Das lições que o Chaves nos deixa

Roberto Gómez Bolaños (21/02/1929 - ∞)

Roberto Gómez Bolaños (21/02/1929 – ∞)

Na tarde de sexta-feira, 28 de novembro de 2014, o SBT interrompeu a transmissão do Chaves justamente para dar a notícia que todos os que estavam defronte à televisão jamais gostariam de receber. Preste atenção ao vídeo, pois mais adiante voltarei a falar dele em específico.

O seriado pelo qual Roberto Gómez Bolaños tornou-se mais famoso foi produzido entre 1971 e 1979. No Brasil, seus direitos de transmissão foram adquiridos pelo SBT e começou a ser transmitido em 24 de agosto de 1984. Desde então cada episódio já deve ter sido reprisado mais de cem vezes, quem o assiste chegou a decorar os diálogos, e ainda assim damos risada. Só o fato de ser um sucesso mesmo que se repetindo há 30 anos já é algo extraordinário, mas tem ainda mais um detalhe: tudo isso sem estar na tela da Globo. (Valendo lembrar que o seriado foi produzido pela Televisa, que tem no México o mesmo peso que a Globo no Brasil.)

Muitos se perguntam como um seriado produzido na década de 1970 pode continuar a fazer tanto sucesso mais de 40 anos depois. Arrisco dizer, com uma boa dose de certeza, que isso se deve principalmente ao fato do Chaves, sendo mexicano e, acima disso, latino-americano, retratar uma realidade muito mais próxima à nossa do que aquela de seriados estadunidenses. Afinal, mesmo as melhores séries do “Tio Sam” (por exemplo, “Arquivo X”) não mostram algo que vivenciemos no dia-a-dia, como nos depararmos com uma criança órfã e com fome na rua.

É um retrato bem-humorado da América Latina com o qual nos identificamos. Mas trata-se de um humor quase ingênuo, de maneira a que seja compreendido pelo público infantil. E com isso, nos ensinou várias lições inesquecíveis.

Mas talvez nenhuma tenha sido tão contundente quanto a do episódio abaixo, no qual o Chaves foi injustamente acusado de ter roubado diversos objetos na vila – a cena em que todos à sua volta o chamam de ladrão fez incontáveis pessoas chorarem na frente da televisão. Ele decidiu ir embora da vila, mas no dia seguinte retornou, e contou que rezara “para tudo ficar direito”. Quando a Chiquinha respondeu dizendo que as orações de nada tinham adiantado, visto que os roubos continuavam a acontecer, o Chaves contou que não rezara para que encontrassem o ladrão, mas sim para que ele se arrependesse e se tornasse bonzinho. O Senhor Furtado, autor dos roubos, passava pelo local naquele momento e ouviu o desejo do Chaves: consequentemente, devolveu os objetos e ainda presenteou o menino com um sanduíche de presunto.

O que aconteceu no episódio acima não foi apenas um sonho aparentemente ingênuo (de que criminosos se arrependam de serem “maus” e se tornem “bons”). O pedido do Chaves pelo arrependimento do ladrão foi também uma comovente defesa do humanismo, extremamente necessária frente ao crescente clamor por severa punição (ou seria pura e simples “vingança”?) a autores de quaisquer tipos de crimes. Pois se o personagem é um menino um tanto inocente, seu criador já era na época bem adulto, e com isso passou uma mensagem muito clara: não podemos acreditar que tratando mal as pessoas que cometem erros elas se tornarão “boas”.


Vamos transportar o acontecido no episódio acima relatado para a realidade brasileira em 2014.

Acusado de ladrão, sem nenhuma prova, o Chaves provavelmente seria amarrado a um poste e linchado. O fato seria amplamente comentado nas redes sociais, e nos portais de notícia quem dissesse que o espancamento era um absurdo ouviria muitos “tá com pena, leva pra casa” como resposta. Na televisão a âncora de um telejornal, famosa por também opinar sobre os fatos noticiados, ironizaria os críticos do linchamento dizendo “faça um favor ao Brasil, adote um bandido”.

Agora lembre do vídeo lá de cima, do anúncio do falecimento de Roberto Gómez Bolaños. Repare em quem deu a notícia.


Quando Rachel Sheherazade proferiu a polêmica frase “faça um favor ao Brasil, adote um bandido” e foi criticada por isso, ela própria e seus defensores se queixaram de que estava em curso “tentativa de censura” por parte de uma “partulha ideológica de esquerda” (que só existe na cabeça dos reacionários delirantes). Uma bobagem, pois não foram os críticos que impediram Sheherazade de falar: foi o próprio SBT que optou por remover os comentários, determinando que âncoras apenas cumprissem sua função de ler as notícias.

Espero que Sheherazade tenha tenha refletido bastante sobre o significado do que disse e por que foi tão criticada por isso. É só assistir ao Chaves, principal atração da emissora em que trabalha, para entender.

Algo que dificilmente veremos no Brasil

Em 1988, a TV pública da Espanha (TVE) promoveu uma campanha chamada Aprenda a ver televisão, para mostrar que ficar o dia inteiro grudado na telinha não é lá muito bom… Não acredita? Então é só assistir ao vídeo abaixo.

Alguém acredita que um dia veremos algo assim na Globo? Nem é preciso responder… Pois o objetivo da Globo (assim como da Record, Bandeirantes, SBT etc.) é o lucro – afinal, trata-se de uma empresa privada. Uma campanha dessas só é possível numa TV pública. Caso da TVE na Espanha, assim como da BBC no Reino Unido – emissoras que são, inclusive, referência internacional.

Já no Brasil, infelizmente, as principais emissoras continuam a ser as privadas. Fica difícil que se possa ver na televisão uma campanha recomendando que ela seja desligada.

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Como este blog não tem como objetivo o lucro (mesmo porque nunca ganhei sequer um centavo com isso), recomendo que não se fique o tempo todo na frente do computador – eu, agora vou para a frente da televisão (!!!), assistir à final da Copa do Brasil.

Acabou a farsa

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem explícito o meu repúdio aos acontecimentos de ontem no Rio de Janeiro, envolvendo militantes do PT e do PSDB. Por mais que houvesse motivos para protestar contra Serra, foi uma atitude extremamente burra: afinal, o candidato tucano estava acompanhado por muitos apoiadores, ou seja, obviamente o resultado seria a confusão que se viu – e, saindo na “grande mídia”, a probabilidade da notícia ser tendenciosa pró-Serra era enorme.

Por sorte, foi justamente um dos veículos desta “grande mídia” que acabou desmascarando a farsa que os demotucanos estavam tentando construir: a de que Serra levara uma “pedrada” durante o tumulto. O vídeo do SBT mostra muito bem: o candidato foi atingido por um objeto que não é claramente identificável, mas parece ser uma bolinha de papel (colégio, lembram?). Tanto que ele sequer leva a mão à cabeça na hora, o que seria natural se fosse um objeto mais pesado, que causasse dor. É só mais adiante, provavelmente orientado por assessores, que Serra age como se estivesse sentindo dor.

Mas ao mesmo tempo que repudio o acontecido ontem, também não posso deixar de dizer que Serra “colheu o que plantou”. Pois sua campanha só tem pregado o ódio, a intolerância.

O ideal é que não se caia em provocações de adversários – pois tudo o que eles querem é confronto, para posarem de vítimas. O problema é que ninguém tem “sangue de barata”, e por isso é que eles provocam.

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.

Mais humilhações da Globo

Acho que, no fim, aquela lista das 10 humilhações da mídia será aperfeiçoada aos poucos – ou talvez tenhamos uma lista de humilhações da Globo.

Referente a futebol, me lembro do episódio acontecido na final do Campeonato Brasileiro de 1999. A Globo queria que a partida decisiva entre Corinthians e Atlético-MG ocorresse à tarde (em uma quarta-feira, 22 de dezembro), para à noite transmitir um especial de fim de ano. Porém, não conseguiu mudar o horário do jogo, que aconteceu durante a noite.

Outra lembrança boa foi a do André, do Cataclisma 14. E também é de futebol. Em 2000, como todos lembram, uma batalha judicial fez com que no lugar do Campeonato Brasileiro fosse disputado aquele monstrengo chamado “Copa João Havelange”. Um campeonato que começou bagunçado não poderia ter terminado diferente. Na final entre Vasco e São Caetano, o jogo da volta, disputado em 30 de dezembro (vê se isso é dia de se fazer jogo!), foi interrompido ainda no primeiro tempo devido à queda de um alambrado do estádio de São Januário, que deixou vários feridos. A partida foi remarcada para 18 de janeiro de 2001 no Maracanã, quando o Vasco fez 3 a 1 e se sagrou campeão.

Porém, Eurico Miranda acusou a Globo de ter editado imagens do acidente em São Januário e de ter forçado a suspensão do jogo para manter sua programação normal. Por isso, resolveu estampar na camisa do Vasco o logotipo do SBT. Tá certo, Eurico Miranda é uma figura nada exemplar. Mas ver a Globo humilhada é divertido, não dá para negar…

Outra ótima, indicação do Kayser, é relacionada à política. Mais, a Leonel Brizola, que hoje completaria 87 anos se estivesse vivo. No dia 16 de setembro de 2000, na final de um festival de música transmitida ao vivo pela Globo, os telespectadores ouviram um grito a favor do maior inimigo da emissora.