Minha eterna mania de ser “do contra”

Tenho convicções firmes, isso é fato. Me fazer mudar de ideia não é nada fácil.

Isso tem um aspecto negativo: há ocasiões em que estou errado e demoro a reconhecer, só para “não dar o braço a torcer”. Raramente reajo bem quando criticado – ainda mais que a maioria delas não é a tão falada e pregada “crítica construtiva”, mas sim ataques que acabam sendo pessoais.

Por outro lado, “não dar o braço a torcer” também tem seu lado positivo: é bem difícil me fazer aderir a ondas, modas etc. Quando muita gente defende a mesma coisa, é quase que automático o meu posicionamento contrário. (Aliás, essa onda conservadora só me deixa mais convicto de que o meu lado é a esquerda.)

Tal “tendência pessoal” vai além de posicionamentos políticos. Se estende a outros aspectos da vida.

Lembro dos meus tempos de adolescência, quando comecei a ser convidado para “baladas” e sempre recusava por “não gostar”. Apesar de nunca ter ido a uma até então, ver tanta gente dizendo que gostava e falando maravilhas me deixava certo de que tal “diversão” deveria ser furada. Era um daqueles casos em que se aplica aquele bordão “não tenho provas, mas tenho convicção” (aliás, no repasse do boato que fez surgir tal bordão valeu a mesma lógica). Resisti por um bom tempo, até que comecei a aceitar os convites – mas aos 25 anos já tinha largado de mão novamente, preferindo muito mais ir a bares com mesas na rua e podendo conversar sem necessidade de gritar devido à música alta.

Ironicamente, quando a maioria dos amigos passou à “fase seguinte” daquele roteiro-padrão das vidas de “classe média” (ou seja, começaram a casar), comecei a ter aversão à ideia de casamento. Ter filhos, então… (Hoje até admito casar – mas sem ter filhos – um dia, só que por um motivo que escandaliza “gente romântica”: duas pessoas morando juntas dividem as contas e assim sobra mais dinheiro. Só que isso não me faz querer “me juntar” com a primeira mulher que aparecer na frente, ainda mais em minha fase atual, na qual ando acreditando mais na política tradicional do que no amor – como prova o próprio fato de ver mais razões econômicas do que afetivas em casar… Vai ter de acontecer uma “revolução” na minha vida para mudar este quadro.)

Ao mesmo tempo em que prefiro à solteirice, também abomino o que se convenciona como “vida de solteiro”. Um “pacote” que inclui as por mim detestadas “baladas”, e também “farra”, “putaria”, “curtir a vida adoidado”… Dizem que “não estou aproveitando”, mas respondo com um sincero “foda-se, da minha vida e dos meus gostos cuido eu” – e sei que não vou me arrepender depois que eu casar vier a “revolução”. É uma grande ironia: tenho uma “vida de casado”, preferindo ficar em casa numa sexta-feira à noite (ainda que bebendo) do que fazer “programas de solteiro”.


Só que uma eventual “virada” no senso comum também não vai me fazer “guinar” para o outro lado. Ao contrário: vai apenas me motivar a dizer “viram só como eu estava certo”?

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A Hora “W”

Varsóvia, 1º de agosto de 1944. Às 17h locais, o exército da resistência polonesa (Armia Krajowa) atacou as tropas nazistas que ocupavam a cidade desde o início da Segunda Guerra Mundial e deu início à Revolta de Varsóvia, com o objetivo de libertar a capital – e o próprio país – do domínio tanto alemão quanto soviético. (A Conferência de Teerã, em 1943, já estabelecera a “partilha” da Europa para o pós-guerra com a Polônia ficando na área de influência da União Soviética, o que não deixava de ser a troca de uma dominação por outra.)

O levante acabou derrotado após dois meses, vários milhares de mortos e desaparecidos, e muitos prédios destruídos nos combates (como se já não bastassem os danos que vinham desde 1939). Após a rendição dos resistentes os nazistas continuaram a destruir Varsóvia, de modo que em 1945, quando a guerra chegou ao fim, 85% da capital polonesa estava em ruínas.

A cada 1º de agosto, os poloneses literalmente param tudo o que estão fazendo às 17h para prestar homenagem aos resistentes com um minuto de silêncio, na chamada Hora “W” (Godzina “W”, de “Warszawa”).

A falácia dos “dois lados”

Foi instalada, na última quarta-feira, a Comissão da Verdade, que terá por objetivo esclarecer violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1946 e 1988. O foco, porém, deverá ser o período de 1964 a 1985, correspondente à ditadura militar.

A reação não tardou. Os clubes militares divulgaram nota na qual deixam claro o desejo de que a Comissão investigue “os dois lados” – ou seja, tanto os agentes do Estado como os opositores. Como se tivéssemos realmente “dois lados”, iguais em força e capacidade de coerção.

Acontece que a luta armada contra a ditadura militar nunca teve força suficiente para de fato ameaçar o regime. A própria Guerrilha do Araguaia, que resistiu por três anos (1972-1975) à feroz ação do Exército, era formada por menos de cem militantes. Ou seja, nem sequer podemos falar de “dois lados em disputa”: havia mesmo era um Estado autoritário que reprimia violentamente os poucos focos de resistência armada.

Mas, mesmo que consideremos a ditadura como “dois lados em disputa”, ainda assim não faz sentido querer que se julgue os militantes da esquerda armada. Pois eles já foram punidos pela própria ditadura (perseguição, prisão, tortura, morte). Tanto que quando da luta pela anistia, ela acabou servindo de desculpa para que também os agentes da repressão fossem incluídos no “pacote”, de modo a que ficassem impunes, como estão até hoje.

Querer que se investigue e se puna os “dois lados” no tocante à ditadura militar equivale a defender que em Nurenberg não só os nazistas fossem julgados: a Resistência Francesa, por exemplo, também deveria ser levada ao tribunal. Absurdo, né?

E quanto ao rótulo de “terroristas” que a direita põe nos militantes da esquerda, é bem típico de regimes autoritários para deslegitimar os opositores. Independentemente de sua vertente ideológica: em 1989, quando o povo se levantou contra a ditadura de Nicolae Ceauşescu na Romênia, o déspota acusou “terroristas” de serem os responsáveis pelos distúrbios. (E então, amigo reaça, vais virar “comunista” e defender Ceauşescu?)

Honduras: resistência ao golpe é constitucional

Parece meio óbvio, mas considerando que há em Honduras um governo originado de um golpe, é importante ressaltar.

A própria Constituição de Honduras especifica em seu artigo 3º que ninguém deve obediência a um governo ilegítimo, surgido por força das armas. (Com agradecimentos ao Jorge Nogueira, que enviou o trecho abaixo por e-mail.)

ARTICULO 3.- Nadie debe obediencia a un gobierno usurpador ni a quienes asuman funciones o empleos públicos por la fuerza de las armas o usando medios o procedimientos que quebranten o desconozcan lo que esta Constitución y las leyes establecen. Los actos verificados por tales autoridades son nulos. El pueblo tiene derecho a recurrir a la insurrección en defensa del orden constitucional.

O texto completo da Constituição hondurenha o leitor pode encontrar aqui.

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Em tempo: o golpe aconteceu supostamente “em defesa da legalidade”.

Supostamente, é claro. O presidente José Manuel Zelaya realizaria no mesmo dia em que aconteceu o golpe (28 de junho) um plebiscito, referente a uma possibilidade de reforma constitucional, que permitiria a reeleição presidencial. Se a população votasse a favor, haveria um referendo sobre a convocação de uma Assembléia Constituinte, que se realizaria no mesmo dia das eleições gerais de novembro de 2009.

O que já derruba a tese golpista de que Zelaya (eleito em 2005 por um partido de direita, mas que deu uma guinada à esquerda) pretendia ficar mais 4 anos na presidência: para ele poder concorrer à reeleição a reforma teria de ser aprovada bem antes da eleição, e não no mesmo dia, né?

E, se o povo hondurenho não queria a reforma, a solução seria bem simples: votar contra no plebiscito – assim nem o referendo aconteceria em novembro. Tudo muito simples, mas as elites latino-americanas e seus militares amigos adoram complicar.

Mosca na Sopa

Mosca na Sopa – Raul Seixas

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar…(3x)

Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar…(2x)

E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar…

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar…(2x)

-“Atenção, eu sou a mosca
A grande mosca
A mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto
A zum-zum-zumbizar
Observando e abusando
Olha do outro lado agora
Eu tô sempre junto de você
Água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Quem, quem é?
A mosca, meu irmão!”

Eu sou a mosca
Que posou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar…(2x)

E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar…

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar…(2x)

Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar…(2x)

Mas eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar…

Postagem inspirada em uma série do Hélio Paz, cada uma com um trecho dessa música do mestre Raul Seixas.