O cansaço das redes

Já faz anos que falo em excluir minhas contas nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter etc.) mas nunca o faço. Até desisti disso.

Acabo mantendo mas dando prioridade em seguir perfis que me façam rir e desestressar. Pois se bem utilizadas, tais redes podem ser divertidas. Acho mais válido assistir a um vídeo de gatinho fofo fazendo “gatice” do que às últimas do esgoto bolsonarista ou da “lacrosfera” de uma esquerda que ainda não entendeu por que está em baixa.

Mas tem dias em que elas cansam, não posso negar. Volta aquela vontade de encerrar as contas. Então lembro dos bichos engraçados e fico.


Coincidentemente, hoje mesmo faz nove anos de um hilário episódio (e que até relatei por aqui): ex-colega de uma cadeira na faculdade me mandou e-mail denunciando que o MST roubava ovos de tartarugas às margens do Rio Solimões ao invés de produzir alimentos em seus assentamentos na região. Tinha até foto, mostrando que era possível surfar no rio…

Obviamente não era o Rio Solimões, a foto nem mesmo tinha sido tirada no Brasil. Tratava-se da Praia de Ostional, costa do Oceano Pacífico, na Costa Rica. E a coleta de ovos das tartarugas, conforme informei no link indicado no parágrafo anterior, nada tinha de “roubo” ou de qualquer outra ilegalidade.

A difusão dessas merdas foi facilitada pelas redes sociais, mas elas não são as maiores culpadas: a burrice já existia bem antes delas surgirem. Tanto que Nelson Rodrigues, notório conservador falecido quase quatro anos antes do nascimento de Mark Zuckerberg, já falava que os idiotas dominariam o mundo não pela qualidade, mas sim pela quantidade: afinal de contas, eles são muitos.

De Nelson Rodrigues a Umberto Eco

terraplanismo

Por uma enorme ironia foi via Facebook, na sua seção “lembranças”, que atentei para o fato de que no último dia 19 de fevereiro completaram-se três anos do falecimento de Umberto Eco (1932–2016). O escritor italiano era um grande crítico do papel da tecnologia na disseminação da informação. Uma de suas declarações mais famosas acerca do tema foi dada em 2015, durante evento em que recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim:

As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

Quando ele se foi, já era percebido o efeito negativo das mídias sociais em nossa vida. Na época o Brasil discutia se a presidenta Dilma Rousseff seria ou não deposta pelo Congresso, no impeachment promovido por Eduardo Cunha: um ano antes disso já se falava do assunto, em especial entre eleitores do candidato derrotado no segundo turno da eleição de 2014, Aécio Neves, que acreditavam piamente que se Dilma saísse quem assumiria seria ele e não o vice-presidente Michel Temer; no WhatsApp eram difundidas inúmeras mensagens convocatórias para manifestações pró-impeachment, e uma delas falava em “usar verde e amarelo” para derrubar Dilma “igual a como se fez com Collor em 1989”.

O problema do texto era que, além de mal-escrito, continha informações incorretas: o impeachment de Fernando Collor foi em 1992, e os manifestantes usaram preto em reação a uma declaração do presidente pedindo que o povo saísse às ruas vestindo verde e amarelo para demonstrar apoio ao seu governo. Vale lembrar também que quem assumiu a presidência foi o vice Itamar Franco e não Lula, candidato derrotado por Collor no segundo turno da eleição presidencial — foi isso que aconteceu em 1989.

Mas ainda soava como pessimismo exagerado pensar que Donald Trump venceria a eleição presidencial nos Estados Unidos em novembro daquele mesmo ano de 2016 — e muito menos que o Brasil elegeria Jair Bolsonaro em 2018. Eram dois caras de discursos tão repulsivos, tão toscos, que parecia óbvio que eles mesmos “se afundariam” e seriam derrotados.

Só que menosprezamos as mídias sociais (com seus algoritmos), que tiveram papel fundamental na difusão de incontáveis mentiras (as chamadas fake news) que favoreceram tais candidatos. E, principalmente, se demorou a perceber que a tosquice deles era muito representativa da “legião de imbecis” à qual Umberto Eco se referia. Ainda que Trump não tenha sido o candidato mais votado pelo povo nos Estados Unidos (venceu graças ao anacrônico sistema eleitoral por lá utilizado), na época já se falava das chamadas “maiorias silenciosas”: pessoas com ideias absurdas que não as expunham pelo temor de virarem motivo de chacota. Ou seria possível levar a sério alguém que dissesse que vacinas matam ou, pior ainda, que a Terra é plana?

Infelizmente não são tão poucas pessoas que acreditam em tais absurdos. Impossível não lembrar de outro escritor, este brasileiro, chamado Nelson Rodrigues (1912–1980), que certa feita disse que os idiotas dominariam o mundo não pela qualidade e sim pela quantidade. Em especial, de um parágrafo de sua crônica “O Homem Fatal”:

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

O texto de Nelson Rodrigues foi escrito muito antes de existirem Facebook, WhatsApp, YouTube e similares — quando o cronista faleceu, Mark Zuckerberg sequer havia nascido. Na época, certos idiotas já tinham “palanque” e audiência: eram “formadores de opinião” que seguiam praticamente todos a mesma linha de pensamento, falando (e sendo lidos, ouvidos e vistos) em jornais, rádios e televisões. Mas era preciso ter alguma formação, algum conhecimento, que justificasse sua posição de destaque. E o fundamental: o papel deles era apenas opinar sobre acontecimentos que, na maioria das vezes, eram reais e não inventados.

É verdade que já se espalhavam mentiras antes de existirem mídias sociais. Mas elas dificilmente causavam um grande prejuízo à sociedade como está sendo verificado atualmente. Hoje em dia, é fácil escrever um texto no Facebook ou gravar um vídeo no YouTube dizendo que tudo o que a ciência já comprovou não passa de uma “grande conspiração para esconder a verdade” — as “teorias conspiratórias” sempre são um prato cheio para incautos, que as repassam sem checar se aquilo é verdadeiro ou não.

E assim, se chegou à situação absurda de ouvir gente dizendo que a Terra é plana, que aquecimento global é “conspiração marxista”, e ainda corremos o risco do retorno de doenças que foram erradicadas por campanhas de vacinação… Vivemos uma época na qual os argumentos científicos, que por sua condição precisam de bastante embasamento, são chamados de “opinião”. Sem contar o discurso de ódio, que não passa mais por nenhum “filtro” — ainda que boa parte dele seja expressa em caixas de comentários de grandes portais de notícia sem que haja moderação alguma por parte dos editores.

Faço minhas as palavras da professora Elika Takimoto, do tuíte cuja captura abriu este texto: que tempos.

Uma satisfação: voltar a escrever

Sim, ainda é pouco em comparação com 2007-2014. Mas é fato que na quinta-feira voltei a ter um texto aprovado em publicação do Medium. Foi este aqui, que saiu na Revista Subjetiva.

Eu não publicava nada lá desde junho, quando recém começava a Copa do Mundo!

E à tarde tive ideias para novos textos em conversas com colegas de trabalho, as quais foram devidamente anotadas para que fossem desenvolvidas depois. Não cheguei a escrever pois recém saiu o último, e atualmente tenho privilegiado a qualidade à quantidade: algo que noto em relação aos textos que escrevia 10 anos atrás é que muitas vezes eles chegavam a ser toscos e saíam muito mais por eu me sentir obrigado a ter opinião sobre tudo, do que refletindo realmente o que eu pensava. O que, afinal, é a base da “desgraceira” que se tornaram as redes sociais.

Nunca tive tão poucas certezas na vida como nos tempos recentes, e tenho sinceramente achado isso positivo.

Há 15 anos eu entrava na História

Tanto tenho criticado o Facebook, e eis que ele me ajudou a reparar em uma importante efeméride. Na seção “neste dia” apareceu que cinco anos atrás lembrei o décimo aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ou seja, hoje faz 15 anos daquele 16 de janeiro de 2004, uma das sextas-feiras com mais cara de sexta-feira que já tive.

Fiz uma captura de tela que postei no Instagram, um dos meus ex-colegas relembrou os tempos em que ler pilhas e pilhas de textos e bater um papo regado a (muito) café nos intervalos era parte do nosso dia-a-dia. Então reparei que no final de 2019 fará 10 anos que concluí o curso de História.

Saudades? Não posso dizer que não sinto nenhuma. Foram seis anos de muito aprendizado na faculdade, ainda que profissionalmente eu não tenha seguido na minha área de formação e no momento nem cogite isso – por enquanto, não acho que valha a pena.

Mas algo que aprendi na História é justamente que ela “não volta”, ao contrário de muitas pessoas que acreditam em um “eterno retorno” de líderes, reis e messias. Já ouvi amigos dizerem que gostariam de ter 16 anos com a mesma cabeça que têm aos 36, o problema é que isso é impossível: o que somos e pensamos hoje foi moldado ao longo de nossa existência, fruto da experiência obtida com acertos e – principalmente – erros cometidos durante a caminhada.

Como diz o ditado popular, “o que passou, passou”. Mesmo que o mundo de forma geral fosse melhor em 2009 do que é agora em 2019, não há como voltar atrás: é melhor procurar entender os motivos pelos quais ele piorou nestes últimos 10 anos. Aliás, é justamente por isso que a História é tão importante e não pode ser negligenciada como os donos do poder querem que aconteça.

Eu sei que miojo faz mal

Dias atrás, sem comida pronta e com preguiça de cozinhar, resolvi fazer um miojo para almoçar. E de gozação pensei em fotografar e postar no Instagram. Afinal, há quem até deixe a comida esfriar de tanto procurar o “ângulo perfeito” para “mostrar ao mundo” o que está comendo — mesmo que seja algo corriqueiro, tipo… Miojo. Não seria a primeira vez que eu ironizaria tal mania: ano passado tive de ir a uma emergência devido a dores nas costas que quase me impediam de dormir, causadas por um mau jeito na coluna; tomei medicação “na veia” para aliviar o desconforto e resolvi publicar uma foto do remédio no Instagram.

Mas decidi não postar absolutamente nada sobre o meu almoço, seja no Instagram ou no Facebook. Pois aí estaria a mercê de algumas das pessoas mais chatas da face da Terra: aquelas que adoram tretar por qualquer coisa nas redes sociais. Já imagino alguns dos comentários que viriam: “Que horror, comendo miojo, isso faz mal!”, “Cadê a salada?”, dentre outros “conselhos” irritantes.

Fora outras experiências próprias que citarei como exemplos:

  • Se reclamo do verão, vem gente me dar “conselho” do tipo “curtir praia”, “me associar em clube com piscina” (me pagar a mensalidade que é bom, ninguém quer), sem contar a mentira de falar que o calor não mata;
  • Manifesto meu conforto com o inverno, aí falam das mortes pelo frio (que é um problema social e não térmico, para que menos pessoas morram de frio é preciso redistribuir renda e não aumentar a temperatura), reclamam da conta de luz pelo aquecedor e o chuveiro elétrico (como se o ar condicionado no verão não gastasse nada), de comer demais (chega a parecer que encher a pança é obrigação);
  • Post de futebol, caso seja clubístico (ou seja, sobre o Grêmio), muitas vezes virou aquelas infinitas discussões “grenalizadas” sobre qual é “o maior” e que são uma gigantesca perda de tempo;
  • Já aconteceu também de postar no Facebook coisas relativas a algumas dores e mesmo distensões musculares, com o objetivo de “autozoeira” relativa à minha idade (que obviamente não é avançada a ponto de eu poder se considerado “velho”, mas ainda assim acho divertido brincar com a minha “velhice”), e ao invés de receber mais zoeira, tive de aturar mais uma vez os MALEDETTOS “conselhos” do tipo “me exercitar” (já estou LITERALMENTE careca de saber que o sedentarismo não é bom) ou “fazer academia” (mais uma vez: me pagar a mensalidade que é bom, ninguém quer);
  • E o que para mim é o pior de tudo: quando reclamam de alguma coisa que compartilho e dizem algo do tipo “não posta mais isso”, achando que têm direito de decidir sobre o que vou publicar no MEU perfil.

Alguém pode muito bem dizer que os “conselhos” são “para o meu bem”, e que reclamações contra o frio ou elogios ao calor são “liberdade de opinião”, e isso não deixa de ser verdade. Mas ao mesmo tempo, é por coisas assim que ultimamente navegar pelo Facebook em especial tem sido uma experiência irritante, e por isso tenho preferido muito mais compartilhar posts de humor ou informativos, com um ou outro comentário de futebol preferencialmente não-clubístico (mas quando falo do Grêmio, às vezes me antecipo aos colorados e toco flauta no meu próprio time). Além, é claro, dos links para os meus textos.

Só que a última “novidade” do Facebook é que o algoritmo agora vai priorizar mais os posts de perfis pessoais, em detrimento das páginas (muitas das quais têm caráter bastante informativo), e dando prioridade ao que é postado no próprio Facebook. Ou seja, vão aparecer mais selfies do que notícias, mais bobagens e menos coisas relevantes.

Resumindo: o que já era chato, vai ficar ainda mais chato. Vamos ter ainda mais “cagação de regra”, já que os posts se referirão ainda mais a questões pessoais. Mas a “nutricionistas” de plantão (por mim podia ter mil aspas pois não me refiro a quem tem graduação em Nutrição), já aviso: sei que miojo faz mal, só que vou comer de vez em quando caso me dê vontade, cuidem de suas vidas e parem de encher o saco.

A decisão de sair do Facebook

Já tinha pensado nisso faz tempo. Lá em 2013 cheguei a escrever um texto sobre o assunto. Mas agora tomei uma decisão: em breve, finalmente, irei “cometer facebookcídio”.

Sei que muita coisa mudará. Não terei mais 200 cumprimentos pelo meu aniversário (já que as pessoas hoje em dia têm nas redes sociais sua “agenda”). Perderei contato com quem não tiver meu e-mail ou telefone (para falar comigo via WhatsApp ou Telegram). Por isso, anunciei a decisão antes de encerrar a conta no Facebook – e assim dará tempo para quem quiser pegar meus novos endereços na internet.

Mas também me livrarei de muita “tralha”. Não me refiro a pessoas, e sim à overdose de informações que circula no Facebook. Tem muita coisa útil, importante. Mas a maioria é bobagem. Não é tão necessário saber, por exemplo, que fulano de tal está no bar x com y pessoas (e o negócio é tão maluco que é difícil não “entrar no jogo” e acabar fazendo as mesmas coisas). Assim como não deve ser nada agradável acontecer algo do tipo você gostar de uma pessoa e aparecer na sua linha do tempo que ela começou um relacionamento sério (e com alguém que obviamente não é você).

Também estarei livre de me deparar com coisas relacionadas a Onyx Lorenzoni, Jair Bolsonaro, Revoltados Online, Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, TV Revolta etc. (na real já bloqueei tudo isso no Facebook, mas sempre surgem coisas novas – e piores). Sem contar que aqui comentário-mala não tem vez: eu exerço meu papel de moderador.

Resumindo: de modo geral, vai ser melhor.

O fim do Orkut

No início de 2009 fiquei sabendo que o Esquilo Travesso, escolinha onde fiz o Jardim de Infância, iria fechar as portas pois sua sede (uma antiga casa na Rua Dona Laura) havia sido vendida para, posteriormente, ser posta abaixo.

A notícia me despertou nostalgia por aqueles dias em que eu frequentava a escolinha, de meados de 1986 ao final de 1988. E também me fez decidir pela volta ao Orkut após quase três anos de ausência – cometi meu primeiro orkutcídio no início de 2006 – na esperança de quem sabe reencontrar os coleguinhas daquela época. (Acabei não reencontrando ninguém, lembro que abri um tópico na comunidade perguntando por alguém da turma que concluiu o Jardim em 1988 e não houve resposta…)

No fim, terça-feira foi a vez do próprio Orkut cometer seu orkutcídio. O meu segundo – e definitivo – aconteceu em algum dia em 2012 ou 2013, o que demonstra a decadência da rede que até quatro anos atrás era a mais acessada pelos brasileiros: minha última saída do Orkut não marcou como a primeira, em 2006. No início de 2014, quando a rede completou 10 anos, a Google não tinha pretensões de acabar com ela; mudou de ideia em junho, quando anunciou o fim para 30 de setembro.

Confesso que o fim do Orkut, em si, não me causou maior nostalgia. Afinal, eu já desfizera minha conta e, quando tentei voltar, deu erro. Parecia que o próprio não me queria mais lá.

Por mais cruel que possa parecer minha avaliação, o Orkut não chegou ao fim “por nada”. É preciso avaliar todos os motivos pelos quais uma imensa quantidade de pessoas decidiu trocá-lo pelo Facebook, mas alguns são facilmente identificáveis: excesso de spam (do qual, inclusive, não estamos livres no FB), falta de dinâmica (em 2010, antes do Facebook “bombar”, a rede na qual se compartilhava links e notícias era o Twitter, não o Orkut), sem contar os “benditos” gifs animados que chegavam a dar dor de cabeça.

O ruim mesmo é que no Facebook não tem comunidades e não há sinal de que Mark Zuckerberg pretenda adotar tal funcionalidade “orkutiana” em sua rede. E se nem no Orkut, onde havia uma comunidade do Esquilo Travesso, eu consegui encontrar aquela menininha simpática de quem eu tanto gostava, no Facebook certamente não vou achá-la. Pode parecer bobagem, mas eu adoraria reencontrar alguém que não vejo há quase 26 anos.

Os 10 anos do Orkut

Em meados de 2004, recebi um e-mail de minha amiga Ísis. Achei estranho: a mensagem era em inglês, e tinha um link; confiei no meu antivírus e cliquei. Apareceu a tela abaixo:

orkut2004

Pouco depois, desconectei da internet (sim, naquela época se fazia isso, pois a conexão era discada, não era só ligar o computador e abrir o navegador), peguei o telefone e liguei para a minha amiga. Então ela me explicou o que era aquilo: uma página em que nos conectávamos aos amigos, descobríamos quantas amizades em comum tínhamos etc. Quando consegui entrar novamente na internet (pois é, às vezes a conexão não vinha…), fiz meu cadastro naquele tal de Orkut – que deve seu nome ao engenheiro do Google que o desenvolveu, o turco Orkut Büyükkökten. E, ainda sem entender bem para que serviria aquilo (afinal, não era um bate-papo como o ICQ e o MSN), comecei a adicionar comunidades.

Amizades, não: por cerca de um mês, tinha apenas a Ísis na minha lista, e não sabia de mais ninguém que usava o Orkut. Era uma novidade para muita gente, ainda mais que não era qualquer um que podia entrar: era preciso ser convidado. Cheguei a enviar alguns convites, mas demorou até a lista de amizades aumentar. Mas, quando isso começou a acontecer, não parou mais.

Logo, descobri o que considero uma das melhores coisas dessas chamadas “páginas de redes sociais”: a possibilidade de reencontrar pessoas com as quais não falamos há muito tempo. Amigos de infância com os quais se perdeu o contato, ex-colegas de escola etc. O que a vida tinha separado pelos mais diversos motivos (mudanças de endereço, de escola, pouco tempo para reencontros etc.), o Orkut oferecia a possibilidade de reunir.

A frequência de visitas ao Orkut aumentou bastante, já que havia mais pessoas com quem interagir, além das comunidades – várias eram inúteis, é verdade, mas outras eram um excelente espaço de discussão. Muitas vezes, chegava a passar horas na rede. Não ininterruptas, é claro.

orkut-nodonut

Mas não só por causa dessa “agradável” tela aí de cima. Como falei, em tempos de conexão discada, existia hora para entrar na internet – ou seja, quando as ligações eram mais baratas. Isso mudou a partir do momento em que passei a ter banda larga: bastava ligar o computador e abrir o navegador. E assim, as interrupções do Orkut passaram a ser, basicamente, a telinha acima. Tinha também algo chamado “estudar”, por causa da faculdade, o que me obrigava a ficar longe do Orkut mas com vontade de acessá-lo.

No início de 2006, tinha a perspectiva de disciplinas bastante difíceis. Temia “não dar conta”. Assim, o Orkut “pagou o pato” e desativei minha conta.

Foram quase três anos longe da rede. O retorno se deu no início de 2009, ao mesmo tempo em que criava meus perfis no Twitter e no Facebook. A princípio, não pensava em voltar ao Orkut: a entrada no Twitter era por curiosidade, por perceber que aumentava o número de blogueiros o utilizando; já no Facebook, aceitei um convite do meu amigo Hélio – que da mesma forma que a Ísis nos meus primeiros tempos no Orkut, por bastante tempo foi meu único contato na rede.

A volta ao Orkut se deu por “nostalgia”. Não da rede, e sim de minha antiga escolinha, o Esquilo Travesso, onde fiz o Jardim de Infância. No final de janeiro de 2009, li uma notícia sobre o fechamento do Esquilo, o que me motivou a escrever sobre ele. Assim, o retorno se deveu à vontade de tentar reencontrar os colegas daquela época: entrei na comunidade, mas não achei ninguém que tenha terminado o Jardim de Infância em 1988. Porém, também vi o retorno ao Orkut como uma maneira de divulgar mais o Cão Uivador – que não existia em 2006, quando cometi meu primeiro “orkutcídio”.

Pois é, o primeiro. Pois houve um segundo – e, por enquanto, definitivo. Em 2010 o Facebook começou a crescer rapidamente e “roubar” a hegemonia do Orkut – que até o final de 2011 se manteve como a rede mais usada pelos brasileiros (e o Brasil era o único país onde o Orkut era tão popular, visto que seu uso decaíra na Índia, onde também era a principal rede). Foram vários os motivos de tamanha mudança, mas o fato é que, com o Facebook crescendo muito e virando moda, o Orkut começou a minguar, com os amigos pouco acessando e/ou simplesmente apagando seus perfis. A relevância que tinha o Orkut até 2010 passou a ser do Facebook.

Assim, em algum dia ali por 2012 ou 2013, decidi desativar minha conta. Antes de “apagar a luz”, decidi conferir o número de amigos que ainda tinha: era bem menos da metade em comparação com o que já tivera.

Porém, 10 anos após o surgimento do Orkut (que foram completados ontem, dia 24), engana-se quem pensa que o Google pensa em acabar com ele. Ainda há um considerável número de pessoas que o utilizam – especialmente no Brasil, claro. Principalmente pelo que ele tem e o Facebook não: as comunidades, que não só dizem do que gostamos, como também funcionam como um interessante espaço para debates. É até mesmo algo que faz pensar em reativar a conta no Orkut – além, é claro, da sensação de “viagem no tempo” que isso proporcionaria. Quem sabe não seja uma boa ideia?

Aproveite mais e poste menos

Enquanto fotografava e postava, a pizza esfriava...

Enquanto fotografava e postava, a pizza esfriava…

“Braggie é a tendência para 2014 nas redes sociais”, dizem várias matérias de jornais e portais – nem sempre usando exatamente essas palavras, claro. O termo “braggie” tem um significado “curto e direto”: fotografia postada com o objetivo de causar inveja.

Antes de sair atirando pedra nos “exibidos”, é preciso refletir: quantas vezes também fizemos isso? A foto de abertura, tirada alguns meses atrás, não me deixa mentir: já postei “braggies” (é assim o plural dessa porra?). Mas, como diz a legenda, enquanto perdia tempo fotografando e compartilhando, a pizza ia esfriando… Não fosse a preocupação de mostrar a todos minha satisfação gastronômica, teria saboreado muito mais.

A partir da “pizza fria”, podemos fazer analogias a diversos outros casos. Por exemplo, agora é verão e muitas pessoas estão passando férias na praia. Oportunidade de descansar, se refrescar no mar e… Se exibir para todo mundo. Aí, quem ficou (literalmente) derretendo no Forno Alegre abria o Facebook e lá estavam inúmeras fotos de seus amigos “curtindo” a praia. O coitado lamentava por sua vida “desgraçada”, por estar na cidade nesse calorão, sonhando em inverter a situação: “logo será a minha vez de ir para a praia e postar muitas fotos, enquanto esses que lá estão já terão voltado”.

“Ir para a praia e postar muitas fotos”. Será que a pessoa quer realmente aproveitar a praia? Mais parece é que apenas está “mendigando curtidas”, querendo se sentir invejada. E não que esteja realmente aproveitando. O mesmo vale para quem vai à pizzaria e posta foto do prato (enquanto a pizza esfria), vai ao bar e posta foto do copo (enquanto a cerveja esquenta)… E nos shows então? O que mais se vê são pessoas que, ao invés de realmente desfrutarem do espetáculo, passam quase o tempo inteiro olhando para a tela de seus celulares e tablets, desesperadas para dizerem, naquele exato momento, que estão “curtindo muito” o show.

Diversas pesquisas apontam que redes como o Facebook e o Instagram causam depressão. O motivo é simples: é extremamente fácil passar aos outros a impressão de que temos uma vida “maravilhosa”, sem problemas, por meio de fotos bonitas e “felizes”. E então, alguém está solteiro e vê muitas fotos de “casais felizes”, está em casa numa sexta-feira à noite e se depara com uma foto dos amigos numa festa; está com fome e dá de cara com aquele belo prato de comida na tela; sofre com o calor na cidade e vê várias daquelas fotos (bem toscas, aliás) de “pernas estendidas” com o mar ao fundo… Vamos combinar que é difícil não nos sentirmos “inferiores”. Porém, ao invés de ir fazer algo melhor (ler um livro, por exemplo), tendemos a querer “competir” e postar fotos que causem “mais inveja”, mesmo que nem estejamos tão “felizes” na hora.

Por mais que pareça, uma fotografia não é cópia fiel da realidade. É apenas uma imagem, uma representação, obtida em um momento específico (uma foto do Olímpico Monumental, por exemplo, em breve nem mais representará algo realmente existente, visto que o estádio será demolido). E a imagem pode muito bem “maquiar” a realidade: já vi em várias páginas com fotos de Porto Alegre o Arroio Dilúvio aparecer “bonito”, sem os sacos de lixo e outros objetos (até mesmo geladeiras) que muitas pessoas jogam dentro dele. Assim como modelos sempre parecem “de cera”, sem imperfeições, graças à manipulação gráfica de suas fotos.

Assim, ao entrar no Facebook ou no Instagram e dar de cara com aquelas fotos “felizes”, lembre: o que você vê não é “felicidade”, trata-se apenas de uma imagem. Aquele “casal feliz” pode viver brigando por bobagens, a festa na qual foi tirada a foto cheia de pessoas sorridentes pode estar um porre, aquela comida pode estar fria ou sem gosto, e a pessoa que postou aquela foto na praia pode ter exagerado no sol sem passar protetor e em consequência estar com ardência no corpo inteiro.

Traduzindo: você, “perdedor” que se lamenta, pode tranquilamente estar num momento mais feliz do que os “vencedores”. E, melhor ainda, desfrutando dele sem a preocupação de precisar desesperadamente mostrar aos outros – ou seja, realmente aproveitando.

Por que trocar o Facebook pelo Twitter

Não, isso não quer dizer que a página do Cão no Facebook deixará de existir, nem que abandonarei totalmente a rede de Mark Zuckerberg. O que acontecerá, na verdade, é uma “inversão de prioridades”: até 2010, usava mais o Twitter que o Facebook (que também “dividia espaço” com o Orkut). A partir de 2011 é que o Facebook começou a ser “hegemônico”: comecei a reduzir o uso do Twitter e o Orkut “minguou” (inclusive acabei encerrando minha conta por lá, visto que a maioria dos amigos tinha feito o mesmo).

Três anos depois, penso que é hora de fazer o movimento inverso (exceto em relação ao Orkut). Voltar ao Twitter e reduzir o Facebook, usando-o mais por conta do bate-papo. Não por querer voltar no tempo, mas sim por conta de uma série de motivos, que explico abaixo.

  • Maior liberdade para ignorar. Quantas vezes você não postou algo no Facebook e um chato veio encher o saco? No Twitter isso também acontece, é claro, mas temos uma vantagem: podemos ignorar o “mala”. No Facebook, não: lá está o comentário, e nos sentimos na obrigação de responder, pois se não o fizermos fica parecendo que o chato “venceu”, quando o que mais gostaríamos é de não perder tempo discutindo com o “mala”.
  • Os “caga-regras”. Tem a ver com o item anterior, mas também é algo que se deve muito à característica do Facebook como uma rede mais “pessoal”, na qual postamos fotos de nossas viagens, de nossa infância… E, muitas vezes, usamos para desabafar. Porém, nem sempre os comentários que recebemos são aqueles que realmente esperamos, ou seja, manifestações de solidariedade e de incentivo. A maioria das pessoas acha que tem a solução para nossos problemas, e então começa a “cagar regras”, a dizer o que “é bom” para nós. Sem contar aqueles que, com base em seus gostos pessoais, acham que todos, sem exceção, devem gostar das mesmas coisas. No Twitter, é mais fácil ignorá-los, deixá-los falando sozinhos.
  • O Twitter não é uma rede de amigos. Pode parecer estranho, visto que no Twitter geralmente seguimos perfis com os quais nos identificamos. Mas nele, ao menos no meu caso, vale mais a informação relevante do que a mera amizade. Não sigo reaças, por exemplo. Já no Facebook, acontece algo semelhante ao que ocorria no Orkut: serve para nos manter conectados a pessoas que geralmente já conhecemos da vida real, com as quais já tínhamos relações de amizade. Obviamente isso tem um lado muito positivo (foi graças ao Facebook que voltei a encontrar a turma do 1º Grau, por exemplo), mas por outro lado, há velhos amigos que são reaças… E enchem o saco. Se os deletamos, podem se sentir ofendidos; por outro lado, sentimos a obrigação de responder aos comentários deles (voltando, assim, ao primeiro item, relativo à “liberdade para ignorar”).
  • O Twitter não tem convite para jogos e aplicativos. E de nada adianta bloquear, todos os dias criam novas porcarias dessas.
  • Não ficar sabendo de tudo da vida dos outros (nem os outros da nossa). O Facebook realmente é uma ameaça à nossa privacidade, mas o fato é que abrimos mão dela voluntariamente. Adoramos falar de nossas vidas, para que todos saibam o quão “felizes” somos – mesmo que seja apenas uma felicidade de fachada. Sabemos demais da vida dos outros e eles sabem demais da nossa: será que realmente precisamos disso?
  • Blogar mais. “Ué, mas a ideia não era trocar o Facebook pelo Twitter?”, me perguntará o leitor incrédulo. Pois é isso mesmo. Porém, mais de uma vez percebi que estava fazendo, no Facebook, algo que poderia muito bem ter feito aqui no Cão: escrever comentários mais longos, bem maiores que um tweet. Muitas vezes, os 140 caracteres do Twitter são pouco espaço para dizer o que realmente se pensa. O Facebook pareceria ser o espaço ideal para isso, porém, não é aberto a todos (muito embora pouca gente não tenha conta no Facebook hoje em dia). Em blogs, todo mundo pode ler e comentar. Sem contar que é possível o blogueiro estabelecer limites e evitar que alguém “baixe o nível” da discussão, enquanto no Facebook não existe moderação de comentários e então vira aquela “coisa”.