O Natal e a colonização cultural

Lembro de ter feito um breve comentário no Facebook em 31 de outubro, acerca do “mimimi” em relação ao Dia das Bruxas (ou Halloween), celebrado naquela data e que ganha adeptos no Brasil. Foi algo no sentido de apontar a contradição dos que viram “patriotas” e criticam a colonização cultural, mas quando chega dezembro celebram o Natal comendo peru e venerando um homem que veste fantasia invernal em pleno verão.

É muito fácil falar mal do Dia das Bruxas – que é, sim, algo importado dos Estados Unidos. (Mas aí leio um pouco sobre a história da comemoração, lembro também que Joana D’Arc foi queimada como “bruxa” – afinal, mulheres protagonistas nunca agradaram ao poder – e começo a simpatizar com a data.)

Agora, o que dizer das “tradições” do final do ano?

O hábito de se comer peru (carne da qual não sou fã, é seca demais) no Natal, por exemplo, não é nada brasileiro. É também importado dos Estados Unidos – onde a ave é servida também no feriado de Ação de Graças, celebrado na quarta quinta-feira de novembro. (Aliás, é derivada desta celebração a tal “Black Friday”, que nos EUA marca o início das “compras de Natal” e no Brasil é um dos maiores “engana-bobos” de que se tem notícia.)

Agora, nada mais simbólico da colonização cultural do que o uso de uma simbologia “fria” em pleno verão brasileiro. Pinheiros esbranquiçados pela “neve”, o Papai Noel andando de trenó e vestindo roupas invernais etc. Claro, pois são tradições do hemisfério norte, onde o Natal marca justamente o início do inverno. Ou seja, exatamente o contrário do que se tem no hemisfério sul, onde é o verão que começa em dezembro.

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Óbvio que é também absurdo nos fecharmos totalmente a outras culturas. Afinal, é a coisa mais normal que haja intercâmbios de costumes e tradições, sem contar que muitas celebrações se adaptam a peculiaridades locais.

Um bom exemplo é o Carnaval, festa considerada tão “brasileira” e que é celebrada de diversas formas em várias partes do mundo – aliás, é mais antiga que o Brasil! E há diferenças mesmo dentro do país: basta comparar os festejos de Salvador e Olinda com os do Rio de Janeiro; aliás, eis outro exemplo de “colonização”, pois não faltam cidades cujas festas de Carnaval são cópias – muitas vezes mal feitas – dos desfiles das escolas de samba cariocas.

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Atualização (29/11/2013, 22:59). Falando em “adaptações às peculiaridades”, lembrei do que acontece na celebração do Natal por minha família. Como já falei, não gosto muito de peru, e por conta disso, comia muito pouco na ceia quando criança. Então, em 1986, meu pai teve a ideia de que se fizesse creme de ervilha (sim, sopa em pleno verão!), visto que sempre gostei muito de tal prato. Para que não houvesse nenhum risco, o “Papai Noel” tomou um pouco de creme enquanto deixava os presentes na árvore (assim é bom ser o “velhinho”, comer antes de todo mundo…), e obviamente me empanturrei depois. O resultado é que até hoje tomamos creme de ervilha no Natal – e eu raramente como algum pedaço de peru.

Burrice global

No documentário “Muito além do Cidadão Kane”, que fala sobre o poder da Rede Globo no Brasil, Armando Nogueira, que trabalhava como chefe de jornalismo lá na época da eleição presidencial de 1989, disse que a edição do resumo do último debate antes do 2º turno, excluindo bons momentos de Lula e mostrando apenas os de Collor, foi “burra”, e que ele não deixaria que fosse ao ar se a tivesse visto.

O mesmo se aplica ao que aconteceu ontem (isso na visão de Armando Nogueira, pois para mim a edição do debate de 1989 foi manipulação pura e simples). Quando eu soube que o jogo Vitória x Grêmio, pelo Campeonato Brasileiro, seria às 4 da tarde, pensei: “ótimo, vai passar na TV aberta” (visto que, em geral, os jogos às 6 e meia da tarde/noite nos domingos só passam no pay-per-view, que eu não tenho em casa). Quando chamei um amigo para ver o jogo aqui, ele disse que ia passar Santos x Corinthians na Globo. Achei que ele estava errado, porque Vitória x Grêmio era às 4 da tarde, logo, seria essa a partida transmitida, pelo menos para o Rio Grande do Sul. Resolvi esperar para ver: não queria ir para um bar porque, como tinha de terminar a revisão de um artigo – cujo prazo de envio via e-mail encerrava ontem -, não achava uma boa ideia beber cerveja (mesmo com frio eu tomaria, ainda mais estando num buteco) e depois terminar a revisão de um texto acadêmico.

Na hora do jogo, liguei a televisão e… Passava Santos x Corinthians na Globo!

Suprema burrice da Globo. Não por causa de “birra contra gaúcho” e o escambau (até porque nunca vi nada igual à narração do 2º gol do Sport na final da Copa do Brasil de 2008, parecia que era gol de um time estrangeiro: pelo jeito a “plim plim” esqueceu que Pernambuco é Brasil). A Globo foi burra comercialmente mesmo. Tivesse transmitido Vitória x Grêmio, pelo menos para o Rio Grande do Sul, teria tido muito mais audiência por aqui do que com Santos x Corinthians.

Falo de audiência de verdade: muita gente deve ter deixado a televisão ligada, mas sem volume, para ouvir o jogo do Grêmio no rádio. Considerando que muita gente só olharia para ela quando saísse algum gol – ou seja, os anúncios feitos ao longo da transmissão do futebol não atingiram a maioria da audiência no Rio Grande do Sul, ainda mais que o único gol (infelizmente, foi do Vitória…) saiu no apagar das luzes.

Tudo bem que a audiência no Rio Grande do Sul não é tão grande quanto em Estados mais populosos. Mas que foi burrice da Globo, foi.

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Outra coisa que me tira do sério em relação ao futebol brasileiro, é a questão dos horários dos jogos. Nesse caso, todos os envolvidos – televisão (Globo), CBF e clubes – têm sua parcela de culpa.

A rodada de ontem foi emblemática. Vitória x Grêmio, na sempre quente Salvador, foi às 4 da tarde (e sem transmissão para cá!). Inter x Avaí, na ontem gélida Porto Alegre (e o Beira-Rio, segundo o meu irmão, consegue ser ainda mais frio por causa do vento forte da beira do Guaíba), foi às 6 e meia da noite (sim, porque 6 e meia só é “da tarde” durante o verão). E o pior de tudo são os jogos às 10 da noite, no meio da semana, por causa daquela bosta de novela.

O torcedor, como sempre, que se lixe, na visão dos manda-chuvas do futebol brasileiro. Que compre o pacote do pay-per-view e assista o jogo em casa. Ou, se quiser ir ao estádio, aguente calorão, frio cortante… E chegue em casa na madrugada de quinta-feira, depois de gastar uma nota em táxi porque não tem mais ônibus.