O passado que não vai embora

Esses dias, conversava sobre a cantina Monte Polino, um dos melhores restaurantes italianos de Porto Alegre (fica a dica aos visitantes). Eis que ouvi a referência de onde ele ficava: “defronte ao Nacional da Aureliano de Figueiredo Pinto”. E me perdi, pois na minha cabeça aquele supermercado continua a ser o Mobycenter, da rede Zottis.

Deve fazer em torno de 20 anos que a rede Zottis foi vendida e deixou de existir – o que resultou também no fim do Mobycenter. O Monte Polino continua lá e o supermercado virou Nacional, conforme já tinha dito. Mas ainda não consigo chamá-lo assim naturalmente, pois a primeira lembrança que me vem é do Mobycenter e seu simpático logotipo com uma baleia esguichando.

mobycenter

Perto de onde eu morava, tinha um Zottis. Era um supermercado pequeno, mas que supria nossas principais necessidades. Depois que a rede foi vendida, também virou um Nacional. Em meados da década de 1990, já com a nova denominação, pegou fogo; saiu no jornal o “incêndio no Nacional da Cristóvão”. Mas na minha cabeça, não era o Nacional, era o Zottis que incendiara.

Na mesma Cristóvão Colombo, próximo ao Zottis, havia um outro supermercado, o Poko Preço. Era o que ficava mais perto de minha casa, e assim eu tinha uma curiosa medida de distância, baseada em três supermercados: “perto” era o Poko Preço, “mais ou menos” era o Zottis, e “longe” era “do Zaffari pra lá” – no caso, o Zaffari da Cristóvão na esquina com a Hoffmann. Dos três, hoje em dia só resta o Zaffari – visto que o próprio Nacional que sucedeu o Zottis não existe mais (nem lembro se reabriu depois do incêndio), e no local está sendo construída uma torre comercial.

Morei naquela região até 1997. Primeiro na Rua Pelotas, depois defronte à Brahma, lugar onde hoje se encontra o Shopping Total. Dizer que eu morei defronte à Brahma não é incorreto – muito antes pelo contrário – pois a cervejaria encerrou suas atividades no local em 1999, e o centro comercial só foi inaugurado em 2003. Só que em várias ocasiões, quando vou dar a referência de onde morava na época, deixo escapar um “defronte à Brahma” e muitas vezes o interlocutor não entende, por ter chegado à cidade depois de 2003 ou simplesmente já ter fixa a referência do Shopping Total (quem nasceu em 2000, por exemplo, nunca viu a Brahma funcionando naquele lugar).

Isso não é apenas um sintoma de que eu estou ficando velho. Mostra também que certos pontos de referência que fixamos na nossa mente sobrevivem a seu próprio fim. E muitas vezes, tais referências são coletivas e se mostram presentes até mesmo na cabeça de quem nunca as viu de fato.

Os ônibus que passam defronte ao Estádio Olímpico Monumental ainda anunciam em suas rotas a antiga casa do Grêmio, mesmo que o clube não mais jogue lá. É verdade que o estádio ainda existe, mas deixou de cumprir sua função principal de realizar jogos de futebol, e é um ponto de referência para a maioria esmagadora dos porto-alegrenses – inclusive para os colorados. Tanto que na hora de citar os caminhos que levam à Zona Sul de Porto Alegre, tenho como rotas principais a “via Beira-Rio” e “via Olímpico”. Depois da implosão do estádio, ficará estranho dizer “via empreendimento da OAS”; provavelmente o Monumental continuará a ser referência para quem o viu em pé, por seguir existindo em muitas memórias.

Mas provavelmente não haja melhor exemplo que a tal de Rua da Praia (que tem até um centro comercial com esse nome). Quando vemos alguém chamando-a de “Andradas”, temos quase certeza de estarmos diante de uma pessoa que vem de outra cidade. Chegando naquela rua, ela obviamente presta atenção nas placas, que dizem “Rua dos Andradas”. Pura questão de lógica: vai chamar pelo que diz na placa, ou falar de uma praia que deixou de existir há mais de século? Só nós, porto-alegrenses “das antigas”, para chamarmos uma rua sem praia de “Rua da Praia”…


Logo mais, vou ao Centro. Preferencialmente, pegando lotação que pare na Mesbla.

Uma praça vazia

Praça Dr. Júlio de Aragão Bozzano, bairro Santana, Porto Alegre. Vazia em uma tarde de sol.

No fim da tarde de ontem, passei por essa praça. Era quase seis da tarde: no inverno já é noite, mas no final da primavera, com o horário de verão, ainda tem bastante sol. Mesmo assim, não havia nenhuma criança brincando.

Impossível não lembrar dos meus tempos de infância. Era “sagrado”: às quatro da tarde, estava na rua com meus amigos. Jogávamos futebol, apostávamos corrida de bicicleta… Brincávamos ao ar livre, à sombra dos jacarandás da Rua Pelotas. No inverno “descíamos” de nossos apartamentos um pouco mais cedo, visto que a tarde “durava menos” – mas lembro que adorava ficar na rua até anoitecer totalmente.

O que mudou? Engana-se quem pensa que a culpa é da televisão, do videogame etc.: já tínhamos tudo isso (faltava o computador, é verdade). Mas não abríamos mão de brincar na rua. A diferença, mesmo, é que não havia esse medo irracional da violência que temos nos dias atuais. Lembro bem que já se falava em ladrões e assaltos, mas isso não era suficiente para nos deixar trancados em casa.

Hoje, abandonamos as ruas: o espaço público, que deveria proporcionar a convivência entre as pessoas, torna-se cada vez mais apenas área de passagem. E por isso mesmo, mais perigoso.

Porto Alegre precisa de mais árvores que façam sombra

No texto de ontem, falei sobre a “loucura do tempo” em agosto: a temperatura bem acima da média “confundiu” muitas árvores, que começaram a florescer antes da hora. Com destaque para os ipês-roxos, que geralmente ficam floridos em setembro, mas já estão assim agora.

O bacana neste tipo de árvore é demarcar a mudança das estações do ano, mesmo que parcialmente. Várias espécies plantadas em Porto Alegre não perdem as folhas no outono, mas sim no final do inverno, antecedendo o florescimento que anuncia a chegada da primavera – são árvores como os já citados ipês e os jacarandás (cuja floração, que atinge o auge em meados de outubro, chamou tanto a atenção do meu pai que ele escolheu a Rua Pelotas para morar quando eu estava para nascer). Temos também as espécies que perdem as folhas durante o outono, tornando-o a época que considero a melhor para se estar em Porto Alegre.

Só que as árvores tem outra função importantíssima além do paisagismo. Após o florescimento da primavera, no verão elas se enchem de folhas e proporcionam a tão necessária sombra nos dias de sol forte, de modo a evitar queimaduras e mesmo um câncer de pele (antes que falem em protetor solar, lembro que comigo não adianta muito pois eu suo em demasia). Além disso, em ruas bem arborizadas se passa menos calor do que em outras que têm poucas árvores. Ou seja, os diversos “túneis verdes” que a cidade tem fazem com que ela não seja totalmente inóspita naqueles dias de “Forno Alegre” que nos assolam durante o verão.

Porém, ultimamente, há uma estranha tendência em Porto Alegre: a de só se plantar palmeiras nas ruas. Logo que se constrói algum novo empreendimento comercial, em seu entorno são plantadas palmeiras, é claro, como compensação ambiental relativa a árvores removidas nas obras.

Tem gente que é totalmente contra plantar palmeiras por achar que elas “não combinam com Porto Alegre”. Bobagem: algumas avenidas têm como “marcas registradas” as belas palmeiras imperiais em seus canteiros centrais – casos da Getúlio Vargas e da Osvaldo Aranha. Sem contar aquelas que foram plantadas por engano na ponte da João Pessoa sobre o Arroio Dilúvio e, por incrível que pareça, cresceram – não se sabe de outro caso semelhante (na ponte da Getúlio também há duas palmeiras, mas elas são pequenas).

Porém, elas têm um problema sério: praticamente não produzem sombra. Como eu disse, caminhar por uma rua com poucas árvores (ou mesmo nenhuma) durante o verão em Porto Alegre é um verdadeiro suplício; já numa via arborizada, se sofre menos com o calorão… Desde que as árvores diminuam a insolação. O que não acontece com as palmeiras, que embora cresçam mais rápido que outras espécies, não têm copa frondosa como jacarandás, ipês e tipuanas.

Assim, nada pior do que passar a se plantar apenas palmeiras em Porto Alegre. Felizmente ainda restam muitas ruas com árvores que fazem sombra; porém, deveríamos ter mais. Não só para sofrer menos no verão, como também para que a cidade fique mais bonita, com uma arborização diversificada.

Obviamente, isso não impede que também se plantem palmeiras – acho que elas ficam muito bem em canteiros de avenidas, como provam as já citadas Osvaldo Aranha, João Pessoa e Getúlio Vargas. Mas, como eu disse, também, e não apenas. E trocar um jacarandá ou um ipê por uma palmeira como forma de compensação ambiental, não compensa nada.

————

E como falei em jacarandás, não custa nada levar o leitor a uma “visita virtual” à Rua Pelotas, da qual tanto falo quando lembro minha infância (só uma pena que o carro do Google passou por lá em setembro do ano passado, quando deveria ter esperado mais um mês). Aliás, a rua está cada vez menos arborizada: muitas árvores estão doentes e têm caído com uma frequência preocupante, sem contar as que foram cortadas pela SMAM. Foram plantadas outras mudas no lugar (felizmente não são palmeiras!), mas de espécies diferentes; e mesmo que fossem jacarandás, o ideal seria tratar os que já estão lá, visto que levaram muitos anos para atingirem o tamanho atual.

Mais um jacarandá caiu na Rua Pelotas

Em novembro de 2008, fui com meu pai à Rua Pelotas, para fotografar seus jacarandás floridos. Falamos com alguns moradores da rua, que comentaram sobre o preocupante estado das árvores: muitas estavam com os troncos ocos, o que representava sério risco de queda nos vendavais que costumam atingir Porto Alegre. Eles queriam não que os jacarandás fossem removidos, e sim, que recebessem tratamento, para que pudessem continuar embelezando a rua por muito tempo.

No ano de 2009, dois jacarandás da Pelotas foram cortados pela SMAM, e em seus lugares foram plantadas novas árvores, que levarão muitos anos até se tornarem imponentes como as que ali estavam antes. E em abril de 2010, num dia em que não ventava, uma outra árvore caiu sobre carros na rua.

Assim, infelizmente não chega a me surpreender que a ventania da manhã de hoje tenha derrubado mais um jacarandá na Rua Pelotas, próximo à Cristóvão Colombo, atingindo uma banca de revistas. E dessa vez, os prejuízos não foram apenas materiais: duas pessoas ficaram feridas.

E enquanto os Bombeiros trabalhavam para remover a árvore caída, um pedaço de outra também caiu, conforme relatou à Rádio Guaíba o tenente Cláudio Bayerle, oficial de serviço do 9º BPM – que também chamou à atenção para as várias árvores podres na rua, que ameaçam cair. O que não é nenhuma novidade, mas quem sabe com o alerta vindo da Brigada Militar alguma atitude seja tomada pelas autoridades competentes para evitar que os jacarandás continuem a cair, a pôr em risco a vida das pessoas e a deixar a Rua Pelotas cada vez menos verde.

“Os Meninos da Rua Paulo” no cinema

Em maio do ano passado, postei sobre o livro “Os Meninos da Rua Paulo”, do escritor húngaro Ferenc Molnár, e sobre como era impossível não lembrar a minha infância após a leitura. Afinal, assim como para o grupo de meninos da Rua Paulo em Budapeste, a Rua Pelotas em Porto Alegre tinha para mim um significado semelhante: era o meu “território”, minha principal referência de pertencimento.

Pois para quem está em Porto Alegre, há não uma, mas duas oportunidades de conhecer a fantástica história (a dos meninos húngaros, não a minha…) na telona. No mês de fevereiro, a Sala Redenção (Cinema Universitário da UFRGS) apresentará filmes voltados ao público infanto-juvenil, com direito a duas exibições de “Os Meninos da Rua Paulo” (A Pál-utcai fiúk, Hungria, 1969, 110 min), dirigido por Zoltán Fábri: dia 3, às 19h; e dia 7, às 16h. Todos os filmes terão entrada franca.

Não perca!

————

Uma dica: se o leitor puder conseguir o livro, é interessante ler antes de ver o filme… Se for assistir à sessão do dia 7, então, dá tempo de ler!

“Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár

Sábado passado, foi combinado que eu faria o almoço que alimentaria meu pai, minha avó, minha tia, meu irmão e eu próprio. Ao invés de comermos massa mais uma vez, saboreamos um goulash (gulyás, em húngaro), prato originado na Hungria e também bastante apreciado na Áustria (herança dos tempos de Império Áustro-Húngaro).

A simples decisão do que fazer de almoço no 1º de maio me fez lembrar o livro Os Meninos da Rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnár, lido por mim várias vezes. Mas cuja última leitura ocorrera há muito tempo – provavelmente antes de 2004, quando ingressei na faculdade de História – e então decidi o ler novamente, o que fiz rapidamente.

Lembro até hoje de como “descobri” o livro. Veio numa “leva” que foi dada por uma amiga da minha mãe. Um dia meu pai passou os olhos por aqueles livros (cuja maioria mantinha-se intocada por mim), e os olhos dele brilharam quando enxergaram Os Meninos da Rua Paulo. “Esse livro é SENSACIONAL!”, disse ele entusiasmado.

Foi só eu ler para comprovar o quanto meu pai estava certo. É uma história simplesmente fantástica, de um grupo de meninos de Budapeste que costumava brincar em um terreno baldio na Rua Paulo (Pál Utca, em húngaro), no final do século XIX. Aquele pequeno pedaço de chão, para os garotos, era mais do que um lugar onde eles se reuniam para jogar pela: era sua terra (grund, em húngaro), quase como uma espécie de “pátria” – o que fazia todo o sentido numa época em que a Europa inteira vivia uma intensificação do nacionalismo por todas as partes. Em alguns trechos, Molnár refere-se à turma da Rua Paulo como “nós”, o que mostra não só que o grupo existiu de verdade (provavelmente não com os mesmos nomes), como que ele próprio o integrava.

Porém, o grund dos meninos estava ameaçado. Pois um outro grupo de garotos, que costumava se reunir no Jardim Botânico da capital húngara, desejava apossar-se do terreno da Rua Paulo, devido à falta de espaço para jogar pela em seu “território”. Uma “guerra” entre crianças aproximava-se. De brincadeira, é claro (ninguém tinha intenção de matar), mas com todos os aspectos dos conflitos de verdade na época: espionagem, deserção, “missões diplomáticas” e até mesmo “declaração de guerra”. E ambos os grupos davam grande valor à honra: mesmo “inimigos”, havia muito respeito entre eles, além de reconhecimento por atos heroicos dos adversários.

Há também, como em outras histórias, aqueles personagens que mais se destacam. No caso de Os Meninos da Rua Paulo, tratam-se de János Boka e Ernõ Nemecsek – que encontram-se nos extremos da “hierarquia militar” da turma: Boka é o presidente do grupo e general, enquanto Nemecsek, mais pobre dos meninos, é soldado-raso.

A propósito, Nemecsek, mais que um personagem heroico (já falei demais, para saber o porquê, leia o livro!), representa também uma crítica à sociedade da época: num contexto de exaltação às “nacionalidades”, quem mais lutava por elas (ou seja, o povo) era pouco ou nada reconhecido, enquanto os que decidiam fazer as guerras não participavam das batalhas e ainda eram condecorados. Aliás, nada muito diferente da atualidade.

Outro aspecto que tem semelhança com a atualidade, refere-se à ameaça que pairava sobre o grund, devido ao interesse dos meninos do Jardim Botânico pela área. Pois o perigo maior, na verdade, não era a outra turma de garotos.

————

Impossível ler um livro desses e não lembrar um pouco de minha própria infância. Quando, se não fazíamos “guerra”, tínhamos também aquele sentimento de pertencimento a um grupo, que tinha um “território” – que no nosso caso, correspondia a um pequeno trecho da Rua Pelotas entre a Rua São Carlos e a Avenida Cristóvão Colombo (mas sem necessariamente chegar às esquinas, o que inclusive não nos era recomendado por nossos pais). Inclusive, uma vez demos uma volta na quadra com nossas bicicletas, sozinhos, e a sensação foi de que íamos a um “país inimigo” – imaginem a nossa satisfação pelo ato de coragem que tínhamos cometido!

Era em nosso “território” que jogávamos futebol, apostávamos corrida de bicicleta… Pelo menos nunca precisamos fazer “guerra” para defendê-lo. Mas seria interessante que as crianças de hoje o conquistassem: por culpa da paranoia da segurança, só ficam dentro de casa, brincando com jogos eletrônicos e assistindo televisão.

Rua Pelotas cada vez menos verde

Foi na segunda-feira, por volta do meio-dia. Naquele momento, a Rua Pelotas passou a ter um jacarandá a menos.

A árvore não foi derrubada pelo vento, pois apenas chovia, não era temporal. Simplesmente caiu, o que não é nada surpreendente, dado o estado delas.

Jacarandá com o tronco oco, que acabou sendo cortado em julho de 2009. Foto obtida em 1º de novembro de 2008.

Como ficou o local após o corte da árvore. Foto obtida em 31 de outubro de 2009.

Do jeito que a coisa vai, as gerações futuras que quiserem conhecer o túnel verde que embeleza (até quando?) a Rua Pelotas terão de recorrer a álbuns de fotos antigas (quando 2008 e 2009 forem anos “distantes”) ou a relatos de quem o conheceu (meu caso). Pois muitos jacarandás estão doentes, e se não receberem um tratamento adequado, continuarão a cair.

Triste situação da rua onde eu cresci: suas árvores, que foram um dos principais motivos pelo qual meu pai escolheu a Pelotas para morarmos pouco antes de eu nascer, agora são motivo de preocupação para quem vive lá.

O que está acontecendo com os jacarandás de Porto Alegre?

Sexta-feira, durante minha caminhada pelo Parque da Redenção, notei que vários jacarandás dos canteiros da Avenida Osvaldo Aranha estão mortos, ou quase. Totalmente desfolhados, em pleno verão.

O mesmo se verifica nas árvores da mesma espécie na Rua João Telles, na esquina com a Osvaldo Aranha. Olhando para aqueles jacarandás sem folhas, a única maneira de eu lembrar que estamos no verão era passar a mão na minha testa para tirar o suor… Aliás, mesmo no inverno os jacarandás não chegam a perder todas as suas folhas: elas costumam cair entre agosto e setembro, e logo se segue o florescimento que embeleza as ruas onde eles estão plantados durante a primavera.

O pior de tudo, é que já percebi o mesmo problema em outras ruas de Porto Alegre. Como no caso da Pelotas, onde morei durante minha infância. Em 2009, dois jacarandás doentes foram removidos pela SMAM, ao invés de tratados. E há outras árvores doentes na rua, o que representa risco de queda em ventanias.

Rua Pelotas, 31 de outubro de 2009

post_capa

Em 1º de novembro de 2008, fui com meu pai tirar fotos da Rua Pelotas, onde vivi minha infância, e as divulguei no blog. Chamei à atenção para o estado dos jacarandás, muitos com os troncos ocos.

Um ano depois, voltamos à rua. Dois daqueles jacarandás não mais existem. Foram cortados pela SMAM em julho e setembro. Em seu lugar foram plantadas outras árvores, que infelizmente levarão muitos anos até tornarem-se tão imponentes quanto o restante.

Clique aqui para acessar as fotos de 31 de outubro de 2009. E lembrando que daqui a uma semana completam-se 20 anos da queda do Muro de Berlim, repare também que, embora há menos tempo, o “Muro da Pelotas” caiu (ele ficava onde agora se vê uma cerca cinza, à direita na foto acima). Em novembro de 1989 eu imaginei que se o derrubasse, apareceria na televisão, igual aos berlinenses. Faltou-me uma picareta e real vontade de derrubar o muro: eu preferia brincar com meus carrinhos ou andar de bicicleta pela rua.

Lembranças do “meu tempo”

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

O trecho acima é do texto “A rua onde eu cresci”, publicado em 7 de julho de 2008. De tantos comentários elogiosos que recebeu, estou convencido de que foi um dos melhores que escrevi… (Espero então que agora receba uma enxurrada de críticas para que eu aprenda a ser humilde.)

Um ano e três meses depois, a Rua Pelotas, da qual falei, está menos verde: dois jacarandás, que estavam doentes, foram removidos em julho e setembro. E ainda há mais árvores doentes na rua, que correm risco de queda – aumentado com ventanias como as registradas na segunda-feira passada e ontem.

Essas horas, começo a de fato me sentir velho: “no meu tempo as coisas não eram assim”. As crianças brincavam na rua, e as árvores não estavam em mau estado.

Mas deixando um pouco de lado a “amargura de velho” e os prazos acadêmicos (afinal, a monstrografia está pronta na minha cabeça, mas boa parte dela ainda precisa ser traduzida ao papel), não custa nada lembrar algumas coisas boas da infância (dentre elas, não ter de escrever uma monstrografia).

  • No Natal de 1986 (sim, eu gostava de Natal!), chegou-se à solução de um sério problema: o que fazer para que eu comesse alguma coisa na ceia? Como eu sempre gostei muito de sopa (aprende, Mafalda!), a ideia foi de fazer um creme de ervilha. O “lance decisivo” foi a travessura do Papai Noel, que tomou um prato de creme de ervilha. Meu pai “ouviu um barulho”, foi verificar o que era e “expulsou o bom velhinho” (velhinho aos 35 anos???) a pontapés, por comer nossa ceia. Seguindo o exemplo do Papai Noel, eu quis creme de ervilha e assim, utilizando as palavras de Eric Hobsbawm (a academia me persegue, mesmo no passado), foi inventada uma tradição na nossa família, a do creme de ervilha no Natal, seguida à risca até hoje. Exceto a parte do Papai Noel: embora o “bom velhinho” ainda retornasse por mais alguns Natais (apesar dos pontapés de 1986), hoje ele foi deixado de lado, é claro;
  • Em novembro de 1989, a televisão começou a falar da queda de um muro em Berlim e de como aquilo era importante. Na hora eu não entendia o real motivo para tanta falação: achei que derrubar muros era algo digno de aparecer na televisão, então imaginei que se derrubasse um muro na Rua Pelotas, seria notícia no mundo inteiro. Ainda bem que eu não tinha uma picareta a meu alcance;
  • Na mesma época, tinha eleição para presidente. Eu já entendera mais ou menos o que era o negócio: os candidatos são eleitos mas não ficam o resto da vida “lá”, então periodicamente se realizavam eleições para determinar quem entrava no lugar. Então ouvi o noticiário dizer “os brasileiros votam para presidente pela primeira vez em 29 anos” e não entendi mais nada. Vale lembrar também que fizemos uma simulação daquela eleição na minha turma do colégio (eu estava na 1ª série) e o Brizola ganhou disparado, com direito ao meu voto. Depois eu aprendi a fazer o “L do Lula” para o segundo turno, mas infelizmente deu Collor;
  • Também na mesma época, durante uma ida ao Iguatemi com minha mãe, vi uma equipe da RBS, que acabara de gravar uma reportagem sobre… O Natal! Os caras se preparavam para levarem as fitas à emissora, mas de tanto eu encher o saco, aceitaram me gravar. E eu apareci na televisão! Ou seja: “meu passado me condena”;
  • Ainda em 1989, desta vez no dia de Natal, ganhei um “Pense Bem” de presente. Feliz da vida, quis chamar meus amiguinhos para conhecerem a novidade, mas todo mundo tinha ganho um “Pense Bem”;
  • No inverno de 1993, a Rua Pelotas sediou a inesquecível Copa América de futebol de botão, com a participação de quatro seleções: Argentina (Diego), Brasil (Leonardo), Equador (eu) e Uruguai (Vinicius). A Celeste foi campeã, mas não de forma invicta: na primeira rodada, perdeu por 2 a 1 para o Equador (que acabou em 4º lugar, ou seja, último). De qualquer forma, chora Vini!