O Brasil agoniza

museu nacional

Como se não bastasse o roubo do futuro, a austeridade do (des)governo – que inexiste na hora de dar aumentos para a galera do “andar de cima” – também destrói o nosso passado, com este incêndio no Museu Nacional que penava por falta de recursos.

E ainda restam 19 anos de congelamento dos investimentos públicos graças à “PEC do fim do mundo”, aprovada em 2016 com apoio de uma galera raivosa de direita só porque o PT era contra.

Triste fim do que poderia ser um grande país.

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O Banheiro do Papa manda lembranças

O fato foi notícia anteontem. Das várias cidades do Rio Grande do Sul que investiram na expectativa de serem CTs de seleções na Copa do Mundo, só uma foi escolhida: Viamão, que receberá o Equador.

Quem acompanha o Cão há mais tempo, já lera em 2011: a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 têm tudo para resultar em vários “Banheiros do Papa” pelo Brasil. No caso do Rio Grande do Sul, como vimos, já “é uma realidade”, pois da mesma forma que a passagem do papa João Paulo II por Melo (Uruguai) gerou uma enorme e frustrada expectativa entre os habitantes da cidade, o Estado apostou em “atrativos” que uma análise racional mostraria serem inexpressivos: colonização alemã e italiana, clima e “platinos”.

A “natural” atração de Alemanha e Itália por conta das colônias alemã e italiana no Rio Grande do Sul, qualquer um com mais conhecimento perceberia ser uma furada. Primeiro, porque alemães e italianos não vieram apenas para o Estado: a colônia germânica é muito grande também em Santa Catarina (a maior Oktoberfest do mundo fora da Alemanha é a de Blumenau); e não faltam descendentes de italianos em São Paulo, de localização muito mais central, o que facilita os deslocamentos pelo Brasil. E outra: de forma geral, alemães e italianos não se identificam com seus descendentes por aqui – ou seja, exatamente o contrário do que acontece com teuto-brasileiros e ítalo-brasileiros em relação a Alemanha e Itália.

O clima mais frio também seria um “atrativo” para as seleções fugirem do calor excessivo. Porém, é importante lembrar que a maior parte dos jogos acontecerá em cidades quentes; as duas sedes mais frias são Curitiba e Porto Alegre: a primeira só terá partidas da primeira fase, e a segunda “se despede” nas oitavas-de-final. Ou seja, faz muito mais sentido “se hospedar” no centro do país, especialmente em São Paulo e arredores, onde na época o tempo é mais ameno – nem tão quente, nem tão frio – e também pela facilidade de ir tanto a Manaus (calor muito forte e úmido) como a Porto Alegre (inverno). Sem contar outro detalhe: as cidades litorâneas e quentes são mais atrativas a turistas europeus que pretendam vir por conta da Copa, visto que em boa parte de seus países faz frio durante a maior parte do ano.

Outra aposta furada era quanto à grande presença de argentinos e uruguaios no Rio Grande do Sul, devido à proximidade. Porém, havia um detalhe que poucos levavam em conta: as cidades onde cada seleção joga (exceto o Brasil) são definidas por sorteio, e nenhuma delas disputa mais de uma partida da primeira fase no mesmo lugar. Assim, desde que Argentina e Uruguai foram definidas como cabeças-de-chave, já se podia antecipar que só uma delas poderia jogar em Porto Alegre, para isso precisando ficar no grupo F. O sorteio nos brindou com um Argentina x Nigéria, mas também poderia ter deixado os platinos longe do Estado. E não podemos esquecer de algo: a proximidade entre Buenos Aires e Porto Alegre facilitará a vinda de argentinos para o jogo, mas também a volta… Não convém apostar muito neles quanto a benefícios monetários.

E de qualquer maneira, mesmo que os “atrativos” do Rio Grande do Sul fossem sem aspas, não se podia deixar de levar em conta a conjunção de dois fatores: organização e geografia. Até 1994, a distribuição das cidades-sede se dava por grupos, e assim as seleções de cada chave jogariam apenas em duas ou três cidades. Em 1998 isso mudou: os seis jogos de cada grupo passaram a acontecer em seis cidades diferentes, fazendo com que as seleções viajassem bastante pelo país-sede. Até 2010 não havia problemas, pois as distâncias não eram tão grandes; agora, num país enorme e de climas variados, e com jogos acontecendo em várias partes do vasto território, a coisa complicou. Imaginem uma seleção se hospedando no Rio Grande do Sul e precisando ir jogar em Manaus: isso significaria não apenas sair de um possível frio intenso para um calor sufocante, como também uma viagem bastante demorada, o que torna muito mais lógico a opção por concentrações em pontos mais centrais do Brasil.

Quanto à opção do Equador por se hospedar no Rio Grande do Sul, provavelmente tenha sido mais barata em comparação com outros Estados mais centrais. E a tabela também ajudou: os equatorianos não jogarão em Porto Alegre, mas sim em cidades acessíveis sem necessidade de viagens demoradas (Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro). Ou seja, Viamão também teve sorte.

O Natal e a colonização cultural

Lembro de ter feito um breve comentário no Facebook em 31 de outubro, acerca do “mimimi” em relação ao Dia das Bruxas (ou Halloween), celebrado naquela data e que ganha adeptos no Brasil. Foi algo no sentido de apontar a contradição dos que viram “patriotas” e criticam a colonização cultural, mas quando chega dezembro celebram o Natal comendo peru e venerando um homem que veste fantasia invernal em pleno verão.

É muito fácil falar mal do Dia das Bruxas – que é, sim, algo importado dos Estados Unidos. (Mas aí leio um pouco sobre a história da comemoração, lembro também que Joana D’Arc foi queimada como “bruxa” – afinal, mulheres protagonistas nunca agradaram ao poder – e começo a simpatizar com a data.)

Agora, o que dizer das “tradições” do final do ano?

O hábito de se comer peru (carne da qual não sou fã, é seca demais) no Natal, por exemplo, não é nada brasileiro. É também importado dos Estados Unidos – onde a ave é servida também no feriado de Ação de Graças, celebrado na quarta quinta-feira de novembro. (Aliás, é derivada desta celebração a tal “Black Friday”, que nos EUA marca o início das “compras de Natal” e no Brasil é um dos maiores “engana-bobos” de que se tem notícia.)

Agora, nada mais simbólico da colonização cultural do que o uso de uma simbologia “fria” em pleno verão brasileiro. Pinheiros esbranquiçados pela “neve”, o Papai Noel andando de trenó e vestindo roupas invernais etc. Claro, pois são tradições do hemisfério norte, onde o Natal marca justamente o início do inverno. Ou seja, exatamente o contrário do que se tem no hemisfério sul, onde é o verão que começa em dezembro.

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Óbvio que é também absurdo nos fecharmos totalmente a outras culturas. Afinal, é a coisa mais normal que haja intercâmbios de costumes e tradições, sem contar que muitas celebrações se adaptam a peculiaridades locais.

Um bom exemplo é o Carnaval, festa considerada tão “brasileira” e que é celebrada de diversas formas em várias partes do mundo – aliás, é mais antiga que o Brasil! E há diferenças mesmo dentro do país: basta comparar os festejos de Salvador e Olinda com os do Rio de Janeiro; aliás, eis outro exemplo de “colonização”, pois não faltam cidades cujas festas de Carnaval são cópias – muitas vezes mal feitas – dos desfiles das escolas de samba cariocas.

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Atualização (29/11/2013, 22:59). Falando em “adaptações às peculiaridades”, lembrei do que acontece na celebração do Natal por minha família. Como já falei, não gosto muito de peru, e por conta disso, comia muito pouco na ceia quando criança. Então, em 1986, meu pai teve a ideia de que se fizesse creme de ervilha (sim, sopa em pleno verão!), visto que sempre gostei muito de tal prato. Para que não houvesse nenhum risco, o “Papai Noel” tomou um pouco de creme enquanto deixava os presentes na árvore (assim é bom ser o “velhinho”, comer antes de todo mundo…), e obviamente me empanturrei depois. O resultado é que até hoje tomamos creme de ervilha no Natal – e eu raramente como algum pedaço de peru.

A ditadura vive

O inquérito da Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre o desaparecimento de Amarildo Dias de Souza, em 14 de julho, foi concluído. O documento, além de indiciar dez policiais militares, também aponta que Amarildo foi submetido a choques elétricos e asfixiado com um saco plástico. Epilético, ele não resistiu à tortura.

Você não leu errado. É isso mesmo: tortura. “Igual à ditadura?”, muitos perguntarão. Resposta: como é feito em uma ditadura que ainda não acabou.

Em 1985, simplesmente os militares deixaram o governo, cedendo-o aos civis. Mas a polícia segue sendo a mesma de antes, e não mudou seus métodos. Contra os pobres, como simboliza a morte de Amarildo. E também contra estudantes e professores, como se viu essa semana no Rio. No Brasil, a questão social continua a ser “caso de polícia”, e a ser tratada da maneira mais truculenta possível.

Quando o filme “Tropa de Elite” foi lançado, a classe média vibrou. Comemorava feito gol cada “vagabundo” morto, e quase tinha orgasmos quando o Capitão Nascimento dizia “traz o saco”. Um saco plástico semelhante ao que matou Amarildo e inúmeras outras pessoas.

“No BOPE não tem corrupto”, dizia o Capitão Nascimento no primeiro “Tropa de Elite”. Os bobos acreditaram. E mesmo depois da continuação do filme ser lançada e mostrar os interesses por trás de uma polícia absurdamente violenta, para muitos ainda “não caiu a ficha”. O mesmo Nascimento (que de capitão ascendera a coronel), ídolo de uma multidão sedenta de sangue, disse tudo: “eu não puxei esse gatilho sozinho”.

A ditadura, amigos, segue viva. E forte. Ela vive na criminalização dos movimentos sociais, no aplauso a ações truculentas da polícia, na vibração por “mais um vagabundo morto”, nas sessões de tortura que mataram Amarildo e muitos outros, em certos deputados que estão por aí pregando ódio… E, reparem, parlamentares não “chegam lá” sozinhos: recebem votos para isso. Sinal de que representam o pensamento de muitas pessoas.

Ou seja, a ditadura vive em nós também. E nós podemos ser suas próximas vítimas.

O Dia dos Pais nas famílias de muitos Amarildos

Meu irmão e eu passamos boa parte do dia de hoje com nosso pai. Lembramos histórias do passado, comemos uma feijoada, enfim, convivemos bastante neste domingo.

Muitas pessoas não tiveram a mesma oportunidade. São casos de pais que moram longe, já morreram… Ou simplesmente desapareceram.

O último caso é o dos filhos de Amarildo Dias de Souza, que no dia 14 de julho foi levado por policiais à UPP da Rocinha e nunca mais foi visto. Desapareceu, como tantas outras pessoas que foram vitimadas pela brutalidade da polícia brasileira.

amarildo

A imagem do dia (do mês, do ano)

Vi pela primeira vez, pequena, e parecia que o prédio estava “cercado”. Depois que vi ela maior, percebi que havia o reflexo nas janelas envidraçadas do edifício onde estava o autor desta magnífica fotografia que achei no Facebook (aliás, não consegui descobrir a autoria, me informem nos comentários para que eu possa creditar). Mas ainda assim: quantas pessoas mais estavam lá, provavelmente ocultas da lente pelo prédio?

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013

Sim, houve violência, digo aos de sempre que (ainda) repetem os chavões “bando de baderneiros” como justificativa para a repressão policial. Mas quem depreda o patrimônio público, deixando-o em situação pior do que já está*, não representa a maioria dos que estão na rua.

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* Como tanto já se disse, “não são só 20 centavos”, em referência ao aumento da passagem do transporte coletivo, que foi apenas a gota d’água para a indignação vir à tona. Um dos motivos que levam o povo para a rua é a má qualidade dos serviços públicos – dentre eles o transporte, já que foi por conta dele que os protestos começaram. E aí uns “gênios” inventam de quebrar e queimar ônibus, o que só piorará a já péssima qualidade do serviço…

Moral e bons costumes

Semana passada, entrou em vigor a chamada “lei da moral e dos bons costumes” no Estado do Rio de Janeiro. Houve quem reagisse falando apenas da autora do projeto que virou lei, a deputada Myrian Rios (PSD): porém, se a proposta virou lei, primeiro ela teve de ser aprovada em plenário (ou seja, tem muita gente que concordou com Myrian), e depois ainda sancionada pelo governador Sérgio Cabral (o que aconteceu na quinta-feira). Ou seja, criticar apenas a deputada é, no mínimo, injusto.

Mas a questão que considero fundamental é: quem definirá o que é “moral” ou “imoral”, os costumes “bons” ou “maus”? Olha, se depender de algumas figurinhas eleitas por aí, é de dar medo.

Há quem, por exemplo, ache imoral tomar uma cervejinha ao ar livre. Foi ano passado, se não me engano, que se propôs uma lei em São Paulo que proibiria o consumo de bebidas alcoolicas na rua – ou seja, sentar numa mesa na rua para pegar um vento e tomar uma cerveja gelada, negativo!

E se alguma mulher estiver a fim de um cara e chegar nele, poderá sofrer sanções com base na nova lei? Se depender da visão de muita gente, sim: afinal, mulher que toma a iniciativa é “vadia, oferecida”, que está “pedindo para ser estuprada”; ou seja, isso é “imoral”, transgride a lei.

Vale o mesmo para usar roupas curtas. Afinal, “estar com calor” nada mais é do que “desculpa para praticar a devassidão”.

Se quisermos, podemos fazer uma enorme lista do que é “imoral”. Acordar tarde, dormir durante o dia, falar palavrão etc. O maior problema é que dificilmente todos os nossos costumes se enquadram no conceito de “moralidade” para certas pessoas; e se estas detiverem algum tipo de poder (como um mandato legislativo), haverá o risco de enfiarem goela abaixo de todos as suas noções de certo e errado, sem debate nem nada… Daí o risco que decorre de uma lei de “moral e bons costumes”.

E vamos combinar que, se não gosto de alguma coisa e ela não me afeta, não há motivos para querer que ela seja proibida. Num exemplo bem simples: eu não gosto de ir a “baladas”. O que eu faço? Simples: não vou! O fato de muita gente gostar e frequentá-las não me prejudica em absolutamente nada. Por que proibir?

A Novembrada e a questão dos símbolos

Placa alusiva aos 30 anos da Novembrada no Senadinho, tradicional ponto de encontro no Centro de Florianópolis

João Baptista Figueiredo foi o último general a ocupar a presidência do Brasil. Ao assumir o poder, em 15 de março de 1979, jurou que faria do país uma democracia, e mais adiante disse que iria “prender e arrebentar” quem fosse contra a abertura. Bela maneira de democratizar um país…

Mas o “prendo e arrebento” nem foi a frase mais famosa de Figueiredo. Teve uma que foi simbólica do que pensavam os conservadores brasileiros, aqueles que deram todo o apoio ao golpe em 1964:

Prefiro cheiro de cavalo do que cheiro de povo.

No dia 30 de novembro de 1979, porém, o general que preferia o cheiro de cavalo ao do povo teve não apenas de sentir o cheiro, como ouvir a voz do povo. Foi em Florianópolis, onde Figueiredo chegara para participar de solenidades oficiais, dentre elas, a inauguração de uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto, que deu o nome à cidade.

Só a visita de Figueiredo já seria suficiente para motivar manifestações, já que havia muito descontentamento por todo o país devido à alta do custo de vida, o que empobrecia ainda mais o povo. Mas a homenagem a Floriano era a “cereja no bolo”: o “Marechal de Ferro” governara o Brasil de 1891 a 1894 de forma ditatorial (igual aos generais do regime de 1964) e ilegal, visto que a Constituição promulgada poucos meses antes dele assumir a presidência previa que caso o titular – na época, o Marechal Deodoro da Fonseca – deixasse o cargo antes de completar a metade do mandato (que se estenderia até 15 de novembro de 1894), o vice governaria apenas interinamente, devendo convocar eleição para definir um novo presidente que completaria o mandato.

Floriano Peixoto não só ignorou a Constituição, como governou de forma despótica, reprimindo severamente as revoltas que estouraram na época – da Armada, no Rio de Janeiro; e Federalista, no Rio Grande do Sul. Os participantes de ambas se uniram e ocuparam Desterro, capital de Santa Catarina. Após a retomada da cidade pelas tropas governistas, com direito a prisões e fuzilamentos de muitos catarinenses, o governador Hercílio Luz – o mesmo que empresta seu nome à famosa ponte – decidiu mudar a denominação da capital para Florianópolis, ou seja, “cidade de Floriano”. O que não era exatamente a vontade do povo, visto que o governo do Marechal Floriano era bastante impopular na Ilha de Santa Catarina. A mudança de nome foi vista mais como uma humilhação do que como uma homenagem justa, embora a denominação anterior também não agradasse muito à população por ser ligada à ideia de “exílio”, tanto que antes da mudança já havia propostas de outros nomes para a cidade.

A combinação explosiva resultou em uma manifestação popular que contou com aproximadamente 4 mil pessoas, promovida por estudantes da UFSC e duramente reprimida pela polícia. Após ser recepcionado pelo governador Jorge Bornhausen no Palácio Cruz e Sousa, Figueiredo dirigiu-se ao Senadinho, tradicional ponto de encontro no Centro de Florianópolis, sendo hostilizado no trajeto e batendo boca com manifestantes. Mas além do ditador de então, a placa em homenagem ao ditador de 1894 – ou seja, Floriano Peixoto – também foi alvo da ira popular, sendo arrancada do pedestal e pisoteada pelos manifestantes. Sete estudantes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, motivando novas manifestações nas semanas seguintes, agora em favor da libertação dos estudantes.

A série de protestos em Florianópolis que ficou conhecida como “Novembrada” demonstra a importância que têm os símbolos em nossas vidas – afinal, embora a placa em homenagem a Floriano Peixoto não fosse a única motivação das manifestações, pode-se dizer que foi das mais importantes, por simbolizar o que era considerado uma humilhação ao povo da cidade. Prova que “valor simbólico” não é sinônimo de “sem valor”.

E onde eu queria chegar com tudo isso? A duas questões bastante debatidas em Porto Alegre nos últimos quatro meses: a mudança de nome da entrada da cidade (a proposta do PSOL rejeitada pela Câmara previa que a Avenida Castelo Branco passaria a se chamar Avenida da Legalidade) e a retirada dos crucifixos das dependências do Poder Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul.

No primeiro caso, trata-se de não mais homenagear ditadores em nomes de ruas, praças, bairros… E mesmo cidades, caso de Florianópolis. Na Rússia, nem o palco de uma das mais famosas batalhas da Segunda Guerra Mundial resistiu: após a morte de Josef Stalin e a denúncia dos crimes cometidos durante sua ditadura de 29 anos (1924-1953), a homenagem ao déspota tornou-se inaceitável e o governo soviético decidiu mudar o nome de Stalingrado, que passou a se chamar Volgogrado. A capital catarinense, ao contrário da avenida porto-alegrense, tem o problema de não ter uma boa proposta (vamos combinar que as belezas naturais da Ilha de Santa Catarina não combinam com uma cidade chamada “Desterro”, já que tanta gente quer ir morar lá por livre e espontânea vontade, ideia totalmente oposta a de um exílio), mas a ideia da mudança de nome tem de ser mais debatida pela população local.

Já o segundo é mais polêmico, por envolver religião e seus dogmas. Há quem ache que retirar crucifixos das paredes do TJ é uma ameaça à liberdade religiosa: porém, trata-se de uma verdadeira consagração desta, pois quem é seguidor de outra crença (ou quem não tem nenhuma) não será obrigado a submeter-se simbolicamente ao Cristianismo – o crucifixo na parede significa que sua religião não é tão prestigiada quanto aquela cujo símbolo é ostentado. Se o Estado é laico, isso quer dizer que parede de tribunal não é lugar para qualquer símbolo religioso.

Muita gente acha que a preocupação com questões simbólicas é “falta do que fazer”. Porém, a polêmica dos crucifixos é a maior prova de que não: se fosse “coisa sem importância”, não veríamos cristãos defendendo tão fervorosamente a permanência de seus símbolos nos recintos de um dos poderes do Estado.

Cassar Bolsonaro não resolve o problema

Hoje, Jair Bolsonaro voltou a falar absurdos. Discursando na tribuna da Câmara, o deputado do PP do Rio de Janeiro atacou as propostas do Ministério da Educação de materiais e procedimentos para combater o preconceito nas escolas. Bolsonaro, como sempre, falou em “kit gay” e insinuou que a presidenta Dilma Rousseff seria homossexual. (Tem até vídeo disso, mas em respeito aos leitores, me recuso a disponibilizá-lo aqui no Cão; quem tiver estômago para ver, procure no YouTube.)

A sexualidade de qualquer pessoa é uma questão de foro íntimo. Ao passarmos pelas pessoas na rua, não temos como dizer, com 100% de certeza, qual é sua orientação sexual. E não pensem que basta prestar atenção em como ela se comporta, como fala etc.: já vi pessoas que se fosse me basear nos estereótipos as consideraria homossexuais, mas eram héteros.

Aliás, há quem acredite que “quem defende gay, só pode ser gay” (e sempre achando que a homossexualidade é um crime). Coisa dos Bolsonaros da vida. Como se a luta das mulheres pela igualdade de gênero tivesse de ser apenas delas, como se só as etnias historicamente discriminadas pudessem combater o racismo, enfim, como se a pessoa pertencente a um grupo opressor não pudesse tomar a decisão de remar contra a maré, combatendo a opressão que seus “iguais” empreendem contra os diferentes.

Só que se engana quem pensa que basta cassar Bolsonaro para acabar com a homofobia no Brasil (e o mesmo vale para quem acredita que será o fim das pregações pró-ditadura militar). Pois, por pior que seja o deputado, não podemos deixar de lembrar que em 3 de outubro de 2010 ele recebeu o voto de 120.646 eleitores do Estado do Rio de Janeiro – ou seja, mais de um Maracanã atual.

E se pensarmos que há muita gente em várias partes do país que votaria nele… Dá para encher vários Maracanãs. Assustador, mas real.

Jair Bolsonaro representa o pensamento de muita gente. Obviamente isso não isenta o deputado de responsabilidade pelo que fala, mas os mesmos que votaram nele poderão, caso ele seja cassado, eleger alguém que seja até pior. Ou seja, se não mudar a mentalidade das pessoas, políticos como Bolsonaro continuarão sendo eleitos.

O Pan sumiu (da Globo)

Em 2007, os Jogos Pan-Americanos foram realizados no Rio de Janeiro. Durante praticamente os dias inteiros, a Rede Globo transmitia as competições e exibia boletins sobre o evento. Foi uma cobertura digna de Olimpíada, que a emissora não fizera no Pan de 2003, realizado em Santo Domingo (República Dominicana).

Quatro anos depois, uma nova edição dos Jogos Pan-Americanos acontece, desta vez em Guadalajara, no México. Nos primeiros dias de competições os atletas brasileiros já haviam obtido vários bons resultados. Mas não apareceram na Rede Globo. E não é porque o Pan é realizado fora do Brasil: como já foi dito, em edições anteriores à do Rio a emissora não deixava de falar sobre o evento, mesmo sem fazer uma cobertura como a de 2007.

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