Pelo “desasfaltamento” de Porto Alegre

Semana passada, passei pela avenida Venâncio Aires, no bairro Santana. A via passa por obras de recapeamento, e para isso teve o asfalto antigo “raspado”, para depois ser feita a nova cobertura. A visão era nostálgica: vinha à tona o antigo pavimento da avenida, de paralelepípedos. Pensei no quão bacana seria se todo o asfalto tosse retirado e a Venâncio voltasse a ser de paralelepípedos, mas, pouco tempo depois, alguns trechos já tinham sido asfaltados.

Reparei, então, em quantas ruas foram asfaltadas sem necessidade em Porto Alegre. Uma delas é a Pelotas, onde morei durante minha infância e que já tinha asfalto na década de 1980: rua sem muito movimento de carros, mas por onde passaram, até 1999, os caminhões da Brahma – óbvio que o motivo para o asfaltamento da via foi esse. A fábrica se mudou, mas o asfalto ficou.

Mas lembro de tempos em que outras hoje asfaltadas eram de paralelepípedos. Algumas bastante movimentadas, como a Ipiranga (que só recebeu asfalto no trecho entre a Borges de Medeiros e a João Pessoa em meados da década de 1990). Outras, porém, não tinham movimento tão grande que justificassem asfaltamento – casos da Fernando Machado e do trecho da Cristóvão Colombo entre a Barros Cassal e a Alberto Bins. Enquanto isso a movimentada Borges de Medeiros continua a não ser asfaltada entre a Ipiranga e a José de Alencar, e espero que ninguém invente de fazer isso.

“É ruim para os carros andar em ruas de paralelepípedos”, dirá algum motorista irritado. Ruim, não: é bom. Pois o calçamento ajuda a inibir as altas velocidades (muito embora não falte maluco disposto a acelerar sempre). Em uma rua asfaltada, a tentação de pisar fundo no acelerador aumenta, já que o veículo não “pulará” como nos paralelepípedos. Logo, inibir altas velocidades é bom – dá mais segurança tanto para os pedestres como também para os motoristas que preferem manter um ritmo mais “civilizado”, sem acelerar tanto.

Outro bom motivo para preferir o calçamento ao asfalto tem a ver com o escoamento da água das chuvas. Ruas asfaltadas são muito mais impermeáveis, e com isso, tendem a alagar mais em chuvaradas – assim como o entorno. Um dos melhores exemplos nesse caso é o que aconteceu na região do bairro Santana próxima à Jerônimo de Ornelas, asfaltada há cerca de 15 anos: a rua Laurindo, distante uma quadra, alagava “naturalmente” em enxurradas por ser uma baixada; após a Jerônimo receber asfalto, a quantidade de chuva necessária para inundar a Laurindo diminuiu. E poderia ser pior, se a própria Laurindo e ruas adjacentes não fossem de calçamento.

E esse calor, hein? Tem sido o assunto mais falado neste rigorosíssimo verão que ainda está longe de acabar. E como se não bastasse, a previsão é de que vai esquentar bem mais nos próximos dias e o tão esperado alívio demorará a vir. E o que isso tem a ver com asfalto? Bom, lembremos daquilo que tanto se diz, sobre roupas escuras serem mais quentes: acontece que elas refletem menos a luz; assim absorvem mais energia e consequentemente esquentam mais. Compare então a cor do asfalto com a do paralelepípedo: o que deixa a rua mais quente?

Outro aspecto bacana de manter o calçamento antigo é a preservação da memória, o que vai muito além da nostalgia por paralelepípedos. Sob o asfalto de muitas ruas, por exemplo, estão escondidos os trilhos dos bondes: eles deixaram de funcionar em 1970, mas lembro de algumas vias nas quais na década de 1980 os trilhos ainda apareciam e me chamavam a atenção; então meu pai explicava que era por ali que passavam os bondes, como eles funcionavam etc.

Isso deveria ser suficiente para que não se asfaltasse tantas ruas e seus calçamentos fossem mantidos. Porém, infelizmente, muitas pessoas acham que isso é “atraso”, e assim, nas metrópoles ou em cidades de interior, impera a política do “asfalta tudo” (em Porto Alegre, até parques!). Os carros continuam a ter maior importância que as pessoas para nossos governantes.

É um tanto arriscado dizer, mas ainda assim, digo: em 2016, um candidato a prefeito que propuser o “desasfaltamento” de Porto Alegre terá grande chance de receber meu voto. Mas que ele não se satisfaça com isso: caso não cumpra, pode esquecer meu apoio na eleição seguinte.

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Vazio

Amava secretamente Carolina, que o convidou para ir a um bar naquele sábado juntamente com sua amiga Marina.

Certa hora, Carolina sumiu. Pensou que ela fora embora, mas quando olhou para o lado a viu deitada no chão do bar, dormindo. “Ela tem trabalhado demais, deve estar cansada”, pensou.

Foi embora cedo, deixando Carolina e Marina no bar. Porém, decidiu voltar e encontrá-las, ainda mais depois de ouvir, na rua, que a tropa de choque fora chamada.

Chegando ao local, a confusão já estava estabelecida. A polícia jogava bombas de gás lacrimogêneo na multidão, que corria para todos os lados. Membros de torcidas organizadas respondiam com paus e pedras. Desesperado, procurou Marina e, principalmente, Carolina em meio ao caos. Mas não as encontrou.

Depois de um tempo, enfim, viu Marina, que parecia chorar. Aproximou-se dela e uma mulher, que a acompanhava, se apresentou como sua professora. “Ela foi reprovada no exame”, disse a mulher. Querendo saber onde estava Carolina, tentou falar com Marina, que não quis parar e seguiu em frente, em passo acelerado.

Então seguiu vagando, vazio, pelas ruas já vazias.

Uma praça vazia

Praça Dr. Júlio de Aragão Bozzano, bairro Santana, Porto Alegre. Vazia em uma tarde de sol.

No fim da tarde de ontem, passei por essa praça. Era quase seis da tarde: no inverno já é noite, mas no final da primavera, com o horário de verão, ainda tem bastante sol. Mesmo assim, não havia nenhuma criança brincando.

Impossível não lembrar dos meus tempos de infância. Era “sagrado”: às quatro da tarde, estava na rua com meus amigos. Jogávamos futebol, apostávamos corrida de bicicleta… Brincávamos ao ar livre, à sombra dos jacarandás da Rua Pelotas. No inverno “descíamos” de nossos apartamentos um pouco mais cedo, visto que a tarde “durava menos” – mas lembro que adorava ficar na rua até anoitecer totalmente.

O que mudou? Engana-se quem pensa que a culpa é da televisão, do videogame etc.: já tínhamos tudo isso (faltava o computador, é verdade). Mas não abríamos mão de brincar na rua. A diferença, mesmo, é que não havia esse medo irracional da violência que temos nos dias atuais. Lembro bem que já se falava em ladrões e assaltos, mas isso não era suficiente para nos deixar trancados em casa.

Hoje, abandonamos as ruas: o espaço público, que deveria proporcionar a convivência entre as pessoas, torna-se cada vez mais apenas área de passagem. E por isso mesmo, mais perigoso.