Avenida Portugal

O título informal de “rua mais bonita do mundo” atribuído à Rua Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, tem origem em Portugal. A fama da Gonçalo se deve ao biólogo Pedro Nuno Teixeira Santos, de Covilhã, que edita o blog A Sombra Verde. Em 4 de março de 2008, ele escreveu o texto com o título que hoje é automaticamente associado à rua porto-alegrense – basta fazer uma pesquisa no Google.

Em Rio Grande, onde estive esta semana, há uma avenida que me chamou muito a atenção logo que cheguei. No canteiro central foram plantadas várias árvores, principalmente plátanos, o que torna mais agradável caminhar pelo meio da avenida – tanto que muitas pessoas o fazem.

Logo que comentei sobre a beleza da avenida, soube seu nome: Portugal. E imediatamente lembrei do Pedro e outros portugueses que tanto amam as árvores, como o João Martins, de Loulé, que assim como o Pedro, é sócio da Associação Árvores de Portugal.

Abaixo, algumas fotos que tirei desta bela avenida. E considerando que as folhas das árvores já estão com uma coloração bacana agora em abril, no início do outono, peço ao leitor que imagine como estarão lá pela metade de maio…

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Vamos cometer os mesmos erros de São Paulo?

Dezembro de 2009 está sendo terrível para os paulistanos em termos de chuva. As enxurradas que atingem a maior cidade da América do Sul já provocaram muitos prejuízos – inclusive em termos de vidas humanas.

As mudanças climáticas podem até mesmo serem responsáveis pelo excesso de chuvas – sem esquecermos o já conhecido El Niño, que tradicionalmente provoca aumento das precipitações, o que explica o horrível mês de novembro no Rio Grande do Sul, com muita chuva e consequentemente muito abafado (some-se isso ao estresse gerado pela monstrografia, e o resultado era a minha enorme vontade de ir morar em São Joaquim para fugir daquele calor desgraçado).

Porém, é preciso lembrar um problema sério: São Paulo é uma cidade muito impermeável. A água das chuvas não é absorvida pelo solo, tapado de asfalto e concreto. Resultado: ela escorre para os locais mais baixos, dentre os quais os rios Pinheiros e Tietê, cujos níveis aumentam rapidamente e invadem as pistas das marginais, congestionando praticamente toda a capital paulista e causando outros transtornos.

É o mesmo fator que explica os alagamentos em Porto Alegre (que ainda não está tão impermeabilizada como São Paulo, mas caminha a passos largos para isso). Boa parte da população acredita que asfalto é “progresso”. Resultado: muitas ruas são asfaltadas desnecessariamente (ou seria “eleitoralmente”?).

Lembro de quando o meu pai morava em um edifício na Rua Laurindo, bairro Santana. O prédio fica em uma baixada (inclusive, no local passava o arroio Dilúvio até meados da década de 1940, antes das obras de retificação), que sempre alaga quando chove, tornando impossível sair de casa em tais ocasiões. A situação piorou quando a Avenida Jerônimo de Ornelas (de movimento razoável, mas nada comparável às principais ruas da cidade), a uma quadra, foi asfaltada: não era mais preciso chover tanto para ocorrer inundação, e nas enxurradas a água já invadia o prédio (por sorte o apartamento não era térreo).

E agora, o próximo alvo do “progresso” é a Rua Gonçalo de Carvalho. Considerada a rua mais bonita do mundo, escapou do asfaltamento – e também da derrubada de metade das árvores – graças à mobilização de seus moradores e amigos em 2005, que resultou em seu tombamento como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre, decretado pelo prefeito José Fogaça em 5 de junho de 2006.

O decreto municipal inclui o calçamento da rua, de paralelepípedos. Logo, asfaltar a Gonçalo é, em primeiro lugar, ilegal. Mas é também de uma burrice sem tamanho, pois além de resultar em mais água da chuva escorrendo para locais baixos, prejudicará consideravelmente as tipuanas que dão toda a beleza à rua: as raízes das árvores, com a menor quantidade de água absorvida pelo solo, irão crescer “para cima”, em busca do líquido necessário à sobrevivência, o que estragará as calçadas.

Ou seja: mais uma vez, o “progresso” volta-se contra a Gonçalo! E não esperem que isso saia na mídia: ela já provou que apoia tudo o que seja ruim para a natureza mas que dê lucro.

Outro aniversário

Ontem, completaram-se três anos do tombamento da Gonçalo de Carvalho. Já hoje, 6 de junho, faz um ano

Mas, a situação continua praticamente a mesma. CPI no Rio Grande do Sul, nem pensar, diz Pedro Simon, “paladino da ética e da moral na política”. Mas em Brasília ele quer… Quanta coerência!

Feliz aniversário!

Rua Gonçalo de Carvalho, Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de Porto Alegre (decreto de 05/06/2006)

Rua Gonçalo de Carvalho, Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de Porto Alegre (decreto de 05/06/2006)

Hoje, 5 de junho, é Dia Mundial do Meio Ambiente. Mas não só.

A data marca também o 3º aniversário do tombamento da Rua Gonçalo de Carvalho como Patrimônio Cultural, Histórico e Ambiental de Porto Alegre. O decreto municipal, assinado em 5 de junho de 2006, sacramentou uma vitória da cidadania sobre o poder econômico.

Em 2005, os moradores da Rua Gonçalo de Carvalho foram informados do projeto de construção de um novo teatro para a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) no terreno onde se localiza o Shopping Total, localizado entre a Avenida Cristóvão Colombo e a Gonçalo. Notícia que agradava a muitos, visto que a OSPA, além de música de qualidade, significa um orgulho para o Rio Grande do Sul.

Porém, o que souberam a seguir fez as opiniões mudarem. Junto ao teatro, seria construído um enorme edifício-garagem, com pavimentos subterrâneos – que para serem escavados demandariam dinamite, o que poderia abalar as estruturas, e até mesmo derrubar prédios mais antigos. Os moradores dos apartamentos de fundo teriam de manter suas janelas fechadas, visto que elas dariam para o fundo da garagem, com toda a poluição proporcionada pelo escapamento dos automóveis. Não bastasse isso, ainda havia o plano de se dar saída aos carros pela Gonçalo de Carvalho, asfaltar a rua e, pasmem, derrubar metade das árvores para realizar o alargamento da via!

Os moradores e amigos da Rua Gonçalo de Carvalho se mobilizaram contra parte da obra: queriam o teatro, como apreciadores da boa música, mas também queriam a preservação da Gonçalo, como apreciadores do meio ambiente. Era uma luta imensamente desigual: grande parte dos porto-alegrenses desconhecia o que aconteceria ali. Só saberiam quando já estivesse feito. A “grande mídia”, com seus interesses, silenciava. Os concretoscos (que de vez em quando se fingem de defensores da cultura, para mascararem sua paixão pelo concreto) chamavam os contrários à obra de “inimigos da cultura e do progresso”.

Como se não fossem suficientes todas as adversidades, no dia 9 de janeiro de 2006 faleceu Haeni Ficht, líder do movimento e primeiro presidente da AMABI (Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Independência). E  pouco tempo depois o então vice-prefeito de Porto Alegre, Eliseu Santos, chamou os Amigos da Gonçalo de “dois cornos”: ficava muito claro de que lado estava o poder político.

Porém, os cidadãos de várias partes da cidade, do país e do mundo estavam do nosso lado. E a vitória veio em junho.

A Rua Gonçalo de Carvalho tornou-se no Dia Mundial do Meio Ambiente em 2006, pelo que se tem conhecimento, a primeira rua no Brasil e na América Latina a ser tombada como Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de uma cidade. E o melhor de tudo, foi apenas a primeira. A partir de então, várias outras ruas de Porto Alegre que são túneis verdes passaram a pleitear decretos semelhantes por parte do município, muitas delas sendo comtempladas.

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Uma das ruas que merece ser tombada, sem dúvida alguma, é a Rua Pelotas, no bairro Floresta. Reconheço que sou suspeito para falar, visto que morei na rua até agosto de 1992, mas clique aqui e veja as fotos obtidas em 1º de novembro de 2008. Infelizmente já era de tarde, e o espetacular tapete formado pelas flores que caem dos jacarandás havia sido varrido.

Considerando que há árvores doentes, que precisam de cuidados por parte do poder público (nem é só questão de preservação ambiental, também se trata de dar mais segurança a moradores e transeuntes, acabando com os riscos de queda de árvores em dias de muito vento), o tombamento se faz extremamente necessário e urgente.

Onde fica a rua mais bonita do mundo?

goncalo

Segundo o blog A sombra verde, de Portugal, ela fica aqui em Porto Alegre, pertinho do Centro. É a Gonçalo de Carvalho, no bairro Independência, tombada como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre no dia 5 de junho de 2006. Foi o primeiro caso deste tipo em todo o Brasil.

Em 2005, os moradores da rua iniciaram um movimento contra a construção do edifício-garagem da nova sede da OSPA, que seria ao lado do Shopping Total. Não eram contra a OSPA, como acusavam os favoráveis à obra. O que os moradores da rua não queriam era a garagem, cuja saída de carros se daria pela Gonçalo de Carvalho, o que aumentaria a poluição atmosférica e sonora na área. Sem contar que o fato do edifício-garagem ter dois andares subterrâneos tornaria necessário o uso de dinamite na obra, que poderia abalar ou mesmo derrubar os prédios vizinhos.

A luta parecia fadada à derrota. Em janeiro de 2006, faleceu o líder do movimento, Haeni Ficht. E poucos dias depois, o vice-prefeito Eliseu Santos referiu-se aos contrários à garagem como “dois cornos”.

Mas os moradores não desistiram, e venceram. Em junho de 2006 a OSPA desistiu de construir o teatro no Shopping Total, já que ali não poderia ser erguido o edifício-garagem – que poderia ser usado não só quando houvessem espetáculos, numa clara manobra do Shopping Total de ampliar seu estacionamento. Ainda hoje não foi definido o local onde será erguida a nova sede da OSPA – aliás, por que não retomar o projeto de construir o teatro no Cais do Porto, para assim reaproximar Porto Alegre do Guaíba?

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O movimento Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho foi citado também pelo blog Amics Arbres – Arbres Amics, da Catalunha, que postou uma mensagem de repúdio à repressão policial acontecida durante a ocupação por mulheres ligadas à Via Campesina da fazenda de propriedade da Stora Enso, usada para plantar eucaliptos e transformar o pampa em deserto.