A outra Copa

Porto Alegre despediu-se hoje da Copa do Mundo com uma emocionante partida, como tem sido regra neste Mundial. O favoritismo da Alemanha foi posto à prova pela brava Argélia, que merece todos os aplausos de quem gosta de futebol e, em especial, do povo argelino, que pela primeira vez comemorou a classificação de sua seleção às oitavas-de-final e viu o time fazer frente a uma das favoritas ao título.

Durante o período de 15 a 30 de junho a cidade viveu alguns momentos memoráveis, como a “Orange Square” e a “invasão hermana”, devido aos jogos de Holanda e Argentina em Porto Alegre. Foi bacana a vinda de tantas pessoas de outros países, algo que deixa saudades em muitos de nós.

Porém, nem tudo foram flores em Porto Alegre e nas outras cidades-sede (seis das quais ainda receberão jogos, visto que o Mundial termina apenas em 13 de julho). Quem saiu às ruas para protestar, por exemplo, foi violentamente reprimido: em nome de garantir o direito das pessoas curtirem a Copa, foi cerceado o direito à manifestação de outras pessoas (algo já dito e que é importante repetir: concorde-se ou não com os protestos, não se pode proibi-los em um dito país democrático). E os problemas não se restringiram a isso.

Inúmeras famílias foram obrigadas a abandonar suas casas por conta de obras que, diziam, eram de “fundamental importância” para a realização do Mundial. E o pior de tudo, com a prefeitura descumprindo a promessa de que haveria a troca de “chave por chave” – ou seja, de que as famílias removidas dos lugares onde moravam há décadas receberiam novas casas. O que realmente aconteceu é que os removidos por conta das “obras da Copa” tiveram de se abrigar em casas de parentes, pensões, albergues etc. Tudo em nome do “progresso” que seria o maior “legado da Copa”.

As obras “fundamentais para a Copa” mostraram que não o eram. A duplicação da Avenida Tronco, que serviria para “desafogar” a região do Beira-Rio, simplesmente parou e não tem data para ser concluída. A ampliação da pista do Aeroporto Salgado Filho não aconteceu. A Copa do Mundo chegou, já foi embora, e ficou provado que não havia a necessidade de tais obras para a realização do evento. O verdadeiro propósito delas era outro: remover as famílias pobres que mais cedo ou mais tarde seriam o maior entrave aos interesses do poder econômico, aproveitando a oportunidade para “escondê-las”, mandando-as para bem longe da região central. Como em “circunstâncias normais” elas teriam maior possibilidade de chamar a atenção para a injustiça de que foram vítimas, nada melhor do que “passar por cima” com a desculpa do Mundial: em caso de reclamações, era só acusá-las de “serem contra o progresso” e de “quererem mandar a Copa embora”.

É disso que trata o excelente documentário “A Copa que o mundo perdeu em Porto Alegre”, produzido em parceria entre o Comitê Popular da Copa de Porto Alegre, a ONG Amigos da Terra e o Coletivo Catarse. Assista:

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Como estou vendo a Copa

Em 2007, quando a FIFA confirmou que o Brasil sediaria a Copa do Mundo de 2014, me declarei contra a decisão devido aos diversos problemas que o país tinha – e continua a ter. Não fui exatamente uma “voz solitária”: várias outras pessoas que conhecia também diziam ser contra o Mundial acontecer por aqui; mas de forma geral, os brasileiros celebraram em 2007.

Diversos motivos fizeram com que eu não me empolgasse com a Copa no Brasil mesmo com a aproximação do momento da bola rolar. Desde questões pessoais (o final de 2013 e o começo de 2014 simplesmente não precisavam ter existido na minha vida), políticas (os abusos da FIFA são inaceitáveis, por mais que se goste de futebol), chegando até a previsões de que o Mundial seria um desastre (mesmo sabendo que em geral tais prognósticos eram supervalorizados pela oposição que sonhava com um caos na Copa para poder culpar o governo, com tanta gente martelando a mesma coisa era difícil não ser influenciado de alguma maneira).

Pois bem: a Copa começou, e então passei a, enfim, curti-la. Afinal de contas, gosto de futebol. Não é toda hora que se tem a oportunidade de assistir a grandes jogos (embora eu não tenha comprado ingresso para nenhum), e também de presenciar momentos memoráveis como a “Orange Square” (tradicional festa dos torcedores da Holanda antes dos jogos de sua seleção); e depois a caminhada da “massa laranja” em direção ao Beira-Rio embalada pelo ritmo empolgante da sensacional banda Factor 12.

oranje

Isso quer dizer que mudei de ideia em relação à Copa, que considero um erro minha contrariedade em 2007? Claro que não. Ainda prefiro um Brasil melhor do que o Mundial. Porém, algo que andei pensando muito ultimamente foi: e se a Copa não tivesse vindo para cá, será que o país teria melhorado mais nestes últimos sete anos? Respondo: provavelmente não…

Minhas críticas à Copa do Mundo não se resumem em “ela tirou dinheiro da saúde e da educação”: tal frase corresponde a uma meia-verdade. As reformas e construções de estádios tiveram dinheiro público, mas boa parte dele corresponde a empréstimos do BNDES, ou seja, é grana que voltará aos cofres do governo. A “perda” foi em impostos que deixaram de ser arrecadados, visto que várias obras tiveram isenção fiscal – logo, menos arrecadação pelo poder público. Mas, os problemas da Copa não são apenas esses.

Afinal, muitos dos que criticam os gastos da Copa o fazem por puro e simples moralismo (aquela história de “abaixo a corrupção”, mas apenas atacando os agentes públicos corruptos sem se dar um pio quanto aos corruptores privados). Mas não estão “nem aí” para famílias que sofreram remoções forçadas por conta de “obras da Copa”, acham boa a “higienização social” nas cidades-sede do Mundial, e vibram quando a PM “desce a porrada” nos manifestantes (concorde-se ou não com suas pautas, eles têm todo o direito a protestar, a não ser que a democracia tenha sido revogada). Sem contar os operários que morreram nas obras dos estádios da Copa, alguns dos quais se tornarão “elefantes brancos” após o Mundial.


“Enquanto te exploram tu grita gol!”, diz uma frase que li em vários muros. Eis algo que considero o principal erro de muitos que não gostam de futebol: tratar quem gosta como “burros”, “alienados” etc. Aliás, declarando isso muitas vezes pelo Facebook: se o futebol é o “ópio do povo” como tantos gostam de dizer, a rede de Mark Zuckerberg (na qual a imensa maioria das postagens é pura bobagem) é o quê? Beber até cair, então, deveria ser atestado de “alienação” eterna.

Se há pessoas que gostam de futebol e são “alienadas”, isso não se deve ao esporte bretão: no lugar dele haveria outro “ópio do povo” (Facebook?). Assim como existem diversos casos de torcidas e mesmo clubes politicamente engajados. Um dos mais famosos é o St. Pauli, da Alemanha, que baniu de seu estádio quaisquer membros de movimentos extremistas de direita e por conta disso passou a ser cultuado por militantes anarquistas, socialistas e comunistas em vários outros países; em entrevista ao programa “Futebol, uma viagem”, o chefe de segurança do clube disse algo sensacional: “eu não jogo fora meu cérebro quando vou para um estádio”.

Mas não é preciso ir tão longe: o Ferroviário Atlético Clube, de Fortaleza, foi fundado em 1933 por trabalhadores da Rede de Viação Cearense (RVC) – ou seja, é um clube operário inclusive em suas origens. Terceiro maior vencedor do Campeonato Cearense, o Ferroviário revelou jogadores como Jardel (campeão e artilheiro da Libertadores de 1995 pelo Grêmio) e Iarley (campeão da Libertadores e do Mundo pelo Inter em 2006), e também tem uma torcida declaradamente de esquerda: a Ultras Resistência Coral, criada em 2005 por torcedores anarquistas e comunistas, combatendo o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância comum a diversas organizadas.

Maldita Copa

Gosto de futebol e adoro assistir Copa do Mundo. No dia seguinte à grande final, costumo sentir uma “sensação de vazio” por saber que, de novo, só depois de quatro anos.

Mas de uns tempos para cá, apesar de ainda adorar assistir aos jogos, não consigo mais deixar de pensar no que acontece fora de campo. A Copa do Mundo tem servido de desculpa para barbaridades: desde as remoções forçadas de famílias até o absurdo do secretário de Meio Ambiente (é sério!) de Porto Alegre dizer que a aprovação do projeto de lei que tombaria 70 “túneis verdes” na cidade iria “prejudicar as obras da Copa”.

Como tem sido amplamente falado na imprensa nos últimos dias, a proposta de “Lei Geral da Copa” não agradou à FIFA, que poderia inclusive mudar a sede do Mundial. Obviamente a proposta será alterada, pois sabemos que o governo não irá peitar uma entidade que tem mais poder que a ONU. (O que é uma pena, pois se isso acontecesse eu aplaudiria de pé.)

Só que para a FIFA o “problema” não é apenas a previsão legal de meia-entrada para idosos e estudantes. Conforme li nesta notícia do Correio do Povo, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, revelou que a FIFA quer também a suspensão do Código do Consumidor durante a Copa! Exato: quem comprar produto defeituoso na época do Mundial (mesmo que a mil quilômetros de distância de qualquer estádio), vai se ferrar bonito.

Cada vez fica mais claro que a Copa do Mundo de 2014 vai é implantar um verdadeiro regime de exceção no Brasil (traduzindo: ditadura). Não duvidemos que a FIFA “sugira” que outras leis sejam suspensas durante a Copa. Afinal, no Mundial passado a entidade máxima do futebol fez o que quis na África do Sul.