Ué? O Complexo do Alemão não tinha sido “pacificado”?

Charge de Carlos Latuff

Lembram de todo o “auê” midiático quando da ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas, em novembro do ano passado? Diziam que era o início de uma “era de paz” para as comunidades da região, uma das mais violentas do Rio de Janeiro.

Eis que, no último domingo, chegaram via Twitter informações sobre um confronto entre moradores e integrantes da “força de pacificação”. E desde ontem, os tiroteios entre traficantes (é, eles voltaram…) e militares ocupam bastante espaço na “grande mídia”.

Obviamente lá estão os repórteres da Globo usando coletes a prova de balas. Achei estranha tal cena: afinal, se há paz, para que usar colete a prova de balas?

E na televisão assisti também a cenas de pessoas, provavelmente moradoras da região, sendo agredidas com spray de pimenta, por motivos que não entendi muito bem. Tudo isso, claro, super “na paz”.

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Rádio comunitária é fechada no Rio

Claro que a “grande mídia”, grande defensora da liberdade de imprensa, não soltou um pio sobre esse fato acontecido no Dia Mundial da… Liberdade de Imprensa.

Do MonBlog:

Rádio Santa Marta é fechada e comunicadores populares são detidos

Na manhã desta terça-feira (3/5), a rádio comunitária Santa Marta, localizada na comunidade de mesmo nome, em Botafogo, zona Sul do Rio, foi fechada em uma ação da Polícia Federal e da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL). Os agentes lacraram todos os equipamentos e levaram o transmissor. Rapper Fiell (Emerson Claudio Nascimento) e Antonio Carlos Peixe, os diretores da emissora, foram levados pelos agentes para as dependências da Polícia Federal, na Praça Mauá, Rio. Parece ironia, mas a ação repressora que fechou a rádio comunitária do morro carioca ocorreu no Dia Mundial de Liberdade de Imprensa, decretado pela ONU em 1993.

Para ler mais, clique aqui.

Intolerância e o massacre no Rio

Ontem pela manhã, aconteceu em São Paulo um ato em defesa do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) e suas declarações abertamente preconceituosas. Basta dar uma olhada nas fotos dos apoiadores de Bolsonaro para perceber o quão “do bem” eles são: caras fechadas, tatuagens nazistas, rostos cobertos (ué, se são “do bem” não deveriam temer mostrar a cara, né?) etc. Em contraposição, a esquerda convocou um ato para o mesmo local e no mesmo horário, inclusive reunindo mais gente que os fascistas. A polícia formou um “cordão de isolamento” entre os nazi-fascistas e os manifestantes de esquerda para evitar que houvesse um confronto, e prendeu oito pessoas: seis da direita (dentre eles o responsável por uma bomba na Parada Gay de São Paulo no ano passado e um dos envolvidos na agressão com lâmpadas a homossexuais na Avenida Paulista, em novembro passado, além de outros que eram acusados de homicídio) e duas da esquerda (dois punks que estavam sem documento de identidade).

Vivemos um momento de crescimento da intolerância não apenas no Brasil, é verdade. Mas é terrível que isso ocorra num país como o nosso, onde o “normal” é justamente a diversidade. Chega a ser risível (mas também assustador) que certas pessoas achem que “o brasileiro típico” é branco, heterossexual e cristão; e pior, que só estes devam ser respeitados.

A cultura da intolerância é a causa do chamado bullying nas escolas e em outros ambientes. Afinal, as vítimas das agressões são sempre pessoas que não são aceitas por não se encaixarem nos “padrões” – até mesmo sendo brancas, heterossexuais e cristãs. Afinal, é preciso também ser “bonito” (qualquer que seja o padrão de beleza), extrovertido, bom no futebol etc. Se fugir um pouco disso, vêm os rótulos, os apelidos depreciativos… Muita gente não se encaixa exatamente no “padrão”, e inclusive chega a se identificar com a vítima, mas por medo de passar a ser alvo de chacota, procura evitar ao máximo o colega agredido, ou pior ainda, une-se aos que o atacam.

Aí eu leio diversos textos sobre o massacre na escola de Realengo com uma importante informação: Wellington Menezes de Oliveira era vítima de bullying. Era gozado pelos colegas por ser “diferente”.

Obviamente isso não quer dizer que toda a vítima de bullying um dia irá invadir a escola onde estudou (ou estuda) e disparar dezenas de tiros. Mas não se pode achar que o alvo de gozações aceita isso numa boa – ainda mais durante a adolescência. Com agressões repetidas ao longo de muito tempo, é difícil que a vítima não sinta a menor vontade de se vingar de seus algozes.

Se o agredido tiver problemas psicológicos – caso de Wellington – ele procurará de fato a vingança. E se não puder acertar as contas com seus verdadeiros agressores, o fará com quem mais se assemelhe: no caso de Realengo, foi com os atuais alunos da escola (principalmente meninas, ou seja, ódio por mulheres, a misoginia), que nada fizeram a ele, e provavelmente nem o conheciam.

A tragédia de Realengo

Ainda não tinha tido tempo de escrever sobre a tragédia acontecida quinta-feira no Rio de Janeiro – algo que eu estava acostumado a só ver no noticiário internacional. E com tantas “explicações” para o massacre, fica difícil formar uma opinião que não seja mera reprodução de uma das versões para o fato. Porém, o que me parece indiscutível é que, em momento de comoção como o atual, sempre aparece um monte de gente com “explicações simples” para o problema.

A primeira, é o equívoco de se culpar a venda legal de armas de fogo e munição pela tragédia. Por acaso alguém acha que Wellington Menezes de Oliveira obteve suas armas de maneira legal? Ora, mesmo que a opção “sim” tivesse sido a mais votada no referendo de 2005, a venda de armas de fogo não teria acabado: ela continuaria a existir, apenas ilegalmente, assim como o tráfico de drogas (que há décadas é combatido, mas não acaba nunca).

Outra, que foi bastante explorada pela mídia corporativa, foi sobre o suposto (e põe suposto nisso!) “fundamentalismo islâmico” de Wellington. Basta ler a carta atribuída a ele e divulgada pela própria mídia, para perceber que ele fala muito em Jesus Cristo, ou seja, que o cara é cristão, e não muçulmano. Ou seja, aquela velha história de tratar os muçulmanos como “terroristas em potencial”, como se todos (e apenas) eles fossem “fanáticos”, e não existisse fanatismo em outras religiões.

Pior, é repetirem constantemente que Wellington era “retraído, antissocial, vivia no computador etc.”, criando o estereótipo de que todo mundo que é assim, um dia vai comprar armas (ilegalmente, repito), invadir uma escola e matar um monte de gente. Ora, o que não falta no mundo são pessoas tímidas, fechadas, e que usam bastante o computador – e nem por isso temos tantos assassinos em potencial. Wellington era alguém com problemas psicológicos, que precisava de tratamento: afinal, a pessoa sã vai pensar muitos milhares de vezes antes de sair matando todo mundo (e não cometerá tal ato).

Assim, acaba deixando-se de discutir o que realmente é necessário, como o bullying nas escolas e em diversos ambientes sociais, o fato de Wellington ter matado prioritariamente meninas, o ódio ao diferente que é cada vez mais fomentado (Bolsonaro, lembram?), o individualismo e aquela estúpida divisão entre “vencedores e perdedores” (que se vê muito em filmes estadunidenses que retratam escolas, mas que também está presente no Brasil), dentre outras questões. Mas isso, vou deixar para o(s) próximo(s) post(s).

Copa 2014 e Rio 2016: os nossos “Banheiros do Papa”?

Em agosto passado – mais precisamente, durante a final da Libertadores – assisti ao filme uruguaio “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa), de César Charlone e Enrique Fernández. De meu programa alternativo ao futebol nasceu uma resenha, publicada no Pipoca Comentada.

O filme é baseado em fatos reais. Em maio de 1988, João Paulo II visitou o Uruguai, e a cidade de Melo, próxima à fronteira com o Brasil, estava no roteiro.

O anúncio de que o Papa passaria por Melo gerou enorme expectativa em seus moradores, que viram no acontecimento a oportunidade de ganharem bastante dinheiro com a venda de lanches aos muitos milhares de fiéis de outros lugares (principalmente do Brasil) que, segundo a televisão, iriam à cidade ver o pontífice. O personagem principal, Beto (César Troncoso), decidiu construir um banheiro e cobrar pelo uso: como tanta gente iria comer tanto, também precisaria “se aliviar” em algum lugar, né?

Assistir a esse filme faz pensar muito nos próximos “eventos grandiosos” que acontecerão no Brasil: a Copa do Mundo de 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016 (embora sejam só no Rio de Janeiro, todos os brasileiros irão pagar). Muitos veem tais eventos como “a grande oportunidade”, e a televisão apenas estimula ainda mais o ufanismo. Aqui em Porto Alegre, pela Copa se justifica qualquer barbaridade.

Só que em Melo, o dia 8 de maio de 1988 virou símbolo de ruína econômica, já que a passagem do Papa não atraiu os muitos milhares de visitantes que a televisão dizia que iriam à cidade e assim a maior parte dos “comes e bebes” não foi vendida, restando apenas dívidas para quem havia apostado tudo no acontecimento. Assim como muitos gregos não devem gostar de lembrar dos Jogos Olímpicos de 2004, realizados em Atenas: dentre os motivos para a quebra da Grécia estão os gastos excessivos com instalações esportivas que, após o apagamento da pira olímpica, viraram “elefantes brancos”. Falta saber como será o final da história para o Brasil.

Por que não ser solidário sempre?

A mobilização que se viu para ajudar as vítimas das chuvas no Rio de Janeiro me fez pensar sobre o quanto os desastres naturais acabam por despertar a solidariedade nas pessoas.

No dia-a-dia, costuma-se ser extremamente individualista. Quando se vê um mendigo pedindo esmola, geralmente não se justifica o fato de não dá-la porque isso não soluciona o problema (e de fato não soluciona, mas ao mesmo tempo, ficaríamos mais pobres por dar umas moedas ao cara?), mas sim, porque “se esse vagabundo quer dinheiro, que vá trabalhar!”. (Mas o imbecil que diz isso daria um emprego ao coitado?)

Então vem um desastre natural. Chuvarada, vendaval, terremoto. E muitas vezes vemos aquele furioso individualista, separando roupas e alimentos para doar às vítimas da tragédia.

A catástrofe fez o cara mudar, repensar suas atitudes? Não. É apenas uma “solidariedade de ocasião”. Pois reparem que geralmente as tragédias geram mobilizações quando suas vítimas não se resumem às classes mais baixas. Tanto nas chuvas do Rio quanto nas de Santa Catarina (2008), a classe média também foi afetada. E, como lembra a letra da música “Classe Média”, de Max Gonzaga, “toda tragédia só me importa quando bate em minha porta”. Ainda mais quando é no Sul ou no Sudeste.

Sendo assim, a mídia corporativa teve de noticiar. E sabem como é: se a televisão fala em solidariedade, em como “doar é bonito”, o médio-classista individualista tem de aderir, não pode ficar fora dessa.

Isso que quer dizer que condeno a solidariedade às vítimas da tragédia? Claro que não! Que bom que, ao menos nestas ocasiões, as pessoas se ajudam umas às outras. Mas não custaria nada sermos solidários sempre (até porque, ao mesmo tempo que ajudaríamos, também seríamos ajudados). Não só com quem perdeu sua casa, como também com quem não tem casa.

Por que não “flexibilizar” as leis ambientais

A tragédia das chuvas assola novamente o Rio de Janeiro, assim como no ano passado, em duas oportunidades (janeiro e abril).

O meteorologista do INPE Giovanni Dolif, em entrevista ao portal iG, lembra que já se registrou maiores volumes de chuva em curtos períodos (desta vez choveu cerca de 250 milímetros em Teresópolis), mas sem resultar em tantas mortes. O motivo?

Dolif lembrou que em Caraguatatuba, em 1968, chegou a chover cerca de 500 milímetros de uma só vez, mas que o número de mortos foi menor. “O estrago material, com queda de barreiras e deslizamentos, deve ter sido maior. Mas o número de mortos foi menor, afinal, a cidade tinha uma população menor naquela época,” diz. “A tendência desses desastres naturais é sempre piorar, por causa da maior ocupação, mais construções, etc.”

Percebe-se algo em comum entre vários desastres ambientais recentes no Brasil: construções em locais inadequados, desrespeito às leis ambientais… As mesmas que, em nome do “progresso”, certos políticos querem “flexibilizar”.

E vamos combinar que nem é necessário que as leis ambientais sejam mais rigorosas. Basta que as existentes sejam cumpridas.

A “guerra do Rio”

Nada escrevi sobre a violência no Rio de Janeiro nos últimos dias, simplesmente porque não significa nada de novo. E infelizmente, não irá acabar de uma hora para a outra – até porque também não foi “do nada” que ela surgiu, e sim da desigualdade social no Brasil, que no Rio é muito visível.

Como diz o ditado, “uma imagem vale por mil palavras”; então troco três mil palavras por três cartuns de Carlos Latuff.

O samba da bolinha de papel

Simplesmente sensacional. “Partido Alto Bolinha de Papel”, por Tantinho da Mangueira e Serginho Procopio.

Um debate que sempre deve ser promovido

Conforme o prometido em resposta ao comentário do Carmelo Cañas na postagem anterior, continuo com a discussão acerca de alguns fatos ocorridos na Vila Belmiro na última quarta-feira, quando Santos e Grêmio se enfrentaram pela Copa do Brasil.

Ele me contestou acerca da crítica aos torcedores que cantaram o Hino Riograndense enquanto era tocado o Hino Nacional Brasileiro, antes da partida. Lembrou algo que, de fato, acontece: em geral, no chamado “eixo Rio-São Paulo” há quem parece esquecer que nós aqui do Rio Grande do Sul também somos brasileiros, e assim cantar o hino do Estado enquanto era executado o Nacional se justificaria como “protesto”. É um argumento que merece ser levado em conta, claro, mas ainda acho mais interessante respeitarmos para que sejamos respeitados. E aí, se eles não respeitarem, temos um argumento mais a nosso favor.

Porém, no mesmo comentário, o Carmelo falou sobre algo ainda mais grave, e isso sim, merece nosso absoluto repúdio: os gritos de “filhos de nordestinos” de (alguns, diga-se de passagem) gremistas para santistas, como se isso fosse ofensa. O que me faz pensar mais acerca dos preconceitos regionais: somos nós, aqui no Rio Grande do Sul, os mais discriminados?

Se no “eixo Rio-São Paulo” há quem esqueça que o Rio Grande do Sul é Brasil, há tanto lá como aqui gente que dá a impressão de não considerar nortistas e nordestinos como brasileiros. E quando falamos mal da Globo por “só torcer contra os nossos times”, não podemos esquecer de uma das narrações mais escandalosas da história do futebol brasileiro: na partida decisiva da Copa do Brasil de 2008, Cleber Machado narrou o segundo gol do Sport contra o Corinthians como se tivesse sido marcado por um clube estrangeiro.

Enfim, entendo as reclamações aqui no Rio Grande do Sul quanto a “desprestígio” no centro do país (inclusive minha “monstrografia” de conclusão de curso falou justamente disso – e no futebol!). Mas antes de “chiarmos”, acho uma boa ideia verificarmos se nós mesmos não cometemos os atos que criticamos quando são contra nós.