O “crime” de sofrer um crime

Era uma vez um lugar onde ser vítima de um crime era crime. Lá, quando o sujeito estava na rua e era roubado, não ia à polícia nem contava nada a ninguém. Quando as autoridades sabiam do acontecido, o assaltado era detido, e levava umas porradas para “aprender a não ficar andando em lugar perigoso”.

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Surreal, né? Mas engana-se quem pensa que algo desse tipo não existe de verdade. A diferença é que não acontece com todo mundo que é vítima. Só integrantes de certos grupos sociais (que obviamente não são os dominantes, ou seja, homens brancos heterossexuais) cometem o “crime” de sofrerem certos crimes.

É o que se passa, por exemplo, com as mulheres que são assediadas na rua ou no ambiente de trabalho, sofrem abusos sexuais etc. A “culpa” é sempre delas: andam com roupa muito curta, se insinuam etc. É capaz de muitos chegarem a sentir pena dos homens que as violentam: afinal, essas “vadias” ficam “provocando”.

(Então acontece de um programa de televisão, que dizem ser de humor, mandar uma equipe que conta com uma moça vestindo uma saia curta ao lançamento de um livro, com o objetivo de entrevistar o autor. O entrevistado enfia a mão entre as pernas dela, por baixo da roupa.  E todo mundo acha normal. Afinal, “a culpa é dela”: foi de vestido muito curto, a calcinha aparecia, ela provocou… Sempre o mesmo papo furado.)

Responsabilizar a mulher pelo abuso sexual sofrido é igual a dizer que num caso de roubo a culpa é da vítima. Rigorosamente igual.

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Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

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Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.

Caminhadas forçadas

Desde o começo desta semana, larguei o ônibus. Passei a ir para o trabalho a pé, e também a voltar.

Na verdade, eu já fazia isso antes, mas tinha parado, pois de julho a dezembro tinha carona para a ida – assim, apenas voltava a pé, e isso quando não chovia. Foi na sexta passada que dei um “basta” à preguiça: chovia, já tinha embarcado no ônibus de volta – e pago os R$ 2,70 da passagem – quando notei que tinha esquecido a chave de casa no trabalho… Por sorte não tinha andado muito: desci, voltei e peguei a chave. Mas decidi voltar a pé, com chuva e tudo, irritado por ter gasto R$ 2,70 a toa.

Quem usa um ônibus para a ida ao trabalho, e um para a volta, gasta toda semana R$ 27 apenas em deslocamento. Agora pensemos num mês inteiro: dá mais de R$ 100. É dinheiro que faz falta no bolso dos mais pobres. E geralmente são eles que moram mais longe do Centro, que é justamente para onde a maioria tem de se deslocar para trabalhar.

Pois eu tenho a opção de me deslocar “de graça”, a pé, por não morar muito longe de onde trabalho. Indo e voltando a pé todos os dias, economizarei bastante dinheiro, que poderei usar da maneira que achar melhor. E isso sem contar os benefícios à saúde (para alguém que foi assíduo frequentador de consultórios médicos e odontológicos em 2011, qualquer benefício à saúde é lucro). Já quem mora longe não tem esta opção: é pagar o ônibus ou perder o emprego.

Pois agora, reparem no que acontece: os motoristas e cobradores reivindicam aumento salarial de 22%, enquanto as empresas de ônibus oferecem bem menos e, com a maior cara-de-pau, usam a justíssima reivindicação de seus trabalhadores como desculpa para pedir mais um aumento na tarifa, que pode subir de R$ 2,70 para R$ 2,90! Obviamente teremos protestos, manifestações na rua, mas o histórico de insensibilidade da nossa prefeitura (mesmo em ano eleitoral) não me deixa ter esperança: a passagem vai subir.

Diante disso, só me resta caminhar ainda mais, mesmo com muito calor… Ônibus (de preferência, procurando trocar uma nota de R$ 50* na roleta), só quando tiver de ir a algum lugar muito longe ou estiver chovendo muito. E se estiver com mais três pessoas, dependendo da distância sai mais barato ir de táxi.

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* A Lei do Troco determina que o passageiro de ônibus ou lotação fica liberado do pagamento da passagem caso não seja fornecido o devido troco, desde que o montante utilizado não exceda em 20 vezes o valor da tarifa. Com isso, se usarmos uma nota de R$ 50 na roleta e o cobrador não tiver troco, podemos andar de graça; já uma nota de R$ 100 não nos dá tal direito. Vamos combinar que, se bastante gente fizer isso, é uma boa maneira de se vingar de tantos aumentos, pois os empresários do transporte coletivo sentirão onde mais dói neles: no bolso.

Relembrando

Já citei o trecho abaixo em post no dia 11 de junho do ano passado, mas não custa nada relembrar, visto que por motivos óbvios a mídia corporativa o ignora. Está na página 56 da denúncia do Ministério Público Federal contra a quadrilha do DETRAN (os grifos são do Cão):

Ao lado disso, os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade.

Baderna é ônibus a R$ 2,35 em Porto Alegre

Ontem à tarde, a Brigada Militar reprimiu violentamente uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre. A tarifa atualmente é de R$ 2,10 e poderá ir a R$ 2,35!

Houve um tempo em que valia a pena pegar ônibus em Porto Alegre. Logo que implantaram os primeiros veículos com ar-condicionado, especulava-se que teria que se pagar mais caro para embarcar neles, mas o valor da tarifa era o mesmo dos ônibus normais – se não me engano, 70 centavos. Lembro que uma vez fui visitar um amigo que não morava muito longe da minha casa, mas o calor era tão insuportável que voltei de ônibus: peguei um T5, com ar-condicionado.

Hoje, por incrível que pareça, é mais fácil suportar o calor horroroso de Porto Alegre. Pois a tarifa aumenta, mas a qualidade dos ônibus só piora. A Carris, que já foi eleita por duas vezes a melhor empresa de ônibus urbanos do Brasil, agora tem até baratas em seus veículos e praticamente deixou de adquirir veículos com ar-condicionado – com exceção dos mini-ônibus das linhas circulares do Centro, há quatro meses da eleição, e que andam quase sempre cheios. E o TRI RUIM só serviu para deixar as coisas ainda piores.

Atualmente, só não vou a pé para o Campus do Vale porque 14 quilômetros é uma distância considerável. Tem valido muito mais a pena caminhar, mesmo com calorão, do que andar de ônibus. Até porque, considerando a relação custo-benefício, para aliviar o calor é mais negócio comprar uma garrafinha de água mineral do que pegar um ônibus.

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Atualização: ouvi notícia de que a passagem subirá um pouco menos, irá a R$ 2,30 se o Fogaça sancionar. Mas ainda é um absurdo.

Quando a vitória não é exatamente nossa

19 de junho de 1996, Estádio Palestra Itália, São Paulo. Palmeiras e Cruzeiro entram em campo para decidir a Copa do Brasil. Nunca eu fui tão cruzeirense como nesse jogo. E nunca o Cruzeiro foi tão Grêmio como nesse jogo.

O motivo? O Palmeiras eliminou o Grêmio na semifinal, graças a um erro de arbitragem no final do segundo jogo, no Olímpico. Um gol legal de Jardel foi anulado, sob alegação de impedimento. O então presidente do Grêmio, Fábio Koff, ameaçou deixar a presidência do Clube dos 13 em protesto. Houve invasão de campo por parte dos torcedores gremistas revoltados, que tentaram agredir a arbitragem e os jogadores do Palmeiras.

Devido ao acontecimento, fiquei com raiva do alvi-verde, e torci muito pela derrota do time paulista. Assim, naquela final eu fui “Cruzeiro desde criancinha”.

A primeira partida da final, disputada no Mineirão, acabara empatada em 1 a 1. Logo, o empate em 0 a 0 daria o título ao Palmeiras. A confiança dos palmeirenses no título era enorme, a ponto de meu colega de turma na 8ª série Giuseppe, paulista e palmeirense, passar boa parte da aula na manhã daquele dia dizendo “Palmeiras campeão da Copa do Brasil”. Eu dizia para ele esperar o jogo acabar, que não comemorasse antes…

Mas assim que a bola rolou, tive a impressão de que teria de aturar ainda mais o Giuseppe na manhã seguinte: aos 5 minutos o Palmeiras fez 1 a 0 com Luizão. O Cruzeiro precisaria virar o jogo para ficar com o título, o empate em 1 a 1 levaria a decisão aos pênaltis. E era improvável que o Palmeiras perdesse: para se ter idéia, o time tinha craques como Rivaldo e Djalminha.

Mas o Cruzeiro não se entregou. E me deu esperanças ao empatar o jogo, aos 25 minutos do primeiro tempo. O autor do gol era mais um motivo para vibração: Roberto Gaúcho. Era um gol de “gaúcho” para vingar os gaúchos roubados nas semifinais.

Após sofrer o gol, o Palmeiras voltou a pressionar. Mas esbarrou em Dida, que fez verdadeiros milagres para impedir o segundo gol palmeirense. Velloso, goleiro do Palmeiras, também fez sua parte ao impedir um gol de cobertura de Palhinha, já no segundo tempo.

Porém, Velloso acabaria se tornando o vilão da noite. Aos 36 minutos do segundo tempo, o goleiro palmeirense tentou cortar um cruzamento de Roberto Gaúcho, falhou e deixou a bola nos pés de Marcelo, que virou o jogo: 2 a 1. A partir daquele momento, o empate passava a ser azul, pois o Cruzeiro tinha mais gols fora de casa do que o Palmeiras.

Quando vi a bola balançar a rede, comemorei como se fosse gol do Grêmio. O Palmeiras, apelidado de “máquina mortífera” por ter marcado mais de 100 gols no Campeonato Paulista de 1996, era derrotado depois de eliminar na roubalheira o meu Grêmio! Minha mãe já tinha ido se deitar, acordei ela com a feliz notícia do segundo gol do Cruzeiro, que tirava a Copa do Brasil das mãos de quem havia ousado comemorar antes da hora.

Quando o jogo acabou, sentimos o sabor de termos conseguido nossa vingança, mesmo que não exatamente por nossas mãos. E nos sentimos ainda mais triunfantes quando um jogador do Cruzeiro, que infelizmente não me recordo qual foi, disse em entrevista: “vingamos o Grêmio”.

Na manhã seguinte, cheguei cedo ao colégio. Os colegas gremistas estavam felizes da vida com a derrota do Palmeiras. E ansiosos pela chegada do Giuseppe… Até imaginamos que ele não iria à aula. Mas ele chegou com uma cara terrível, naquela fria e chuvosa manhã de início de inverno em Porto Alegre. Com um tempo daqueles, pegar um resfriado seria barbada. Daí minha pergunta médica ao colega palmeirense: “já tomou teu Energil-C hoje?” – o nome do comprimido efeverscente de vitamina C estampava a camisa do Cruzeiro campeão.