”. Afinal, já são 40 anos de homenagem ao ditador Castelo Branco, a população já se acostumou.

Era de se esperar que vozes contrárias à renomeação da avenida se levantassem. Porém, estão enganando a população com o uso de mentiras (por ingenuidade ou por descaramento).

Uma destas mentiras é a de que a mudança de nome da via – de Avenida Presidente (é ditador, pô!) Castelo Branco para Avenida da Legalidade – atrapalhará a vida dos porto-alegrenses. Pois eu digo que não atrapalhará em absolutamente nada: a avenida cujo nome homenageia Castelo Branco não tem residências nem estabelecimentos comerciais. Os prédios mais próximos da via têm entrada por outras ruas. Ou seja, não será preciso atualizar endereço nenhum. Mudarão apenas algumas placas, e serão poucas mesmo, pois como a referida avenida é uma via expressa, praticamente não tem esquinas.

Um outro argumento mentiroso é o de que “a esquerda quer reescrever a História conforme lhe convém”. É bem típico de quem não entende absolutamente nada de História, pois ela é constantemente reescrita. Se a Física, uma ciência exata, não é imutável (Albert Einstein que o diga), por que a História teria de ser rígida? Inclusive, a cada trabalho historiográfico – acadêmico ou não – a História é reescrita, ganha uma nova versão.

No caso da avenida, não se trata de uma nova versão da História, e sim, de trocar uma homenagem: ao invés de um ditador, um movimento em defesa da democracia. (E não me venham com o papo furado de que “os militares nos salvaram de uma ditadura comunista”: muito fácil se dizer defensor da democracia depois de acabar com ela…)

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Lembram da famosa Batalha de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial? Sua denominação se deve à cidade onde os combates aconteceram. Porém, há muitos anos ela não se chama mais Stalingrado, e sim, Volgogrado. A cidade mudou de nome justamente para não mais homenagear um ditador: Josef Stalin.

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E o Guga Türck tem uma outra proposta, ainda mais ousada. E que iria deixar ainda mais em pé os cabelos dos direitosos, já que mudaria o nome da rua dos poderes do Rio Grande do Sul…

A Copa e a política no Brasil (parte 1)

1930 foi um ano muito importante, tanto no futebol como na política brasileira. No primeiro caso, devido à realização da primeira Copa do Mundo, de 13 a 30 de julho em Montevidéu, no Uruguai (todos os estádios utilizados ficavam na capital uruguaia). Já na política do Brasil, foi bem mais conturbado.

Em 1º de março de 1930, houve eleição presidencial. A disputa era entre o paulista Júlio Prestes, representante das oligarquias de São Paulo; e o gaúcho Getúlio Vargas, que concorria em nome de “todos os outros” (mas não podemos esquecer da posição do Rio Grande do Sul na economia nacional: era o terceiro Estado mais importante), e contava com o apoio de Minas Gerais devido à ruptura por parte dos paulistas do acordo entre as oligarquias dos dois Estados (a chamada “política do café-com-leite”, em que presidentes paulistas e mineiros se revezavam no poder).

O Brasil de então não tinha nenhum partido político de caráter nacional (exceto o Comunista, clandestino): os principais eram estaduais, como o PRP (Partido Republicano Paulista), o PRM (Partido Republicano Mineiro) e o PRR (Partido Republicano Riograndense), o que favorecia a que os candidatos se vinculassem mais a oligarquias regionais do que a projetos políticos.

Oficialmente, Júlio Prestes ganhou a eleição. Mas Getúlio Vargas também afirmava ter vencido: na época, as fraudes eram corriqueiras. De qualquer forma, não demorou muito a aceitar o resultado.

Em julho, dois fatos importantes: um simbólico, e outro político – que acabou definindo os rumos do país.

O primeiro, foi a participação brasileira na Copa do Mundo. A Seleção que foi ao Uruguai, na prática, era do Rio de Janeiro: devido a desavenças entre a CBD, comandada por cariocas, e a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), os paulistas decidiram boicotar o time: exceto Arakem Patusca, do Santos, todos os outros jogadores eram do Rio de Janeiro (Patusca, brigado com seu clube, embarcou no navio que levava a Seleção ao Uruguai quando este aportou em Santos). O Brasil foi eliminado na primeira fase: perdeu por 2 a 1 para a Iugoslávia (que garantiu a vaga na semifinal ao golear a Bolívia por 4 a 0) e despediu-se também goleando os bolivianos por 4 a 0. Festa em São Paulo, devido ao “fracasso da organização carioca”, e acusações mútuas entre paulistas e cariocas de “traição à pátria”.

A Copa ainda não havia terminado quando outro acontecimento teve ainda mais repercussão na vida nacional. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, governador da Paraíba e candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas que perdera a eleição presidencial em março, foi assassinado no dia 26 de julho, quando estava em Recife. O crime, embora não haja provas de que tenha sido “político”, serviu de motivação para a chamada Revolução de 1930, que a 24 de outubro derrubou Washington Luís, impediu a posse de Júlio Prestes e instalou Getúlio Vargas no governo.

A Revolução de 1930 teve caráter meramente político, sem alterar a ordem social brasileira. Inclusive há quem considere inapropriado utilizar o termo “revolução”. Acho que podemos utilizá-lo, mas, claro, fazendo a ressalva de que foi apenas uma revolução política.

O futebol foi afetado pela Revolução de 1930. Getúlio Vargas percebeu a popularidade do esporte, e como isso poderia beneficiar tanto o seu “projeto nacional” para o Brasil como a si próprio.

Vargas procurou “pacificar” as relações futebolísticas entre paulistas e cariocas, idealizando em 1933 o Torneio Rio-São Paulo (que passaria a ser disputado com regularidade em 1950). Aliás, era do interesse de Vargas agradar aos paulistas após a revolta de 1932, que ficou conhecida como Revolução Constitucionalista: embora derrotados militarmente, politicamente podemos dizer que a vitória foi paulista, já que o governo convocou uma Assembleia Nacional Constituinte.

O governo de Getúlio Vargas também promoveu a profissionalização do futebol no Brasil (acabando com o “profissionalismo marrom” que imperava até então), e procurou principalmente vincular a imagem do presidente à da Seleção Brasileira, que já começava a ser vista como “símbolo nacional”.

Em 1938, a ideia de que a o futebol representava a “criatividade do brasileiro” já fazia parte da propaganda do governo – ditatorial desde novembro de 1937, com a proclamação do Estado Novo. A presença de negros na Seleção era exaltada como símbolo da “democracia racial” – tese defendida por Gilberto Freyre – e a mestiçagem, antes desprezada, tornava-se símbolo de identidade nacional. Era preciso que a equipe que representaria o Brasil na França realmente fosse representativa da população desta “nação brasileira” em formação.

Houve um grande empenho governamental em torno da Seleção que disputaria a Copa de 1938, no sentido de justamente associar a imagem do time à de Vargas. Mas, acima de tudo, era preciso que a Seleção promovesse uma visão positiva do Brasil no exterior, a fim de apagar as impressões deixadas em 1934 (quando a participação brasileira na Copa se resumiu a 90 minutos, derrota de 3 a 1 para a Espanha) e, principalmente, contribuir para o aumento da popularidade do regime varguista. E de fato, foi o que aconteceu, mesmo sem conquistar o título: a derrota para a Itália na semifinal foi atribuída a “roubo”, o que causou um clima de comoção nacional.

Se o esporte já era encarado como símbolo da nacionalidade e também de civilização, organizar um grande evento esportivo era visto de igual forma. No caso do Brasil, a oportunidade que se apresentava era a Copa do Mundo de 1942, que o país fora escolhido para sediar. Porém, a Segunda Guerra Mundial mudou os planos, e a Copa ficou para 1950.

(Continua)

Atômica hipocrisia

Vários países ocidentais se posicionam contrariamente à possibilidade do Irã desenvolver armas nucleares. Aliás, não é de hoje que manifestam preocupação com o programa nuclear iraniano, embora o país sempre tenha dito que tem propósitos pacíficos, de apenas gerar energia.

O que eu acho? Concordo totalmente: o Irã não deve ter armas nucleares. Vou além: nenhum país deve tê-las. Pois, ironicamente, os que mais criticam o Irã são os que têm capacidade de destruir a Terra centenas de vezes, dada a potência de seu arsenal nuclear.

Inclusive, um destes países (Estados Unidos) já usou bombas atômicas contra alvos civis, matando centenas de milhares de pessoas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 – quando a rendição do Japão, que poria fim à Segunda Guerra Mundial, era questão de tempo.

70 anos do início da Segunda Guerra Mundial

No dia 1º de setembro de 1939, os exércitos nazistas cruzaram a fronteira com a Polônia, dando início ao maior banho de sangue de todos os tempos (até agora).

Engana-se, porém, quem pensa que a única motivação da Segunda Guerra Mundial foi a invasão da Polônia.

Muitas vezes se disse que a Segunda Guerra Mundial foi “uma consequência da Primeira”, e não deixa de ser verdade. A Alemanha foi a principal potência derrotada, e em 1919 lhe foram impostos “tratados de paz” absolutamente humilhantes: o país foi obrigado a pagar pesadas indenizações de guerra aos vencedores, e sofreu sérias restrições quanto ao controle de seu próprio território. Mergulhou em grave crise econômica, com uma inflação galopante (para se ter ideia, notas de um bilhão de marcos chegaram a circular, e o dinheiro se desvalorizava tão rápido que por vezes era preciso um saco de notas para comprar um pão), e altas taxas de desemprego. Além disso, os veteranos da guerra sentiam o desejo de vingança, aumentado com a crise e a humilhação a que foram expostos – terreno fértil para o florescimento de movimentos ultranacionalistas de extrema-direita como o nazismo, versão alemã do fascismo.

Adolf Hitler chegou ao poder em 1933, sem esconder que pretendia violar os tratados de 1919. Grã-Bretanha e França fizeram vistas grossas: o líder nazista era anticomunista ferrenho. As potências ocidentais apostaram suas fichas numa invasão alemã da União Soviética, considerada ameaça muito maior: o mundo capitalista ainda vivia sob os efeitos da grave crise econômica iniciada em 1929; enquanto isso a URSS se desenvolvia e era um modelo de “sociedade justa” (mesmo com a ditadura de Josef Stalin) para os trabalhadores, que sentiam ainda mais a crise.

Assim, Grã-Bretanha e França nada fizeram de concreto para impedir o início do expansionismo de Hitler. Em março de 1938, o ditador ordenou a anexação da Áustria, sua terra natal. Depois, a vítima seria a Tchecoslováquia: Hitler acusou o país de maltratar populações alemãs da região dos Sudetos; Grã-Bretanha e França concordaram com a anexação à Alemanha daquela porção de território tchecoslovaco. Depois, Hitler acabaria anexando todo o país – sem ouvir mais do que uma ameaça de Grã-Bretanha e França, de que não tolerariam uma invasão da Polônia.

Quando as tropas atravessaram a fronteira teuto-polonesa, finalmente os governos britânico e francês decidiram agir. Mas foi mais por falta de escolha do que por convicção. Além da promessa de defesa feita à Polônia, Grã-Bretanha e França não contavam com a jogada de Stalin, que assinou um pacto de não-agressão com Hitler. Com isso, Alemanha e URSS dividiriam a Polônia entre si, e os soviéticos poderiam anexar as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia – independentes desde 1918, e as primeiras a reivindicarem independência da URSS ao final da década de 1980). Mesmo que Stalin não esperasse a Operação Barbarossa em junho de 1941, graças ao pacto a URSS ganhou mais tempo para preparar a defesa contra uma invasão que mais cedo ou mais tarde aconteceria.

Sempre se diz que em uma guerra, a primeira vítima é a verdade. E de fato, é. As forças aliadas contra Hitler também cometeram crimes de guerra: o bombardeio de Dresden em fevereiro de 1945 segue gerando controvérsias, e há também denúncias de massacres cometidos pelos soviéticos na frente oriental. Sem contar as bombas atômicas jogadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, quando o Japão estava prestes a se render – e mesmo que não estivesse, nada justifica tamanha desumanidade.

Já as atrocidades cometidas pelos nazistas haviam se iniciado antes de 1º de setembro de 1939. A política de “embelezamento do mundo” mediante a “eliminação de pragas” (inclusive as “sociais”) fora cuidadosamente planejada. Elas ameaçavam as “boas famílias alemãs”, e precisavam ser exterminadas. O Holocausto não foi consequência da guerra, era política de Estado de Hitler: em novembro de 1938 já aconteceram massacres de judeus em diversas regiões sob domínio nazista, na chamada Noite dos Cristais.

É fundamental que tais acontecimentos jamais sejam esquecidos. Pois a derrota do nazismo no campo militar não significou o seu fim definitivo. Sua força reside não nos pequenos grupos que se declaram “neonazistas”, e sim no mito de que foi totalmente vencido. Há muitas pessoas que se questionadas sobre o que acham do nazismo, o rejeitam veementemente, visto que ele é associado ao que de pior já fez a humanidade. Porém, ao mesmo tempo defendem ideias que em muito se aproximam dele, sem se darem conta disso.

Síntese do pensamento dos concretoscos

Vez que outra, acesso alguns blogs pontaleiros, que defendem o “sim” na consulta de amanhã.

Um deles toscamente diz que votar NÃO é deixar a área do antigo Estaleiro Só do jeito que está – debocham da inteligência de milhares de pessoas ao acharem que queremos um monte de lixo (deixado no local pelo dono, que não limpa sua propriedade e não é multado!), quando há muito tempo defendemos que a área seja um parque público (afinal, ela é originalmente pública, foi cedida pelo Estado ao Estaleiro Só) – e apresenta o terreno como cheio de “ruínas, ratos e marginais”.

Uma leitora, que se identificou como Marie, deixou o seguinte comentário abaixo, que sintetiza bem o que pensam os concretoscos:

Fiquei um bom tempo procurando nas fotos os “marginais” que vocês citam no texto de entrada do site… E só encontrei algumas crianças, brincando no rio…

Claro, devem estar se referindo aos pobres… Que junto às “baratas e ratos” também citados serão erradicados do lugar por este “purificador e higienizador” projeto.

Quem vocês pensam que são para julgar e apontar outras pessoas como “marginais”?

Depois de ler esse comentário, acessei o álbum com as fotos e também não achei nenhum “marginal”. Só pessoas simples.

Pois é isso que eles querem com o Pontal do Estaleiro: afastar os pobres, “marginais” para os concretoscos.

A um parque público, todos têm livre acesso, ricos e pobres, sem distinção de classe social ou cor. No Pontal, quem iria? Dizem que haveria uma “área pública”, mas fica a pergunta: se uma pessoa bem humilde fosse lá, como seria tratada? O comentário que citei já dá uma pista.

E ao ler que os concretoscos consideram a área do antigo Estaleiro Só como de “ratos, baratas e marginais”, foi impossível não lembrar de tudo o que já li e assisti sobre o nazismo, que afirmava ter o propósito de “embelezar o mundo” acabando com as “impurezas” dele. Hitler considerava os “não-arianos”, principalmente judeus, como “pragas sociais” que precisavam ser eliminadas.

O problema era convencer a população alemã, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, a apoiar tal política sanguinária. A solução foi um discurso “higienizador”, apresentando as “pragas” – inclusive as “sociais” – como uma ameaça às “boas famílias alemãs”.

O resultado disso, qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de História sabe quais foram: Segunda Guerra Mundial e Holocausto.

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Por aqui já tivemos uma mostra ontem, com o assassinato do  trabalhador rural sem-terra Elton Brum da Silva em São Gabriel – o que já era temido pelo MST.

De fato, não é de se estranhar. No final de fevereiro, a Zero Hora publicou em sua seção de cartas o texto de um fascista (não tenho outras palavras para descrever o cara) que defendia o extermínio (sic) do MST. É o tipo de gente que quer acabar com a pobreza não reduzindo a desigualdade social, mas sim matando os pobres. Gente que certamente votará no “sim” amanhã.

Afinal, a pobreza é “feia” e “impura”, e Porto Alegre precisa ser “embelezada” – daí a necessidade, na ótica concretosca, do Pontal.

Noite e Neblina

Um documentário de meia hora, que vale por uma aula inteira sobre o Holocausto. Trata-se do excelente “Noite e Neblina”, dirigido pelo francês Alain Resnais. As legendas são em espanhol, não encontrei em português.

O filme foi produzido em 1955, por ocasião do 10º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, baseado em documentos – dados, fotos e filmes – deixados pelos próprios nazistas. E um de seus grandes méritos é, já naquela época, acusar não apenas os figurões do nazismo, como também as grandes corporações alemãs de manterem campos de concentração, para a exploração de mão-de-obra escrava. Pois nem todo mundo foi julgado em Nurenberg.

Também não faltam imagens chocantes, e não digo isso para “prevenir” quem se impressiona com facilidade. No final de “Noite e Neblina”, o diretor alerta: não podemos pensar que tais fatos se resumem a um país, em uma época. Por isso, é preciso chocar as pessoas mesmo, mostrar a elas o horror que significou tudo aquilo, para corrermos menos riscos de que se repita. Ainda mais considerando os tempos em que vivemos.