Ah, se o Guaíba fosse limpo…

Minha mãe esteve por nove dias em Campo Grande. E ela não sofreu com o calor em nenhum dia na capital sul-mato-grossense.

Ou seja, acho que o problema é de Porto Alegre mesmo… Aliás, só pode ser, porque no auge da onda de calor de janeiro de 2006, fui a uma formatura em Uruguaiana, considerada a cidade mais quente do Rio Grande do Sul, mas não sofri tanto, mesmo com temperaturas superiores às de Porto Alegre. Tudo porque o tempo por lá andava muito seco, com baixa umidade.

Pelo pouco conhecimento que tenho de Geografia, sei que a presença de grandes massas de água impede uma maior amplitude térmica – o que explica o fato de Uruguaiana registrar 40°C ou até mais no verão, e frio abaixo de zero no inverno: fica bem longe do mar. Em compensação, a praia é sempre mais agradável no verão.

Se Porto Alegre não tem mar, tem o Guaíba. O problema é que pelo visto ele não é grande o suficiente para fazer com que o calor por aqui diminua, então só nos fornece muita umidade.

Mas ele poderia nos propiciar um refresco nesses dias escaldantes se não fosse poluído na maior parte de sua extensão, o que torna um banho em suas águas algo arriscado. Pena que quando se fala em “revitalizar a orla do Guaíba” em Porto Alegre, alguns com poder de decisão entendem “construir espigões residenciais” (que além de esquentarem a cidade, poluem muito mais as águas, pois residências produzem “pipi” e “cocô” – não quis ser “desbocado”). Despoluir o Guaíba, que é bom…

Discussão inoportuna

Mês passado, divulguei aqui a palestra realizada pelo engenheiro Henrique Wittler a respeito da definição do Guaíba, se seria rio ou lago. Wittler apresentou diversos argumentos científicos que permitiriam classificar o Guaíba como rio – o que mostra não haver consenso acerca do assunto, visto que também com base em argumentos técnicos se pode chamar o Guaíba de lago, como os utilizados pelo Atlas Ambiental de Porto Alegre, coordenado pelo professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS.

A definição científica do Guaíba é uma discussão que cabe aos acadêmicos, e ela deve ocorrer em um ambiente propício a ela – ou seja, a universidade – e não na imprensa. E, seja rio ou lago tecnicamente, o fundamental é lutar pela preservação do Guaíba, que legalmente é rio (assim diz a Lei Orgânica de Porto Alegre, o Atlas Ambiental é um trabalho acadêmico, não uma lei).

A propósito, vale lembrar que o próprio Menegat reconhece que seu trabalho está sendo usado em benefício dos concretoscos (já que a área de preservação permanente em margem de rios chega a 500 metros, aí chamam o Guaíba de lago mesmo que legalmente continue a ser rio, para diminuir a APP para apenas 30 metros) e defende que lagos deveriam ser muito mais protegidos do que rios, pelo fato de suas águas serem mais paradas.

Ou seja: trata-se de uma inoportuna discussão entre dois defensores do Guaíba. Melhor seria se nem tivesse começado. Quem ganha com isso são os concretoscos.

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Atualização: a charge abaixo, do Eugênio Neves, ilustra bem esse post.

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Beto Moesch: “O porto-alegrense não conhece Porto Alegre”

O vereador falou a frase com a qual concordo totalmente – tanto que escrevi um post a respeito disso sábado passado – em uma reunião-almoço oferecida pelo Sindipoa (Sindicato de Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre) aos membros da Câmara Municipal, na última terça-feira.

Além disso, Moesch fez questão de lembrar que vários projetos para a orla do Guaíba já foram feitos, como os calçadões do Lami e de Ipanema – onde estive no sábado passado tomando cerveja.

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Quanto ao turismo em Porto Alegre, cada vez fico mais convicto: a cidade tem atrações para vários gostos. Quem se diz “envergonhado” por não ter “o que indicar para os turistas”, é porque não conhece Porto Alegre!

Aliás, no post do sábado passado esqueci um lugar sensacional que, pode não ser dentro dos limites do município de Porto Alegre (pois fica em Viamão), mas é “do lado”: o Parque Estadual de Itapuã. Em resposta ao meu comentário no post citado, do blog Da Cidade, o Felipe Prestes lembrou que todo verão os porto-alegrenses deslocam-se 150 quilômetros em direção ao litoral gaúcho (que não tem nada de extraordinário, pelo menos não perto do mar), tendo Itapuã bem pertinho (e com um caminho sem pedágios nem congestionamentos). Onde é possível tomar banho no Guaíba: água limpa e não-gelada, sem sal nem mães d’água.

Porto Alegre não precisa do Pontal

Ao invés de falar sobre o Pontal do ponto de vista ambiental e também urbano, dessa vez decidi escrever a respeito de outro aspecto: o turismo.

Hoje passei a tarde com os amigos Adriana, Mario e Paulo – que são também colegas da UFRGS. Após um ótimo almoço, fomos para a Zona Sul, onde tomamos uma cervejinha num bar da Avenida Guaíba, mesa ao ar livre, com direito à vista da bela paisagem formada pelo Rio Guaíba e os morros às suas margens. Excelente programa para uma tarde espetacular de outono.

Isso me fez pensar e ter ainda mais convicção: é preciso ser muito tosco para achar que Porto Alegre precisa do Pontal do Estaleiro para atrair turistas. Afinal, nossa cidade já tem lugares sensacionais, só que desconhecidos por muita gente. Ou até conhecidos mas inseguros, como o mirante do Morro Santa Tereza, de onde se descortina uma vista belíssima da cidade.

Os pontaleiros dizem que “não há o que indicar para os turistas verem em Porto Alegre”. Dizem isso por desconhecerem a cidade em que moram! Por acreditarem que devemos todos seguir regras preestabelecidas, construídas em outros contextos: “eles criam, nós copiamos”.

Penso que o mais legal de se conhecer em uma cidade que se visita – e mesmo na que se mora – são as suas peculiaridades. Nada é “atração turística” no exato momento em que surge. Já ouvi falar que a Torre Eiffel foi considerada “feia” quando concluída em 1889, mas tornou-se um símbolo de Paris (e da própria França), a ponto de se dizer que “quem vai a Paris e não visita a Torre Eiffel, é como se não tivesse estado em Paris”. E por que aquela torre tornou-se tão famosa? Não é simplesmente por oferecer uma vista panorâmica da cidade, e sim, porque ela só existe lá. Se existissem cópias da Torre Eiffel em várias partes do mundo, obviamente as pessoas de posses (que os pontaleiros acham que deixariam muito dinheiro em Porto Alegre por causa do Pontal) continuariam indo a Paris para visitarem a original e desfrutarem das outras atrações da capital francesa.

Logo, como eu disse, é tosquice achar que, como em um passe de mágica, Porto Alegre se tornará “turística” com edifícios na orla do Guaíba. A cidade não precisa disso. Ainda mais que orla cheia de prédios há em diversos lugares, como Camboriú ou Rio de Janeiro. E, como eu disse, quem tem dinheiro para viajar ao Rio, não vai trocar por Porto Alegre – ainda mais que o Rio tem praia onde se pode tomar banho (no Guaíba não dá graças à poluição gerada pelo “progresso”) e muito mais.

Os porto-alegrenses precisam parar com essa mania de acharem que a cidade “não é atrativa”, e passarem a mostrar o que ela (e só ela) tem de bacana.

Guaíba: rio ou lago?

guaibario

A propósito: vi gente afirmando que “Auguste de Saint-Hilaire dizia já em 1820 com todas as letras que o Guaíba era um lago”. Só que eu tenho uma edição do diário de viagem dele (“Viagem ao Rio Grande do Sul”), e pelo que li, ele não tinha certeza alguma. Aliás, na maioria das vezes ele se referia ao Guaíba como “rio”. E também afirmou, quando procurava definir se era rio, lago ou lagoa, que “lago é uma porção de água cercada de terra por todos os lados” – definição que eu aprendi no colégio (ou será que todos os meus professores de Geografia estavam errados?).

“Em porteira que passa um boi, passa uma boiada.”

Esse ditado gaúcho já foi citado diversas vezes, por várias pessoas, em relação ao Pontal do Estaleiro. Por falta de criatividade, o cito mais uma vez.

Foi aprovado um projeto ilegal (contraria lei federal sobre áreas de preservação permanentes) na Câmara Municipal, ontem. Será permitida a construção de edifícios comerciais e residenciais na área do antigo Estaleiro Só (Ponta do Melo). Espigões com o mesmo volume do Hospital de Clínicas.

O projeto original, enviado pelo prefeito José Fogaça, previa a realização de um referendo para o povo decidir. Mas aí começaram a dizer que era caro demais, ainda mais para tratar “apenas do Pontal do Estaleiro”. Então, o transformaram em consulta popular (na qual o voto não será obrigatório, e nem haverá campanha de rádio e televisão com tempos iguais para os dois lados), a ser realizada em um prazo de 120 dias. Mas atentem para um detalhe da emenda apresentada pelo líder do governo Valter Nagelstein (PMDB): se a consulta não for realizada no prazo, a lei entra em vigor automaticamente… Não é uma beleza?

E não se iludam, achando que ontem apenas se aprovou o projeto referente à Ponta do Melo. Pois já virou moda os nossos vereadores legislarem por partes – foi o que se viu no caso dos projetos da dupla Gre-Nal, aprovados em 29 de dezembro (entre o Natal e o Ano Novo, quando boa parte da população estava fora da cidade). Abriu-se o precedente para projetos semelhantes em toda a orla do Guaíba. O verão, que já é nojento em Porto Alegre, vai ficar ainda pior: os ventos provenientes do Guaíba, que aliviam um pouco o calorão, serão barrados por uma porrada de prédios. Não por acaso, me dizem que o Rio de Janeiro é uma beleza em Copacabana (à beira do mar), mas torna-se infernal à medida que se entra para dentro da cidade, já que os prédios na orla barram os ventos do mar.

Sem contar que o concreto em excesso ajuda a aquecer ainda mais o ambiente – bem diferente das árvores, que além de proporcionarem sombra também ajudam a diminuir um pouco a temperatura.

Sinceramente, quero acreditar que haverá a consulta, e que se a maioria votar contra o projeto, a vontade popular será respeitada. Mas, já penso seriamente em ir embora dessa cidade que em nome do “progresso” perde cada vez mais o que lhe resta de qualidade de vida. A primeira oportunidade que tiver para morar no interior (de preferência em uma cidade menos quente), agarrarei com todas as forças.

Vereador ameaça estudante

Aconteceu ontem na Câmara Municipal de Porto Alegre uma reunião, em que uma comissão de representantes do Fórum de Entidades Locais e estudantes da UFRGS, liderados pelo vereador eleito Pedro Ruas (PSOL), foi recebida pelo presidente da casa, Sebastião Melo (PMDB), e pela mesa diretora. O assunto era a proposta de alteração da lei que proíbe espigões à beira do Guaíba e assim impede a concretização do projeto Pontal do Estaleiro. A vereadora eleita Fernanda Melchionna (PSOL), que marcou a reunião, não pôde comparecer por não conseguir liberação do trabalho.

Ao final da reunião, o vereador Haroldo de Souza (PMDB) ameaçou o estudante Rodolfo Mohr, coordenador-geral do DCE da UFRGS, que registrou queixa na polícia. O vereador disse, raivosamente, que reagirá com violência em caso de novo protesto como o acontecido na quarta-feira passada.

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Na Câmara de Vereadores

Ontem à tarde, diversos cidadãos porto-alegrenses, membros de entidades ambientalistas, associações de moradores ou simpatizantes fizeram manifestação silenciosa na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, contra o projeto Pontal do Estaleiro. Há uma pressão do poder econômico para que a lei que proíbe construção de espigões à beira do Guaíba seja mudada, e os vereadores, espertamente, conseguiram transferir a votação para depois da eleição. Mas os cidadãos já demonstram que estão de olho em nossos representantes.

Além do protesto, vale a pena chamar a atenção para uma fala da vereadora Sofia Cavedon (PT), que além de se manifestar contra o projeto, também declarou sua solidariedade com diversos educadores que foram vergonhosamente atacados por uma pseudo-reportagem da revista Veja, dentre eles Paulo Fioravante, professor de História do tradicional Colégio Anchieta, em Porto Alegre. Citou inclusive charges do cartunista Santiago, que ontem estava presente na Câmara passando um abaixo-assinado contra a construção de um espigão na Lima e Silva.