Da vida no interior

Em setembro de 2015, voltar a morar em Porto Alegre não estava em meus planos. Não digo que fosse ficar para sempre em Ijuí: apesar de estar gostando da cidade, pensava em uma mudança para mais perto da capital, onde ficara minha família. Me agradava a vida mais tranquila que tinha no interior, e ainda por cima recém tinha passado um tenso feriadão por conta da violência porto-alegrense agravada pela ausência de policiamento, fruto de protesto dos brigadianos por conta dos salários atrasados.

No final daquele mesmo setembro, veio o acontecimento que me fez começar a mudar de ideia, apesar da insegurança. No final da tarde do dia 28, minha avó Luciana, então aos 93 anos, foi internada no Hospital Ernesto Dornelles em função de problemas neurológicos causados por um tombo no qual bateu fortemente a cabeça. Na noite daquela segunda-feira falei com meu pai e ele recomendou que eu viesse assim que possível pois não se sabia se a vó sobreviveria (o quadro parecia ser bem mais grave do que realmente era) e, se sim, com quantas sequelas.

Na manhã seguinte, pedi autorização para me ausentar do trabalho por alguns dias, que me foi prontamente concedida. E no intervalo fui comprar uma passagem para Porto Alegre: consegui o último lugar disponível no último ônibus daquela terça-feira. (Seria preciso passar a madrugada na estrada, coisa que nunca gostei muito por ter dificuldade para dormir em viagens, mas em tal situação não havia escolha; e no fim eu conseguiria pegar no sono.)

Talvez seja apenas coincidência, mas a vó começou a melhorar com minha chegada a Porto Alegre, na manhã do dia 30. No final da tarde do dia 1º de outubro ela não só tinha recuperado a fala (ainda que não com as mesmas condições de antes) como também sua melhora impressionava os médicos. Meu pai voltou a pé do hospital para baixar a adrenalina e disse que apesar de ter vinho em casa iria comprar uma cerveja pois combinava mais com a situação; meu irmão e eu fizemos a mesma coisa, indo “tomar umas” no bar com nosso amigo Marcel. Era mais do que justo “bebemorar”.

Retornei a Ijuí na noite de 4 de outubro, quando a vó já tinha definitivamente boas perspectivas. E no dia seguinte voltei ao trabalho com uma “missão extra”: compensar as horas equivalentes aos três dias que estive longe, o que fiz ao longo daquele mês. E então reparei que se morasse em Porto Alegre (ou ao menos em uma cidade mais próxima) não precisaria ter me ausentado do serviço por tanto tempo. Já tinha um bom motivo para solicitar remoção no próximo edital, que seria aberto em janeiro de 2016. Mas fui além disso: a situação da vó me fez pensar em minha mãe e meu pai, que também envelheceriam e demandariam mais cuidados (ainda não foi necessário, felizmente), e que não seria justo deixar tudo sobre os ombros do meu irmão.

Então, menos de um ano após dizer com todas as letras que não pretendia morar em Porto Alegre novamente, estava de volta. Das voltas que a vida dá…

Terminei aquele texto de 2015 falando sobre uma visão muito comum entre pessoas da capital acerca do interior: a ideia de que “se tem pouca coisa para fazer”. Traduzindo: de que a vida longe das grandes cidades seria “tediosa”. Pretendia escrever mais sobre o assunto, e acabei não o fazendo. Por isso decidi fazer isso agora, com MEIA DÉCADA de “atraso”, para não parecer que não cumpro promessas (ainda que não tenha prometido nada).


Em junho de 2019, visitei Ijuí pela primeira vez desde que voltei a morar em Porto Alegre, quase três anos antes. Achei a cidade “parada”, e pensei que talvez eu tivesse uma imagem um tanto “idealizada” da vida que levei lá de janeiro de 2015 a agosto de 2016.

Mas não demorou para eu perceber o óbvio: eu tinha me reacostumado com o ritmo da capital e assim sentia estranhamento em uma cidade que pouco mudara desde 2016. Afinal de contas, quando fui morar lá também tive de me adaptar – ainda mais que, morando a 400 quilômetros de Porto Alegre, não teria como vir frequentemente e então precisaria passar muitos finais de semana em Ijuí.

É um enorme equívoco achar que viver no interior significa falta de itens de consumo comuns em capitais e “tédio”, ainda mais em tempos de internet. Do que eu conseguia comprar em Porto Alegre, quase tudo também encontrava em Ijuí: só não tinha como adquirir produtos típicos do Mercado Público, a não ser quando vinha visitar a família. Via Facebook, Skype e WhatsApp eu mantinha contato com pessoas de vários lugares. Sem contar que, não vindo a Porto Alegre com frequência, nos finais de semana eu sempre cozinhava (e inovava), enquanto atualmente só passei a fazer comida mais seguidamente porque a pandemia tornou desaconselhável almoçar fora.

Também não fiquei sem futebol – pelo contrário, visto que em Porto Alegre eu não estava frequentando muito os estádios (tinha deixado de ser sócio do Grêmio em 2013, por corte de gastos). Em Ijuí eu passei a acompanhar o São Luiz, então na Divisão de Acesso do Gauchão. Pena que nas duas temporadas que tiveram minha presença nas arquibancadas do 19 de Outubro o time não tenha conseguido subir (mesmo com a contratação de Paulo Baier, que encerrou a carreira na Baixada em 2016). Nunca presenciei uma derrota do Rubro dentro do estádio, mas ironicamente fiquei com fama de “Mick Jagger” por “dar azar” nos jogos que assistia pela televisão, torcendo por Grêmio e São Luiz ou “secando” o Inter (não à toa decidi não assistir à semifinal da Libertadores de 2015, quando os colorados caíram diante do Tigres do México).


Não é que a vida no interior seja “melhor” ou “pior” que na capital: é diferente. Como já falei, ela se dá em outro ritmo, menos acelerado. Que a mim, agrada bastante: não gosto de fazer as coisas com pressa, sem pensar com calma. Mas isso varia de pessoa para pessoa, sem dúvida alguma.

Vale lembrar que quando da minha nomeação, em dezembro de 2014, eu já pensava em “mudar de ares”, ainda que não pretendesse ir para tão longe de Porto Alegre. Isso certamente favoreceu na minha adaptação à vida interiorana: a saída da capital não era exatamente “forçada”.

E também é algo que me dá certa “nostalgia” daqueles dezenove meses nos quais morei em Ijuí. Volta e meia penso que poderia ter ficado mais tempo lá: eu costumava fazer passeios a pé nos finais de semana, procurando passar por ruas diferentes, “descobrindo” lugares novos. Ainda que a cidade não seja tão grande, foi pouco tempo para conhecê-la melhor.

Sem contar que estive morando relativamente perto de São Miguel das Missões (85 quilômetros de distância) e não fui visitar as ruínas (embora já as tivesse conhecido com o colégio em 1997). Não tinha como ir diretamente de Ijuí para lá de ônibus: seria preciso fazer “baldeação” (ida e volta) em Santo Ângelo, o que tornaria mais demorada uma viagem aparentemente curta, e com isso o passeio tomaria boa parte do dia. O resultado disso é que o fui postergando (preferiria ir quando recebesse visita de Porto Alegre), até que em abril de 2016 o sítio arqueológico foi atingido por um tornado que destruiu o museu nele localizado, que só seria reaberto em setembro de 2017, mais de um ano após meu retorno a Porto Alegre.


Apesar disso, não me arrependo do retorno. Quando a oportunidade apareceu, era algo desejado por conta dos acontecimentos que completam agora cinco anos. Mesmo que a minha preferência não fosse exatamente voltar a Porto Alegre (pensava primeiro em cidades mais próximas como Lajeado ou Santa Cruz do Sul). Não podia deixar ir embora aquele “cavalo encilhado”, visto que poderia demorar muito até passar outro.

E a fama de “Mick Jagger” se esfumaçou. Ou melhor, também “pediu remoção”. Eu tinha uma “crush” em Porto Alegre, na qual pretendia “investir muito” com o retorno, mas foi eu voltar que ela começou a namorar… “Azar no amor, sorte no jogo”, diz o ditado: no final de 2016 o Grêmio saiu da fila e voltou a ganhar um título relevante, a Copa do Brasil; no ano seguinte o Tricolor conquistou a Libertadores e estive presente em quase todos os jogos da campanha na Arena, visto que voltei a ser sócio. (E considerando o futebol que o Grêmio tem apresentado recentemente, penso que atualmente só não tenho sorte no amor pois não estou disposto a me arriscar em tempos de covid.)

O São Luiz, enfim, conseguiu subir em 2017. Pena que não pude comemorar na Baixada e nas ruas de Ijuí, certamente teria sido bacana. Mas certamente não me faltarão oportunidades para voltar a assistir aos jogos do Rubro, aqui mesmo em Porto Alegre.

Destino traçado?

A previsão para quinta-feira (2 de fevereiro) em Porto Alegre é de muito calor. A temperatura poderá se aproximar dos 40°C.

Quinta-feira tem jogo do Grêmio, no Olímpico. É às 19h30min, menos quente que às 17h (como foi naquele 3 de fevereiro de 2010), mas ainda terá sol e, portanto, será com bastante calor.

O adversário do Grêmio na quinta é o São Luiz de Ijuí… Igual ao 3 de fevereiro de 2010.

Já era, Batista: teu destino está quase traçado. Vai descansar, fazer qualquer coisa que não seja comentar jogo de futebol no fim da tarde de quinta, a não ser que estejas a fim de novamente virar destaque internacional por conta de uma situação que pode ser engraçada para quem vê pela televisão, mas certamente não é boa para quem passa por ela.

Grêmio, o time dos extremos

30 de maio de 1979. No Estádio da Montanha, em Bento Gonçalves, se enfrentaram Esportivo e Grêmio. Um jogo de Gauchão que ficou no 0 a 0 não teria motivo algum para ser histórico, certo?

Errado! Pois naquela noite se jogou com neve e temperatura de 0°C. O Grêmio não foi o único (e nem mesmo o primeiro) grande clube brasileiro a disputar uma partida nestas condições (em 1976, o Cruzeiro jogou na neve contra o Bayern de Munique, na Alemanha, pelo Mundial Interclubes), mas provavelmente foi o primeiro (e único?) a enfrentar tal situação dentro do Brasil.

No dia 3 de fevereiro de 2010, novamente um jogo do Grêmio pelo Gauchão, que poderia ter caído no esquecimento, acabou se tornando histórico por razões climáticas: dessa vez, foi por causa do calor. Aquela quarta-feira foi um dos dias mais quentes da história de Porto Alegre: a temperatura máxima oficial foi de 38,1°C, registrada na estação do INMET no Jardim Botânico. Mas no bairro Menino Deus, chegou a 41,3°C.

A estação que registrou os 41,3°C fica próxima ao Estádio Olímpico, onde naquela tarde Grêmio e São Luiz se enfrentaram, no cumprimento de uma das tabelas mais absurdas já feitas para um campeonato: jogo às 17h de uma quarta-feira, dia útil… O calorão foi apenas um elemento a mais para ressaltar a estupidez.

A partida foi assistida por 4.746 torcedores (dentre eles, não estava eu) e acabou empatada em 1 a 1, mas isso é o de menos, pois o que ficou para a história é que o Grêmio, quase 31 anos depois de jogar na neve, enfrentou um calor de 41°C. Temperatura que fez o comentarista Batista desmaiar ao vivo na TVCOM antes da bola rolar (não se engane com os 37°C que aparecem no vídeo, pois esse “frio” é o que fazia no Morro Santa Teresa, onde fica a emissora).

Agora, se esse foi o maior calor enfrentado por um grande clube brasileiro, eu não sei. Considerando que há várias cidades no Brasil onde já se registraram temperaturas superiores a 41,3°C, é provável que não pertença ao Grêmio tal marca.

Depois do absurdo que foi a realização de tal partida nestas condições, uma liminar da Justiça do Trabalho determinou que os jogos do Gauchão só poderiam começar se não fizesse mais de 35°C, para preservar a saúde dos jogadores. Mas não foi o que se viu na última rodada do primeiro turno, realizada no sábado de Carnaval (13 de fevereiro): dez minutos antes de Grêmio x São José, o árbitro Carlos Simon afirmou ter medido 32,5°C no gramado do Estádio Olímpico (tirou o termômetro da geladeira antes???), quando logicamente a temperatura era superior a 35°C. Bom para a televisão, que pôde transmitir a partida no horário (16h) que havia anunciado… Mas péssimo para os atletas: ao menos três jogadores passaram mal nos jogos daquela tarde.

Estádio Olímpico, 41,3°C

No momento em que posto, Grêmio e São Luiz de Ijuí acabam de empatar em 1 a 1 no Estádio Olímpico. É, eu não estava lá!

Porra, que estupidez! Jogo às 17h, num dos dias mais quentes já registrados em Porto Alegre – a temperatura chegou hoje a 41,3°C no bairro Menino Deus, próximo ao Olímpico: é de lascar! Mais do que calor, isso é febre!

Devido à elevadíssima temperatura, o comentarista Batista desmaiou ao vivo na TVCOM, antes do jogo.

Já critiquei a realização de partidas às 19h30min de domingo, mas com este calorão de hoje, confesso, acharia ótimo. Porém, é bizarrice maior fazer jogo às 17h num dia útil – o calor é apenas algo a mais.

Aí, no Campeonato Brasileiro, teremos partidas às 18h30min, durante o inverno… Eu gosto de frio, fui a jogos quando a temperatura estava em torno de 5°C, mas sei que muita gente acaba deixando de ir ao estádio quando a temperatura está muito baixa.

É só por causa da televisão que fazem jogo em horários absurdos? Pois eu gostaria de saber qual o atrativo de uma partida do Campeonato Gaúcho às 11h da manhã! Sim, há algumas oportunidades em que os jogadores trocam o almoço de domingo pelo gramado. Para serem assistidos por pouca gente, seja no estádio ou na televisão: na mesma hora, pode-se assistir a algum jogo do Campeonato Italiano – quem o trocaria pelo Gauchão?